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30/06/2017

Com tantas notícias sobre corrupção, por que os grandes protestos sumiram das ruas?

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Os protestos contra a corrupção do PT e a favor do impeachment de Dilma Rousseff bateram sucessivos recordes de público entre 2015 e 2016 e marcaram a agenda de um Brasil mergulhado em uma crise política e econômica. Era o Brasil reencontrando os protestos de ruas depois do marco das jornadas de 2013, que também cobraram da classe política mais atenção aos temas caros à sociedade. A crise política dos últimos anos, porém, evoluiu para drama e atingiu patamares de surrealismo em 2017, atingindo seu ponto alto nesta segunda-feira com a denúncia da Procuradoria Geral da República contra o presidente Michel Temer por corrupção passiva. Entre a saída de Dilma e a acusação de Rodrigo Janot contra Temer estão as delações dos executivos da Odebrecht e da JBSescancarando a corrupção de toda a elite política do país. Ainda assim, ao contrário dos últimos anos, não se viu uma explosão de indignação nas ruas, uma catarse como foi há dois anos.
Assim, depois de quatro anos demonstrando sua indignação em atos massivos, o Brasil parece viver uma ressaca. O que se escuta em jantares de família, em bares, em supermercados, em comércios ou cabeleireiros é quase sempre o mesmo: “adianta alguma coisa”? O gigante, que parecia acordado, voltou a adormecer.
Esther Solano, professora da Unifesp que vem pesquisando as últimas ondas de manifestações, avalia que existe uma frustração que atinge os dois lados da polarização política – isto é, tanto os que gritaram pelo impeachment como os que reagiram com o "não vai ter golpe". Já Angela Alonso, presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e professora da USP, argumenta que atos massivos "raramente acontecem na vida de uma sociedade" e que é natural, depois de "grandes ciclos" de protestos, uma ressaca subsequente. "Muitos do que ficaram nas ruas são os ativistas profissionais", explica.  Houve, argumenta ela, uma leitura equivocada de que os atos convocados por setores que ela identifica como "patriotas" fossem apenas contra a corrupção. "Muita gente foi às ruas contra o PT, e o PT já não é mais governo. Esse grande contingente que foi mobilizado já não tem a mesma motivação para se manifestar". Com isso, o Governo Temer vai se parecendo cada vez mais ao de José Sarney: com uma rejeição recorde, mas com a perspectiva de eleições diretas em pouco mais de um ano, ele vai ficando e sendo tolerado. Existe o temor de uma piora em um quadro que já é péssimo, com efeitos diretos na economia, ou seja, no bolso das pessoas.
Esse esfriamento das ruas ficou claro sobretudo com os acontecimentos do últimos meses. Em meados de maio, quando foi noticiada a existência de conversas entre Temer e Joesley Batista, grupos de direita como o Vem Pra Ruae o MBL chegaram a agendar um ato em São Paulo para o fim de semana, mas logo desmarcaram por causa, segundo argumentam, da Virada Cultural que acontecia na ocasião. Tratou-se, de todas as formas, de uma reação diferente de quando o ex-presidente Lula foi escolhido ministro e os áudios de sua conversa com Dilma Rousseff foram divulgados. A avenida Paulista foi imediatamente ocupada por manifestantes de verde de amarelo naquela ocasião. Já nos dias do julgamento da chapa Dilma-Temer pelo TSE, que ocorreu na primeira semana de junho deste ano, foram inexpressivas as manifestações de grupos de direita ou de esquerda (que viu alguns de seus setores se calarem uma vez que a cassação de Temer envolvia a criminalização da campanha petista de 2014). A pressão nas ruas também foi nula durante a avaliação, por parte do plenário do STF, sobre a permanência do ministro Edson Fachin na relatoria do caso JBS, o que colocava em jogo o ritmo da Lava Jato.
Rogério Chequer, principal liderança do Vem Pra Rua, que organizou protestos contra o Governo Dilma, acredita que a sensação de que as ruas se calaram se dá porque as manifestações entre 2015 e 2016 "foram as maiores da história do Brasil". Agora, ele explica, "existe uma decepção pelo fato de que uma melhoria econômica indiscutível não foi seguida de uma melhoria ética, o que desanima". Ele aposta, entretanto, que as pessoas e grupos chegarão mais unidos em 2018 devido ao desejo comum pela renovação política. Seu movimento tem apostado por ações em meios digitais e nas redes sociais, pressionando individualmente cada parlamentar e grupos de interesses. "É uma estratégia feita com mais agilidade e é mais efetiva", explica, citando o "mapa do fim do foro privilegiado" que, para ele, agilizou a aprovação da medida no plenário do Senado.
Ele assegura ainda que defende a saída do presidente Temer e uma transição rápida para não interferir na economia. "Estávamos esperando justamente o julgamento do TSE, que era uma chance de fazer uma transição de forma institucional e rápida. Agora estamos começando a nos organizar para fazer algo mais incisivo nas ruas. Por causa das férias de julho, tudo indica que vai ser em agosto, mas ainda não está marcado", garante. Citando o artigo 16 da Constituição, que prevê que qualquer alteração do processo eleitoral só poderá entrar em vigor após um ano, ele rejeita a ideia de eleições diretas ainda neste ano. "Zelamos pela Constituição, principalmente nessa fase de transição. Eu não gosto das eleições indiretas, mas uma mudança agora abre um precedente perigosíssimo".
