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30/06/2017

O curso que tenta ensinar homens a não agredirem mais mulheres

Uma sala de aula onde os alunos são todos - e somente - homens. Brancos, negros, jovens, idosos, de todas as classes sociais, eles formam um grupo heterogêneo e cheio de diferenças, mas carregam consigo uma característica em comum: todos estão ali por terem cometido crimes de violência contra a mulher.
O caso de João* aconteceu no último dia 25 de dezembro, no Natal. Uma discussão com a mulher por uma foto apagada de um celular motivou uma briga que fugiu do controle. Entre xingamentos e insultos, ele a empurrou na cama, deu tapas e quebrou o espelho, até ela gritar por socorro e o filho chamar a polícia.
Aos 27 anos, Pedro* nunca teve um perfil violento, segundo a mulher, mas um dia também a agrediu por ciúme - uma raiva que não conseguiu conter no momento, como ele diz.
Já separados, os dois viviam na mesma casa por causa dos filhos, e quando ela chegou mais tarde do trabalho um dia ele resolveu tirar satisfação. Foi de "vagabunda' para baixo, com outros xingamentos que ele mesmo descreve como "impublicáveis" - mas não parou por aí.
"Com essa mão aqui eu dei três tapas na orelha dela que fizeram sangrar. Dei chute no útero, acho que no joelho também. Agredi, sim, não vou mentir", disse à BBC Brasil. Tudo isso na frente dos filhos de quatro anos e dois anos.
Rubens* partiu para cima da filha. Com 60 anos de idade - e um corpo todo de fisiculturista de vidrado em academia -, ele teve seus desentendimentos com a jovem de 18 anos.
"Eu a repreendia, controlava muito horário dela sair e chegar", conta. Um dia, avançou para a agressão e, quando a mãe, que sofre de câncer e está em tratamento, entrou na frente para defender a menina, acabou apanhando também. As duas o denunciaram.
Esses três homens agora estão sendo processados com base na lei Maria da Penha e viraram colegas de sala no curso "Tempo de Despertar", promovido pelo Ministério Público de São Paulo com o objetivo de reduzir a reincidência de casos de violência contra a mulher.
"É uma forma de prevenir a violência contra a mulher. Percebi que os casos de reincidência de violência doméstica eram muito altos, em torno de 65%. Buscando projetos internacionais de sucesso, consegui achar dois que trabalhavam com o homem, com a desconstrução do machismo, da masculinidade", explicou à reportagem a promotora e criadora do curso, Gabriela Manssur.
"A pessoa mais beneficiada com esse curso é a mulher. Nas três edições (do curso) que fizemos, tivemos somente um homem que voltou a cometer violência. Ou seja, reduzimos a reincidência para praticamente zero. Portanto, se temos 17 homens aqui, vamos ter menos 17 casos de violência contra a mulher no Ministério Público ano que vem", afirmou.
"O que é melhor: não é só o processo, dentro do processo tem uma vida, uma família que sofre, uma vítima que sofre. Então são menos 17 vítimas sofrendo de violência contra a mulher."
O curso é composto por oito aulas que, em geral, são realizadas a cada duas semanas. Aborda temas relacionados a gênero, direitos das mulheres, lei Maria da Penha, masculinidade, sexualidade e DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), álcool e drogas, paternidade e afetividade, entre outros.
Participam da iniciativa homens denunciados por violência doméstica e sob investigação, cumprindo medida protetiva e/ou aguardando julgamento. O comparecimento é obrigatório e pode reduzir eventuais penas em caso de condenação.
A BBC Brasil acompanhou três dias de curso e conversou com organizadores, participantes e mulheres vítimas de violência cometida por eles.

Chegada

Quem entrasse desavisado naquela sala no fórum regional da Penha (zona leste de São Paulo) dificilmente entenderia quem eram aqueles homens e o que faziam ali.
Um grupo que reunia jovens de 20 e poucos anos com óculos Rayban escorados na testa; idosos de cabelos brancos; brancos, ruivos, negros, pardos, barbudos, com dreads no cabelo; homens escolarizados, com diploma universitário; ou que mal haviam terminado o colégio; homens fortes, altos, musculosos; outros franzinos, miúdos.
"Não existe perfil do agressor. É aquele homem, aquele jovem, aquele idoso, que não respeita os direitos das mulheres. São homens que não entendem que as mulheres têm os mesmos direitos que eles, que foram criados no reflexo de uma sociedade machista de forma a entender que a mulher tem que servi-lo, que a mulher tem que ser controlada, que a mulher que sai com roupa curta é vadia, etc", afirma Manssur.
E, logo no primeiro dia de curso, já era possível perceber um sentimento em comum: a revolta por estarem ali "sem terem cometido crime nenhum".
"Eles chegam aqui revoltados. Sem entender por que estão ali. Eles falam: 'Eu não sou criminoso, o que eu estou fazendo aqui?'. Não entendem por que as mulheres estão querendo tantas coisas, por que elas querem se igualar aos homens. Xingam até a Maria da Penha", conta Sergio Barbosa, um dos gestores do curso.
O primeiro trabalho é de conscientização sobre os direitos das mulheres, o feminismo e a masculinidade. Nas aulas, especialistas convidados pelos organizadores falam sobre mudanças da sociedade e conquistas recentes das mulheres, sobre a importância de combater a ideia de que "homem tem que ser duro" ou de que "homem não pode chorar" e tentam chamar a atenção para as razões dos erros dos participantes.
"Cheguei aqui e achava que jamais tinha sido agressivo, que nunca tinha sido agressor. Não entendia o que estava fazendo aqui. comecei a entender e aprender coisas que eu nunca tinha ouvido na vida, que existem vários tipos de agressão, que agressão verbal também é violência. Aí no primeiro encontro já vi que eu estava errado", relatou João.

