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29/06/2016

Lei Rouanet explicada: como funciona, quais as vantagens e quais as críticas

A Polícia Federal deflagrou ontem uma operação destinada a investigar fraudes contra a Lei Rouanet, colocando a lei nacional de fomento cultural mais uma vez no olho do furacão. A operação, batizada de Boca Livre, apura o desvio de milhões de reais que teriam sido utilizados com fins ilícitos, alheios à área da cultura, somando críticas a um mecanismo que não é bandido nem mocinho e que muitos desconhecem.
A Lei Rouanet foi criada em 1991, durante o Governo Fernando Collor, para que o Estado assumisse sua missão intrínseca de fomentar a Cultura brasileira – que vivia uma fase especialmente cinzenta de sua existência, com uma produção nacional de filmes, por exemplo, que tendia a zero. Hoje, 25 anos depois de sua criação, a avaliação de especialistas da área é que ela e outras que seguem o seu modelo, como a Lei do Audiovisual (à qual aplicam os longas-metragens), cumpriram a sua tarefa: só em 2015, quase 6.000 projetos foram aprovados nos moldes da Rouanet e financiados com dinheiro de isenção fiscal (quase 4 bilhões de reais no mesmo ano). O Brasil engatou numa crescente cultural, a oferta na área disparou e a lei que nasceu a partir de estudos sobre outras leis nacionais de incentivo, como a francesa, se tornou o principal financiador da Cultura do país.
A Lei Rouanet há anos é alvo de polêmicas, com o questionamento público a projetos financiados, mas a polarização política da crise levou ela de vez  para o centro da discussão. Esse peso ideológico se acentuou com a extinção (e posterior recriação) do Ministério de Cultura pelo atual presidente interino, Michel Temer. Para intensificar o debate, nas últimas semanas foi protocolado na Câmara dos Deputados o pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para  investigar possíveis irregularidades na concessão de incentivos fiscais. Concordando com a lei ou não, é preciso elucidar do que estamos falando:

O que é?

A Lei Federal de Incentivo à Cultura, de número 8.313, mais conhecida por Rouanet, foi criada em 1991 pelo diplomata e filósofo Sérgio Paulo Rouanet, que foi ministro da Cultura de Collor. Ela estabelece que pessoas jurídicas e físicas possam doar parte de seu imposto de renda para apoiar projetos culturais (4% no caso das jurídicas, 6% no das físicas). A lei não permite, além do incentivo fiscal, recursos diretos do Governo federal.

Como funciona?

A Rouanet é uma lei de mecenato. Alguém ou alguma empresa com uma ideia de um projeto cultural pode formatá-lo em certos moldes específicos, com as informações devidas, e protocolá-lo em um sistema para que ele seja analisado por especialistas do Ministério da Cultura. Uma vez admitido e aprovado, esse projeto ganha um selo da Lei Rouanet e assim poderá ser apresentado a empresas ou pessoas interessadas em apoiá-lo doando parte de seu imposto (4% para pessoas jurídicas e 6% para pessoas físicas). O dinheiro é do Estado, porque representa um imposto, mas quem decide seu destino é o pagador desse imposto – o mecenas.

Pontos críticos

A principal crítica à lei Rouanet é justamente essa: que ela dá o poder a uma empresa ou a uma pessoa que não necessariamente detém conhecimentos sobre arte e cultura (e também sobre a importância cultural ou artística de determinado projeto para a sociedade) de escolher o que apoiar.
O ex-ministro da Cultura Juca Ferreira (PT), por exemplo, costumava dizer que “os departamentos de marketing das empresas terminam decidindo” que projetos verão a luz, muitas vezes guiados por interesses próprios, não nacionais. “É uma parceria público-privada em que o dinheiro é público e a decisão é privada”, resumiu.
Nesse contexto, critica-se também que artistas famosos sejam frequentemente contemplados, em detrimento de outros menos conhecidos. O texto da lei não veta, no entanto, que isso aconteça. Se durante a análise a proposta for considerada de viabilidade comercial, o famoso pode ter seu projeto recusado. Mesmo assim, um projeto aprovado pela Rouanet pode dar lucro. A lei possui dois mecanismos nos quais isso é possível. Um terceiro mecanismo, o Fundo Nacional de Cultura, serviria para estimular aquelas atividades não rentáveis num contexto de mercado, e a possibilidade de atrair investimento privado na forma de patrocínio. Critica-se, também, a centralização de recursos no eixo Rio-São Paulo, que aparece com o maior número de projetos aprovados.

Polarização política

Em meio à crise política e a tentativa de fechamento do Minc por Temer, políticos e cidadãos comuns, críticos ao Governo de Lula e Dilma, intensificaram suas críticas à Lei Rouanet, afirmando que essa seria mais “uma maneira de gente de esquerda mamar nas tetas do Governo”. O Governo Temer não tem endossado a crítica geral ao mecanismo. O ministro interino da Cultura, Marcelo Calero, disse, durante a primeira coletiva como titular da pasta, que a a Lei Rouanet estava sendo “satanizada”.

