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30/06/2017

O curso que tenta ensinar homens a não agredirem mais mulheres

Uma sala de aula onde os alunos são todos - e somente - homens. Brancos, negros, jovens, idosos, de todas as classes sociais, eles formam um grupo heterogêneo e cheio de diferenças, mas carregam consigo uma característica em comum: todos estão ali por terem cometido crimes de violência contra a mulher.
O caso de João* aconteceu no último dia 25 de dezembro, no Natal. Uma discussão com a mulher por uma foto apagada de um celular motivou uma briga que fugiu do controle. Entre xingamentos e insultos, ele a empurrou na cama, deu tapas e quebrou o espelho, até ela gritar por socorro e o filho chamar a polícia.
Aos 27 anos, Pedro* nunca teve um perfil violento, segundo a mulher, mas um dia também a agrediu por ciúme - uma raiva que não conseguiu conter no momento, como ele diz.
Já separados, os dois viviam na mesma casa por causa dos filhos, e quando ela chegou mais tarde do trabalho um dia ele resolveu tirar satisfação. Foi de "vagabunda' para baixo, com outros xingamentos que ele mesmo descreve como "impublicáveis" - mas não parou por aí.
"Com essa mão aqui eu dei três tapas na orelha dela que fizeram sangrar. Dei chute no útero, acho que no joelho também. Agredi, sim, não vou mentir", disse à BBC Brasil. Tudo isso na frente dos filhos de quatro anos e dois anos.
Rubens* partiu para cima da filha. Com 60 anos de idade - e um corpo todo de fisiculturista de vidrado em academia -, ele teve seus desentendimentos com a jovem de 18 anos.
"Eu a repreendia, controlava muito horário dela sair e chegar", conta. Um dia, avançou para a agressão e, quando a mãe, que sofre de câncer e está em tratamento, entrou na frente para defender a menina, acabou apanhando também. As duas o denunciaram.
Esses três homens agora estão sendo processados com base na lei Maria da Penha e viraram colegas de sala no curso "Tempo de Despertar", promovido pelo Ministério Público de São Paulo com o objetivo de reduzir a reincidência de casos de violência contra a mulher.
"É uma forma de prevenir a violência contra a mulher. Percebi que os casos de reincidência de violência doméstica eram muito altos, em torno de 65%. Buscando projetos internacionais de sucesso, consegui achar dois que trabalhavam com o homem, com a desconstrução do machismo, da masculinidade", explicou à reportagem a promotora e criadora do curso, Gabriela Manssur.
"A pessoa mais beneficiada com esse curso é a mulher. Nas três edições (do curso) que fizemos, tivemos somente um homem que voltou a cometer violência. Ou seja, reduzimos a reincidência para praticamente zero. Portanto, se temos 17 homens aqui, vamos ter menos 17 casos de violência contra a mulher no Ministério Público ano que vem", afirmou.
"O que é melhor: não é só o processo, dentro do processo tem uma vida, uma família que sofre, uma vítima que sofre. Então são menos 17 vítimas sofrendo de violência contra a mulher."
O curso é composto por oito aulas que, em geral, são realizadas a cada duas semanas. Aborda temas relacionados a gênero, direitos das mulheres, lei Maria da Penha, masculinidade, sexualidade e DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), álcool e drogas, paternidade e afetividade, entre outros.
Participam da iniciativa homens denunciados por violência doméstica e sob investigação, cumprindo medida protetiva e/ou aguardando julgamento. O comparecimento é obrigatório e pode reduzir eventuais penas em caso de condenação.
A BBC Brasil acompanhou três dias de curso e conversou com organizadores, participantes e mulheres vítimas de violência cometida por eles.

