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30/06/2017

Com tantas notícias sobre corrupção, por que os grandes protestos sumiram das ruas?

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Os protestos contra a corrupção do PT e a favor do impeachment de Dilma Rousseff bateram sucessivos recordes de público entre 2015 e 2016 e marcaram a agenda de um Brasil mergulhado em uma crise política e econômica. Era o Brasil reencontrando os protestos de ruas depois do marco das jornadas de 2013, que também cobraram da classe política mais atenção aos temas caros à sociedade. A crise política dos últimos anos, porém, evoluiu para drama e atingiu patamares de surrealismo em 2017, atingindo seu ponto alto nesta segunda-feira com a denúncia da Procuradoria Geral da República contra o presidente Michel Temer por corrupção passiva. Entre a saída de Dilma e a acusação de Rodrigo Janot contra Temer estão as delações dos executivos da Odebrecht e da JBSescancarando a corrupção de toda a elite política do país. Ainda assim, ao contrário dos últimos anos, não se viu uma explosão de indignação nas ruas, uma catarse como foi há dois anos.
Assim, depois de quatro anos demonstrando sua indignação em atos massivos, o Brasil parece viver uma ressaca. O que se escuta em jantares de família, em bares, em supermercados, em comércios ou cabeleireiros é quase sempre o mesmo: “adianta alguma coisa”? O gigante, que parecia acordado, voltou a adormecer.
Esther Solano, professora da Unifesp que vem pesquisando as últimas ondas de manifestações, avalia que existe uma frustração que atinge os dois lados da polarização política – isto é, tanto os que gritaram pelo impeachment como os que reagiram com o "não vai ter golpe". Já Angela Alonso, presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e professora da USP, argumenta que atos massivos "raramente acontecem na vida de uma sociedade" e que é natural, depois de "grandes ciclos" de protestos, uma ressaca subsequente. "Muitos do que ficaram nas ruas são os ativistas profissionais", explica.  Houve, argumenta ela, uma leitura equivocada de que os atos convocados por setores que ela identifica como "patriotas" fossem apenas contra a corrupção. "Muita gente foi às ruas contra o PT, e o PT já não é mais governo. Esse grande contingente que foi mobilizado já não tem a mesma motivação para se manifestar". Com isso, o Governo Temer vai se parecendo cada vez mais ao de José Sarney: com uma rejeição recorde, mas com a perspectiva de eleições diretas em pouco mais de um ano, ele vai ficando e sendo tolerado. Existe o temor de uma piora em um quadro que já é péssimo, com efeitos diretos na economia, ou seja, no bolso das pessoas.
Esse esfriamento das ruas ficou claro sobretudo com os acontecimentos do últimos meses. Em meados de maio, quando foi noticiada a existência de conversas entre Temer e Joesley Batista, grupos de direita como o Vem Pra Ruae o MBL chegaram a agendar um ato em São Paulo para o fim de semana, mas logo desmarcaram por causa, segundo argumentam, da Virada Cultural que acontecia na ocasião. Tratou-se, de todas as formas, de uma reação diferente de quando o ex-presidente Lula foi escolhido ministro e os áudios de sua conversa com Dilma Rousseff foram divulgados. A avenida Paulista foi imediatamente ocupada por manifestantes de verde de amarelo naquela ocasião. Já nos dias do julgamento da chapa Dilma-Temer pelo TSE, que ocorreu na primeira semana de junho deste ano, foram inexpressivas as manifestações de grupos de direita ou de esquerda (que viu alguns de seus setores se calarem uma vez que a cassação de Temer envolvia a criminalização da campanha petista de 2014). A pressão nas ruas também foi nula durante a avaliação, por parte do plenário do STF, sobre a permanência do ministro Edson Fachin na relatoria do caso JBS, o que colocava em jogo o ritmo da Lava Jato.
Rogério Chequer, principal liderança do Vem Pra Rua, que organizou protestos contra o Governo Dilma, acredita que a sensação de que as ruas se calaram se dá porque as manifestações entre 2015 e 2016 "foram as maiores da história do Brasil". Agora, ele explica, "existe uma decepção pelo fato de que uma melhoria econômica indiscutível não foi seguida de uma melhoria ética, o que desanima". Ele aposta, entretanto, que as pessoas e grupos chegarão mais unidos em 2018 devido ao desejo comum pela renovação política. Seu movimento tem apostado por ações em meios digitais e nas redes sociais, pressionando individualmente cada parlamentar e grupos de interesses. "É uma estratégia feita com mais agilidade e é mais efetiva", explica, citando o "mapa do fim do foro privilegiado" que, para ele, agilizou a aprovação da medida no plenário do Senado.
Ele assegura ainda que defende a saída do presidente Temer e uma transição rápida para não interferir na economia. "Estávamos esperando justamente o julgamento do TSE, que era uma chance de fazer uma transição de forma institucional e rápida. Agora estamos começando a nos organizar para fazer algo mais incisivo nas ruas. Por causa das férias de julho, tudo indica que vai ser em agosto, mas ainda não está marcado", garante. Citando o artigo 16 da Constituição, que prevê que qualquer alteração do processo eleitoral só poderá entrar em vigor após um ano, ele rejeita a ideia de eleições diretas ainda neste ano. "Zelamos pela Constituição, principalmente nessa fase de transição. Eu não gosto das eleições indiretas, mas uma mudança agora abre um precedente perigosíssimo".