CPI, polêmicas e Congresso

O pedido de abertura de CPI protocolado na Câmara pelos deputados Alberto Fraga (DEM-DF) e Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) questiona os critérios utilizados na aprovação de projetos e o apoio a eventos de grande porte, que teoricamente não precisariam de auxílio estatal. A primeira polêmica nesse sentido foi em 2006, quando a companhia canadense Cirque de Soleil conseguiu captar 9,4 milhões de reais para realizar no Brasil sua turnê Saltimbanco, que tinha ingressos de até 370 reais. Outro caso polêmico é uma biografia (posteriormente cancelada) da cantora Claudia Leitte, que teve aval para captar até 355.000 reais. Há parada no Senado proposta de modificação da legislação.

Operação Boca Livre

Deflagrada pela Polícia Federal, em parceria com a Controladoria Geral da União, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Brasília, investiga fraudes detectadas desde 2001 e que podem chegar até 180 milhões de reais. A investigação está em curso, na realidade, desde 2014, depois que a CGU repassou informações sobre irregularidades na concessão de incentivos. Foi constatado que até uma festa de casamento foi bancada com recursos da Lei Rouanet.
Reportagem de Camila Moraes
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/29/cultura/1467151863_473583.html
foto:https://jarcytania.com/2016/04/01/ma-utilizacao-da-lei-rouanet/

04/06/2016

Três polêmicas sobre a Lei Rouanet, alvo de pedido de CPI e da Lava Jato

Apontada como um mecanismo importante de financiamento cultural no Brasil, a Lei Rouanet é constantemente alvo de críticas e voltou ao debate nacional por causa da extinção - agora revertida - do Ministério da Cultura na gestão interina de Michel Temer.

LÍDERES EM CAPTAÇÕES VIA LEI ROUANET EM 2015


1- Aventura Entretenimento Ltda. R$ 21,7 milhões
2- Instituto Tomie Ohtake R$ 19,7 milhões
3- Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand R$ 17,7 milhões
4- Instituto Itaú Cultural R$ 14,7 milhões
5- T4F Entretenimento S.A. R$ 13,4 milhões
Fonte: SalicNet/MinC
Agora, é também alvo de pedido de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) e está na mira da Polícia Federal na operação Lava Jato.
O Ministério da Transparência confirmou nesta sexta-feira que recebeu e deu encaminhamento a um pedido de informações da Superintendência da PF no Paraná sobre os cem maiores recebedores dos recursos nos últimos 10 anos.
A Lei Rouanet foi criada em 1991, durante o governo Collor, e permite que produtores e instituições captem, junto a pessoas físicas e jurídicas, recursos para financiar projetos culturais. O valor destinado a esses projetos pode ser deduzido integralmente do Imposto de Renda a pagar.
Seus críticos afirmam que as verbas são muitas vezes alocadas mediante critérios políticos e acabam beneficiando iniciativas que seriam lucrativas mesmo sem qualquer incentivo.
Por outro lado, a lei é vista por artistas independentes como a única forma de viabilizar seus projetos. Quando assumiu a ainda Secretaria Nacional de Cultura, o agora ministro Marcelo Calero disse que o dispositivo não pode ser "satanizado".
"O que não pode acontecer é essa satanização de um instrumento que tem se revelado o principal financiador da cultura. Acho que as críticas são bem-vindas, há distorções a serem corrigidas, mas não podemos demonizar a Lei Rouanet", afirmou aos jornalistas na ocasião.
A BBC Brasil listou as três principais polêmicas envolvendo a lei - e algumas das iniciativas que receberam os maiores incentivos em 2015 nas áreas de música e artes cênicas, que concentram os projetos mais polêmicos.

1. Critérios

O pedido de abertura de CPI protocolado na Câmara pelos deputados Alberto Fraga (DEM-DF) e Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) questiona os critérios utilizados na aprovação de projetos e o apoio a eventos de grande porte, que teoricamente não precisariam de auxílio do governo.
A primeira polêmica nesse sentido ocorreu em 2006, quando a companhia canadense Cirque de Soleil conseguiu emplacar a captação de R$ 9,4 milhões para realizar no Brasil sua turnê Saltimbanco, que na época tinha ingressos de até R$ 370.
De lá para cá, outros casos - como uma biografia depois cancelada da cantora Claudia Leitte, que teve aval para obter recursos de até R$ 355 mil, e uma série de shows da mesma artista, que captou R$ 5,8 milhões em 2013 - também foram alvo de contestações.
Essas críticas e discussões sobre o apoio a projetos rentáveis culminaram na decisão do Tribunal de Contas da União (TCU), em fevereiro deste ano, de proibir o MinC de aprovar subsídios para iniciativas com "forte potencial lucrativo" pela Lei Rouanet. Ainda não há prazo para a medida entrar em vigor.
A proposta de abertura da CPI questiona ainda o repasse a artistas consagrados e o acesso aos benefícios.