Líder do Nas Ruas, Carla Zambelli admite que poucas pessoas estiveram nos quatro atos convocados em maio pelo grupo – dois em frente ao STF, um na PGR e outro em frente à casa de José Dirceu. O coletivo organiza agora um protesto contra o STF e sua lentidão para julgar os processos da Lava Jato. "O movimento não saiu das ruas, mas o povo não está comparecendo", diz Zambelli, que acredita que a população começa a enxergar uma "luz no fim do túnel" na economia. "No ano passado existia um só mote, que era o impeachment. Simples e fácil de entender. Hoje são vários: 'Joesley na cadeia', 'Fora Temer', 'Dilma sem direitos políticos', 'fora lista fechada', 'fim do foro privilegiado'... São tantas coisas que as pessoas não entendem ou não se identificam", argumenta. Ela também cita o "cansaço", a falta de "cultura política" no país e o medo de que a queda de Temer gere "instabilidade" para empresários e trabalhadores. "Para aderir ao 'Fora Temer' as pessoas têm que estar num nível de desespero que não estão agora. Com a Dilma, chegamos ao fundo do poço. Existia a corrupção e existia a incompetência. No caso do Temer, existe a corrupção, mas ele é mais competente".
Ao mesmo tempo, atos convocados por movimentos e sindicatos de esquerda contra a administração peemedebista reuniram milhares de pessoas e uma greve geral conseguiu paralisar o país por um dia em abril deste ano. Até conseguiram atrasar algumas votações no Congresso, mas foram protestos com força limitada e sem respaldo popular suficiente. Muitos desses grupos se ausentaram das ruas durante os governos petistas, perderam espaço para movimentos autonomistas a partir de 2013 e defenderam o mandato de Dilma Rousseff até o ano passado. Hoje recobram o controle das ruas que haviam perdido, mas suas manifestações são interpretadas por muitos como uma manobra pelo "volta Lula". "Esses grupos tradicionais receberam grandes choques. Foram desafiados pela direita e também dentro da esquerda, por grupos autonomistas que não reconhecem seus métodos. Houve uma crise e agora eles tentam se recuperar. Hoje as manifestações da esquerda têm os tamanhos que sempre tiveram. Mas o estilo é muito parecido ao dos anos 80. São sindicatos, carros de som, os slogans... Uma linguagem antiga para uma geração nova", explica Alonso, do Cebrap.
Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e um dos principais organizadores dos protestos contra Temer, diz não ser correto "tratar as manifestações de 2017 como descenso". Ele cita a greve geral em abril e grandes mobilizações em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro desde março.  "Há um caldo de rua forte, majoritário ao fora Temer e contra as reformas. Já não existe a divisão de antes. Ninguém nas ruas está gritando para o Temer ficar", opina. Ele argumenta que houve uma ascensão das mobilizações a favor dos direitos e, de forma mais tímida, pela realização de eleições diretas. "Mas concordo que há também uma descrença cada vez maior pelas soluções institucionais. Tem a ver com abismo criado entre Congresso e Governo, de um lado, e o povo do outro", diz Boulos, para quem o primeiro legisla de costas para a população e o segundo age como se não tivesse nada a perder. "Isso gera um sentimento de que não adianta fazer manifestações de maneira institucionalizada. As pessoas esperam cada vez menos que suas demandas tenham eco. Essa frustração pode gerar desmobilização em alguns setores, mas também radicalização", explica. Há outra greve marcada para o próximo dia 30, mas ainda não há clareza de que trará a movimentação esperada.
A rejeição ao Governo Temer (apenas 7% de popularidade, segundo o último Datafolha), a oposição à reforma da previdência (71% de rejeição, segundo o mesmo o instituto) e o respaldo a eleições diretas (83% de apoio, diz o Datafolha) são pontos comuns entre os dois lados da atual polarização política. Entretanto, ainda não foram capazes de se unir nas ruas. Esther Solano, especialista da Unifesp, explica que há duas bolhas claras no Facebook que não se comunicam. “Antes havia certo emaranhado de páginas de movimentos, figuras e partidos. A partir de 2014 formam-se basicamente duas bolhas, algo visualmente muito escancarado. São duas bolhas incomunicáveis. Aqueles que estavam em relativo contato nas redes e nas ruas em 2013 não têm mais contato. Ninguém se fala, não há pontes”, disse ela durante um evento sobre as jornadas de junho de 2013, realizado no dia 13 na Tapera Taperá.
Alonso, do Cebrap, explica que "uma coisa é exprimir opiniões" em pesquisas e outra "é deixar a rotina o trabalho e fazer uma ação contrária". Ela considera muito difícil, no atual contexto, que haja um novo Junho de 2013 unindo diversas agendas, a não ser que "esse processo se revele um poço sem fundo, gerando um esgotamento", diz. "Existia uma grande diversidade de pautas em 2013. Parte focalizou no impeachment e outra parte focalizou no 'não vai ter golpe'. Mas depois disso houve uma pulverização das agendas de novo. Acho difícil todos unidos gritando pelo 'Fora Temer'".
Reportagem de Felipe Betim
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/15/politica/1497541272_710007.html
foto:https://twitter.com/deltanmd/status/580368383302074368

