04/06/2012

A crueldade dos trotes em fóruns de crianças doentes


Muita gente busca atenção na internet, mas uma maneira particularmente cruel é a das que fingem ser crianças doentes em fóruns online. A pequena Charly Johns é um exemplo. Ela tinha apenas seis anos e lutava contra um câncer com determinação. Entrava e saía de hospitais enquanto a doença avançava e recuava.

Foi duro também para sua mãe Anna. Ela entrou no fórum online Macmillan, onde encontrou apoio e ajuda de pessoas que entendiam o que ela estava passando. Por dois anos, Anna manteve-os informados sobre o progresso de Charly.

"No geral ela está indo muito bem", escreveu ela. "Ela está feliz, alegre e risonha. É sempre a primeira a rir de qualquer coisa e a última a parar. Ninguém que olhe Charly agora teria ideia das coisas que ela tem sofrido nos últimos 14 meses", escreveu Anna.

Mas em novembro do ano passado, Charly perdeu sua luta pela vida. No fórum Macmillan aconteceram inúmeras manifestações de dor e compaixão. As pessoas escreviam poemas em memória de Charly. Muitos pintaram suas unhas cor de rosa, de acordo com seus últimos desejos, inclusive homens. Mas era tudo uma mentira. Charly não existia. Nem Anna.

A farsa foi descoberta quando a igreja em Paris, onde ocorreria o funeral revelou não ter registro de Charly. O trote foi feito por uma adolescente. As imagens de "Charly" eram da própria garota mais jovem. Muitos no fórum Macmillan se recusaram a acreditar. Eles haviam criado relações on-line próximas com Anna.

Doença

Fóruns como o Macmillian são, de tempos em tempos, vítimas de impostores. Um psiquiatra americano, Marc Feldman, descreveu o comportamento como "Munchausen por internet" (MPI), variante da síndrome de Munchausen bem conhecida, na qual pessoas inventam doenças para ganhar a atenção e simpatia.

Alguns dos impostores inventam histórias bem elaboradas, com blogs onde fotos e vídeos são publicados. Além de doenças, gestações e partos são temas usados por impostores. Não é exagero dizer que há uma epidemia de MPI que destrói a confiança, necessária para que existam tais fóruns.

Criar trotes daria ao autor atenção rápida, um sentimento de ser valorizado, embora sem realmente ter feito nada para merecer esse reconhecimento. Assim como fraudadores on-line de dinheiro fácil, essas pessoas anseiam por atenção fácil. E fraudadores emocionais não são mais fáceis de lidar do que os financeiros.


*Com informações de Jolyon Jenkins

foto:negocioseo.com

03/06/2012

Brasil e Venezuela criam grupo bilateral para acelerar integração


Brasil e Venezuela formarão em julho um grupo de planejamento integrado por representantes de diversos ministérios dos dois países para acelerar sua integração, anunciaram ontem os chanceleres das duas nações em entrevista coletiva no Rio de Janeiro. O mecanismo se chamará Grupo de Reflexão e Planejamento Estratégica da Relação Bilateral, explicou o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Antonio Patriota, após a reunião de trabalho que teve no Rio de Janeiro com seu colega venezuelano, Nicolás Maduro.
"Trata-se de um grupo que, com certeza, nos ajudará a ordenar ainda mais e a planejar o futuro das relações dos dois países", afirmou Maduro.
A primeira reunião do grupo bilateral está prevista para julho em Brasília, e sua intenção é que aborde acordos de cooperação em áreas como infraestrutura, comércio, agropecuária e moradia. Segundo Maduro, o grupo será presidido na Venezuela pelo ministro Rafael Ramírez (Energia), um dos mais importantes colaboradores do presidente Hugo Chávez, mas contará com representantes de diferentes ministérios.
Patriota afirmou que as recomendações do grupo servirão para aumentar o comércio bilateral, que no ano passado chegou ao recorde de US$ 5,86 bilhões, valor cinco vezes superior ao de 2003.
No encontro deste sábado, também foram discutidas formas de aumentar a cooperação bilateral e de agregar as empresas privadas no processo. Patriota anunciou que o governo Dilma Rousseff ajudará a organizar uma missão empresarial venezuelana para que visite o Brasil em busca de negócios. "Precisamos reforçar e acelerar o processo de instalação na Venezuela de cada vez mais empresas brasileiras", acrescentou Maduro.
Segundo o chanceler venezuelano, as empresas de capital brasileiro - tanto individualmente como em associações ou em empresas de capital misto com as venezuelanas - já têm participação em importantes setores como siderurgia, infraestrutura, habitação, agropecuária e alimentos.
Maduro disse que aproveitou o encontro para avançar nas negociações pelas quais a Venezuela pretende adquirir cerca de 20 aviões comerciais para voos regionais da Embraer. Segundo ele, essas aeronaves serão destinadas a rotas nacionais e regionais ante a necessidade de aumentar a integração com a América Central e o Caribe.
Em janeiro passado, Chávez anunciou a intenção de seu governo de adquirir aviões da Embraer para poder aumentar os voos nacionais e regionais da companhia aérea estatal venezuelana Conviasa. A compra das aeronaves está condicionada a um crédito de US$ 814 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Os dois chanceleres disseram que pretendem aproveitar a reunião de ministros dos países da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), no próximo dia 11 em Bogotá, para definir as datas para encontros de aproximação da América do Sul com os países africanos e com os árabes.