Reflexões

Além das palestras, os homens são reunidos em grupos de reflexão onde debatem como podem melhorar suas atitudes. Em um deles, em que o assunto era autocontrole, a reportagem acompanhou o momento em que a conversa passou a tratar das "roupas que as mulheres vestem".
"Minha mulher pode vestir o que quiser. Eu só aviso para ela: 'Você quer sair assim? Você sabe como os homens vão olhar'. Mas eu respeito a escolha dela", disse um deles. O outro reclamou do batom escuro e vermelho que a esposa usava - semelhante ao da repórter diante dele. "Não gosto. Acho ridículo", disse com veemência.
Sergio Barbosa, que monitorava o grupo, imediatamente tentava direcionar o pensamento deles de outra forma. "Mas qual é o problema do batom? E ela não pode usar?"
Um dos acusados também chegou a transparecer uma insatisfação por estar respondendo pelo crime. "No meu caso, foi só (violência) verbal, ela não precisava ter colocado na lei Maria da Penha". Ao que Barbosa rebatia: "Mas agressão verbal também é violência. Quando alguém te xinga, te rebaixa, te humilha, você gosta? Como você se sente?"
"Nós damos um panorama sobre o que é esperado da mulher na sociedade, como são colocados os direitos das mulheres na Constituição formalmente e como é isso na prática, mostrando o quanto a mulher sofre pra ter os mesmos direitos que os homens", explicou a promotora.
"Eu sempre pergunto: onde é o lugar da mulher? Eles respondem: onde ela quiser. A mulher pode trabalhar? Pode. Pode ser promotora? Pode. E eu sei que tem casos aqui que a mulher apanhou porque foi trabalhar ou foi estudar."
Além de propor a reflexão sobre a questão de gênero, o curso também traz profissionais da Justiça, para tirar dúvidas dos acusados sobre as implicações da lei Maria da Penha, e profissionais da saúde para orientá-los sobre o vício em álcool e drogas - muitos sofrem desse problema - e sobre DSTs.

Mudanças

No penúltimo encontro do curso, era possível perceber outra semelhança entre todos os homens que estavam ali. Se na primeira participação eles se sentiam revoltados, sem entender o motivo de estarem ali, neste a sensação era de aprendizado.
"A principal mudança deles foi falar mais de si mesmo como responsável pelo fato que aconteceu, e não ficar mais delegando a culpa à companheira. Eles perceberam que o comportamento machista os levou a essa situação", observou Sergio Barbosa.
Rubens ainda se vê com dificuldades de aceitar essas "novas regras" da sociedade que aprendeu no curso. Mas reconhece seu erro.
"Eu tenho 60 anos, é muito difícil mudar (o pensamento). Talvez eu tenha que manter minha máscara e fingir que está tudo bem. É difícil esquecer meus valores, tudo que aprendi. Mas tenho certeza que mudei", disse na reflexão com os companheiros de grupo.
"Eles mostraram para mim que de graça não foi, algo eu fiz. E a partir desse dia comecei a refletir que eu não era tao bom quanto achava que fosse. Se você fica preso aos paradigmas antigos, você se torna um opressor. Um dia a gente (ele e a filha) vai se aproximar, e eu penso que serei uma pessoa mais compreensiva, melhor. Ficar preso a esses paradigmas não leva a nada."
A esposa de João tem sentido na prática as mudanças. Os dois ficaram separados por quatro meses após a agressão dele, mas se reaproximaram e acabaram reatando o relacionamento. "Ele mudou bastante. Na hora que vai ficar nervoso, ele pensa em outra coisa e acalma. Mudou a maneira de pensar. Está mais controlado, não é tão ciumento", contou ela à BBC Brasil.
Já no caso de Pedro, o casal prefere se manter separado. Mas a relação dos dois é outra a partir de agora. "Mudou completamente. Até mesmo a relação com a minha família, ele não falava com a minha mãe, hoje ele vai lá, fala com a minha família. Realmente houve uma modificação, não sei se é duradoura", pontuou a esposa.
"A gente vê até pela forma de se comunicar. Ele senta, conversa, não tem aquela ignorância de se sentir superior, agora é de igual pra igual."
Pedro não esconde a vergonha pelo que fez e diz que "não se perdoa". Mas agora se compromete a transmitir aos filhos tudo o que tem aprendido com a situação.
"Se eu tivesse a cabeça que tenho hoje na época, eu não teria feito isso. O que eu fiz foi um acidente, eu nunca mais vou fazer e é algo que eu me envergonho, me arrependo, nao consigo me perdoar. Converso muito com meu filho, explico que ele não pode bater em mulher, que não pode bater na irmã dele, tento consertar a c***** que fiz", disse.
"Acredito que tinha que ter um pouco disso em todas as escolas do Brasil pra essas crianças e adolescentes. Isso iria eliminar muito o tipo de homem que vira agressor, porque ele iria entender a importância da mulher na sociedade."
* Os nomes são fictícios - os personagens conversaram com a reportagem sob a condição de não serem identificados.