2. Críticas às 'panelinhas'

No rápido intervalo em que o MinC esteve extinto - foram apenas cinco dias antes que Temer revisasse a ideia de transformá-lo em secretaria submetida ao Ministério da Educação -, inúmeros artistas se manifestaram contra a decisão.
Isso, por sua vez, despertou críticas de que o protesto de nomes como Chico Buarque, Leticia Sabatella e Luan Santana seria reação a um eventual fim da Lei Rouanet.
Na época, uma imagem começou a circular na internet com fotos de artistas que supostamente apoiariam a presidente Dilma Rousseff e teriam recebido patrocínio da lei de incentivo. O material acusava esses profissionais de trocarem esses recursos por apoio político.
A cantora Maria Bethânia, por exemplo, aparece na imagem como se tivesse recebido R$ 3,7 milhões da Lei Rouanet. Já Chico Buarque aparece com a cifra de R$ 13 milhões.
Um levantamento feito pela BBC Brasil mostra que, no ano passado, produtoras críticas ao PT também receberam volumes expressivos. Um exemplo é a Moeller e Botelho, que captou mais de R$ 4 milhões com espetáculos como Nine e Kiss me Kate.
Muitos dos artistas acusados de receberem patrocínio - caso de Chico Buarque - nunca pediram diretamente recursos da Rouanet ou de qualquer outra lei de renúncia fiscal.
Já Bethânia, que em 2011 desistiu de criar um site de poesias após receber uma enxurrada de críticas por causa da aprovação de R$ 1,3 milhão para o projeto, obteve no ano passado R$ 1,1 milhão para um disco comemorativo de seus 50 anos de carreira.

3. Centralização dos recursos

O levantamento da BBC Brasil foi feito com base nas informações do Salic (Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura), que torna públicos os projetos, seus proponentes e os valores envolvidos.
No cruzamento dos dados, a centralização dos incentivos na região Sudeste do país é facilmente identificada. O eixo Rio-SP aparece não somente com o maior número de projetos aprovados, mas também com os maiores valores.
Dos quase R$ 434 milhões dedicados às artes cênicas em 2015, R$ 182 milhões foram direcionados para iniciativas de São Paulo, enquanto o Rio recebeu cerca de R$ 100 milhões.
Para comparação, o Pará inteiro respondeu por apenas R$ 105 mil, o que equivale a 0,1% dos incentivos concedidos a propostas fluminenses.
Em lugares como Paraíba, Rondônia, Amazonas, Maranhão e Alagoas, o número de projetos aprovados não chega a dez, enquanto no Rio de Janeiro e em São Paulo esse número ultrapassa facilmente a marca dos 100 somente na área de artes cênicas.
O ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, afirmou à BBC Brasil que 80% dos projetos liberados para captação em 2015 são desses dois Estados.
As cinco empresas que mais captaram recursos no ano de 2015 são do eixo Rio-SP - os valores variam entre R$ 13 milhões e R$ 21 milhões.
Um dos argumentos para o pedido de abertura de CPI seria a concentração de benefícios a segmentos e beneficiários específicos, sugerindo que algumas áreas e alguns interessados são favorecidos nas aprovações.
No levantamento realizado pela BBC Brasil, essa concentração se confirma em parte.
Ao analisar os maiores autores de pedidos nos anos de 2015 e 2016, empresas como Instituto Itaú Cultural, T4F Entretenimento S.A. e Instituto Tomie Ohtake aparecem na lista nos dois anos seguidos, o que confirmaria que algumas grandes empresas recebem um volume expressivo de incentivos todos os anos.
Em São Paulo, por exemplo, a T4F (Time for Fun) recebeu quase 10% de todo o valor destinado ao Estado em 2015 para o segmento de artes cênicas: aproximadamente R$ 18 milhões foram aprovados para a empresa de entretenimento.
Esse valor foi direcionado a apenas cinco projetos: os musicais Wicked (R$ 9 milhões), Mudança de Hábito (R$ 3,2 milhões) e Antes Tarde do que Nunca (R$ 1,16 milhão) e os espetáculos Disney on Ice (R$ 4,9 milhões) e Fuerza Bruta (R$ 200 mil).
O festival de música Rock in Rio também captou R$ 2 milhões em 2015.
Apesar das críticas, iniciativas incentivadas não são proibidas de obter lucro. Os ingressos para Wicked, por exemplo, chegam a custar até R$ 280.
Ao mesmo tempo, em número, há uma variedade de beneficiados: foram 421 pessoas físicas e 2.711 jurídicas no ano passado. Ou seja, a legislação cumpre com a proposta de beneficiar pequenos projetos e artistas iniciantes, ainda que com valores menores.
Projetos educativos, manutenção de salas de cinema, preservação de acervos e restauração de patrimônios materiais e imateriais também recebem incentivos da Lei Rouanet. Assim como eventos culturais menos populares, como concertos de música erudita e espetáculos de ópera.

O futuro da lei

Não se sabe se o governo Temer, mesmo com a decisão de reativar o Ministério da Cultura, vai manter a Rouanet como está. Há uma proposta, já aprovado na Câmara e aguardando decisão do Senado, para modificar a lei e corrigir as consideradas as distorções: concentração de recursos e apelo aos projetos mais lucrativos.
O projeto nº 6.772/2010, chamado de ProCultura, traria um novo modelo de financiamento federal à cultura e mudanças substanciais no mecanismo de incentivo cultural por meio de renúncia fiscal, estabelecendo mecanismos de regionalização dos recursos.
Ainda não há data para a apreciação pelos senadores.