foto:venezuela-brasil.org.br

Crise e medidas de austeridade impactam a infância em Portugal

Situação deverá se tornar ainda mais dramática a partir de 2013, diz relatório da ONU.


Começar as aulas sem ter tomado o café da manhã já é parte da vida cotidiana de milhares de meninos e meninas portugueses, que incluíram a palavra crise em seu ainda modesto vocabulário.

Entre o que ouvem de seus pais e o que veem na televisão, os menores também falam sobre a situação no país, recordando tempos melhores, sem medo das palavras quando, apesar da pouca idade, criticam os dirigentes políticos.

Em centenas de escolas públicas, meninas e meninos pobres perambulam sistematicamente ao redor dos balcões dos restaurantes, mas sem comprar nada, enquanto as autoridades escolares não podem oferecer mais do que um modesto desjejum para os mais necessitados, porque também seus orçamentos sofreram drásticos cortes.

A crise econômica que Portugal e muitos de seus vizinhos europeus enfrentam "tem impacto na vida das crianças deste país, e muitas delas cruzaram a linha de situação de risco", disse à IPS a presidente da organização não governamental Cidadãos do Mundo, Ana Filgueiras. A ativista teme que os drásticos cortes de fundos para as organizações não governamentais, decididos pelo governo do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, "agravarão ainda mais a dramática situação, especialmente dos mais carentes".

"Não é o Estado, mas as nossas ONGs que desenvolveram planos mais eficazes de proteção à infância", afirmou Filgueiras, natural de Lisboa e condecorada como "lutadora antifascista" contra a ditadura salazarista (1926-1974), que passou vários anos no Brasil, onde se destacou por denunciar, nas décadas de 1970 e 1980, os esquadrões da morte que assassinavam crianças de rua.

Os filhos de imigrantes em situação irregular "são os mais vulneráveis, já que lhes é negado acesso ao serviço nacional de saúde, o que pode gerar uma situação de extrema gravidade", indicou Filgueiras. Para mitigar os problemas da infância vulnerável "é preciso pensar no exemplo do Brasil, onde se ajuda de forma direta as famílias, num universo de 35 milhões de meninos e meninas", acrescentou. Neste sentido, "Portugal está muito atrasado, a anos luz do Brasil, onde nos últimos anos se avançou muito no campo social, enquanto aqui existem instituições do Estado, mas que não significam um processo de inclusão.

As críticas de Filgueiras são corroboradas pelo informe apresentado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) referente aos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos), que reúne entre seus 34 membros todos os países ricos. Em seu informe anual, com dados de 2009, apresentado no dia 29, o Unicef indica que mais de 27% dos menores de 16 anos em Portugal vivem em situações de dificuldade econômica. Este país ocupa o quinto pior lugar entre os membros da OCDE, superado apenas por Letônia, Hungria, Bulgária e Romênia.

No documento desta agência da ONU, intitulado Medição da Pobreza Infantil, estima-se que, para reunir condições mínimas de vida, uma criança deve consumir três refeições diárias e ter um lugar tranquilo para fazer suas tarefas, conexão com a internet, pelo menos dois pares de sapato e capacidade para comemorar ocasiões especiais, como aniversários.