Líder do Nas Ruas, Carla Zambelli admite que poucas pessoas estiveram nos quatro atos convocados em maio pelo grupo – dois em frente ao STF, um na PGR e outro em frente à casa de José Dirceu. O coletivo organiza agora um protesto contra o STF e sua lentidão para julgar os processos da Lava Jato. "O movimento não saiu das ruas, mas o povo não está comparecendo", diz Zambelli, que acredita que a população começa a enxergar uma "luz no fim do túnel" na economia. "No ano passado existia um só mote, que era o impeachment. Simples e fácil de entender. Hoje são vários: 'Joesley na cadeia', 'Fora Temer', 'Dilma sem direitos políticos', 'fora lista fechada', 'fim do foro privilegiado'... São tantas coisas que as pessoas não entendem ou não se identificam", argumenta. Ela também cita o "cansaço", a falta de "cultura política" no país e o medo de que a queda de Temer gere "instabilidade" para empresários e trabalhadores. "Para aderir ao 'Fora Temer' as pessoas têm que estar num nível de desespero que não estão agora. Com a Dilma, chegamos ao fundo do poço. Existia a corrupção e existia a incompetência. No caso do Temer, existe a corrupção, mas ele é mais competente".
Ao mesmo tempo, atos convocados por movimentos e sindicatos de esquerda contra a administração peemedebista reuniram milhares de pessoas e uma greve geral conseguiu paralisar o país por um dia em abril deste ano. Até conseguiram atrasar algumas votações no Congresso, mas foram protestos com força limitada e sem respaldo popular suficiente. Muitos desses grupos se ausentaram das ruas durante os governos petistas, perderam espaço para movimentos autonomistas a partir de 2013 e defenderam o mandato de Dilma Rousseff até o ano passado. Hoje recobram o controle das ruas que haviam perdido, mas suas manifestações são interpretadas por muitos como uma manobra pelo "volta Lula". "Esses grupos tradicionais receberam grandes choques. Foram desafiados pela direita e também dentro da esquerda, por grupos autonomistas que não reconhecem seus métodos. Houve uma crise e agora eles tentam se recuperar. Hoje as manifestações da esquerda têm os tamanhos que sempre tiveram. Mas o estilo é muito parecido ao dos anos 80. São sindicatos, carros de som, os slogans... Uma linguagem antiga para uma geração nova", explica Alonso, do Cebrap.
Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e um dos principais organizadores dos protestos contra Temer, diz não ser correto "tratar as manifestações de 2017 como descenso". Ele cita a greve geral em abril e grandes mobilizações em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro desde março.  "Há um caldo de rua forte, majoritário ao fora Temer e contra as reformas. Já não existe a divisão de antes. Ninguém nas ruas está gritando para o Temer ficar", opina. Ele argumenta que houve uma ascensão das mobilizações a favor dos direitos e, de forma mais tímida, pela realização de eleições diretas. "Mas concordo que há também uma descrença cada vez maior pelas soluções institucionais. Tem a ver com abismo criado entre Congresso e Governo, de um lado, e o povo do outro", diz Boulos, para quem o primeiro legisla de costas para a população e o segundo age como se não tivesse nada a perder. "Isso gera um sentimento de que não adianta fazer manifestações de maneira institucionalizada. As pessoas esperam cada vez menos que suas demandas tenham eco. Essa frustração pode gerar desmobilização em alguns setores, mas também radicalização", explica. Há outra greve marcada para o próximo dia 30, mas ainda não há clareza de que trará a movimentação esperada.
A rejeição ao Governo Temer (apenas 7% de popularidade, segundo o último Datafolha), a oposição à reforma da previdência (71% de rejeição, segundo o mesmo o instituto) e o respaldo a eleições diretas (83% de apoio, diz o Datafolha) são pontos comuns entre os dois lados da atual polarização política. Entretanto, ainda não foram capazes de se unir nas ruas. Esther Solano, especialista da Unifesp, explica que há duas bolhas claras no Facebook que não se comunicam. “Antes havia certo emaranhado de páginas de movimentos, figuras e partidos. A partir de 2014 formam-se basicamente duas bolhas, algo visualmente muito escancarado. São duas bolhas incomunicáveis. Aqueles que estavam em relativo contato nas redes e nas ruas em 2013 não têm mais contato. Ninguém se fala, não há pontes”, disse ela durante um evento sobre as jornadas de junho de 2013, realizado no dia 13 na Tapera Taperá.
Alonso, do Cebrap, explica que "uma coisa é exprimir opiniões" em pesquisas e outra "é deixar a rotina o trabalho e fazer uma ação contrária". Ela considera muito difícil, no atual contexto, que haja um novo Junho de 2013 unindo diversas agendas, a não ser que "esse processo se revele um poço sem fundo, gerando um esgotamento", diz. "Existia uma grande diversidade de pautas em 2013. Parte focalizou no impeachment e outra parte focalizou no 'não vai ter golpe'. Mas depois disso houve uma pulverização das agendas de novo. Acho difícil todos unidos gritando pelo 'Fora Temer'".
Reportagem de Felipe Betim
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/15/politica/1497541272_710007.html
foto:https://twitter.com/deltanmd/status/580368383302074368