26/06/2017

Geração com mais de 50 anos revoluciona velhice e cria 'gerontolescência', diz guru da longevidade

Envelhecer não é mais o que era antes graças aos baby boomers, que estão transformando esse período e vivendo de forma diferente das gerações anteriores - é o que diz uma das maiores autoridades em envelhecimento do mundo, o médico brasileiro Alexandre Kalache.
Em entrevista à BBC Brasil, Kalache diz que o brasileiro terá que trabalhar mais tempo "quer goste ou não", acima de tudo porque terá uma vida mais longa. Mas a boa notícia, afirma, é que a chegada à velhice da geração do pós-guerra cria uma nova construção social, o que chamou de gerontolescência.que atualmente tem mais de 50 anos - estão revolucionando a velhice e transformando o período em uma nova fase porque são em maior número, têm um nível de saúde e vitalidade maior e melhor formação do que as gerações que envelheceram antes deles.
Para o médico, que atuou como diretor de envelhecimento na Organização Mundial da Saúde e já lecionou sobre o tema em universidades como a de Oxford, isso abre a possibilidade de promoção de uma nova forma de envelhecer, que vem sendo construída socialmente por esse grupo.
"A gente revolucionou o conceito de fazer a transição da infância para a idade adulta e criamos uma coisa que não havia antes da Segunda Guerra Mundial, que é a adolescência", explica Kalache, ao explicar que a adolescência como construção social não existia antes dos anos 1950.
"Fizemos muita coisa que está aí: a revolução sexual, a pílula, as revoluções musicais, a luta contra a ditadura - não vou deixar de ser essa mesma pessoa de 50 anos atrás. Eu e esse grupo todo, os baby boomers, estamos envelhecendo com isso tudo como legado. E daqui a um tempo vamos olhar para trás e ver que, assim como criamos a adolescência há alguns anos, estamos criando a gerontolescência", diz ele.
Para ele, no entanto, há uma diferença entre essas duas construções sociais. "A adolescência deve durar quatro ou cinco anos - se durar mais tem algo errado. Mas a gerontolescência é para durar 20, 30, 40 anos. É muito tempo para a gente se rebelar, virar a mesa."

Encarando a morte

Para tratar do tema do envelhecimento em palestras, Kalache costuma pedir à plateia que imagine rapidamente como vai morrer. O exercício, segundo ele, serve para mostrar como há uma "idealização da morte que já não é mais a regra".
Isso porque, diz ele, "vamos morrer mais velhos, mais doentes e mais lentamente do que muitos imaginam".
"A gente tem que se preparar para uma vida muito mais longa e pensar no processo de morte, porque no Brasil três quartos das mortes são de pessoas idosas e por doenças crônicas, inclusive aquelas arrastadas que causam sofrimento e despesas. Então é preciso tentar assegurar qualidade de vida até o final."
E essa é uma realidade que deve ser levada em conta especialmente no Brasil, que envelhece a passos largos. Estimativas da Organização das Nações Unidas apontam que até 2050 o Brasil terá 64 milhões de idosos - ou 30% da população, em comparação aos atuais 12%. Em 2001 esse total era de apenas 9%. Em menos tempo - em 2025 - o país deverá ocupar o sexto lugar em número de idosos no mundo.
Para Kalache, além de estar envelhecendo rapidamente, o Brasil percorre esse caminho em um padrão sem precedentes.
"Estamos envelhecendo com uma grande parcela da população em pobreza. É um desafio grande porque não temos precedentes, modelos. Nenhum país até hoje envelheceu sem ser rico. E estamos envelhecendo rápido e ao mesmo tempo sem recursos para políticas sociais e de saúde que possam responder a uma população já muito envelhecida, como seremos em três décadas."

Mais trabalho

Então vamos ter que trabalhar mais? Kalache, que atualmente preside o Centro Internacional Longevidade Brasil, responde que sim, e vai além: critica o "luxo" do nosso sistema previdenciário atual.
"Vai ter que trabalhar mais tempo? Eu acho que sim. Um país como o Brasil que se dá ao luxo de ter a aposentadoria média aos 54 anos é um país inviável. Não existe nenhum país que tenha conseguido por muito tempo manter tanta gente aposentada, sobretudo porque a base da pirâmide, que são os jovens, está diminuindo. Então, a gente goste ou não, vamos ter que nos preparar para uma vida laboral mais longa. E já que vai ter que trabalhar mais tempo, vamos trabalhar para ter projetos e para ser estimulante", opina.
Por isso, segundo ele, será necessário pensar em uma política pró-natalidade para equilibrar a pirâmide social, ou seja, ter uma proporção menos desigual de jovens e idosos no país, e ainda garantir um envelhecimento melhor aos mais velhos.
Ele afirma que, para isso, são necessários quatro capitais fundamentais: saúde, conhecimento para não se tornar obsoleto (o manter-se antenado), bem-estar financeiro e bem-estar social (ou o "capricho nas relações para ter para a quem recorrer quando o negócio apertar").
"A gente sabe que a pensãozinha só no fim da vida não vai dar conta. Aproveite para fazer suas economias porque, no final da vida, a gente precisa de mais renda e mais dinheiro, e não de menos."