Não é o caso de 46,5% das meninas e meninos portugueses que vivem apenas com o pai ou com a mãe, em uma situação de dificuldades materiais. Na Espanha, a título de comparação, esta porcentagem não ultrapassa os 15,3%. Pior ainda estão aquelas crianças portuguesas cujos pais estão desempregados: neste caso o índice de privação chega a 73,6%.

O Unicef também indica que 14,7% de portugueses menores de 16 anos vivem abaixo da linha da pobreza, isto é, em famílias cuja renda anual por adulto é 50% menor do que a média da distribuição da renda, cerca de 520 dólares mensais. O documento cita Portugal e a República Tcheca como países a serem comparados, com renda anual por pessoa aproximada de 32,5 mil dólares. A diferença destacada pelo Unicef é abismal: a taxa de pobreza infantil é três vezes maior em Portugal do que entre os tchecos.


A isto acrescenta-se o fato de "as medidas de apoio social em Portugal não serem tão eficazes, ou pelo menos não estarem chegando às crianças", como indicou Magdalena Marçal Grilo, diretora-executiva do Unicef em Lisboa. Ela destacou o impacto da austeridade na infância. Os indicadores de 2009 são os últimos coletados em nível internacional, "por isso não se pode medir o que está ocorrendo agora em termos de pobreza infantil como consequência da crise social e econômica dos últimos três anos", admitiu a agência.

Nesse sentido, as fortes medidas de austeridade, que levaram, por exemplo, a reduzir a ajuda social às famílias com renda menor, fazem com que agora estas devam consumir suas economias ou vender os poucos bens que possuem para mitigar o impacto da crise. Uma vez esgotados estes recursos, "a pobreza infantil voltará a disparar", alertam os autores do informe, segundo o qual essa ruptura se dará em 2013, com a estabilização relativa da pobreza infantil nos últimos dois anos. Dito de forma mais categórica e direta, "o pior ainda está por vir", prevê o Unicef.

As medidas draconianas de austeridade impostas por Passos Coelho incluem um substancial aumento dos impostos, altas nos gêneros de primeira necessidade, eliminação de feriados e dias de férias, aumento da jornada de trabalho e redução drástica dos salários, exceto dos quadros de direção, que foram elevados.

Desde que, há um ano, o governo conservador assumiu em Portugal, 80% da população perdeu um quinto do poder de compra e o desemprego cresceu de 11% para 16% da população economicamente ativa. Diante da impossibilidade de muitos pagarem seus créditos, cerca de quatro mil famílias por mês veem suas casas confiscadas pelos bancos, algo difícil de entender para uma criança que até então contava com a certeza de um teto seguro.



foto:meuportugal.com.br

Banco americano paga US$ 21 milhões por discriminação


Durante anos, uma subsidiária do SunTrust, o 11º maior banco comercial dos Estados Unidos, fez empréstimos, com a cortesia de sempre, a clientes qualificados (com bom crédito) de minorias negras e latinas do país. Mas o SunTrust Mortgage Inc. foi processado por uma prática escabrosa: negros e latinos pagavam juros mais altos do que os brancos. "Isso é discriminação com um sorriso", qualificou o advogado-geral assistente do Departamento de Justiça dos EUA, Thomas Perez, em uma declaração por escrito, depois que o banco finalmente concordou, na última quinta-feira (31/5), em pagar US$ 21 milhões, em um acordo para encerrar a ação judicial, noticiaram o National Law Journal e oWashington Times
O banco cobrou uma espécie de "sobretaxa racial", segundo definição de Thomaz Peres. "Se você era um cliente afro-americano ou latino, você pagava mais por um empréstimo do que pagava um cliente branco com a mesma qualificação para obter crédito, por causa da cor de sua pele ou de sua nacionalidade de origem", ele afirmou. 
Os advogados do Departamento de Justiça declararam que o dinheiro vai ser usado para compensar as vítimas da discriminação em 34 estados e no Distrito de Colúmbia. Mais de 20 mil pessoas negras e latinas foram "sobretaxadas" pelo banco, segundo o Departamento de Justiça, o que indica que o acordo saiu barato para o banco. Em dois anos e meio de investigações das operações do banco, no período de 2005 a 2009, foram pesquisados cerca de 850 mil documentos e dados, a maior parte deles relacionados a financiamentos da casa própria, informam as publicações. 
Se a fraude não fosse descoberta, esses clientes, que já foram seriamente prejudicados pela queda significativa do valor dos imóveis residenciais no país, pagariam alguns milhares de dólares a mais pelos financiamentos de suas casas. Mas, o SunTrust prometeu corrigir sua falha e, segundo o advogado-geral, implementou nova política de empréstimos e financiamentos habitacionais, que assegura a ausência de discriminação de qualquer tipo nas atuais e futuras operações.