Reportagem de Renata Mendonça
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40389536#orb-banner
foto:http://abril7.blogspot.com.br/2014/11/violencia-contra-la-mujer.html

23/06/2017

Como Roraima se tornou o Estado onde as mulheres mais morrem no Brasil



“Um dia eu vou te matar. Pode passar 10, 15 anos, mas eu ainda vou te matar”. Durante mais de uma década, a professora T. C., de 39 anos, viveu sofrendo violência física e verbal e ameaças como essa do ex-marido. “Ele também me chutava e agredia, mas a maior agressão sempre foi a violência psicológica e a perseguição”, conta. As agressões tiveram início em 2005, quando o filho do casal nasceu e eles iniciaram os processos para adotar uma segunda criança. “Ele [o ex-marido] começou a beber e foi ficando cada vez mais violento”, conta T., que suportou calada as agressões até concluído o processo de adoção da filha, em 2009. Assim que isso aconteceu, ela se separou do marido. E aí, passou a ser perseguida e as agressões de casa extrapolaram para as ruas e até o ambiente de trabalho. “Ele vinha na minha escola, armado”, conta. “Me ameaçava no telefone, batendo o revólver no telefone para eu escutar, ia atrás de mim em todos os lugares onde eu estava”.
Foi somente em 2011 que T. criou coragem para ir até uma delegacia e prestar queixa contra toda a violência que vinha sofrendo. Moradora de Boa Vista, capital de Roraima, ela buscou então a delegacia da mulher da cidade. Chegando lá, virou outra estatística: a das mulheres, vítimas de violência, e mal atendidas mesmo no local que deveria ser especializado nesse tipo de crime. “Na delegacia da mulher me perguntaram o que eu tinha feito para gerar aquele comportamento nele”, conta. “Você é culpado pela atitude do outro como se você tivesse provocado aquela situação”. De lá para cá, ela diz ter registrado mais de 15 boletins de ocorrência contra o ex-marido por violência e ameaças.
O caso da professora, que conversou com a reportagem por telefone sob anonimato, é um dos 31 utilizados para ilustrar o triste cenário traçado pelo relatório “Um dia vou te matar”: impunidade em casos de violência doméstica no Estado de Roraima, lançado nesta quarta-feira pela ONG Human Rights Watch. Segundo o levantamento, Roraima é o Estado com as maiores taxas de homicídio de mulheres no Brasil, registrando um aumento de 139% entre 2010 e 2015. Há dois anos, a taxa chegou a 11,4 homicídios para cada 100.000 mulheres em Roraima. A média nacional é de 4,4, o que, segundo a ONG, já é uma das mais elevadas do mundo.
O relatório aponta “falhas em todas as fases de resposta do Estado à violência doméstica” como um dos fatores responsáveis pelo crescente registro de agressões contra a mulher ali. Na prática, isso significa, por exemplo, falta de preparo no atendimento das vítimas, ausência de delegacias da mulher que funcionem 24 horas, falta de locais de acolhimento das vítimas. Segundo a organização, dos 8.400 boletins de ocorrência de violência doméstica acumulados em Boa Vista, a Polícia Civil não conduziu a investigação de nenhum caso. Muitos são arquivados e os crimes acabam prescrevendo. A Polícia Civil, por meio de nota, informou que as mulheres são acolhidas nas delegacias e que por isso, "têm perdido o medo de denunciar". E que todas as unidades policiais são preparadas para receber vítimas de violência doméstica e prestar o apoio necessário, mas não comentou a falta de investigação dos casos.
O caso da professora é o retrato fiel da realidade do Estado. Nos últimos anos, o recurso da ameaça foi a campeã de queixas dentre os Boletins de Ocorrência registrados em Roraima, segundo dados fornecidos à reportagem pelo Governo. Em segundo lugar, aparece lesão corporal. No ano passado, 4.833 boletins de violência doméstica foram registrados na capital. Neste ano, já são 499.
Jeane Xaud, defensora pública estadual do juizado de violência doméstica, aponta algumas características do Estado que podem ser agravantes deste cenário. “Uma peculiaridade nossa é ser rota de tráfico internacional de drogas e de mulheres”, diz. “Trata-se de um território enorme, mas com pouca ocupação, o que torna as fronteiras vulneráveis. Além de ser um Estado pequeno, com pouco aparato estrutural”. Com uma população de pouco menos de 500.000 habitantes, Roraima é o Estado menos populoso do país.
"Além disso", segue a defensora pública, "temos muito problema com alcoolismo e com o vício na pasta da cocaína", diz. "Um volume expressivo de agressores com quem trabalhamos tem algum problema de drogadição ou alcoolismo". Apesar de todas as peculiaridades, a defensora alerta que faltam dados qualitativos que apontem se de fato a violência aumentou no Estado, ou se as mulheres estão procurando mais pelas delegacias.