19/06/2017

Muito além do ‘pink money’: o que a militância LGBT quer das empresas



Para a 21ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que aconteceu ontem (18), o Uber contratou um trio elétrico para a cantora Anitta se apresentar. Não há dúvias de que a empresa, que nas últimas semanas teve seu nome estampado em notícias envolvendo casos de assédio sexual, sexismo e bullying, terminando com o afastamento por tempo indeterminado do seu presidente, Travis Kalanick, tenta melhorar a sua imagem se ligando a causas de grande engajamento. Em outro trio, a cantora Daniela Mercury se apresentará patrocinada pela Skol. A marca de cerveja da Ambev, que no início deste ano fez uma campanha para tirar de bares os seus próprios cartazes com publicidade machista, também lançará uma edição especial de lata para a Parada Gay deste ano.
Nos últimos anos é visível o movimento das marcas para atrair a atenção e a simpatia do público gay. Em 2015, a Tiffany, a grife de joias mais famosa do mundo, fez um anúncio de alianças com um casal de homens. Em quase 180 anos de história, aquela foi a primeira vez que a empresa dirigiu-se aos consumidores homossexuais. Naquele mesmo ano aqui no Brasil, o Boticário veiculou um anúncio para o dia dos namorados com casais gays trocando presentes. E teve de enfrentar, por parte de grupos homofóbicos, uma enxurrada de críticas, boicotes e até um processo movido no Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) por suposto “desrespeito à família brasileira”. Acabou sendo absolvida no Conar e ainda levando o prêmio máximo no Effie Awards Brasil 2015, premiação do mercado publicitário.
Neste ano, a Natura, Renner e Vick, foram algumas das marcas que apostaram na diversidade nas propagandas do Dia dos Namorados. Ao que parece, a publicidade abriu uma porta importante para a igualdade. E esse caminho não deve ter volta. O chamado pink money, ou o poder de compra da comunidade LGBT, não pode ser desprezado mais pelo mercado. Mas da porta para dentro, o que as empresas estão fazendo, de fato, para se tornarem diversas?
Reinaldo Bulgarelli, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e sócio da Txai Consultoria, que trabalha o tema da diversidade com as empresas, diz que de fato, sozinha, a publicidade não será capaz de mudar a realidade corporativa para os profissionais LGBT. Mas já é um primeiro passo. “Pode ser uma porta de entrada para você estabelecer uma conexão com o tema”, diz. “A mensagem pode ser algo como ‘já que você deu este passo da propaganda querendo o nosso dinheiro, venha com a gente para ajudar a mudar esta realidade”.
Pensando em convocar as empresas para a empreitada, foi criado, em 2013, o Fórum Empresas e Direitos LGBT, do qual Bulgarelli é secretário-executivo. A ideia é que as companhias se comprometam com uma carta de 10 compromissos elaborados pela entidade. Dentre eles estão sensibilizar e educar para o respeito aos direitos LGBT, e promover e apoiar ações em prol dos direitos LGBT na comunidade.
O Fórum parte do pressuposto de que não faz sentido criar somente programas internos de inclusão e diversidade. É preciso ultrapassar os muros da empresa e levar essas políticas para fora. “O principal do fórum é não olhar só para dentro, mas ajudar o empresariado brasileiro a elevar o patamar a favor dos direitos LGBT”, explica Bulgarelli. "Muitas empresas têm práticas internas incríveis, mas não vem para o fórum. Lembra da história da lâmpada na Paulista? [em 2010, um jovem gay foi agredido com uma lâmpada fluorescente na avenida Paulista por cinco garotos] Então, a empresa está cuidando do ambiente interno e isso é muito legal, mas enquanto isso, o colaborador dela está apanhando na Paulista. É disso que se trata”, explica.
Um dado que exemplifica bem que a cultura em prol da diversidade ainda tem de dar muitos passos no meio corporativo no Brasil é a quantidade de companhias brasileiras que participam do fórum: de um total de 38, apenas quatro são nacionais. Bulgarelli explica que no universo empresarial ainda existe um medo de se posicionar. “O mundo brasileiro é meio alheio a discussões globais”, diz. “E o Brasil é um país muito violento de forma geral”. Ele conta que já ouviu de empresários que preferem “perder dinheiro” a se posicionar.