Reportagem de João Ozorio de Melo
foto:eticaparapaz.blogspot.com

No Japão, estudantes com formação no exterior não têm diferencial


Empresas japonesas não valorizam funcionário global. Estudantes estão deixando de procurar formação ocidental.


Ronan Sato, um estudante graduado em Estatística Aplicada na Universidade de Oxford, na Inglaterra, sempre quis trabalhar em seu país de origem, o Japão. Mas em uma feira de trabalho para estudantes japoneses, ele descobriu que muitas das grandes empresas de seu país não compartilham do mesmo entusiasmo.
Em reuniões com algumas empresas japonesas de comércio financeiro em um fórum realizado em Boston no mês de novembro de 2011, nenhuma delas se mostrou disposta a lhe oferecer um emprego sem que ele passasse por uma série de entrevistas em Tóquio. Assim, Sato, que recebeu três ofertas de contratação imediata de corporações não-japonesas, aceitou um cargo em Tóquio para trabalhar para um grande banco britânico.
"Eu realmente queria adquirir experiência em uma empresa japonesa, mas elas pareciam cautelosas", disse Sato. "Será que as empresas japonesas realmente querem talentos globais? Eu acho que não." 
Desencorajados por suas perspectivas de carreira caso optem por estudar no exterior, mesmo em universidades de elite, cada vez menos estudantes universitários japoneses estão buscando uma educação ocidental. Ao mesmo tempo, seus rivais regionais como a China, a Coreia do Sul e a Índia estão enviando um número crescente de seus estudantes para fora - muitos dos quais, após terem se graduado, são contratados por empresas de seu país de origem devido a suas respectivas habilidades, contatos e perspectivas globais. 
Além disso, muitos dos estudantes japoneses que estudam no exterior muitas vezes percebem que quando eles regressam ao mercado de seu país de origem, muitas vezes estão em desvantagem em relação a seus compatriotas que estudaram em universidades japonesas que já contataram até 100 empresas e receberam ajuda de extensas redes de alumni. E muitos até mesmo se sentem excluídos devido a rígida regra de muitas das empresas de contratarem novos empregados até uma certa faixa etária.
Em uma pesquisa com 1.000 empresas japonesas realizada em junho do ano passado pela empresa de recrutamento Disco, de Tóquio, menos de um quarto disse que planeja contratar candidatos japoneses que estudaram no exterior. Mesmo entre as maiores empresas, com mais de mil empregados, menos de 40% disseram que queriam contratar funcionários japoneses que tiveram educação no exterior. Essa atitude pode ajudar a explicar o porquê mesmo com o número de japoneses matriculados na faculdade estável em cerca de 3 milhões nos últimos anos, o número de estudantes japoneses no exterior caiu de um pico de quase 83.000 em 2004 para menos de 60.000 em 2009 – o ano mais recente para o qual há dados disponíveis concedidos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Ryutaro Sakamoto, que se formou pela Universidade de Toronto e retornou ao Japão com 30 anos de idade com um diploma em Administração, descobriu que era velho demais para se inscrever para vagas de emprego através de programas de recrutamento. Ele enviou currículos para empresas como a Panasonic e a Sony, mas nunca sequer recebeu algum tipo de comunicado. Eventualmente, a unidade japonesa da companhia americana de seguros Prudential ficou feliz em colocar suas habilidades bilíngues em prática.
"No Japão, se dedicar a estudar no exterior significa estar em desvantagem em relação à disputa pelo shukatsu", disse Sakamoto. "Shukatsu" refere-se ao sistema através do qual as empresas japonesas normalmente contratam a maior parte de seus trabalhadores saindo direto das faculdades e esperam que fiquem até se aposentarem. Não conseguir um emprego após a formatura da faculdade é visto como um possível fracasso para o futuro da carreira escolhida.
Algumas empresas japonesas fizeram questão de contratar os recém-formados destas universidades estrangeiras. A U-Shin, uma fabricante de peças de automóveis, chamou a atenção em fevereiro, quando colocou um anúncio proeminente no maior jornal de negócios do Japão oferecendo o dobro do salário padrão a candidatos com diplomas obtidos no exterior.
"Pretendemos expandir agressivamente no exterior e por isso precisamos de funcionários que ousaram o suficiente ao estudar no exterior", disse Koji Tanabe, presidente-executivo da U-Shin.
Mas a U-Shin parece ser uma rara exceção. Keiichi Hotta, um recrutador do Banco de Tokyo-Mitsubishi disse que a empresa raramente contrata japoneses formados no exterior ou até mesmo estrangeiros. Ele disse que o mercado japonês foi construído de uma maneira diferente do que no Ocidente. “Somos cautelosos porque enfatizamos a continuidade e o compromisso a longo prazo com a empresa", disse Hotta. "Especialmente na área financeira, nós não queremos que as pessoas estejam interessadas apenas em ganhos a curto prazo."
Não é a toa que alguns repatriados minimizam sua exposição aos costumes ocidentais. Norihiro Yonezawa, que estudou durante um ano na Universidade de Maryland, disse que não enfatizou sua experiência no exterior ou seus conhecimentos de inglês, quando foi entrevistado – e conseguiu o emprego - na Panasonic.
"Eu não queria parecer como se eu estivesse me gabando desta minha oportunidade. Então eu ressaltei o tempo todo como eu tive que trabalhar duro e superar este obstáculo", disse ele. "E tive que enfatizar o fato de que eu com certeza ainda estava apto para me adaptar ao mercado japonês.”