Chegada

Quem entrasse desavisado naquela sala no fórum regional da Penha (zona leste de São Paulo) dificilmente entenderia quem eram aqueles homens e o que faziam ali.
Um grupo que reunia jovens de 20 e poucos anos com óculos Rayban escorados na testa; idosos de cabelos brancos; brancos, ruivos, negros, pardos, barbudos, com dreads no cabelo; homens escolarizados, com diploma universitário; ou que mal haviam terminado o colégio; homens fortes, altos, musculosos; outros franzinos, miúdos.
"Não existe perfil do agressor. É aquele homem, aquele jovem, aquele idoso, que não respeita os direitos das mulheres. São homens que não entendem que as mulheres têm os mesmos direitos que eles, que foram criados no reflexo de uma sociedade machista de forma a entender que a mulher tem que servi-lo, que a mulher tem que ser controlada, que a mulher que sai com roupa curta é vadia, etc", afirma Manssur.
E, logo no primeiro dia de curso, já era possível perceber um sentimento em comum: a revolta por estarem ali "sem terem cometido crime nenhum".
"Eles chegam aqui revoltados. Sem entender por que estão ali. Eles falam: 'Eu não sou criminoso, o que eu estou fazendo aqui?'. Não entendem por que as mulheres estão querendo tantas coisas, por que elas querem se igualar aos homens. Xingam até a Maria da Penha", conta Sergio Barbosa, um dos gestores do curso.
O primeiro trabalho é de conscientização sobre os direitos das mulheres, o feminismo e a masculinidade. Nas aulas, especialistas convidados pelos organizadores falam sobre mudanças da sociedade e conquistas recentes das mulheres, sobre a importância de combater a ideia de que "homem tem que ser duro" ou de que "homem não pode chorar" e tentam chamar a atenção para as razões dos erros dos participantes.
"Cheguei aqui e achava que jamais tinha sido agressivo, que nunca tinha sido agressor. Não entendia o que estava fazendo aqui. comecei a entender e aprender coisas que eu nunca tinha ouvido na vida, que existem vários tipos de agressão, que agressão verbal também é violência. Aí no primeiro encontro já vi que eu estava errado", relatou João.

Reflexões

Além das palestras, os homens são reunidos em grupos de reflexão onde debatem como podem melhorar suas atitudes. Em um deles, em que o assunto era autocontrole, a reportagem acompanhou o momento em que a conversa passou a tratar das "roupas que as mulheres vestem".
"Minha mulher pode vestir o que quiser. Eu só aviso para ela: 'Você quer sair assim? Você sabe como os homens vão olhar'. Mas eu respeito a escolha dela", disse um deles. O outro reclamou do batom escuro e vermelho que a esposa usava - semelhante ao da repórter diante dele. "Não gosto. Acho ridículo", disse com veemência.
Sergio Barbosa, que monitorava o grupo, imediatamente tentava direcionar o pensamento deles de outra forma. "Mas qual é o problema do batom? E ela não pode usar?"
Um dos acusados também chegou a transparecer uma insatisfação por estar respondendo pelo crime. "No meu caso, foi só (violência) verbal, ela não precisava ter colocado na lei Maria da Penha". Ao que Barbosa rebatia: "Mas agressão verbal também é violência. Quando alguém te xinga, te rebaixa, te humilha, você gosta? Como você se sente?"
"Nós damos um panorama sobre o que é esperado da mulher na sociedade, como são colocados os direitos das mulheres na Constituição formalmente e como é isso na prática, mostrando o quanto a mulher sofre pra ter os mesmos direitos que os homens", explicou a promotora.
"Eu sempre pergunto: onde é o lugar da mulher? Eles respondem: onde ela quiser. A mulher pode trabalhar? Pode. Pode ser promotora? Pode. E eu sei que tem casos aqui que a mulher apanhou porque foi trabalhar ou foi estudar."
Além de propor a reflexão sobre a questão de gênero, o curso também traz profissionais da Justiça, para tirar dúvidas dos acusados sobre as implicações da lei Maria da Penha, e profissionais da saúde para orientá-los sobre o vício em álcool e drogas - muitos sofrem desse problema - e sobre DSTs.