Reportagem de Néli Pereira
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36364789#orb-banner
foto:http://www.adelsonmeira.com.br/2014/11/18/charge-lava-jato/

29/02/2016

Incêndios nos museus: máfia e burocracia destroem a cultura em São Paulo

Incêndio no Museu da Língua Portuguesa em 2015


Em 2013, já tinha sido a vez do Memorial da América Latina, cujo principal auditório, o Simón Bolívar, ardeu em chamas por razões até hoje inconclusivas, levando consigo uma obra da artista plástica Tomie Ohtake. Em 2008, o Teatro Cultura Artística terminou destruído por um incêndio de causas que também permanecem desconhecidas, do qual se salvou apenas o maior afresco existente do pintor modernista Di Cavalcanti.

O que acontece na cidade mais cosmopolita do país? Pelo que afirmam os especialistas ouvidos pelo EL PAÍS, o que há por trás desses casos é uma alta dose de burocracia nos órgãos públicos, uma dose ainda maior de falta de rigor nos procedimentos de segurança e até mesmo a existência de uma máfia conformada por empresas que se especializam em maquiar espaços para a vistoria dos bombeiros.
O caso da Cinemateca é bastante recente e também particular, por envolver a preservação de filmes feitos de nitrato (material autocombustível em determinadas condições de calor, umidade e decomposição), mas o assunto entrou em voga desde que o Museu da Língua Portuguesa passou na TV em imagens chocantes – daquelas que interrompem a programação com a manchete dos telejornais. Foi um incêndio de enormes proporções, que poderia ter resultado em uma tragédia ainda maior do que a que foi registrada em uma segunda-feira, poucos dias antes do Natal, quando o museu estava fechado ao público e passava por rotinas de manutenção.
Pelo que foi especulado, uma faísca produzida na troca de uma lâmpada gerou o incêndio, que começou em redes de algodão e de material sintético de uma exposição temporária. Em poucos minutos, o fogo se alastrou pelos três andares do prédio e só pôde ser controlado por via área, quando o teto desabou. Uma funcionária não identificada relatou à Folha de S. Paulo que houve uma falha em um hidrante que o bombeiro Ronaldo Pereira da Cruz tentou utilizar para controlar o fogo. Ronaldo, de 39 anos, morreu após inalar fumaça. Hoje um projeto de lei propõe que o espaço seja rebatizado com seu nome.
“O risco faz parte da vida, por isso é obrigatório ter seguro”, afirma Renata Motta, coordenadora de museus da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo – sob a qual funcionam 18 museus paulistas, incluindo o Museu da Língua e o Memorial. “Precisamos investir mais na segurança do patrimônio cultural. Mas somos um país em desenvolvimento e com recursos públicos finitos. Vale a pena triplicar os custos e ter apenas parte das mostras temporárias programadas? Pode ser. Essas escolhas devem ser feitas de forma madura pelos gestores”, diz Motta.
De espaços que abrigam patrimônio cultural e são abertos ao público, a legislação brasileira exige um Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (o famosos AVCB) e um alvará de funcionamento emitido pela Prefeitura. Várias instruções técnicas (ITs) devem ser atendidas para que esses documentos sejam concedidos. Elas dão conta da chamada segurança ativa (ao exigir sistemas de detecção e de combate a incêndio, como alarmes, hidrantes, extintores e a presença de brigadistas) e da segurança passiva (uso de materiais de revestimento e acabamento que retardam a propagação das chamas, portas corta-fogo etc). Para que esses espaços possam abrir as portas, os bombeiros precisam aprovar um projeto prévio e, depois de terminada (ou adaptada) a construção, fazer uma vistoria que confirme que as normas foram seguidas. Com isso, a prefeitura emite o alvará. Das instituições citadas nesta matéria, todas passavam por esse processo e tinham seus pedidos protocolados, mas nenhuma chegou a concluí-lo em 100%.