Reportagem de Hiroko Tabuchi para o jornal The New York Times
foto:fattosefottos.blogspot.com

Aborígines australianos comemoram 20 anos da 'Decisão de Mabo'



Os aborígines na Austrália comemoram neste domingo o 20º aniversário da 'Decisão Mabo', a histórica decisão judicial que lhes permitiu reivindicar mais de 16% do território do país até o momento. Apesar das comemorações serem realizadas em todas as partes da Austrália, os habitantes do estreito de Torres (norte), onde o ativista nasceu, são os que as fazem em grande estilo, com discursos, comida e música, o que já chamam o 'Dia de Mabo'.
O povoado de Townsville, no estado de Queensland (nordeste) e onde Mabo começou a batalha judicial, espera seguir os passos de Torres na comemoração do ano que vem.
'A Decisão de Mabo nos permitiu olhar para o futuro, além da falsa noção do 'terra nullis' (terra de ninguém)', disse a ministra de Assuntos Indígenas australiana, Jenny Macklin, segundo o meio local 'NineNews'.
O Tribunal Superior de Justiça reconheceu em 1992 o direito consuetudinário dos aborígines da tribo meriam sobre as ilhas do estreito de Torres e rejeitou a doutrina oficial de 'terra nullis', mediante a qual o capitão James Cook tomou posse do território australiano em nome da Coroa Britânica em 1770.
Aquela decisão judicial representou um avanço no processo de reconciliação nacional com a comunidade aborígine. O historiador Henry Reynolds assinalou por ocasião deste aniversário à rede de televisão ABC que 'houve uma grande injustiça histórica que foi reconhecida pelos tribunais e foi corrigida parcialmente, se é que não totalmente, graças a Eddie Mabo, James Rice e David Passi'.
Tudo começou quando Mabo ou 'Koiki', como gostava de ser chamado, trabalhava como jardineiro na Universidade de James Cook em Townsville nos anos 70. Naquela época, o acadêmico Noel Loos, Mabo e Reynolds tinham feito amizade e costumavam comer juntos. Em um almoço, o ativista aborígine comentou que fazia mais de dez anos que ele não via a propriedade familiar no estreito de Torres, ao que Reynolds lhe perguntou que como podia ter certeza que as terras continuavam sendo suas se não possuía um título.
'Todos sabem que é a terra de Mabo, tem sido por gerações', respondeu 'Koiki'.
'Foi então - lembra agora Reynolds - que percebeu que não tinha nenhum direito legal sobre a terra familiar dos Mabo na ilha de Murray e essa ideia lhe preocupou profundamente, mais que a questão dos aborígines australianos'.
Em uma conferência organizada por Loos em 1981, Mabo abordou o advogado Greg McIntyre e lhe pediu que defendesse sua causa e a de outros companheiros nos tribunais. Assim, em 1982, Mabo, Passi e Rice interpuseram seu pedido perante o Tribunal Superior de Justiça.
Mabo nunca chegou a desfrutar da vitória, porque morreu de câncer, aos 55 anos, alguns meses antes de o tribunal pronunciar a sentença histórica para a comunidade aborígine, que tinha alcançado o direito de voto em 1967 e que atualmente representa 2,3% da população de 21,7 milhões de habitantes.
Como consequência da decisão, o Governo australiano aprovou a Lei do Título Nativo em 1993 e, no ano seguinte, estabeleceu um fundo nacional da terra. No entanto, embora se reconheça a propriedade sobre a terra, isso não vale para os direitos de exploração dos recursos marítimos ou da riqueza mineral, quando esta última se transformou no motor da economia australiana.
Desde a chamada 'Decisão de Mabo', foram concedidos mais de uma centena de títulos de propriedade nativa sobre uma área de mais de um milhão de quilômetros quadrados, e ainda estão pendentes de resolução quase 500 reivindicações.
Os reclamantes de um título nativo devem provar que são donos da terra segundo a lei comum e que os descendentes do grupo ao qual pertencia a terra em 1788, ano em que começou a colonização, continuam vinculados a ela. A acadêmica indígena Gracelyn Smallwood opinou que lhe parece 'desagregável que um antropólogo branco diga ao povo quem são seus parentes e que, se estes não podem provar seus laços, não têm direito ao título nativo'.
Para a família de Mabo esta data tem um sentido muito especial, como relatou sua filha Gail ao jornal 'The Australian', porque seu pai antes de iniciar sua luta tinha prometido: 'Algum dia a Austrália conhecerá meu nome'. 