Mudanças

No penúltimo encontro do curso, era possível perceber outra semelhança entre todos os homens que estavam ali. Se na primeira participação eles se sentiam revoltados, sem entender o motivo de estarem ali, neste a sensação era de aprendizado.
"A principal mudança deles foi falar mais de si mesmo como responsável pelo fato que aconteceu, e não ficar mais delegando a culpa à companheira. Eles perceberam que o comportamento machista os levou a essa situação", observou Sergio Barbosa.
Rubens ainda se vê com dificuldades de aceitar essas "novas regras" da sociedade que aprendeu no curso. Mas reconhece seu erro.
"Eu tenho 60 anos, é muito difícil mudar (o pensamento). Talvez eu tenha que manter minha máscara e fingir que está tudo bem. É difícil esquecer meus valores, tudo que aprendi. Mas tenho certeza que mudei", disse na reflexão com os companheiros de grupo.
"Eles mostraram para mim que de graça não foi, algo eu fiz. E a partir desse dia comecei a refletir que eu não era tao bom quanto achava que fosse. Se você fica preso aos paradigmas antigos, você se torna um opressor. Um dia a gente (ele e a filha) vai se aproximar, e eu penso que serei uma pessoa mais compreensiva, melhor. Ficar preso a esses paradigmas não leva a nada."
A esposa de João tem sentido na prática as mudanças. Os dois ficaram separados por quatro meses após a agressão dele, mas se reaproximaram e acabaram reatando o relacionamento. "Ele mudou bastante. Na hora que vai ficar nervoso, ele pensa em outra coisa e acalma. Mudou a maneira de pensar. Está mais controlado, não é tão ciumento", contou ela à BBC Brasil.
Já no caso de Pedro, o casal prefere se manter separado. Mas a relação dos dois é outra a partir de agora. "Mudou completamente. Até mesmo a relação com a minha família, ele não falava com a minha mãe, hoje ele vai lá, fala com a minha família. Realmente houve uma modificação, não sei se é duradoura", pontuou a esposa.
"A gente vê até pela forma de se comunicar. Ele senta, conversa, não tem aquela ignorância de se sentir superior, agora é de igual pra igual."
Pedro não esconde a vergonha pelo que fez e diz que "não se perdoa". Mas agora se compromete a transmitir aos filhos tudo o que tem aprendido com a situação.
"Se eu tivesse a cabeça que tenho hoje na época, eu não teria feito isso. O que eu fiz foi um acidente, eu nunca mais vou fazer e é algo que eu me envergonho, me arrependo, nao consigo me perdoar. Converso muito com meu filho, explico que ele não pode bater em mulher, que não pode bater na irmã dele, tento consertar a c***** que fiz", disse.
"Acredito que tinha que ter um pouco disso em todas as escolas do Brasil pra essas crianças e adolescentes. Isso iria eliminar muito o tipo de homem que vira agressor, porque ele iria entender a importância da mulher na sociedade."
* Os nomes são fictícios - os personagens conversaram com a reportagem sob a condição de não serem identificados.

Reportagem de Renata Mendonça
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40389536#orb-banner
foto:http://abril7.blogspot.com.br/2014/11/violencia-contra-la-mujer.html

26/05/2017

Surfistas criam lixeira flutuante para coletar plástico e lixo dos oceanos

A enorme quantidade de resíduos plásticos espalhados pelos oceanos inspirou uma dupla de surfistas australianos a criar uma lixeira flutuante.
Apelidado de "Seabin", o invento, que pode sugar pedaços de plástico de diferentes tamanhos e até pequenas quantidades de combustível, tem uma bolsa de tela removível, que pode ser limpa quando está cheia.
Segundo seus criadores, a lixeira flutuante funciona com um mecanismo alimentado por energia solar.
A ideia é utilizá-la em portos e embarcadouros, onde o vento e as correntes aumentam o acúmulo de resíduos.
O projeto deverá ser comercializado neste ano.

fonte:http://www.bbc.com/portuguese/geral-40039382

22/05/2017

O bem-sucedido projeto antibullying que a Finlândia está exportando à América Latina

Não importa se são públicas ou particulares, em bairros privilegiados ou em regiões mais pobres na China, no Reino Unido ou no Brasil. Na maioria das escolas do mundo há - em maior ou menor medida - casos de bullying.
Nem mesmo a Finlândia, país considerado uma liderança em educação, é uma exceção.
Mas, desde 2009, o bullying nas escolas do país vem diminuindo drasticamente graças a um método revolucionário para combater situações nas quais um estudante ou um grupo hostiliza de forma sistemática um colega.
Segundo levantamento com 30 mil estudantes entre 7 e 15 anos, o modelo adotado, desenvolvido na Universidade de Turku, no sudoeste do país, chegou eliminar completamente o bullying em até 80% das escolas e reduziu a prática em outras 20%.
O sucesso do método - batizado de KiVa (acrônimo de Kiusaamista Vastaan, que quer dizer "contra o bullying" em finlandês) - não passou despercebido na Europa, onde foi implementado em cerca de 20 países.
Além do continente europeu, algumas instituições de ensino de países da América Latina - entre eles Argentina, China, Colômbia e Peru - também decidiram adotar o programa.