Um dos grandes problemas é que toda essa documentação exigida – com validade de um ano quando envolve público – demora meses, às vezes anos, para sair. A burocracia vira um inimigo a ser combatido pelo próprio Estado, ainda mais quando o edifício é tombado – caso do Teatro Cultura Artística, do Memorial da América Latina e do Museu da Língua Portuguesa. João Batista de Andrade, presidente do Memorial, lamenta as idas e vindas da papelada. “É absurdo”, opina. O cineasta, à frente da instituição desde 2012, ressalta que ela tem 26 anos de vida, e seu projeto – de autoria de Oscar Niemeyer – respeita normas de outra época, menos rígidas.
Carlos Cotta é ex-bombeiro e consultor nas áreas de Engenharia Civil e de Segurança do Trabalho. Entrou no Corpo de Bombeiros em 1989 e lá passou metade da vida profissional, trabalhando com vistoria técnica, elaboração de normas e cursos para profissionais. São suas muitas instruções técnicas vigentes até hoje. Para Cotta, o cenário é desalentador. “As normas nacionais de combate a incêndio são dos anos 70, 80. As mais avançadas do país são as de São Paulo, que são copiadas nos demais estados, às vezes na íntegra”, revela. Além disso, “tem empresa do ramo que se especializou em enganar a vistoria dos bombeiros, só para conseguir o AVCB, gente que se proclama especialista em segurança sem ter as horas necessárias de treinamento e que sabe maquiar item por item para que o alvará seja concedido”. “É uma máfia”, conclui.
Em São Paulo, é raro que um centro cultural não exiba seu AVCB na porta. Nos visitados pela reportagem, como o Museu Afro Brasil e o Centro Cultural Banco do Brasil, os documentos estão disponíveis e são facilmente identificáveis itens exigidos pelo Corpo de Bombeiros, como extintores, saídas de emergência e até brigadistas. Mas o risco de incêndio mitigado com essas medidas é novamente levantado pela falta de proteção passiva, sobretudo nas mostras temporárias. O Museu Afro, o maior de seu gênero no país, tem um acervo repleto de obras frágeis nesse sentido e uma mostra inteira –Arte, adorno, design e tecnologia no tempo da escravidão – em que muita madeira foi utilizada ao redor dos utensílios expostos. O diretor Emanuel Araújo afirma ter “as principais exigências atendidas”, mesmo sem o alvará definitivo, e garante tomar precauções “no limite do possível”.
“A madeira é um material frequente nesses espaços. Por ser altamente combustível, ela precisaria ser protegida com um retardante de chamas, que aumenta o prazo que os bombeiros têm para chegar ao local e combater o fogo”, explica Rogério Lin, diretor da CKC, empresa brasileira que tem 18 anos na área de proteção passiva. “Mas esse material não é exigido por lei no caso das exposições temporárias”. Segundo ele, o custo adicional à montagem dessas mostras não deveria ser um fator crucial de impedimento: “Hoje esses produtos são produzidos nacionalmente e um m² custa 7 reais, o que representa um custo de 700 reais por 100 m² de exposição”.
A indústria nacional de segurança contra incêndios – para a qual a tragédia da boate Kiss, em Santa Maria (RS), foi um divisor de águas – está preparada, opina Rogério Lin, para atender a atual realidade desses espaços públicos. Mas nem tudo o que reluz na área é ouro. Vladson Athayde, especialista em certificação de produtos contra incêndio da UL Brasil, chama a atenção para sprinklers(chuveiros automático) não certificados, que são ruins ou até pirateados. Na América Latina, segundo ele, o Brasil é um dos países que carecem de leis mais rígidas e de controles de qualidade em produtos de detecção e supressão de fogo. “Argentina e Chile têm recomendações mais severas”, afirma.
Oito anos se passaram desde o episódio do Teatro de Cultura Artística, e ainda assim a investigação sobre as causas do incêndio não é conclusiva. Uma fonte do EL PAÍS era frequentadora assídua o espaço e afirma que era comum escutar falar das gambiarras elétricas que provavelmente causaram o incêndio. Muitos pensam que a pesada carga elétrica seja uma causa recorrente de incêndio no caso dos centros culturais, com seus vários equipamentos eletro-eletrônicos. A suspeita recai também sobre os incêndios do Memorial e do Museu da Língua Portuguesa, mas não se sabe ao certo. “Faltam estatísticas e relatórios de qualidade que nos permitam avaliar casos anteriores com segurança”, alerta Carlos Cotta. De concreto, para ele, o que há é apenas um grito permanente de socorro.