Reportagem de Néli Pereira
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/geral-40336295#orb-banner
foto:https://reflexionyoga.com/blog/healthy-living/yoga-secret-longevity/

19/06/2017

Muito além do ‘pink money’: o que a militância LGBT quer das empresas



Para a 21ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que aconteceu ontem (18), o Uber contratou um trio elétrico para a cantora Anitta se apresentar. Não há dúvias de que a empresa, que nas últimas semanas teve seu nome estampado em notícias envolvendo casos de assédio sexual, sexismo e bullying, terminando com o afastamento por tempo indeterminado do seu presidente, Travis Kalanick, tenta melhorar a sua imagem se ligando a causas de grande engajamento. Em outro trio, a cantora Daniela Mercury se apresentará patrocinada pela Skol. A marca de cerveja da Ambev, que no início deste ano fez uma campanha para tirar de bares os seus próprios cartazes com publicidade machista, também lançará uma edição especial de lata para a Parada Gay deste ano.
Nos últimos anos é visível o movimento das marcas para atrair a atenção e a simpatia do público gay. Em 2015, a Tiffany, a grife de joias mais famosa do mundo, fez um anúncio de alianças com um casal de homens. Em quase 180 anos de história, aquela foi a primeira vez que a empresa dirigiu-se aos consumidores homossexuais. Naquele mesmo ano aqui no Brasil, o Boticário veiculou um anúncio para o dia dos namorados com casais gays trocando presentes. E teve de enfrentar, por parte de grupos homofóbicos, uma enxurrada de críticas, boicotes e até um processo movido no Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) por suposto “desrespeito à família brasileira”. Acabou sendo absolvida no Conar e ainda levando o prêmio máximo no Effie Awards Brasil 2015, premiação do mercado publicitário.
Neste ano, a Natura, Renner e Vick, foram algumas das marcas que apostaram na diversidade nas propagandas do Dia dos Namorados. Ao que parece, a publicidade abriu uma porta importante para a igualdade. E esse caminho não deve ter volta. O chamado pink money, ou o poder de compra da comunidade LGBT, não pode ser desprezado mais pelo mercado. Mas da porta para dentro, o que as empresas estão fazendo, de fato, para se tornarem diversas?
Reinaldo Bulgarelli, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e sócio da Txai Consultoria, que trabalha o tema da diversidade com as empresas, diz que de fato, sozinha, a publicidade não será capaz de mudar a realidade corporativa para os profissionais LGBT. Mas já é um primeiro passo. “Pode ser uma porta de entrada para você estabelecer uma conexão com o tema”, diz. “A mensagem pode ser algo como ‘já que você deu este passo da propaganda querendo o nosso dinheiro, venha com a gente para ajudar a mudar esta realidade”.
Pensando em convocar as empresas para a empreitada, foi criado, em 2013, o Fórum Empresas e Direitos LGBT, do qual Bulgarelli é secretário-executivo. A ideia é que as companhias se comprometam com uma carta de 10 compromissos elaborados pela entidade. Dentre eles estão sensibilizar e educar para o respeito aos direitos LGBT, e promover e apoiar ações em prol dos direitos LGBT na comunidade.
O Fórum parte do pressuposto de que não faz sentido criar somente programas internos de inclusão e diversidade. É preciso ultrapassar os muros da empresa e levar essas políticas para fora. “O principal do fórum é não olhar só para dentro, mas ajudar o empresariado brasileiro a elevar o patamar a favor dos direitos LGBT”, explica Bulgarelli. "Muitas empresas têm práticas internas incríveis, mas não vem para o fórum. Lembra da história da lâmpada na Paulista? [em 2010, um jovem gay foi agredido com uma lâmpada fluorescente na avenida Paulista por cinco garotos] Então, a empresa está cuidando do ambiente interno e isso é muito legal, mas enquanto isso, o colaborador dela está apanhando na Paulista. É disso que se trata”, explica.
Um dado que exemplifica bem que a cultura em prol da diversidade ainda tem de dar muitos passos no meio corporativo no Brasil é a quantidade de companhias brasileiras que participam do fórum: de um total de 38, apenas quatro são nacionais. Bulgarelli explica que no universo empresarial ainda existe um medo de se posicionar. “O mundo brasileiro é meio alheio a discussões globais”, diz. “E o Brasil é um país muito violento de forma geral”. Ele conta que já ouviu de empresários que preferem “perder dinheiro” a se posicionar.