foto:mikamienvironmentalblog.blogspot.com

02/06/2012

História do 1º partido homossexual da Argentina vira documentário


A atividade militante e o crescimento dos "Putos Peronistas", o primeiro partido político homossexual da Argentina, chegou nesta quinta-feira aos cinemas do país com um documentário que busca quebrar preconceitos e apresentar um outro olhar dos grupos menosprezados.
O filme "Putos Peronistas, Cumbia del Sentimento" aborda os fatos políticos mais ressonantes da Argentina nos últimos quatro anos sob a perspectiva peculiar desse movimento, que nasceu em 2007 na cidade de La Matanza e se estendeu por outras regiões argentinas.
Em um país onde o peronismo governante se divide em várias facções, mas sabe manter seu papel na cena política, este movimento crescente aparece como uma consequência dos direitos que os homossexuais conseguiram nos últimos anos, entre eles a lei que autoriza o casamento entre pessoas do mesmo sexo, aprovada em 2010.
"O documentário é uma espécie de reality, já que não tem formato de entrevistas e acompanha as atividades do grupo em todas as atividades realizadas nos últimos quatro anos", explica à Agência Efe o diretor do longa-metragem, Rodolfo Cesatti.
O filme conta com a participação dos próprios integrantes da organização política próxima ao governo argentino nos debates pela lei de audiovisual, aprovada em outubro de 2010, nos atos a favor das normas que habilitaram o casamento entre homossexuais e na mudança de gênero na certidão de identidade, validada neste mês pelo Parlamento.
A participação do grupo nas passeatas do orgulho gay e no funeral do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) - falecido marido e antecessor da atual governante argentina, a peronista Cristina Kirchner - aparecem como pontos altos do filme.
Tendo as atividades como foco principal, o longa aborda ainda o "trabalho territorial" do movimento, que visita periodicamente os "trabalhadores sexuais" em diferentes bairros. "Nestas visitas, o grupo fornece preservativos e conversam sobre a prevenção de doenças como a Aids", destaca Cesatti.
"Muitas vezes, a única alternativa trabalhista para travestis e transexuais é a prostituição, na qual são marginalizados e agredidos. Por isso, nós reivindicamos politicamente um trabalho decente", ressalta a secretária-geral do partido em Buenos Aires, a travesti Diana Lavalle.
"Empregos dignos ajudariam a acabar com a discriminação, os problemas de acesso à educação e, inclusive, os de moradia que essas pessoas sofrem", opina a ativista.
O documentário também reflete casos de militantes do movimento que alcançaram um trabalho digno, como ocorreu com Iara, uma travesti que já foi prostituta e atualmente trabalha no Ministério da Justiça argentino.
O longa-metragem, de 92 minutos, "propõe um íntimo acompanhamento da vida dos integrantes do grupo, de sua forma particular de difusão e sua militância por trás de sua convicção em direção ao peronismo", detalha um comunicado sobre a obra, que trata da dupla marginalização sofrida pelos membros do partido, tanto por serem homossexuais quanto por serem pobres.
"Putos Peronistas, integrado por gays, travestis e transexuais, também busca uma reivindicação dos direitos de classes, levando em conta suas origens em La Matanza, um dos distritos mais pobres de Buenos Aires", ressalta Cesatti.
"A ideia é mostrar outra perspectiva da diversidade dos setores mais desprezados", indica a secretária-geral da organização, que se estendeu a várias regiões das províncias de Buenos Aires, Santa Fé, Córdoba, Santiago del Estero e Neuquén.
"Os protagonistas são gays, mas não é um filme somente para homossexuais. Trata-se de uma produção sobre militância, que espera mostrar os Putos Peronistas como seres politicamente pensantes e ativos, além da sexualidade", complementa Cesatti.