Ochenta

Jeane Xaud alerta que a chegada de imigrantes venezuelanas ao Brasil por meio da fronteira com Roraima pode aumentar ainda mais a vulnerabilidade das mulheres naquele Estado. “Vamos vivenciar uma nova era dessa violência com a questão da migração das venezuelanas. Muitas mulheres estão indo para a prostituição”, diz. “Mulheres, meninas e indígenas. Ou seja, é a vulnerabilidade dentro da vulnerabilidade”. Para ela, a "violência invisível", essa que pode estar sendo praticada com as mulheres imigrantes e indígenas e que não são registradas nas delegacias, são ainda mais preocupantes. “Aqui, as venezuelanas que foram para a prostituição têm até apelido: são chamadas de ochenta(oitenta, em espanhol), porque elas cobram 80 reais pelo programa”, conta. “Isso deve impactar negativamente nesses números. Não tenho um olhar muito positivo”.
Pensando nos altos índices de violência contra a mulher em todo o país, a então presidenta Dilma Rousseff criou em 2013, por meio da hoje extinta Secretaria de Políticas para as Mulheres, a Casa da Mulher Brasileira. O local, que deveria existir em todos os Estados, serviria para acolhimento, apoio psicossocial, delegacia 24 horas, defensoria pública e alojamento, dentre outras funções. A unidade de Boa Vista foi prometida para ser inaugurada em meados do ano passado. Mas, embora a cidade tenha uma prefeita mulher - Teresa Surita (PMDB) administra a cidade pela quinta vez - e o Estado tenha uma governadora - Suely Campos (PP) - a Casa da Mulher Brasileira não foi inaugurada até hoje.
A defensora Jeane Xaud, que também faz parte do grupo gestor da Casa, afirma que falta dedicação para que o local seja inaugurado. "É um desprestígio do projeto", diz. Até o momento, quatro unidades foram abertas em todo o país. A de Boa Vista, que começou a ser construída em 2015, seria a primeira inaugurada da região norte. Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública de Roraima diz que a Casa da Mulher Brasileira, quando inaugurada, será "importante instrumento" no enfrentamento à violência doméstica, e afirma que a nova previsão de inauguração é julho deste ano.
O Governo estadual afirma que a Ronda Maria da Penha - um serviço com duas viaturas e 20 policiais que atuam "exclusivamente" no atendimento de casos de violência doméstica em Boa Vista - é outro programa utilizado neste enfrentamento. Em 2015, foram registrados 6.370 ocorrências de violência contra a mulher na capital. No ano passado, foram 5.401, redução que o Governo atribui à Ronda Maria da Penha. Segundo as autoridades, todos os policiais que atuam na Ronda recebem capacitação específica.


Reportagem de Marina Rossi

foto:http://www.animalpolitico.com/blogueros-salir-de-dudas/2014/12/16/como-se-cuentan-feminicidios-en-mexico/

14/06/2017

“Tortura de jovem tatuado na testa foi feita para ser consumida nas redes”