Uma ponte para o trabalho de transexuais

Uma faceta da questão que envolve as empresas da porta para dentro é a empregabilidade. Se para profissionais gays nem sempre é fácil encontrar e se manter em um emprego, para o público transexual é ainda mais difícil. “Mil vezes mais”, diz a transexual Michelly Carvalho, 32. Ela conta que nunca teve sua carteira de trabalho assinada, porque não consegue emprego no mercado formal em decorrência do preconceito. “Eu não consigo esconder que sou travesti”, diz. “Um homem gay, por exemplo, consegue”.
O currículo de Michelly, assim como o de centenas de outras transexuais, faz parte do banco de currículos do programa Transempregos. Lançado em 2014, o projeto busca conectar as empresas aos profissionais transexuais desempregados. Maite Schneider, uma das criadoras da plataforma, explica que para a transexual existe não só a dificuldade de se inserir no mercado de trabalho, como também de encontrar um emprego nos cargos desejados, por isso muitas acabam tendo que se contentar com subempregos. “Sentimos a necessidade de trabalhar com a sensibilização das empresas”, diz ela. Por isso, as criadoras do projeto percorrem diversas companhias apresentando o projeto, para que isso facilite a entrada das transexuais na hora de pleitear uma vaga.
De acordo com Maite, a aceitação do público trans ainda é restrita às multinacionais. “Por enquanto, apenas as multinacionais acabam participando”. Para ela, as empresas brasileiras ainda precisam desenvolver a cultura da diversidade.
Enquanto Michelly ainda está buscando um emprego, Karen Marques, 52, conta que o Transempregos já a ajudou a encontrar um trabalho. “Quando fui procurar emprego no Carrefour, eles já conheciam o projeto, e isso facilitou muito para mim”, diz. Durante os nove meses que ficou desempregada, ela afirma que primeiro tentou buscar uma vaga na área que tinha experiência - em papelarias e copiadoras. Mas como esse nicho é feito de estabelecimentos muito pequenos, ninguém a empregava, pois ainda falta a cultura de inclusão mencionada por Maite. Hoje, como operadora de caixa, ela pretende chegar à gerência. “Sou muito respeitada. Meu nome social está no meu crachá e eu uso o banheiro e o vestiário feminino desde o primeiro dia”.

Reportagem de Marina Rossi

foto:http://www.buenasdicas.com/onde-se-hospedar-parada-gay-hoteis-ficar-3466/

14/06/2017

“Tortura de jovem tatuado na testa foi feita para ser consumida nas redes”


“Eu sou ladrão e vacilão”. As cinco palavras, tatuadas à força na testa de um jovem de 17 anos suspeito de tentar roubar uma bicicleta em São Bernardo do Campo, se espalharam nas redes sociais e grupos de WhatsApp. Mesmo em um país que lidera o ranking mundial de linchamentos e homicídios no mundo, acostumado às cenas de violência e a ver a população fazer o que considera ser justiça com as próprias mãos, a tortura do adolescente provocou repulsa –  mas também admiração. Para alguns, o tatuador Maycon Wesley Carvalho dos Reis e o vizinho Ronildo Moreira de Araújo, que registrou o crime em vídeo, são exemplos de “cidadãos de bem cansados de sofrer nas mãos da bandidagem”. Os dois foram presos preventivamente pelo polícia. Para Ariadne Natal, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, este tipo de ação parte do pressuposto de que o Estado “é ausente e não pune o suficiente”. “Existe uma percepção de impunidade, de que há muito crime e o Estado não está punindo o bastante. Mas quando você analisa os números, é precisamente o contrário: as cadeias estão lotadas”, afirma.
Após o crime, o coletivo Afroguerrilha organizou uma arrecadação virtual para custear a remoção da tatuagem feita no jovem bem como um tratamento para ele, que seria dependente químico. Até esta quarta-feira já haviam levantado mais de 32.000 reais, o dobro da meta. Posteriormente a Prefeitura de São Bernardo anunciou que iria custear a cirurgia para retirar a tatuagem. Nas redes sociais grupos conservadores indignados com a “vaquinha para ajudar ladrão”, reagiram, e criaram um fundo para custear a defesa dos dois torturadores – arrecadando até o momento pouco mais de 6.000. Ironicamente, em 2011 o pedreiro Ronildo Moreira de Araújo, que gravou a tortura do adolescente, havia sido condenado pelo roubo da bolsa de uma mulher em 2008.
Pergunta. O que motiva este tipo de ação?
Resposta. As pessoas têm uma sensação de insegurança muito grande, é um problema real no Brasil. Elas sofrem, têm medo, são vítimas de crimes ou conhecem alguém que foi vítima, e esse sentimento não pode ser minimizado. Além disso, existe outra percepção na sociedade, que é a de impunidade. Isso faz com que em alguns momentos as pessoas queiram tomar para si o papel que é do Estado, e aplicar uma justiça bárbara. A lógica que alimenta essas ações é a de que, por exemplo, marcar aquele rapaz é uma forma eficiente de dissuadir novos crimes. A discussão não problematiza essa questão. Se eu prendo mais, a consequência é menos crime? Não. Nada aponta para isso, as cadeias estão sempre lotadas. É preciso se pensar outras formas de gastar esses recursos.
Se por um lado o sentimento de insegurança não pode ser ignorado, o problema é o que se faz com isso. Ser vítima de violência de qualquer tipo não dá a ninguém autorização para reproduzir com outros esse tipo de comportamento, mesmo que no calor do momento. Não é uma cultura viável. É preciso propor outra forma de resolução, a sociedade não pode tomar para si esse papel, isso é incompatível com a democracia.
P. Qual o papel das redes sociais nesse caso?
R. Os dois homens que torturaram o jovem de São Bernardo não queriam apenas torturar. Eles queriam humilhar publicamente, queriam fazer da ação uma vingança, para que aquilo não ficasse entre quatro paredes. Levaram para dentro de casa, que é um espaço privado, mas tornaram pública a tortura via a tatuagem, que tem a pretensão de ser permanente, ainda por cima num local de alta visibilidade, como a testa. E fizeram um vídeo. Este é um recurso superpoderoso para tornar aquilo um evento não só local. Na medida em que registram e compartilham, isso se torna uma performance para um público, a tortura do jovem foi feita para ser consumida, seja para a crítica ou para endossar a atitude deles. As redes sociais têm um papel muito importante na estratégia da agressão, ela é parte da estratégia dos torturadores.
P. A sociedade valida este tipo de violência?
R. Muito provavelmente eles pensaram que os espectadores daquela tortura concordariam com eles, e parte da sociedade considera este tipo de ação como sendo válida. Quando fizeram aquilo, e isso é uma marca também dos linchamentos, os torturadores tiveram uma percepção de que não estavam cometendo crime algum, tanto é que nem tentam esconder sua identidade no vídeo.
P. Existe uma questão socioeconômica por trás deste tipo de crime?
R. Existe uma percepção, principalmente nas periferias, que sofrem com a ausência de instituições fortes e uma menor presença do Estado, de que as pessoas precisam resolver seus próprios problemas, diferente dos bairros ricos, onde há um aparato de segurança que acaba “resolvendo” os problemas. A população mais abastada acaba terceirizando e privatizando seu aparato de segurança. Nos dois casos prevalece a ideia do cada um por si: "Ah, o Estado é ineficiente então cabe a cada um resolver seus problemas”.
P. Quais as semelhanças entre este caso de tortura e um linchamento?
R. Este não é um caso de linchamento, mas reverbera alguns dos problemas que já existem no país e apresenta inúmeros paralelos com o linchamento, que é um fenômeno antigo no Brasil, tem algumas centenas de anos. Em comum, por exemplo, está o desejo de fazer aquilo que eles consideram como sendo justiça por conta própria.
Reportagem de Gil Alessi
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/13/politica/1497374163_459335.html
foto:http://br.blastingnews.com/brasil/2017/06/tortura-justica-tatuagem-em-testa-de-suposto-ladrao-causa-polemica-001769161.html