Reportagem de Camila Moraes
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/26/politica/1456513671_515845.html
foto:http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/664380/incendio-atinge-museu-da-lingua-portuguesa

24/10/2015

A Bienal do Mercosul 2015 em Porto Alegre: falsas esperanças

A mostra na capital gaúcha deveria ser o evento artístico do ano na América Latina, mas três curadores se demitiram, e artistas protestam na internet. Qual é a história por trás dessa crise?.


Com pompa e circunstância, foi anunciada em 30 de julho a lista dos artistas participantes da 10ª Bienal do Mercosul, que aconteceria em setembro de 2015. A promissora mostra, com o tema Mensagens de Uma Nova América, parecia feita sob medida para o gigantismo do Brasil: mais de 400 artistas e 700 obras de toda a América Latina, modernas e contemporâneas, do México ao Chile, passando pela esquecida América Central e a incerta Venezuela. O evento se propunha a traçar um mapa artístico que, à maneira de um conto de Borges, prometia ser (quase) tão grande como o território.
De fato, para ter uma ideia da magnitude da proposta, vale a pena comparar esse evento com a 31ª Bienal de São Paulo (2014), que incluiu 100 artistas e 250 trabalhos ou com a 56ª Bienal de Veneza (2015), atualmente aberta ao público, que inclui cerca de 80 nomes. A nova edição da Bienal do Mercosul multiplicava por três o número de obras de qualquer outra significativa e prometia gerar uma espécie de marco artístico que repensasse criticamente a cena visual latino-americana e a mobilizasse às margens do rio Guaíba. As diversas curadorias procuravam “reescrever a história da arte na América Latina”, e para isso analisariam todos os processos possíveis: a urbanização do continente, as modernidades silenciadas pela historiografia e um longo etc.
Infelizmente, a 10ª Bienal do Mercosul foi o canto do cisne antes de uma crise política longamente anunciada. Desde antes da divulgação da lista de artistas participantes, os cortes orçamentários feitos pelo Governo brasileiro já eram o pão de cada dia, e estava evidente o processo trepidante de revalorização do dólar norte-americano frente ao real brasileiro. Entretanto, como de costume, o mundinho da arte continuava em festa, como na época das vacas gordas. A estrutura organizacional da Bienal estava composta por seis integrantes: um curador-chefe, um curador-adjunto e quatro curadores-assistentes, que dividiram entre si a seleção das obras por países, embora as decisões fossem tomadas unicamente pelos dois primeiros.
Um dos curadores-assistentes, o argentino Fernando Davis, que renunciou recentemente ao seu cargo, afirma: "Antes de julho, quando foi anunciada a lista de artistas, a crise era evidente e sabíamos que a Bienal teria um corte orçamentário expressivo, o que implicaria algum tipo de ajuste. Mas o problema era que o curador-chefe, Gaudêncio Fidelis, não queria mudar a metodologia: o critério era não cortar obras nem artistas. Antes da entrevista coletiva, nós, os curadores-assistentes, solicitamos que não fossem divulgados os nomes dos artistas selecionados até que estivesse definido o financiamento de transportes e seguros das obras. Mas tanto o curador-chefe como o curador-adjunto, Márcio Tavares, disseram que deveria-se anunciar os artistas porque, caso contrário, a direção da Bienal cancelaria o evento por causa da crise”.
Apesar do otimismo, em 21 de setembro, a Bienal anunciou que só seriam incluídos trabalhos de países que contassem com patrocínios privados ou financiamento dos Governos de origem, um fato que restringia as possibilidades curatoriais de gerar coerentemente mensagens de uma nova América, o propósito principal. Naquele momento, só havia patrocínios para México, Paraguai, Peru, Equador e Bolívia. Depois, alguns deles começaram a cair, como no caso peruano. Outros países foram sumariamente cortados (Colômbia, Venezuela, etc.), apesar de algumas obras terem conseguido transporte na última hora.
A situação começou a se tornar preocupante à medida que a data da abertura se aproximava: os artistas escreveram para a organização preocupados, porque nunca haviam sido alertados sobre o cancelamento repentino de suas participações. Nem mesmo os curadores estrangeiros que participariam do evento haviam sido informados da decisão. Alguns tinham comprado passagens aéreas, feito reservas em hotéis, emprestado dinheiro dos departamentos de cultura de seus países e até mesmo aperfeiçoado e embalado suas obras para enviá-las à Bienal dos 400 artistas. A abertura acabou sendo adiada por duas vezes: de setembro para 8 de outubro e, em seguida, para o dia 23.
Davis apresentou sua renúncia em 6 de outubro, e dois outros curadores, Raphael Fonseca (Brasil) e Ramón Castillo (Chile), seguiram o exemplo.
A Bienal decidiu privilegiar as obras que já estavam no Brasil (sejam elas de artistas locais ou estrangeiros, como o argentino Lucio Fontana). Isso elimina grande parte das taxas alfandegárias. Também foi dada prioridade às instalações produzidas diretamente por artistas de Porto Alegre, e foi privilegiada a projeção de vídeos, formato que permite ser enviado por e-mail. Embora algumas obras baseadas em objetos já tivessem sido enviadas (procedentes de países que obtiveram patrocínios), o mal-estar generalizado dos artistas por causa do silêncio da direção foi se espalhando como fogo em pólvora, aquecendo desde as estepes patagônicas até as montanhas andinas. Recentemente, os artistas rejeitados se uniram para criar grupos no Facebook, abaixo-assinados on-line, cartas coletivas, artigos em meios de comunicação alternativos e até mesmo memes. Em resposta, a direção do evento afirmou que procurou privilegiar a “qualidade artística” e culpou “a crise”.
Alguns artistas receberam cartas oficiais dizendo que haviam sido recusados, enquanto outros foram convidados a levar suas obras na mala, uma opção complicada para, por exemplo, o colombiano Leonardo Ramos, que trabalha com crânios humanos e material vegetal, insumos proibidos pelas autoridades aduaneiras.
A Bienal não viu na crise uma oportunidade para unir um continente dividido. Não tentou gerar novas formas de trabalho colaborativo em meio às dificuldades regionais; pelo contrário, deu as costas aos curadores convidados e aos artistas anunciados publicamente, alguns com menos de 40 anos e com obras promissoras. Perante a crise, em vez de um diálogo aberto com base na redefinição do projeto da Bienal, buscou-se preservar intacta uma institucionalidade rígida. A redefinição crítica latino-americanista deu lugar à endogamia nacionalista, útil para os interesses do mercado de arte brasileiro. Alguns artistas inconformados prometeram viajar a Porto Alegre para boicotar a Bienal, e outros pretendem realizar eventos alternativos. Vamos ver o que acontece.