Uma ponte para o trabalho de transexuais

Uma faceta da questão que envolve as empresas da porta para dentro é a empregabilidade. Se para profissionais gays nem sempre é fácil encontrar e se manter em um emprego, para o público transexual é ainda mais difícil. “Mil vezes mais”, diz a transexual Michelly Carvalho, 32. Ela conta que nunca teve sua carteira de trabalho assinada, porque não consegue emprego no mercado formal em decorrência do preconceito. “Eu não consigo esconder que sou travesti”, diz. “Um homem gay, por exemplo, consegue”.
O currículo de Michelly, assim como o de centenas de outras transexuais, faz parte do banco de currículos do programa Transempregos. Lançado em 2014, o projeto busca conectar as empresas aos profissionais transexuais desempregados. Maite Schneider, uma das criadoras da plataforma, explica que para a transexual existe não só a dificuldade de se inserir no mercado de trabalho, como também de encontrar um emprego nos cargos desejados, por isso muitas acabam tendo que se contentar com subempregos. “Sentimos a necessidade de trabalhar com a sensibilização das empresas”, diz ela. Por isso, as criadoras do projeto percorrem diversas companhias apresentando o projeto, para que isso facilite a entrada das transexuais na hora de pleitear uma vaga.
De acordo com Maite, a aceitação do público trans ainda é restrita às multinacionais. “Por enquanto, apenas as multinacionais acabam participando”. Para ela, as empresas brasileiras ainda precisam desenvolver a cultura da diversidade.
Enquanto Michelly ainda está buscando um emprego, Karen Marques, 52, conta que o Transempregos já a ajudou a encontrar um trabalho. “Quando fui procurar emprego no Carrefour, eles já conheciam o projeto, e isso facilitou muito para mim”, diz. Durante os nove meses que ficou desempregada, ela afirma que primeiro tentou buscar uma vaga na área que tinha experiência - em papelarias e copiadoras. Mas como esse nicho é feito de estabelecimentos muito pequenos, ninguém a empregava, pois ainda falta a cultura de inclusão mencionada por Maite. Hoje, como operadora de caixa, ela pretende chegar à gerência. “Sou muito respeitada. Meu nome social está no meu crachá e eu uso o banheiro e o vestiário feminino desde o primeiro dia”.

Reportagem de Marina Rossi

foto:http://www.buenasdicas.com/onde-se-hospedar-parada-gay-hoteis-ficar-3466/

02/06/2017

Efeitos da hipersexualização: meninas transformadas em ‘Lolitas’


Em 2007, a Associação Norte-americana de Psicologia (APA na sigla em inglês) publicou um documento em que denunciava a tendência sexualizadora das crianças nas sociedades modernas. O documento apontava que o fenômeno abrange desde roupa, brinquedos e videogames até séries de TV, inoculando de forma sutil o erotismo prematuro no universo das meninas. O estudo mostrou que meninas a partir de quatro anos são bombardeadas com modelos de sucesso que triunfam graças a seus atributos físicos, às medidas que o mercado impõe, mas não por suas qualidades pessoais e profissionais. Dez anos mais tarde essa tendência, longe de ser corrigida, cresceu.
É um fenômeno tão crônico, tão incorporado que às vezes os adultos nem se dão conta: sutiãs com ou sem recheio para meninas de oito anos, saltos, tops e minissaias, heroínas de séries com corpos esculturais, bufês infantis que propõem concursos de beleza e desfile na passarela em festinhas de aniversário… Fala-se, inclusive, de uma chegada precoce à adolescência, uma etapa desconhecida há poucas gerações chamada de pré-adolescência que vai encolhendo tristemente a infância, reduzindo-a a anos cada vez mais escassos.
As razões fundamentais são, como quase sempre, de consumo: a moda, principal artífice da utilização de meninas em anúncios publicitários como Lolitas cada vez mais jovens, impulsiona esta imagem como um potente gancho comercial para vender seus produtos. Tudo está à venda numa sociedade ultramaterialista, tudo pode ser usado para gerar dinheiro, até mesmo a infância.