O papel das testemunhas


A chave do KiVa seria que, diferentemente das metodologias tradicionais, que trabalham com as vítimas e os responsáveis pelo bullying, o programa também "incorpora as testemunhas".
"(O programa) leva em conta as pessoas que ficam caladas e sofrem passivamente com os insultos. Porque embora ninguém goste de participar de uma situação na qual uma pessoa é violentada, muitas crianças não sabem o que fazer para sair do problema ou como defender a vítima", explica a psicopedagoga Francisca Isasmendi, responsável pelo KiVa no Colégio Santa María de Salta, um dos pioneiros no uso do método na Argentina.
Ainda que as testemunhas não sejam os protagonistas mais óbvios da história, o silêncio e as risadas dessas pessoas reforçam o poder do agressor.
Por isso, trabalhar com esses observadores para que eles tomem consciência do seu papel nesta situação e encontrem formas de mudar seus comportamentos faz com que agressor acabe perdendo seu público.
"E quando um grupo deixa de apoiar o agressor e este fica sozinho, ele para", explica a psicopedagoga.
Pelo método, uma vez que é identificado um caso de bullying, uma equipe treinada trabalha seguindo um protocolo específico com a vítima, o agressor e as testemunhas de forma individual, sem enfrentá-los.
"O impacto do sistema se sente sobretudo nos agressores, porque se as atitudes dos demais envolvidos muda, agredir passa a não ser mais tão divertido", explica a diretora do programa KiVa no Instituto Escalae na Espanha Tiina Mäkelä, que também realiza treinamentos sobre o programa em países de língua espanhola.

Antes que aconteça

Outro componente fundamental do programa - e do qual todos participam - é a prevenção.
"Isso inclui lições e atividades que acontecem duas vezes por mês, durante 45 minutos, onde se não falam de casos particulares, mas de conceitos gerais", explica Mäkelä.
Todas essas atividades servem para criar um ambiente amável, generoso e respeitoso com os demais. As crianças são ensinadas a diferenciar um conflito entre colegas (aceitável) de uma situação de bullying, que não deve ser tolerada.
Iván Galindo, proprietário e diretor do Colégio Erik Erikson, em Querétaro, que fica perto da Cidade do México, conta que atuar antes que o bullying ocorra - ou seja, prevenir essa prática - foi importante para melhorar o bem-estar dos alunos da escola.
"Antes nós só atuávamos quando nos dávamos conta de que algo errado estava acontecendo, quando o leite já havia sido derramado. Agora nós antecipamos o problema e é mais fácil de identificá-lo do que antes", conta ele à BBC Mundo.
Isasmendi concorda sobre a importância da prevenção.
"Os alunos agora sabem que se estão em uma situação na qual não se sentem cômodos ou se sentem violentados podem pedir ajuda", disse.
O trabalho de prevenção e conscientização envolve ainda pais e os professores, além dos alunos.
"É preciso mudar a cultura, porque aqui muitas vezes o bullying é tratado como se fosse algo normal e dizem que é 'coisa de criança, elas que se resolvam entre si'. E, como consequência disso, muitos passam toda a vida escolar se sentindo mal", afirma.
Apesar de reconhecer os resultados, Isasmendi afirma que é um trabalho lento, ainda que paradoxalmente atualmente, segundo sua experiência, pareça haver mais casos de bullying.
Segundo ela, isso acontece porque "agora os casos aparecem mais porque há uma maior consciência de que não se trata de algo normal".

Da Finlândia à América Latina

Mas em que medida um método criado para uma cultura e sociedade tão diferentes da latino-americana pode trazer os mesmos resultados?
Para Mäkelä, ainda que alguns aspectos da metodologia precisem de mais ou menos atenção em determinadas regiões, "há problemas básicos que são iguais em todos os países".
"Os professores aqui na América Latina precisam de mais apoio do que na Finlândia porque lá eles têm mais autonomia e mais tempo de preparar suas aulas."
Outra diferença é a colaboração com as famílias.
"Muitas vezes na América Latina, em vez de se colaborar, se buscam os culpados: a família culpa a escola e vice-versa. Em vez disso, é preciso buscar soluções", afirma.
No caso da escola de Salta (Argentina), envolver as famílias nos processos ajudou a agilizar as transformações.
"Precisamos que as famílias participem porque notamos que, com elas, as mudanças eram muito mais rápidas", conta.
Passado pouco mais de um ano desde a adoção do método, ainda é cedo para quantificar o impacto do KiVa na Argentina, mas a julgar pelos testemunhos dos alunos e professores, a melhoria do ambiente escolar já é evidente.
"O KiVa me fez sentir mais seguro e confiante. As aulas do métodos me fizeram mais sociável e com mais empatia", disse um aluno.
"A prática motivou aos alunos a serem mais reflexivos e a tomar mais conta um do outro", afirmou uma coordenadora escolar.
Para Isasmendi, se trata de muito mais do que uma ferramenta válida para interferir no ambiente escolar.
"É mais que um programa antibullying. É uma filosofia de vida que visa o bem-estar escolar, a criação de um clima de trabalho onde os alunos possam ter tolerância e respeito."