Reportagem de Halim Badawi
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/22/cultura/1445524494_133499.html
foto:http://www.sul21.com.br/jornal/mediadores-da-bienal-mercosul-paralisam-atividades-contra-organizacao-evento/

22/10/2015

Celulares, máquinas da solidão?

Num experimento antropológico, fotógrafo “retira” smartphones de seus usuários e revela como a mesma tecnologia que conecta seres humanos pode torná-los isolados e egocentrados.


O fotógrafo norte-americano Eric Pickersgill removeu os smartphones e outros dispositivos digitais de alguns retratos cotidianos para criar a série “Removed”.
O objetivo do trabalho é mostrar como a tecnologia e a hiper conectividade estão deixando as pessoas isoladas e solitárias.
A inspiração para criar o projeto veio de uma cena observada num café em Nova York em que uma família sentada perto dele mostrava-se humanamente ‘desconectada’ mas digitalmente conectada.
Segundo ele, não havia muita conversa, o pai e as duas filhas estavam com seus smartphones na mão enquanto a mãe não tinha ou optou por não utilizar o seu e olhava tristemente pela janela, solitária na companhia de sua própria família, enquanto o pai soltava comentários esporádicos e sem sentido sobre alguma coisa que surgi em sua tela.
Veja algumas das imagens:











fonte:http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/celulares-maquinas-da-solidao/




19/10/2015

King Size Blues Band: para gostos refinados

"Sem a música, a vida seria um erro." (Nietzsche)


Há dois anos, em 18 de outubro de 2013, Daniel Raffo festejou 25 anos do seu projeto KING SIZE, o qual ele criou juntamente com Alejandro Varela (que antes era músico de Don Cornelio y la Zona). Mais do que um projeto é a concretização do seu sonho de ser a primeira banda de blues tradicional da Argentina. 

Durante os seu dois primeiros anos, a banda, que então era um quarteto, fazia tributos aos guitarristas do blues britânico, como  Peter Green e Eric Clapton, fazendo apresentações com o repertório destes dois grandes nomes. Neste período também gravaram os primeiros demos, na escola/estúdio de David Lebón, y grabando primeros demos, en la escuela/estudio de David Lebón por Miguel “Vilanova” Botafogo. 
E foi Miguel “Vilanova” Botafogo, em 1988, o primeiro músico argentino que convidou Daniel Raffo a atuar como guitarrista, junto com Gabriel Jolivet (Dulces 16) na gravação de uma das canções do disco “Banda de Garage“ de Durazno de Gal. 

Em 1990 a banda passa por transformações, com a saída e entrada de outros músicos. Entram Oscar “Pipo” Pérez na bateria, o grande Tom Willams como cantor frontman e Fabián Yajid no baixo (grandes amigos de Raffo hoje em dia), além de Patricio Vega e Andrés Herrera. Época dos bronzes e o amor por Texax (o original e não o que que se conhece na atualidade), tributos a artistas como Johnny Guitar Watson, T-Bone Walker e um amor incondicional por Clarence Gatemouth Brown (de quem tocavam muitas canções), Guitar Slim, sem esquecer do rei BB King, a quem foram os primeiros a render um tributo em 1992 como uma grande banda de 12 músicos. 




Segundos os críticos naquele fase "la banda ya tiene un formato, sonido y repertorio refinado elegido que la distingue de cualquier otra antes y hasta ese momento, coqueteando muy pocas veces con la música Soul a la que Daniel Raffo ama." 

Apelidada de Banda de “covers” por muitos colegas, por não traduzir as músicas para o espanhol e cantá-las no idioma original, Daniel Raffo mesmo assim seguiu fiel a a seu projeto e a seu gosto, mantendo vivo o espírito do blues na Era do Pop, o que não é nada fácil. Mas ele não se amedrontou , "sino aún más, acrecentó esa fidelidad donde prefirió sostener su vida con otros trabajos para focalizarse aún más en el Blues del cual hoy y desde hace años lo sustenta." 




Dos anos 90 até hoje muitos músicos passaram pela King Size, todos eles com um denominador comum, o amor pelo Blues, com estilos para todos os amantes deste gênero e orgulhosos de fazer parte (ou terem feito parte) do que Daniel Raffo chama de "La Familia King Size". 






fonte:http://www.taringa.net/comunidades/blues/7978515/25-anos-de-King-Size-Blues-el-proyecto-de-Daniel-Raffo.html

14/10/2015

Projeto de Cultura e Arte: educa, capacita e preserva tradições - Remos Caiçaras Sustentáveis de Paraty


Ana Cláudia com alunos da Escola Municipal do Pantanal. "O mar entrou em Festa com a Arte ..."