Por outro lado, vivemos em uma sociedade com profundas contradições e com grandes doses de moral ambígua. O sexo vende sempre, e a atitude da sociedade sobre a sexualidade feminina é no mínimo confusa e ancorada em padrões machistas. Por um lado se critica uma mulher que se veste de forma provocante, mas, por outro, se aceitam tanto uma menina vestida de mulher, maquiada, de saltos e minissaia, como uma mulher vestida de menina, beirando os limites da pedofilia. É o sintoma de uma cultura que flerta desde a infância com o mercado do sexual e que continua ancorada em padrões que enquadram o gênero feminino no acessório’.
O verdadeiro veneno de tudo isso é que a maioria das meninas vai crescer sem o espírito crítico necessário para sair desse roteiro e passará grande parte de sua vida tentando se encaixar em medidas físicas, num roteiro unilateral que não foi decidido nem negociado por elas porque vem do mercado e do gênero masculino. Depois passarão outra parte de sua vida tentando preservar o que puderem dessas medidas e submetendo-se a cirurgiões plásticos, a dietas e à ansiedade de uma corrida contra o tempo que invariavelmente perderemos.
Os efeitos no desenvolvimento normal de uma menina são os que derivam de quebrar o equilíbrio e pular etapas. Por exemplo, temos dados de que, na França, 37% das meninas afirmam estar fazendo dieta, as conversas sobre moda e peso ideal aparecem cedo, as meninas são constantemente estimuladas pela televisão e pelas revistas juvenis, e vão assumindo com uma naturalidade perversa sua condição de objetos sexuais, vão adquirindo a crença de que a sociedade vai valorizá-las em função de sua aparência mais ou menos atraente para os homens. Um exemplo muito claro é que um presente cada vez mais frequente dos pais antes dos 18 anos é um aumento de seios. Outro sintoma alarmante e derivado desse desajuste é o arrepiante aumento nas percentagens de meninas afetadas por transtornos alimentares, principalmente anorexia e bulimia, que já estão sendo detectados entre os 5 e os 9 anos.
Além disso, ou sobretudo, essa hipersexualização do universo infantil acarreta uma aproximação muito violenta e distorcida do mundo da sexualidade adulta, perdendo-se experiências imprescindíveis que vão introduzindo de forma saudável e gradativa uma parte essencial do que depois será sua vida conjugal e sua forma de entender as relações sociais, não só sexuais. O erotismo, a sensualidade, a sexualidade são capacidades que se desenvolverão paulatinamente, assumindo uma forma específica em cada etapa do desenvolvimento e aproximando-se dos padrões adultos na adolescência. Há sexualidade nas crianças, é óbvio, porque é condição humana, mas muito diferente da que a mídia mostra a elas e a nós. Expressa-se na consciência de identidade de gênero, em saber que é homem ou mulher, nos jogos de papéis (quando brincam de casinha), na curiosidade saudável de conhecer as diferenças no corpo do outro, mas não há erotização alguma nisso. Trata-se de um processo que, se não for adulterado por interesses comerciais e tóxicos, levará a uma sexualidade adulta livre.
Nós, os pais, temos a responsabilidade neutralizar, o quanto possível, toda essa influência externa, para isso precisamos estar muito atentos e muito presentes, acompanhar com interesse o que leem e assistem, filtrar e canalizar o que chega a eles de todos os lados, dosar as mídias. Não permitir que frequentem lugares nem façam atividades que não sejam condizentes com sua idade, unicamente pelo fato de que as outras crianças fazem. Ser parte da solução, não do problema. Educar em valores que priorizem o esforço, o ganho, o espírito cooperativo e a igualdade. E, sobretudo, oferecer um referencial sólido através do exemplo.
Assim, quando chegarem os anos difíceis, a adolescência, precoce ou não, terão raízes. Terão critério. Não serão invulneráveis, obviamente estarão sujeitas às pressões sociais, mas teremos deixado uma base sólida em sua personalidade que lhes ajudará a saber diferenciar e sair ilesas dessa etapa tão difícil como imprescindível.
Reportagem de Olga Carmona
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/05/30/cultura/1496151116_106223.html
foto:http://www.workshopdesolteiros.com/2016/05/tenho-uma-irmazinha-que-ainda-nao-tem.html