08/06/2017

'Somos todos racistas?': o teste de Harvard que promete revelar preconceito implícito

Poucas pessoas admitiriam seu racismo abertamente, mas muitos psicólogos dizem que somos racistas mesmo sem a intenção de sê-lo. Nós teríamos o que eles chamam de "preconceito implícito". O que é isso, como é medido e o que pode ser feito a respeito?
"Seus dados sugerem que você tem uma leve preferência automática por pessoas brancas em relação a pessoas negras".
Esse não era o resultado que eu esperava. Então eu sou racista? Um intolerante? Isso seria bem diferente de como eu me vejo. Mas talvez seja algo que eu deva admitir e encarar de frente?
É que eu acabei de fazer o Teste de Associação Implícita (IAT), uma forma de identificar o preconceito implícito das pessoas. A prova não analisa apenas o preconceito de cor, mas também em relação a orientação sexual, deficiências e obesidade.
Segue uma breve descrição de como é um teste IAT, com base no de raça: aparecem palavras e rostos. As palavras podem ser positivas (como "maravilha", "amizade", "feliz" e "comemore") ou negativas (como "dor", "desprezo", "sujo" e "desastre"). Em uma parte do processo, é preciso pressionar uma tecla toda vez em que você vir um rosto de uma pessoa negra ou uma palavra ruim e pressionar outra tecla quando aparecer um rosto de uma pessoa branca ou uma palavra boa.
Em seguida, o jogo vira: uma tecla para rostos negros e palavras boas e outra para rostos brancos e palavras ruins. É muita coisa para guardar na cabeça. E aí está a questão. Você precisa pressionar a tecla apropriada o mais rápido possível. O computador mede a sua velocidade.
Você pode fazer o teste aqui.
A ideia por trás do IAT é que alguns conceitos e categorias podem estar mais conectados nas nossas mentes do que outros. Podemos achar mais fácil, e portanto mais rápido, ligar rostos de pessoas negras a palavras ruins do que de pessoas brancas.
Nas últimas décadas, as estatísticas sobre preconceito explícito têm mudado rapidamente. Por exemplo, na Inglaterra dos anos 1980, 50% da população se dizia contra casamentos interraciais. Essa taxa caiu para 15% em 2011. Os Estados Unidos experimentaram uma mudança parecida. Em 1958, 94% dos americanos disseram desaprovar casamentos entre pessoas brancas e negras. Esse número caiu para 11% em 2013.
O Brasil, apesar da fama de miscigenação, tem poucos casamentos interraciais, segundo o Censo Demográfico de 2010 do IBGE. Cerca de 75% das pessoas que se identificam como brancas casam com outras brancas, 69% dos pardos vivem com pardos e 50% dos negros se casam com outras pessoas negras. Os homens que se identificam de "cor amarela" são os que mais se unem com mulheres de outra cor - 38% se casam com asiáticas, 29,2% com pardas, 22% com brancas e 9,8% com mulheres negras.
Mas o preconceito implícito - visões que alimentamos sem intenção - é muito mais aderente e difícil de erradicar. Ao menos esse é o preceito do teste.
O IAT, introduzido há duas décadas como uma maneira de medir o preconceito implícito, agora é usado em laboratórios no mundo inteiro. No site do Projeto Implícito de Harvard, o teste foi realizado quase 18 milhões de vezes. E há um padrão. O meu resultado não é único. No teste de raça, a maioria das pessoas demonstrou alguma inclinação a favor de brancos e contra negros. Elas conectam mais rapidamente rostos de pessoas negras a conceitos ruins do que rostos brancos - e mesmo as pessoas negras não são imunes a esse fenômeno.
O preconceito implícito foi usado para explicar, ao menos parcialmente, tudo, desde a eleição do presidente Donald Trump (preconceito implícito contra sua oponente mulher) até o número desproporcional de homens negros que são baleados pela polícia sem estar armados nos Estados Unidos.
A ideia de que a maioria de nós temos várias formas de preconceito implícito se tornou tão comum que foi até mencionada por Hillary Clinton durante um debate na campanha presidencial com Trump. "Eu acho que o preconceito implícito é um problema para todos", disse ela.
Trump respondeu à frase uma semana depois. "No nosso debate na semana passada, ela acusou o país inteiro, sugerindo que absolutamente todo mundo, inclusive a polícia, é racista e tem preconceito. É algo ruim de se dizer".
Poucos experimentos na psicologia social tiveram um impacto tão grande. Jules Holroyd, especialista no tema na Universidade de Sheffield, vê uma conexão entre o sucesso do teste e a sua explicação dos "motivos pelos quais várias formas de discriminação e exclusão persistem".
Na última década, usar testes de associação implícita em treinamentos de diversidade virou rotina em grandes empresas. O objetivo é mostar à equipe, especialmente aqueles com o poder de contratar e promover, que mesmo sem saber, e apesar de suas melhores intenções, eles podem ter preconceitos.
Há um interesse óbvio por parte das empresas para eliminar o preconceito. Se você consegue impedir sua equipe de se comportar com preconceito e irracionalmente, você consegue contratar e promover o melhor talento. Menos preconceito implícito = mais lucros.
No entanto, praticamente tudo que sabemos sobre preconceito implícito é incerto, inclusive questões bastante fundamentais. Por exemplo, há um dissenso sobre quão inconscientes são esses estados da mente. Alguns psicólogos acreditam que temos consciência de nossos próprios preconceitos em alguma medida.