Reportagem de Laura Plitt
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39930242#orb-banner
foto:http://bullyingnaoebrincadeiradcrianca.blogspot.com.br/2011/06/bullying-isto-nao-e-brincadeira-de.html

16/05/2017

Renda mínima universal no México: uma utopia possível



Entre a zona mais sofisticada e a mais vulnerável de Santa Fe, no noroeste da Cidade do México, há apenas alguns quilômetros e um abismo socioeconômico: os carros de luxo se transformam em velhos peseros [micro-ônibus comuns na cidade] e a opulência vira miséria. Essa é só uma das dezenas de imagens da enorme brecha de renda que dilacera a megalópole latino-americana. É um elemento marcante do México atual — o país dos 50 milhões de pobres que é, ao mesmo tempo, potência econômica e bastião da inequidade. Poucas, muito poucas nações exibem tamanha disparidade de renda como esta, berço dos menos favorecidos e do sexto homem mais rico do mundo.
No entanto, longe de agregar argumentos para a resignação, um grupo de acadêmicos ao qual se juntou, pouco a pouco, uma gama de políticos progressistas insiste na viabilidade de um plano que eliminaria a pobreza a partir do primeiro dia de aplicação: a renda mínima universal, um serviço público que seria concedido a todos os cidadãos pelo mero fato de o serem. Um salário sem distinguir se a pessoa trabalha; uma rede de assistência básica que frearia a miséria. Em muito poucos anos, essa sorte de antídoto contra o veneno da pobreza extrema passou do terreno da utopia ao da políticas públicas factíveis. Sua razão de ser é agora reafirmada num país com as características do México.
“É viável, pode ser financiado. Só é preciso haver uma verdadeira vontade política”, afirma Enrique del Val, diretor geral de Planejamento da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Tanto a Coneval — ente independente que avalia as políticas públicas contra a pobreza no país — como a Comissão Econômica da ONU para a América Latina e o Caribe (Cepal) validaram a ideia. “É uma proposta especialmente vigente, tendo em vista a debilidade econômica, a pobreza e as dúvidas sobre o futuro do trabalho: a robotização, a inteligência artificial... É urgente refletir”, diz a mexicana Alicia Bárcena, secretária executiva do braço regional das Nações Unidas. Seu temor sobre a crescente automatização do trabalho, que ameaça deixar enormes bolsões de desempregados no mundo inteiro, encontra apoio nas cifras: segundo um recente estudo da consultoria McKinsey, o México ocupa o sexto lugar entre os países com maior porcentagem de trabalhadores que correm risco de serem substituídos por máquinas: 52%.
As primeiras referências mexicanas à ideia remontam ao início dos anos setenta. Era a época prévia ao grande auge do petróleo e à icônica (e não realizada) promessa do presidente José López Portillo de que os lucros decorrentes do óleo chegariam a todos os cidadãos. O pensador Gabriel Zaid propôs então que cada mexicano recebesse uma espécie de dividendo da renda nacional, igual para todos. Só que a proposta não surtiu efeito. Somente três décadas depois, chegaram à Câmara dos Deputados as primeiras iniciativas legislativas de criação de uma renda mínima.
Em 2015, o progressista Partido da Revolução Democrática (PRD) levou outra proposta ao Senado. E a mesma legenda tentou, sem sucesso, incluir a renda cidadã universal na nova Constituição da Cidade do México. Mas a proposta mais ambiciosa e detalhada chegou exatamente há um ano, por iniciativa de Araceli Damián e Norma Xóchtil Hernández, duas deputadas do esquerdista Morena: um plano com prazo de 40 anos para conceder a cada mexicano 1800 pesos (cerca de 300 reais) por mês. Começaria pelos coletivos mais vulneráveis — menores de idade e maiores de 65 anos — e teria um custo ao erário do Estado equivalente a 12,9% do PIB.
O serviço substituiria os mais de 5.000 programas sociais vigentes em todos os níveis da administração mexicana, segundo dados de Del Val, o que representaria uma economia considerável. E exigiria, de acordo com meia dúzia de especialistas consultados, uma ampla reforma fiscal — que começaria tarifando as diversas e abundantes fortunas mexicanas, para depois elevar as contribuições do restante da população. “Estou convencido de que o mexicano médio não se negaria a pagar mais impostos se lhe fosse explicado, de maneira clara, que o seu dinheiro seria destinado a criar uma renda cidadã”, diz Rogelio Huerta, da UNAM.
Embora os experimentos realizados até agora em países como Canadá coloquem em dúvida a noção de que a renda mínima desestimula o trabalho — ou seja, que os cidadãos com renda garantida terão menos interesse em produzir —, dentro e fora do país os críticos da iniciativa utilizam esse argumento. Ainda hoje, a ideia de uma renda mínima universal no México continua a anos-luz de países como Finlândia e Holanda — onde já está sendo testada — e Suíça — onde foi rejeitada em referendo ano passado. Mas tem ganhado força. Inclusive derrubou o muro da academia para entrar, aos poucos, no debate público.
“Ainda há muito a fazer, mas estamos mais perto do que nunca”, afirma Huerta. “Agora é preciso que o movimento extrapole as iniciativas dos partidos e constitua uma corrente política apoiada pelos intelectuais e a sociedade civil.” As eleições de 2018 serão a grande pedra de toque: um grupo de especialistas no assunto, liderado por Enrique del Val, vai propor no fim do ano um programa independente, esperando obter retorno de todas as formações políticas. Se o projeto entrar na campanha, não há motivos para pensar que o México não possa ser um país pioneiro da renda básica universal.
Plataforma de testes do mundo emergente
Aos olhos dos especialistas, o México é uma das melhores plataformas de testes para a renda mínima universal no mundo emergente – o bloco de países onde reside 80% da população mundial. “Seria um excelente lugar para os ensaios”, diz Rogelio Huerta, economista e professor da UNAM. “É um dos países mais desiguais do mundo. Mais da metade da população está abaixo da linha da pobreza, e a economia cresce há anos em ritmo lento, abaixo da média da América Latina.”
Além disso, é preciso considerar a altíssima taxa de informalidade do mercado de trabalho – que terminaria com a renda mínima – e a grande margem existente em termos fiscais, já que o México é o país industrializado com a menor pressão tributária sobre o PIB: 17,4%, metade da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Bastaria corrigir essa brecha para fechar melhor as contas.