“Eu sou ladrão e vacilão”. As cinco palavras, tatuadas à força na testa de um jovem de 17 anos suspeito de tentar roubar uma bicicleta em São Bernardo do Campo, se espalharam nas redes sociais e grupos de WhatsApp. Mesmo em um país que lidera o ranking mundial de linchamentos e homicídios no mundo, acostumado às cenas de violência e a ver a população fazer o que considera ser justiça com as próprias mãos, a tortura do adolescente provocou repulsa –  mas também admiração. Para alguns, o tatuador Maycon Wesley Carvalho dos Reis e o vizinho Ronildo Moreira de Araújo, que registrou o crime em vídeo, são exemplos de “cidadãos de bem cansados de sofrer nas mãos da bandidagem”. Os dois foram presos preventivamente pelo polícia. Para Ariadne Natal, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, este tipo de ação parte do pressuposto de que o Estado “é ausente e não pune o suficiente”. “Existe uma percepção de impunidade, de que há muito crime e o Estado não está punindo o bastante. Mas quando você analisa os números, é precisamente o contrário: as cadeias estão lotadas”, afirma.
Após o crime, o coletivo Afroguerrilha organizou uma arrecadação virtual para custear a remoção da tatuagem feita no jovem bem como um tratamento para ele, que seria dependente químico. Até esta quarta-feira já haviam levantado mais de 32.000 reais, o dobro da meta. Posteriormente a Prefeitura de São Bernardo anunciou que iria custear a cirurgia para retirar a tatuagem. Nas redes sociais grupos conservadores indignados com a “vaquinha para ajudar ladrão”, reagiram, e criaram um fundo para custear a defesa dos dois torturadores – arrecadando até o momento pouco mais de 6.000. Ironicamente, em 2011 o pedreiro Ronildo Moreira de Araújo, que gravou a tortura do adolescente, havia sido condenado pelo roubo da bolsa de uma mulher em 2008.
Pergunta. O que motiva este tipo de ação?
Resposta. As pessoas têm uma sensação de insegurança muito grande, é um problema real no Brasil. Elas sofrem, têm medo, são vítimas de crimes ou conhecem alguém que foi vítima, e esse sentimento não pode ser minimizado. Além disso, existe outra percepção na sociedade, que é a de impunidade. Isso faz com que em alguns momentos as pessoas queiram tomar para si o papel que é do Estado, e aplicar uma justiça bárbara. A lógica que alimenta essas ações é a de que, por exemplo, marcar aquele rapaz é uma forma eficiente de dissuadir novos crimes. A discussão não problematiza essa questão. Se eu prendo mais, a consequência é menos crime? Não. Nada aponta para isso, as cadeias estão sempre lotadas. É preciso se pensar outras formas de gastar esses recursos.
Se por um lado o sentimento de insegurança não pode ser ignorado, o problema é o que se faz com isso. Ser vítima de violência de qualquer tipo não dá a ninguém autorização para reproduzir com outros esse tipo de comportamento, mesmo que no calor do momento. Não é uma cultura viável. É preciso propor outra forma de resolução, a sociedade não pode tomar para si esse papel, isso é incompatível com a democracia.
P. Qual o papel das redes sociais nesse caso?
R. Os dois homens que torturaram o jovem de São Bernardo não queriam apenas torturar. Eles queriam humilhar publicamente, queriam fazer da ação uma vingança, para que aquilo não ficasse entre quatro paredes. Levaram para dentro de casa, que é um espaço privado, mas tornaram pública a tortura via a tatuagem, que tem a pretensão de ser permanente, ainda por cima num local de alta visibilidade, como a testa. E fizeram um vídeo. Este é um recurso superpoderoso para tornar aquilo um evento não só local. Na medida em que registram e compartilham, isso se torna uma performance para um público, a tortura do jovem foi feita para ser consumida, seja para a crítica ou para endossar a atitude deles. As redes sociais têm um papel muito importante na estratégia da agressão, ela é parte da estratégia dos torturadores.
P. A sociedade valida este tipo de violência?
R. Muito provavelmente eles pensaram que os espectadores daquela tortura concordariam com eles, e parte da sociedade considera este tipo de ação como sendo válida. Quando fizeram aquilo, e isso é uma marca também dos linchamentos, os torturadores tiveram uma percepção de que não estavam cometendo crime algum, tanto é que nem tentam esconder sua identidade no vídeo.
P. Existe uma questão socioeconômica por trás deste tipo de crime?
R. Existe uma percepção, principalmente nas periferias, que sofrem com a ausência de instituições fortes e uma menor presença do Estado, de que as pessoas precisam resolver seus próprios problemas, diferente dos bairros ricos, onde há um aparato de segurança que acaba “resolvendo” os problemas. A população mais abastada acaba terceirizando e privatizando seu aparato de segurança. Nos dois casos prevalece a ideia do cada um por si: "Ah, o Estado é ineficiente então cabe a cada um resolver seus problemas”.
P. Quais as semelhanças entre este caso de tortura e um linchamento?
R. Este não é um caso de linchamento, mas reverbera alguns dos problemas que já existem no país e apresenta inúmeros paralelos com o linchamento, que é um fenômeno antigo no Brasil, tem algumas centenas de anos. Em comum, por exemplo, está o desejo de fazer aquilo que eles consideram como sendo justiça por conta própria.
Reportagem de Gil Alessi
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/13/politica/1497374163_459335.html
foto:http://br.blastingnews.com/brasil/2017/06/tortura-justica-tatuagem-em-testa-de-suposto-ladrao-causa-polemica-001769161.html

06/06/2017

Fortaleza: O raio-X das mortes na capital mais perigosa do Brasil para adolescentes

Era noite de festa junina no Bom Jardim, bairro pobre da periferia de Fortaleza. Um rapaz loiro, que completaria 19 anos dali a quinze dias, saiu para encontrar os amigos na rua.
Filho de um professor de caratê e de uma atleta do mesmo esporte, não gostava de luta. Preferia futebol, e dias antes, num jogo com colegas de rua, driblara o valentão do bairro. Os colegas tiraram onda: "Perdeu desse loirinho, vai ganhar de quem?"
Mas o valentão não gostou da piada. Era dono de arma, chefe de gangue - onde já se viu ser driblado assim? No sábado, 20 de junho de 2015, o valentão e dois outros homens mataram o loirinho com um tiro que entrou pelo rosto e saiu pela nuca. "Até hoje não me conformo, nunca vou me conformar", contou a mãe do rapaz à BBC Brasil.
Enquanto o crime do Bom Jardim completa dois anos, Fortaleza repete um título sinistro: o de capital brasileira onde mais são assassinados adolescentes de 12 a 18 anos. Estudo divulgado nesta semana pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostra que Fortaleza é a capital com o maior IHA (Índice de Homicídios na Adolescência).
No Brasil, o IHA subiu de 2,8 em 2005 para 3,65 em 2014 (crescimento de 30%). Em Fortaleza, saltou de 2,35 em 2005 para 10,94 em 2014 - crescimento de 365%.
Com base nos dados de mortalidade do Sistema Único de Saúde, o índice estima, em cada grupo de mil adolescentes que completaram 12 anos, quantos não chegarão aos 19 anos, pois serão assassinados antes disso. Pela estimativa atual, 43 mil adolescentes devem morrer no Brasil até 2021 se as condições atuais forem mantidas.
O IHA foi criado em 2007 e resulta de parceria entre Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, Unicef, Laboratório de Análise da Violência (Lav-Uerj) e Observatório de Favelas.