E há o próprio IAT. Há dois problemas com ele. O primeiro é o que os cientistas chamam de replicabilidade. Idealmente, um estudo que produz um certo resultado em uma segunda-feira deveria produzir o mesmo na terça. Mas, segundo Greg Mitchell, professor de Direito da Universidade de Virgínia, a replicabilidade do IAT é extremamente baixa.
Se o teste sugere que você tem um preconceito forte contra pessoas negras e "você o repete uma hora depois, você vai ter uma pontuação bem diferente", diz ela. Um dos motivos para isso é que o seu resultado é sensível às circunstâncias em que você se encontra quando o faz. É possível que seu resultado varie dependendo se você o fez antes ou depois de um almoço saudável, por exemplo.
Também parece existir uma relação entre IAT e comportamento. Por exemplo, se o seu colega, Pessoa A, vai pior no IAT que outro colega, Pessoa B, seria imprudente concluir que a Pessoa A demonstrará um comportamento mais discriminatório no local de trabalho. Se há uma linha entre IAT e compotamento em geral, ela é tênue.
Defensores dizem que há uma correlação entre IAT e questões de comportamento. Naturalmente, o comportamento humano é bastante complexo, e somos influenciados por vários fatores, incluindo clima, humor e nível de açúcar no sangue. Mas todo dia milhões de decisões relacionadas a emprego, questões judiciais e qualificações de alunos são tomadas. Mesmo que poucas dessas decisões tenham sido afetadas por preconceito implícito, os números em geral seriam significativos.
Nos últimos anos, especialistas contra e a favor do IAT competiram entre si com várias pesquisas. Um estudo observou pacientes brancos e negros com sintomas cardiovasculares: a questão era por que médicos frequentemente tratavam esses pacientes de maneira diferente. Pesquisadores descobriram uma relação entre o número de vezes em que médicos tratam pacientes diferentemente em relação a raça e sua pontução no IAT.
Outro estudo mostrou aos participantes imagens de rostos brancos e negros e em seguida imagens de armas ou outros objetos. A tarefa era identificar o mais rapidamente possível se o objeto mostrado era uma arma. E no fim das contas, as pessoas tendiam a identificar um objeto qualquer como uma arma quando haviam visto um rosto negro antes. E isso estava ligado ao teste: paticipantes com IAT baixo tendiam a cometer mais erros.
Mas os céticos em relação à ligação entre comportamento e o IAT citam outros estudos. Um experimento mostrou que policiais com performance ruim no IAT não tinham uma tendência maior a atirar contra suspeitos negros desarmados em relação a brancos, por exemplo.
Além disso, não há consenso quanto a se a solução é ter plena consciência dos seus preconceitos - ou se isso seria ainda pior.
É um quadro confuso. Mas muitos acadêmicos dizem que há outras formas de identificar preconceito implícito.
"O IAT não é o único paradigma em que observamos preconceitos não intencionais, então mesmo que achemos que o IAT é uma medição ruim do preconceito implícito, isso não significa que o fenômeno não seja real", diz Sophie Stammers, professora da Universidade de Birmingham.
Há estudos que mostram, por exemplo, que empregadores responderam mais positivamente a currículos com nomes masculinos do que femininos ou com nomes tipicamente brancos em relação a negros.
Enquanto isso, Sarah Jane Leslie, professora de Filosofia da Universidade de Princeton, fez algumas pesquisas fascinantes sobre por que algumas disciplinas acadêmicas - como matemática, física e sua própria área (filosofia) têm tão poucas mulheres.
A sua explicação é que algumas disciplinas - como a filosofia - enfatizam a necessidade de genialidade bruta para ser bem-sucedido, enquanto outras - como história - tendem a dar mais importância a dedicação e trabalho duro.
"Já que há estereótipos culturais que ligam mais homens que mulheres à genialidade bruta, previmos e de fato descobrimos que essas disciplinas que enfatizam a genialidade tinham muito menos mulheres", diz Leslie. Na cultura popular, é difícil pensar em uma equivalente a Sherlock Holmes, por exemplo, já que as deduções impressionantes do detetitve seriam um produto de sua genialidade singular.
Quão cedo em nossas vidas absorvemos esses estereótipos culturais? Sarah Jane Leslie conduziu um estudo fascinante com crianças.
Os pesquisadores comentam, com meninos e meninas, a respeito de uma pessoa muito inteligente sem dar nenhuma pista do gênero dela. Em seguida, quatro fotos são apresentadas, de dois homens e duas mulheres, e as crianças têm que adivinhar quem é a pessoa inteligente. Aos cinco anos, tanto meninos quanto meninas demonstraram uma tendência maior a escolher um homem do que uma mulher.
"Com seis anos, as garotas têm uma tendência bem menor em relação aos garotos a pensar que uma pessoa do seu gênero pode ser alguém tão, tão inteligente", diz Leslie.
A afirmação de que a maioria de nós temos vários preconceitos implícitos é parte de uma explosão de pesquisas sobre a irracionalidade nos nossos pensamentos, decisões e crenças. Nós não somos as criaturas lógicas e sistemáticas que imaginamos.
As descobertas do IAT, e de pesquisas em preconceito implícito em geral, são sem sombra de dúvidas importantes. Mas ainda há muitas coisas que não sabemos. Ainda precisamos de muitas pesquisas rigorosas sobre como preconceitos implícitos interagem com comportamentos e como eles podem ser superados.
Duas semanas após fazer o teste IAT pela primeira vez, eu o refiz. O resultado mais uma vez apontou para uma inclinação, mas dessa vez a favor de pessoas negras. Então fiquei ainda mais confuso. Ainda não sei se sou racista ou não.