31/05/2017

Indignação com política tem gerado apatia em vez de mobilização, diz sociólogo

A população brasileira está "cada vez mais indignada" com os sucessivos escândalos de corrupção e a crise política que atingiu o presidente Michel Temer, mas essa indignação, em vez de se canalizar em um "grito de basta" suficientemente forte para promover mudanças, vem se traduzindo em "desolação, apatia, conformismo", considera o sociólogo Sérgio Abranches.
"As pessoas das mais variadas procedências estão dizendo 'não tem jeito', 'eu quero ir embora'. Essa é a pior reação", opina Abranches. "Eu gostaria de ver uma explosão social, gostaria de ver o povo na rua, completamente indignado, não aparelhado, realmente disposto a ir às últimas consequências, se necessário, para mudar a situação."
O sociólogo de 67 anos acha ser necessária uma "ruptura" para restabelecer a representatividade política, uma reação popular desgarrada das "velhas estruturas partidárias".
"Não estou defendendo a baderna. Mas essa (a mobilização social) é uma das poucas saídas que vejo para mudanças mais radicais no Brasil", diz à BBC Brasil em sua casa no Rio de Janeiro.
Autor do recém-lançado livro A era do imprevisto: A Grande Transição do Século 21 (Companhia das Letras, 2017) e colunista da rádio CBN, Abranches considera que o governo Temer não tem mais salvação após a crise deflagrada pelas delações da JBS e acha que o presidente comete um "segundo crime de responsabilidade" ao prolongar sua permanência no poder.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC Brasil - A crise explodiu de um dia para o outro, mas não está claro se ela irá se resolver em um espaço de semanas ou meses. Que duração essa crise está se desenhando para ter?
Sérgio Abranches - Acho muito pouco provável que vá até as eleições de 2018. A Presidência Temer vai terminar antes disso. No curto prazo, você teria uma solução mais rápida que já foi descartada por Temer, a renúncia. Essa seria a forma mais rápida, eficaz e indolor de colocar o país de volta nos trilhos, mas já foi descartada.
Ao decidir resistir, na minha opinião, ele cometeu o segundo crime de responsabilidade, porque isso vai custar caro ao país, a ele e ao orçamento público.
BBC Brasil - O que o senhor chama de "segundo crime de responsabilidade"?
Abranches - Ele decidiu ficar sabendo que para tal terá que fazer mais concessões, incorrer em gastos públicos e contratações espúrias simplesmente para sobreviver, e comprar o apoio do Congresso. Há uma possibilidade de ele ainda fazer uma saída honrosa, que é aceitar o veredito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE, que julga supostas irregularidades de campanha na chapa Dilma-Temer em 2014) e decidir não recorrer.
Se o TSE considerar que a chapa não é legítima, isso dá a ele um álibi adicional, que é o fato de o crime eleitoral principal não ter sido cometido por ele mas pela Dilma, a cabeça de chapa. Ele sairia de uma forma melhor, e não pelas razões principais relacionadas à conversa promíscua com o (empresário da JBS) Joesley Batista, que trazem um claro crime de responsabilidade.
BBC Brasil - O senhor acha que a saída é pelo TSE?
Abranches - Acho que essa crise se resolveria com relativa facilidade desde que tivéssemos uma negociação nacional que fosse além do Congresso e dos partidos para definir quem fará essa ponte até 2018.
As soluções que estão sendo discutidas internas ao Legislativo não são adequadas. Eu não considero que o (presidente da Câmara dos Deputados) Rodrigo Maia, por exemplo, tenha densidade política, capacidade de liderança ou isenção suficiente em relação à Lava Jato e ao governo Temer para fazer essa transição. Não é um bom nome, definitivamente.
Por outro lado, um senador como Tasso Jereissati, que é um homem respeitado em todas as frentes e tem muita experiência, também não é exatamente capacitado para construir esse consenso nacional, porque ele é do PSDB, e a gente tem uma polarização PSDB-PT que precisa ser superada no Brasil.
BBC Brasil - Superada, mas não ignorada.
Abranches - Isso, não pode ser ignorada. Você não pode simplesmente achar que pode resolver para um lado ou para o outro. É preciso haver uma negociação que atenda também a essa despolarização. Um nome percebido com tal grau de isenção que seja visto tanto por lideranças do PT como do PSDB como uma pessoa apropriada para fazer essa ponte.
E que tenha, por outro lado, um mínimo de respeitabilidade popular. Que a população indignada, decepcionada e frustrada com os rumos que o Brasil tomou com todo esse escândalo de corrupção ao menos considere que não é uma pessoa suspeita.
BBC Brasil - Os protestos que vimos até agora não foram de massa, como os de 2013. Como o senhor acha que a população está encarando mais esse escândalo? O excesso levou a um estado de dormência? Há mais cansaço que capacidade de se escandalizar?
Abranches - Acho que a população brasileira em sua maioria, ao menos pelo que eu consigo captar nas ruas, está desolada. Embora esteja cada vez mais indignada, essa indignação está produzindo uma desolação, uma apatia, um conformismo.
As pessoas das mais variadas procedências estão dizendo 'não tem jeito', 'eu quero ir embora'. Essa é a pior reação.
Eu gostaria de ver uma explosão social, gostaria de ver o povo na rua, completamente indignado, não aparelhado, realmente disposto a ir às últimas consequências, se necessário, para mudar a situação.
Acho que tem horas que a sociedade precisa dar um grito de basta que seja suficientemente forte, vigoroso e desgarrado dessas velhas estruturas partidárias, para que realmente seja ouvido pela elite e promova uma mudança. Acho que estamos precisando de uma ruptura.
BBC Brasil - Isso faz pensar no quebra-quebra em Brasília, que despertou muitas críticas e foi visto com reserva, despertando dúvidas sobre quem estava por trás dos episódios de depredação.
Abranches - Acho que o quebra-quebra em Brasília não faz parte desse grito de indignação. Foi uma coisa meio anárquica, mas na verdade aparelhada. E seletiva. Aquelas pessoas que estavam em Brasília não protestaram contra a corrupção do PT.
Na verdade eu falo em uma população que vá para a rua sem liames partidários. Por razões de fato difusas. Por todos os seus descontentamentos. Como foi em 2013.
Não estou defendendo a baderna. Mas a mobilização social é uma das poucas saídas que eu vejo para mudanças mais radicais no brasil. Senão as mudanças serão muito lentas e difíceis, e terão muita resistência dessas oligarquias.