Caleidoscópio do país

A mortandade de adolescentes em Fortaleza tem de ser entendida no contexto do que os especialistas chamam de "nordestinização" da epidemia de violência no país, com aumento de homicídios em toda a região. Entre as regiões brasileiras, o maior índice de homicídios de adolescentes está no Nordeste.
Dos dez Estados brasileiros com mais altos índices de assassinato na adolescência, oito são nordestinos - e o Ceará tem o IHA mais alto do país. Outro relatório divulgado nesta semana, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), contabilizou 59.080 homicídios no Brasil em 2015 e também destaca o alto número de casos no Nordeste.
Segundo especialistas consultados pela BBC Brasil, o aumento do número de homicídios na região está associado à urbanização desordenada e à reorganização dos mercados ilícitos no Brasil.
De tráfico de drogas a roubo de bancos, carros e cargas, as cidades nordestinas viveram a partir dos anos 2000 o que cidades como Rio e São Paulo conheceram a partir dos anos 1980 e 1990, com maior organização das quadrilhas e onipresença de armas de fogo.
O coordenador do Unicef para os Estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí, Rui Aguiar, disse à BBC Brasil que os rearranjos dessa migração criminosa se juntam a muitos anos de exclusão das populações mais pobres, empurradas para a periferia das grandes cidades e aglomeradas em bairros onde faltam saneamento, lazer, escola de qualidade e oportunidades de emprego.
"Essa é uma construção de pelo menos duas décadas de exclusão. São 20, 30 anos de políticas que não oferecem nada à população. Faltam políticas voltadas para a adolescência, e o panorama em Fortaleza é uma espécie de caleidoscópio do que acontece no resto do país", afirma.

Nos conflitos de território, mortes a 500 metros de casa

Em 2013, as mortes provocadas pelas chamadas causas externas (acidentes e violência) superaram todas as outras em Fortaleza. Em 2015, o governo do Ceará lançou o Pacto por um Ceará Pacífico, para tentar implementar políticas de redução de mortalidade.
No ano seguinte, surgiu o Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, uma parceria entre governo, Assembleia Legislativa, Unicef e entidades da sociedade civil.
Um dos primeiros projetos do comitê foi realizar uma pesquisa sobre as vítimas dos homicídios de 2015, ano em que 630 adolescentes de 12 a 18 anos foram mortos no Ceará, sendo 312 em Fortaleza. Os dados são da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social.
Os resultados estão no relatório Trajetórias Interrompidas, lançado na última segunda-feira na Assembleia Legislativa do Ceará. O levantamento mostra, para além dos números gerais de homicídios, como se constrói, na capital cearense e em mais seis cidades do Estado, a matança cotidiana de um grupo especialmente vulnerável, os adolescentes com menos de 19 anos.
A primeira descoberta foi geográfica: em Fortaleza, em metade dos casos investigados, os adolescentes foram assassinados a 500 metros de casa; 73%, no próprio bairro. De todas as mortes, 44% aconteceram em apenas 18 dos 119 bairros da capital, 3% da área da cidade.
O perigo tão perto de casa se explica: 54% dos homicídios investigados pelo comitê resultaram de conflitos de território, como são conhecidos os conflitos na própria comunidade, seja entre grupos de traficantes e outros criminosos, seja entre gangues, seja por vingança, crimes passionais ou desavenças pessoais - como o drible que resultou na morte do rapaz do Bom Jardim.
Pelos dados da pesquisa, 40% dos adolescentes mortos mantinham algum tipo de conflito no território em que viviam; 53% deles já haviam sofrido ameaças.
As chamadas "mortes por engano" - crimes por encomenda que acabam vitimando alguém que não era o alvo inicial- respondem por 14,38% dos assassinatos e têm se tornado cada vez mais comuns.
"Chamam morte por engano, como se aquela fosse a morte errada e houvesse a morte certa", indigna-se o educador Joaquim Araújo, que percorreu os bairros de Fortaleza para a pesquisa.
Numa das casas, numa viela entre os bairros de José Walter e Planalto Ayrton Senna, uma mãe contou que o filho de 17 anos fora morto não perto, mas na porta de casa, e até hoje não se sabe o motivo. Entre as suspeitas, os ciúmes do ex-marido da namorada do rapaz e a possibilidade de ele ter sido confundido com um primo, envolvido com roubo de cargas e ameaçado por rivais.
"Eu ouvi o tiro que matou meu filho", contou a mãe do rapaz aos pesquisadores do comitê, que ainda viram o buraco de bala na porta. Como ela, muitas mães falam dos tiros: 94% dos assassinatos foram cometidos com arma de fogo.
O coordenador da pesquisa, Tiago de Hollanda, disse que o levantamento tentou dar voz às famílias, pois muitas se sentiam pressionadas pelo fato de os filhos assassinados terem algum envolvimento com a criminalidade. Destaca que, diferentemente do que se especulava, dívidas por drogas foram citadas como causa de menos de 13% dos homicídios.
Coordenador do serviço de epidemiologia da Secretaria de Saúde de Fortaleza, Antonio Lima é especialista nas chamadas arboviroses, como dengue e zika. Acompanhou a pesquisa com um olhar médico e descobriu que os bairros com maior número de homicídios são os mesmos onde há mais sífilis, tuberculose e gravidez adolescente. Provou com números a superposição dos mapas de violência e de um sem-número de ausências - saúde, escola, emprego, lazer.
Pelos números da pesquisa, dos adolescentes mortos em Fortaleza, 55% eram filhos de mulheres que foram mães na adolescência; 64% tiveram amigos assassinados; 73% abandonaram a escola pelo menos seis meses antes da morte; 55% haviam experimentado algum tipo de droga (lícita ou ilícita) entre 10 e 15 anos; 73% sofreram violência policial anterior.
"Nesses assentamentos precários, áreas de altíssima densidade demográficas, as pessoas estão sujeitas a um conjunto de agravos. É muito difícil pensar em redução efetiva de violência sem mudar essas questões socioeconômicas. Porque, para a classe média, o que gera sensação de insegurança é o crime contra o patrimônio, que não é tão alto em Fortaleza. Mas essa juventude está morrendo", afirma Lima.
O relator do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, deputado Renato Roseno (PSOL-CE), destaca que, como ocorre no resto do país, os homicídios em Fortaleza atingem prioritariamente uma parcela específica da população.
"É um genocídio de jovens pobres, negros e do sexo masculino, num quadro de vulnerabilidade social em territórios mais pobres, junto com uma cultura de violência e a forte evasão escolar."