"Amigo é coisa para se guardar. Debaixo de sete chaves. Dentro do coração". Frases eternizadas da música "Canção da América" (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1980). Eu adiciono que "família também é coisa para se guardar, bem guardado, dentro do coração". Família que acolhe, que perdoa, que consola na dor e compartilha na alegria.
Família, neste caso há mais de três gerações, que só tem me dado muito orgulho de fazer parte pela sua preocupação com a cultura e com a educação.
Minha querida prima Ana Cláudia Vieira, produtora artística, cenógrafa e arte-educadora, lidera um projeto - que tem apoio de toda nossa família de Paraty e mesmo daqueles que, como eu, distantes geograficamente, se fazem presentes no incentivo e admiração- que como ela mesma define faz parte da sua "mania de ter fé na vida".
Estou falando do projeto de Arte Educação Remos Caiçaras Sustentáveis de Paraty. Uma iniciativa que visa ensinar arte, consciência ambiental - as peças são feitas com material reciclável - e preservação da cultura local. 
Apenas a educação tem a força de mudar o mundo, formando cidadãos plenos e solidários. 
Parabéns, Ana Cláudia e todos de Paraty que, percebendo a importância deste projeto estão contribuindo de alguma forma. O sorriso de satisfação destas crianças não tem preço, assim como não tem preço e vale qualquer sacrifício a batalha diária pela manutenção da nossa cultura e tradições que nos fazem ser o que somos.  


Esculturas em papel machê de peixes de Paraty, remos e conchas

Escultura Reciclada de Papel Machê na OFICINA DE ARTE EDUCAÇÃO. Os artistas mirins fizeram arte e suas obras fizeram parte de uma exposição

Alegria total das crianças na Oficina de Arte

05/10/2015

80 anos de Mercedes Sosa: Ícone da música latina


Uma das mais importantes vozes da América Latina de todos os tempos, a cantora argentina Mercedes Sosa completaria 80 anos, em 2015, caso estivesse viva. Ela faleceu no dia 4 de outubro de 2009, depois de ter sido internada por problemas nos rins e uma complicação cardiorrespiratória. Ela padecia de mal de Chagas, uma doença ligada à pobreza rural dos primeiros anos de sua vida.
Inspirada no folclore argentino, sua música foi além do estilo enquadrado pela indústria fonográfica. Mercedes Sosa fazia canções para todos os gostos e gêneros musicais. Inspirou várias gerações de músicos ao redor do mundo.
O cantor Rene Perez, vocalista da banda Residente Calle 13, de Porto Rico, afirma que a música “Latinoamerica”, o maior sucesso da banda, foi inspirada em Mercedes Sosa. Calle 13, hoje, é o grupo mais exitoso da música latina, reconhecido mundialmente.
Brasil
No Brasil, a cantora argentina fez parceria com grandes nomes da MPB, como Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gal Costa. Considerada um dos grandes momentos da música latina, a gravação do disco Corazón Americano (1985), de Mercedes Sosa, teve a participação de Milton Nascimento, que cantou Coração de Estudante, em português e em espanhol. Em 1976, em pleno regime militar, já havia gravado com Milton Nascimento uma versão de uma das músicas consagradas em sua voz: “Voltar aos dezessete”.
A parceria entre os dois deu início a uma grande amizade. Em recente entrevista à revista Caros Amigos, Milton Nascimento conta como recebeu a notícia da morte da cantora. “Essa foi uma coisa que muito me entristeceu. As coisas que a gente fez davam para escrever um livro. Conheci muita gente, muitos compositores, através de Mercedes Sosa. Foi com ela que o Brasil, pela primeira vez, abriu as portas para a música da América Latina”, destaca Milton Nascimento.Entre seus maiores sucessos está a “Canción con todos”, praticamente um hino à integração cultural latino-americana.
Reconhecimento
Em 50 anos de carreira, Mercedes Sosa gravou mais de 100 discos, entre os trabalhos solos e coletivos. Entre as inúmeras honrarias destacam-se quatro Prêmios Grammy Latinos, considerado o mais importante reconhecimento do mundo da música.
Fundadora do Movimento do Novo Cancioneiro, esse ícone da música argentina ajudou a popularizar um estilo que ficou conhecido como a “nova canção latino-americana”, que influenciou diferentes gêneros como o rock, o pop e o tango.
Militância
Mercedes Sosa sempre apoiou as causas da política de esquerda ao longo da sua vida. Foi militante do Partido Comunista, nos anos 70, e grande simpatizante do líder argentino Juan Domingo Perón. Depois do golpe militar, em 1976, seus discos foram proibidos e ela foi incluída na lista de pessoas marcadas para morrer. Apesar da perseguição, Mercedes Sosa permaneceu na Argentina o quanto pôde.
Foi para o exílio em 1979, primeiro em Paris e depois em Madri. Voltou a Buenos Aires três anos depois, em grande estilo. Realizou vários shows no Teatro Ópera de Buenos Aires, que se tornaram um verdadeiro ato cultural contra a ditadura, mas também mexeu com as estruturas da música popular argentina. Mercedes provocou a renovação dos estilos musicais da Argentina, principalmente no folclore, no tango e no rock nacional.

Reportagem de Fania Rodrigues
fonte:http://www.brasildefato.com.br/node/33119