Reportagem de David Edmonds
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/geral-40172331#orb-banner
foto:https://meu-cantinho2014.blogspot.com.br/2016/06/o-preconceito-contra-tatuagens.html

05/06/2017

Quatro maneiras como a pobreza pode afetar o cérebro

O nosso cérebro pode ser afetado pela pobreza?
Crianças que vivem em condições menos favorecidas apresentam, em geral, pior desempenho na escola.
A explicação pode estar na má alimentação, em situações de estresse no ambiente familiar ou na falta de atenção que recebem dos pais, entre outros fatores.
Um número cada vez maior de cientistas sugere, no entanto, que pode haver algo mais. Será que a pobreza pode mudar a nossa forma de pensar?
A BBC discutiu o tema a partir de quatro perspectivas com diferentes especialistas.

1. Sobrecarga mental

"Peça a um grupo de pessoas que memorize uma série de sete dígitos. Conseguem se lembrar da sequência 7, 4, 2, 6, 2, 4, 9?", propõe Eldar Shafir, professor de ciência comportamental e políticas públicas da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.
"Enquanto você guarda os números em sua memória de curto prazo, tentando não esquecer, sua mente está literalmente cheia. Você tem menos espaço cognitivo para outras coisas", explica.
Grande parte do trabalho desenvolvido por Shafir sugere que viver em situação de pobreza, tendo que fazer malabarismo com os poucos recursos que se tem e constantemente preocupado em como pagar as contas no fim do mês, tem efeito semelhante a guardar sete dígitos na cabeça o tempo todo.
"Isso faz com que você se esqueça de outras coisas, você fica com uma atenção limitada", explica.
Para provar a ligação direta entre a pobreza e o funcionamento do cérebro, o professor realizou vários experimentos.
Em um deles, disse tanto a pessoas menos favorecidas quanto em boa situação de vida o que teriam que fazer para consertar o carro.
A alguns informou que o reparo custaria US$ 150 e a outros que ultrapassaria US$ 1.500, independentemente do status social.
Em seguida, os submeteu a uma série de testes cognitivos.
Ao analisar os resultados, Shafir observou que os ricos tiveram desempenho semelhante, independentemente do valor que tiveram que pagar.
Já os mais pobres tiveram melhor desempenho quando a conta era menor.
A diferença chegou a ser de 12 ou 13 pontos de quociente de inteligência (QI).
"É um número muito significativo, que pode fazer a diferença entre estar dentro da média ou ser superdotado, por exemplo".
O experimento de Shafir sugere que a inteligência pode ser afetada a curto prazo pela pobreza.
Mas podemos dizer que a pobreza provoca alterações cerebrais a longo prazo?