Impunidade e indiferença

O relatório traz várias recomendações, como garantir a proteção das famílias dos jovens, melhorar a qualidade de vida nesses bairros, com saúde, escola e oportunidades de emprego, investigar e punir os responsáveis pelos homicídios, capacitar a polícia para fazer abordagens adequadas e reduzir a violência policial.
Isso embora, diferentemente do que acontece em outras capitais, apenas 4% das mortes de adolescentes estejam relacionadas a conflitos com policiais e outros agentes da lei. Ao mesmo tempo, há casos de grande repercussão, como o da chacina de Messejana, em novembro de 2015, em que policiais militares foram denunciados pelas mortes de 11 pessoas (sete delas com menos de 18 anos).
A vice-governadora do Ceará, Izolda Cela, afirmou à BBC Brasil que o alto número de homicídios de adolescentes era um problema já evidenciado e motivou uma mobilização envolvendo vários segmentos da sociedade. Ela cita o Pacto por Ceará Pacífico como exemplo de política pública pensada para a questão.
A vice-governadora disse que o Estado tem investido em projetos relacionados à redução de homicídios, como ocupação dos territórios, busca ativa dos jovens de 15 a 17 anos que estão fora da escola, combate à evasão escolar e compromisso de punir os responsáveis pelas mortes. Afirmou, porém, que o combate à impunidade tem de se transformar em bandeira de todo o sistema judicial brasileiro.
Ao longo da pesquisa, foram analisados 1.215 casos de homicídios de adolescentes ocorridos em Fortaleza de 2011 a 2016. Só em 2,8% dos casos houve condenação dos responsáveis em primeira instância.
A equipe que percorreu os bairros de Fortaleza para localizar as famílias dos jovens assassinados também relata outra reação comum à pergunta sobre se haviam sido procurados por alguém do serviço público. "Muitas vezes ouvimos: vocês são os primeiros que aparecem aqui. Só houve indiferença", contou o educador Joaquim Araújo.
Para essas famílias, o sentimento de perda e saudade se misturou com o de revolta pela dor de crimes sem punição. A mãe do rapaz morto por causa de um drible no futebol disse à BBC Brasil, por exemplo, que o filho não tinha envolvimento com o crime.
"Ele não gostava de estudar, admito. Mas não fazia mal a ninguém." Depois da morte do filho, ela entrou em depressão. Evangélica e atleta, afastou-se de Deus e do caratê. Voltou há pouco tempo, quando retomou também o trabalho na confecção de roupas esportivas.
Diz ainda se lembrar dos tiros na rua, da gritaria, do rosto desfigurado do rapaz. Fez as pazes com a religião e está criando um neto, filho do filho assassinado. A saudade é companheira de todo dia: "Quando rezo pergunto a Deus qual o sentido de ter perdido meu filho".