Reportagem de Ignacio Fariza
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/05/15/economia/1494820918_704413.html
foto:https://veritasonline.com.mx/categoria/ejercicio-profesional/

12/05/2017

Como a Finlândia conseguiu tirar da rua e reintegrar os sem-teto

Londres, Berlim, Paris e outras grandes cidades dos países mais prósperos da Europa têm algo em comum: tentam, sem sucesso, conter ou reduzir o número de sem-teto em suas ruas.
A cena de pessoas desabrigadas dormindo nas ruas ainda faz parte do cotidiano destas sociedades que, apesar de terem sistemas de bem-estar social robustos, não conseguem tirar das ruas e reintegrar os sem-teto na sociedade.
Mas há uma exceção.
A Finlândia é apontada como o único país da União Europeia (UE) que resolveu a questão dos sem-teto.

Problema internacional

A Feantsa, organização que promove o direito à moradia na UE, descobriu que todas as nações do bloco, com exceção da Finlândia, enfrentam uma crise de falta de moradia disponível para pessoas em situação de vulnerabilidade.
Uma investigação parlamentar no Reino Unido identificou, por exemplo, que o número de moradores de rua na Inglaterra aumentou 30% entre 2014 e 2015.
A Feantsa calcula, por sua vez, que a Dinamarca registrou um aumento de 75% no número de jovens sem-teto desde 2009. Em Atenas, capital grega, a organização estima que uma em cada 70 pessoas durma ao relento.
E como a Finlândia conseguiu ser bem sucedida ao buscar uma solução para o problema?
A estratégia de apoio aos sem-teto que o país nórdico oferece é generosa.
Muitos países apresentam soluções de moradia temporárias e condicionais aos moradores de rua.
Já a Finlândia oferece a eles, desde o início, habitações permanentes, sem impor condições. Concede ainda assistência social para ajudá-los a colocar a vida nos eixos, lidando com questões como vício em drogas e desemprego.
"Começamos concedendo a eles um apartamento com um contrato que lhes dá os mesmos direitos que qualquer inquilino. E, se eles precisam de mais apoio, também é oferecido", diz à BBC Juha Kaakinen, gerente da Fundação Y, que oferece 16.300 moradias a sem-teto na Finlândia.