2. Mal funcionamento geral

"Adoro interagir com pessoas mais velhas", diz à BBC Adina Zeki al Hazzuri, professora da Universidade de Miami que investiga o impacto da sociedade sobre a nossa saúde.
Hazzuri pesquisa o envelhecimento cerebral. Ela acaba de concluir um estudo de acompanhamento de 3.500 adultos que tinham entre 18 e 30 anos em 1985.
Por duas décadas, os participantes da pesquisa informaram suas rendas.
"Queríamos medir a influência de um rendimento baixo no funcionamento do cérebro a longo prazo", explica.
As pessoas foram submetidas a três testes confiáveis ​​para detectar envelhecimento cognitivo.
"Constatamos que pessoas que viveram em situação de pobreza o tempo todo durante esses 20 anos tiveram resultados muito piores do que aquelas que nunca passaram por essa experiência", diz.
Hazzuri admite que é difícil estabelecer o que acontece primeiro: se o cérebro não funciona bem e, em seguida, fica-se mais pobre ou o inverso.
Para tirar essa dúvida, os pesquisadores fizeram outra análise tomando como base uma amostra só de pessoas com alto nível educacional e que estavam saudáveis ​​no início do estudo.
"A associação entre a pobreza e a função cognitiva se manteve", explica a professora. "Eu diria que a pobreza muda, sem dúvida, a forma como pensamos."

3. Freio ao desenvolvimento

E o cérebro das crianças?
"Corta o coração ver o impacto que a pobreza tem em uma criança", lamenta Katie McLaughlin, professora de psicologia na Universidade de Washington.
McLaughlin é especialista no estudo de crianças em seus primeiros anos de vida, quando o cérebro apresenta um desenvolvimento maior.
Ela concentrou parte de seu trabalho em orfanatos na Romênia, onde a situação das crianças era devastadora.
"Se pudermos entender como essa forma extrema de pobreza afeta o desenvolvimento do cérebro, talvez possamos aprender algo sobre o que acontece no cérebro de crianças que crescem na pobreza", diz.
Em sua pesquisa, McLaughlin observou como os cérebros de crianças que vivem em condições de vida precária são debilitados, especialmente em áreas que processam a linguagem complexa.
"Os circuitos neurais e as conexões projetadas para processar a informação, se não forem utilizados, desaparecem", explica. "Se isso acontecer de forma contínua e em larga escala, contribui para um estreitamento do córtex".
McLaughlin acrescenta que o enfraquecimento da massa cinzenta externa do cérebro de crianças de orfanatos da Romênia também foi observado em crianças de áreas pobres dos Estados Unidos.
A pesquisadora acredita que os cérebros das crianças romenas foram prejudicados por não receberem estímulos suficientes - talvez não se tenha conversado ou brincado com elas o bastante.
E, de certa forma, ela afirma que o mesmo deve ter acontecido com os jovens americanos em bolsões de pobreza.
A especialista reconhece, no entanto, que não há como garantir com certeza que haja uma relação de causa-efeito entre a pobreza e a deterioração do cérebro.

4. Existe uma evidência clara?

"Acho que há cada vez mais evidências para estabelecer a relação entre pobreza e mudanças cerebrais, mas é um campo de estudo relativamente recente ", diz Charles Nelson, professor de pediatria e neurociência da Universidade de Harvard.
Mas alguém já demonstrou que a pobreza causa mudanças no cérebro das pessoas, ou simplesmente se associa a pobreza a essas mudanças?
"O simples fato de não ganhar uma certa quantia de dinheiro não causa nada", diz Nelson. "É o que está relacionado à ausência de uma certa quantidade de dinheiro que parece causar (danos). Por exemplo, a falta de comida ou o fato de não ter acesso a um bom sistema de saúde ou o estresse elevado na família que pode levar à falta de cuidados".
Não há dúvida de que está crescendo o interesse da ciência em decifrar a relação entre a pobreza e o cérebro, mas já sabíamos que a pobreza é ruim para a nossa saúde. Qual seria então a novidade?
"As ferramentas (de pesquisa) estão mais sofisticadas e nos permitem avaliar o cérebro, algo que não se podia fazer há 10 anos", diz Nelson.
E mesmo que as conclusões sejam parecidas ao que notávamos empiricamente, o estudo é válido para chamar a atenção ao tema.
"A bonitas imagens do cérebro parecem ter mais impacto do que imagens de crianças famintas. Acho que as pessoas estão vendo que há um preço biológico a ser pago por crescer na pobreza", conclui Nelson.
Para finalizar, você lembra da sequência de sete dígitos?

fonte:http://www.bbc.com/portuguese/geral-40136177#orb-banner
foto:http://19duilio47.blogspot.com.br/2014/05/pobreza-miseria-e-fome.html