foto:urgente24.com

Cientistas israelenses desenvolvem maconha medicinal sem 'barato'


Cientistas da Universidade Hebraica de Jerusalém desenvolveram um tipo de maconha medicinal, neutralizando a substância THC, que gera os efeitos cognitivos e psicológicos conhecidos como "barato".

De acordo com a professora Ruth Gallily, especialista em imunologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, a segunda substância mais importante da cannabis - o canabidiol (CBD) - tem propriedades "altamente benéficas e significativas" para doentes que sofrem de diabetes, artrite reumatóide e doença de Crohn.
Gallily, que estuda os efeitos medicinais da cannabis há 15 anos, disse à BBC Brasil que o CBD que se encontra na planta "não gera qualquer fenômeno psicológico ou psiquiátrico e reprime reações inflamatórias, sendo muito útil para o tratamento de doenças autoimunes".
"Obtivemos resultados fantásticos nas experiências que fizemos in vitro e com ratos, no laboratório da Universidade Hebraica", afirmou a cientista, que é professora da Faculdade de Medicina.
De acordo com ela, após o tratamento com o CBD, o índice de mortalidade em consequência de diabetes nos animais foi reduzido em 60%, tanto em casos de diabetes tipo 1 como tipo 2.
"Para pacientes idosos que sofrem de artrite reumatoide, o uso da cannabis pode ter efeitos maravilhosos e melhorar muito a qualidade de vida", disse Gallily.
"Constatamos em nossas experiências que o CBD leva à diminuição significativa e muito rápida do inchaço em consequência da artrite."
A pesquisadora afirma que remédios à base de CBD seriam muito mais baratos que os medicamentos convencionais no tratamento dessas doenças. A empresa Tikkun Olam obteve a licença do Ministério da Saúde israelense para desenvolver a maconha medicinal e cultiva diversas variedades da planta em estufas na Galileia, no norte de Israel.

Pacientes

De acordo com Zachi Klein, diretor de pesquisa da Tikkun Olam, mais de 8.000 doentes em Israel já são tratados com cannabis, a qual recebem com receitas médicas autorizadas pelo Ministério da Saúde.De acordo com Klein, a empresa pretende desenvolver um tipo de maconha com proporções diferentes de THC e canabidiol, para poder ajudar a diversos tipos de pacientes.
"Há pacientes para os quais o THC é muito benéfico, pois ajuda a melhorar o estado de espírito e abrir o apetite", afirmou.
Ele diz ainda que, em casos de doentes de câncer, a cannabis em seu estado natural, com o THC, pode melhorar a qualidade de vida, já que a substância provoca a fome conhecida como "larica", incentivando os pacientes a se alimentarem.
O psiquiatra Yehuda Baruch acredita que "o CBD tem significados medicinais fortes que devem ser examinados". Baruch, que é o responsável pela utilização da maconha medicinal no Ministério da Saúde, disse à BBC Brasil que "sem o THC, a cannabis será bem menos atraente para os traficantes de drogas".
O psiquiatra afirmou que nos próximos meses o Ministério da Saúde dará inicio a um estudo sobre os efeitos do THC e do CBD em pacientes que sofrem dores crônicas.O experimento será feito com 50 pacientes, que serão divididos em dois grupos. Um grupo receberá cannabis com alto nível de THC e baixo nível de CBD e o segundo receberá mais canabidiol do que THC.
Depois de um mês os grupos serão trocados e, durante a experiência, os pacientes preencherão questionários avaliando as alterações na intensidade da dor.

Reportagem de Guila Flint
foto;institutodacannabis.wordpress.com