Rentável

A fundação diz que esta abordagem de conceder habitação permanente é mais eficaz do que abrigos temporários, usados ​​em muitos outros países, uma vez que são computados todos os custos sociais que este programa ajuda a evitar.
"Muitos desabrigados não precisam de ajuda extra. Mas é importante que, se for necessário, eles possam obter", acrescenta.
Segundo Kaakinen, há muitas razões que levam uma pessoa a acabar vivendo nas ruas.
"Uma delas é a falta de habitação a preços acessíveis, outras são razões econômicas, divórcio e muitos outros fatores, a que estão sujeitos os seres humanos", diz.
O executivo explica que a intervenção para ajudá-los deve acontecer o mais cedo possível.
"Se você permanecer nesse estado por muito tempo, é provável que apareçam novos problemas. Por isso, é importante atacar a questão o mais rápido possível".

Há pessoas na rua

Podemos dizer então que a Finlândia está satisfeita com os resultados alcançados? O problema foi definitivamente resolvido?
"Certamente vamos continuar com nossos esforços", afirma Kaakinen.
Segundo uma estimativa, cerca de 7 mil pessoas estavam em situação de vulnerabilidade na Finlândia​​, em 2015, devido à falta de um lar permanente.
"Enquanto houver uma única pessoa sem teto no país, será muito. A Finlândia já não tem gente dormindo nas ruas, mas tem pessoas desabrigadas vivendo temporariamente com a família e amigos. Vamos continuar tentando acabar com o fenômeno por completo", diz Kaakinen.

fonte:http://www.bbc.com/portuguese/geral-39453230#orb-banner
foto:https://www.noticiasaominuto.com/mundo/768142/como-e-que-a-finlandia-conseguiu-retirar-os-sem-abrigo-da-rua

09/05/2017

Estudantes criam protótipo de sutiã que 'detecta sinais de câncer de mama'

Um adolescente mexicano diz ter criado um sutiã que consegue, em até 90 minutos, detectar o câncer de mama em mulheres.
Com um protótipo do sutiã Eva, Julian Rios Cantu, de 18 anos, e três amigos, arrecadaram dinheiro para dar começar os testes e ganharam o primeiro prêmio do Global Student Entrepreneur Awards - uma premiação internacional para universitários empreendedores.
A empresa dos mexicanos, Higia Tchnologies, ganhou US$ 20 mil para desenvolver comercialmente o produto.
Mas como um sutiã que detecta câncer funcionaria?
Tumores malignos podem aumentar a temperatura da pele por causa de um aumento no fluxo de sangue para a região onde estão. Biossensores colocados no sutiã Eva tomariam medidas de temperatura periódicas da mulher que seriam registradas em um aplicativo de celular.
O aplicativo, por sua vez, alerta a usuária caso os sensores detectem mudanças de temperatura que possam ser preocupantes.
Seria necessário usar o sutiã por 60 a 90 minutos para ter medições precisas.

Ressalvas

Julian afirmou que a ideia de colocar os sensores dentro de um sutiã pode melhorar a precisão das medições, já que os seios da mulher estariam na mesma posição a cada vez que sua temperatura for medida.
Mas, como o protótipo ainda não foi testado, especialistas têm ressalvas em relação a sua eficácia para detectar o câncer.
"Sabemos que tumores costumam ter um sistema anormal de vasos sanguíneos, mas também sabemos que o aumento do fluxo sanguíneo para uma região não é necessariamente um indicativo confiável de câncer", disse à BBC Anna Perman, do instituto de pesquisa Cancer Research UK.
"É ótimo ver jovens como Julian se envolvendo com ciência e tendo ideias que podem ajudar no diagnóstico, mas uma parte importante da ciência são os testes rigorosos para garantir que uma inovação realmente beneficiará os pacientes."
Julian quase perdeu a mãe para o câncer de mama quando tinha 13 anos de idade, porque a doença foi diagnosticada tardiamente.
O médico que a acompanhava disse que os caroços encontrados em seu seio não eram malignos, mas ele estava errado. Seis meses depois, uma segunda mamografia revelou o câncer. A mãe de Julian teve ambos os seios removidos.
Depois de pesquisar sobre a doença e seus atuais métodos de diagnósticos, o adolescente teve a ideia, registrou a patente e pediu a ajuda de amigos para administrar a empresa. Eles esperam poder vender o sutiã no fim de 2018.