Reportagem de Fernanda da Escóssia
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40140922#orb-banner
foto:https://tianguagora.blogspot.com.br/2016/09/motorista-e-esfaqueado-e-categoria-faz.html

04/06/2017

Há tolerância demais com extremismo no Reino Unido, diz premiê após ataque

A primeira-ministra britânica, Theresa May, pediu menos tolerância com o extremismo e cobrou dos líderes internaconais ações mais robustas contra o terrorismo em um pronunciamento após o ataque em Londres que deixou sete mortos e 48 feridos no sábado.
"Apesar de termos avançado de forma significativa nos últimos anos, ainda há - sejamos francos - tolerância demais com o extremismo no nosso país. Portanto, precisamos nos tornar muito mais robustos para identificá-lo e eliminá-lo em todo o setor público e em toda a sociedade. Isso exigirá algumas conversas difíceis, e muitas vezes embaraçosas. Mas todo o nosso país precisa se unir para combater esse extremismo, e precisamos viver nossas vidas não como um grupo de comunidades separadas e segregadas, mas verdadeiramente como um Reino Unido".
O pronunciamento foi feito após uma reunião com o comitê de emergência e está sendo considerado por analistas como uma "mudança de tom" no governo britânico.
Segundo o diretor editorial da BBC World News, Jamie Angus, "a declaração foi muito além de apenas uma atualização rotineira sobre o ataque. (May) falou sobre a internet, radicalização e revisão do antiterrorismo".

Nova onda

A primeira ministra ressaltou que o incidente em Londres é o terceiro ataque terrorista contra o Reino Unido em apenas três meses, depois do atropelamento próximo ao Parlamento e a explosão em Manchester. Além disso, ela revelou que os serviços de inteligência também conseguiram desmantelar outros cinco planos de atentados neste período.
Para Theresa May, os ataques recentes não estariam conectados, mas mostrariam uma nova "onda" na qual "terrorismo gera terrorismo".
"Enfrentamos uma nova tendência na ameaça que sofremos, na medida em que terrorismo gera terrorismo e os responsáveis são inspirados a atacar, não apenas com planos bem construídos depois de anos de planejamento e treinamento, e também não somente como lobos solitários radicalizados online, mas copaiando uns aos outros".
"Não podemos e não devemos simplesmente fazer de conta que as coisas podem continuar como estão".
Como solução de combate a essa nova tendência, May sugere quatro frentes de ação: o combate ao terrorismo e ao extremismo online, a necessidade de derrotar a ideologia do extremismo islâmico que "perverte o Islã e ameaça os valores ocidentais" e eliminar o grupo autodenominado Estado Islâmico no Iraque e na Síria, mas também no Reino Unido. A premiê defendeu ainda uma revisão da política antiterrorista britânica para torná-la mais robusta.
"Precisamos ser mais robustos para identificar o terrorismo no setor privado e na nossa sociedade", disse ela.
"Desde a emergência da ameaça do terrorismo islâmico nosso país fez avanços significativos em desmantelar ataques e proteger a população, mas é tempo de dizer que já basta. Todos devem seguir suas vidas como fariam normalmente, nossa sociedade deve continuar vivendo de acordo com os nossos valores. Mas as coisas precisam mudar na forma como lidamos com o terrorismo e o extremismo".

Internet

A premiê foi incisiva em cobrar novas ações, inclusive na internet, contra o que ela considera uma "nova onda de terrorismo".
Segundo ela, o Reino Unido precisa trabalhar em conjunto com outros líderes internacionais para bloquear e fechar as áreas da internet usadas pelos terroristas para se comunicar.
Ela defendeu um acordo internacional para "regular o ciberespaço" onde os extremistas teriam "locais seguros" para planejar, se comunicar e atuar.
"Não podemos permitir que essa ideologia tenha o espaço seguro que precisa para se proliferar. E é exatamente esse espaço que a internet e as grandes empresas que fornecem serviços para internet proporcionam. E precisamos trabalhar domesticamente para reduzir o risco do extremismo online".

Eleição

A premiê afirmou ainda que as eleições gerais do Reino Unido, marcadas para o próximo dia 08 de junho, seguirão como previsto.
Apesar disso, ela declarou suspensa a campanha política para este domingo.
"Como ato de respeito, os dois partidos políticos suspenderam as campanhas nacionais no dia de hoje. Mas a violência não pode atrapalhar o processo democrático, portanto, essas campanhas serão completamente retomadas amanhã e as eleições gerais seguirão como planejado na quinta-feira".
May assumiu em julho do ano passado ainda na esteira da renúncia de David Cameron, que tinha convocado - e perdido - o plebiscito que decidiu pelo Brexit.
Os conservadores disputarão sua primeira eleição sob o comando de May - que, como líder, assume automaticamente o cargo de premiê no caso de uma vitória de seu partido. O candidato da oposição é o líder do partido Trabalhista, Jeremy Corbyn.

fonte:http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40150418#orb-banner
foto:https://www.pressreader.com/uk/the-press-and-journal-inverness/20170324/281724089377505