BBC Brasil - Nas últimas semanas vem se falando muito na construção de um "pacto nacional" para escolher um candidato para substituir Temer via eleições indiretas. Isso não adiaria esse momento de ruptura que o senhor defende para promover mudanças?
Abranches - Mas veja, essa é a única solução menos negativa que nos dê alguma perspectiva de mudança adequada para preparar as eleições de 2018. Porque uma eleição direta agora não daria à população a possibilidade de fazer escolhas alternativas ao establishment.
O sistema político brasileiro foi construindo uma série de barreiras à entrada de novos atores políticos, denominados de aventureiros. Isso começou no governo Collor.
O (ex-presidente Fernando) Collor pode ter sido ruim, mas aventureiro ele não era. Era neto e filho de políticos, tinha sido governador. Não era um outsider. Mas foram tomadas uma série de medidas legais para evitar aventureiros como Collor na política. Foi um álibi para reforçar o controle de ferro das oligarquias sobre o sistema político.
Se não tivermos regras que democratizem as eleições e campanhas e exponham os candidatos mais diretamente à população, não vamos conseguir fazer uma mudança.
As discussões de reforma política no Brasil precisam considerar isso - a possibilidade de abrir a porta, escancarar as portas, para novas entradas no sistema político. Uma eleição como a do (novo presidente Emmanuel) Macron na França é impossível pela legislação brasileira.
BBC Brasil - Em seu novo livro, o senhor fala que um fosso está se abrindo entre os partidos políticos e a população, não só no Brasil mas no mundo todo. Como se resgata essa conexão?
Abranches - A democracia representativa está em crise no mundo todo e vai precisar, no longo prazo, ser aprofundada, alargada, complementada com novos instrumentos de representação e de controle social da política, que não eram possíveis no passado.
A estrutura política no mundo é toda analógica, à exceção de alguns recursos digitais usados por figuras como Barack Obama e Macron. A política ainda se faz toda com tecnologia analógica, ou sem tecnologia. Mas a sociedade é digital. As pessoas trocam ideias, se ofendem, se amam e se persuadem mutuamente pelas redes, digitalmente.
Temos que pegar esses mecanismos da sociedade digital e introduzir nas política, para torná-la mais transparente e tornar os partidos, governos e parlamentos mais representativos. Isso muito no longo prazo.
Acho que a democracia vai ter que mudar muito profundamente. Claro que a democracia é uma grande conquista, e temos que manter essa grande conquista, mas ela tem que ser transformada.
BBC Brasil - No livro o senhor fala de transformações radicais que estariam pro vir em muitas frentes. Na frente política no Brasil, o senhor considera a Lava Jato um elemento-chave para impulsionar essas mudanças?
Abranches - Sim, e por outro lado ela também ilustra coisas que podem ser feitas hoje graças às mudanças radicais na tecnologia. É um exemplo da digitalização da democracia de que eu estou falando.
Os juízes fazem o upload das provas, dos documentos, das sentenças, dos pareceres, das acusações etc. para o meio eletrônico. Os jornalistas têm treino para acessar aquele material digital - que corresponderia a salas e mais salas com pilhas de processos de papel, e que seria dificílimo de manusear e selecionar.
Eles sabem abrir pastas que contêm outras pastas que contêm outras pastas para chegar ao documento que importa à opinião pública e que de fato dá transparência ao sistema.
Então na verdade a Lava Jato já está trazendo mudanças. Deu à Justiça um grau de transparência que não tinha. A Justiça era uma caixa-preta e agora deixou de ser. Já está mudando o procedimento judicial.
BBC Brasil - Temer havia acabado de completar um ano no poder antes de a crise estourar. Se ele cair, qual terá sido o legado desse um ano, na sua opinião?
Abranches - Ficam dois legados, um muito negativo e um positivo em termos. O positivo é o fato de que ele realmente percebeu o que era preciso fazer para reequilibrar a economia e tirá-la da pior recessão da sua história. Colocou gente muito competente no Banco Central, no Ministério da Fazenda e fez uma proposta legislativa que atendeu os mercados, com as reformas.
O negativo é descobrir que o mesmo presidente capaz de tirar o país do buraco ao mesmo tempo tinha um subterrâneo na residência oficial na qual recebia pessoas que não podia receber para conversas que não poderia ter.
E ao ser pilhado nesse ato muito impróprio, que é crime de responsabilidade por ferir o decoro do cargo, ao invés de reconhecer a sua culpa e renunciar, e dizer que não tem mais condições de governar, ele fica encastelado, resistindo uma luta que já perdeu. É a mesma coisa que a Dilma Rousseff fez no interregno do impeachment.
E a gente vê que foram os piores momentos para o país, gerando confusão e incerteza mesmo com o desfecho já conhecido de antemão. É uma resistência teimosa, custosa, que transfere os ônus para a população mas não chega a beneficiar aqueles que estão resistindo.
BBC Brasil - Um dos trunfos do governo Temer era o apoio grande de que desfrutava no Congresso. Permanecendo no poder, o que acontece com a sua base parlamentar?
Abranches - A equação se inverteu. Ele tinha uma coalizão de alta eficácia e baixo custo. Precisava fazer muito menos concessões do que Dilma e Lula para obter as coisas que queria aprovar no Congresso.
Apesar de sua impopularidade, ele tinha a permanência até 2018 garantida, e isso era o suficiente para manter a base de apoio no Congresso. Tinha uma capacidade de gestão da coalizão invejável.
Mas agora ele se torna refém do Congresso. E ser refém custa muito mais caro. Ele vira um presidente de baixa eficácia, alto custo. Porque cada vez que ele precisar de alguma coisa, o Congresso vai lembrar: 'você cai se eu quiser'. O Rodrigo Maia está sentado numa pilha de pedidos de impeachment.
Temer já não consegue pedir nada ao Congresso que não seja a sua própria sobrevivência. O governo acabou, não tem mais salvação. As declarações que ele fica fazendo na televisão chegam a ser patéticas como erro de comunicação. Porque a população não está ouvindo, não quer saber. Não é isso que importa para a população. Ele está falando sozinho. É um exercício narcísico.

Reportagem de Júlia Dias Carneiro e Luciani Gomes
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40100618
foto:https://fueralosmetafisicos.com/2009/12/30/la-apatia-politica/