Sinais

De acordo com Perman, detectar o câncer de mama em seu estágio inicial pode aumentar muito as chances de sobreviver à doença.
"Nosso conselho é que a pessoa conheça seu corpo, saiba o que é normal para ela e, se vir algo incomum, procure um clínico geral", diz.
Alguns dos primeiros sinais de câncer de mama são:
  • Caroços na área do peito ou das axilas;
  • Mudanças no tamanho, no formato ou na sensação do seio;
  • Vazamento de fluido pelo bico do seio, que não seja leite materno.
Saiba mais sobre os sintomas no site do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

fonte:http://www.bbc.com/portuguese/geral-39830126#orb-banner
foto:http://g1.globo.com/bemestar/noticia/estudantes-criam-prototipo-de-sutia-que-detecta-sinais-de-cancer-de-mama.ghtml

20/04/2017

Presídios com método Apac têm índice de reincidência três vezes menor



Aplicado atualmente em 43 cidades brasileiras, o método alternativo de ressocialização chamado Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) tem índice de reincidência de 30%. Nas prisões tradicionais, o número sobe para 90%, segundo a Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC).
“Em média, nossa não-reincidência (no crime) é de 70%. Em algumas Apacs, chegamos a um índice de 98%. No Brasil, o percentual não chega a 10%. Tenho certeza que, se o Estado acordasse, a reincidência seria menor ainda”, disse o gerente de metodologia da FBAC, Roberto Donizetti.
De acordo com a entidade, esses números se devem à estratégia de apresentar aos presos conceitos como responsabilidade, autovalorização, solidariedade e capacitação, aliados à humanização do ambiente prisional.
A estratégia de responsabilizar os presos pelos seus atos impressiona quem chega a uma Apac, que não se parece com uma unidade prisional tradicional. Não se veem armas e há mulheres – funcionárias ou voluntárias – circulando pelo estabelecimento. Manter a atmosfera de paz e harmonia na unidade é atribuição delegada dos presos condenados que são autorizados pela Justiça a cumprir pena no lugar.
 “Quando entro lá (na Apac), não penso que estou num presídio. Atravesso o portão e os presos já estão me cumprimentando. Gosto de cumprimentar e falar com todos, um a um. Pergunto o que estão fazendo, como estão”, afirma o voluntário da unidade de Barracão/PR, Antenor dal Vesco.
Outro motivo que pode causar um choque em quem visita uma Apac esperando encontrar um ambiente prisional convencional é a limpeza e organização interna do lugar, outra tarefa de responsabilidade exclusiva dos presos. Ao longo do dia, rondas são feitas para conferir a arrumação das celas e camas. “É mais limpo que o quarto de seu filho adolescente”, assegura o voluntário da unidade de Macau (RN) Cleber Costa.
Além de cuidar da cela onde vivem, os presos fazem uma faxina geral na unidade semanalmente, para receber familiares, sempre aos domingos, “pois é o dia de se visitar a família normalmente”, diz Costa.
Mães, companheiras, irmãos, primos passam o dia na unidade, lancham, almoçam, convivem com o parente que cumpre pena assim como os familiares dos demais presos ali. Além de contemplar o apoio familiar, para recuperar pessoas condenadas para a vida em sociedade, os 12 elementos do Método Apac comportam também o trabalho e a solidariedade com quem também está preso.
Rotina de trabalhador
A rotina que deve ser cumprida diariamente pelos internos de uma Apac começa às 6h, quando todos se levantam e iniciam uma série de atividades de trabalho e capacitação. Até as 22h, quando todos são obrigados a se recolher, o dia é dividido entre sala de aula, laborterapia, leitura, informática e outras obrigações.

A presidente da Apac Barracão (MG), Isaura Pertile compara o cotidiano da unidade ao de um seminarista ou de um militar. “Eles lavam suas próprias roupas. Na ‘loucura’ em que eles viviam, como eles próprios chamam (a vida no crime), nunca souberam o que significa regra ou a consequência dos atos deles”, diz Isaura, servidora do Judiciário local que está à frente da unidade paranaense desde 2013.
Disciplina com segurança
Embora o objetivo seja formar novas pessoas durante o período na Apac, existem mecanismos de controle para moderar o convívio e ajustar eventuais deslizes de comportamento. A responsabilidade pela convivência harmoniosa com os demais internos é mais uma missão que cabe a cada preso. Questões menores são resolvidas pelos próprios internos, de acordo com regimento que prevê inclusive sanções, no conselho de Sinceridade e Solidariedade.

A responsabilidade também é respeitada em relação à identidade de cada um. Ao contrário do sistema carcerário tradicional, é proibido o uso de apelidos. “Não tem um ‘cabeludo’, um ‘pezão’ nem qualquer outro apelido alusivo ao crime. Todos lá dentro são ‘José’, ‘Anderson’, todos se chamam pelo nome próprio. Todos andam com crachá de identificação (voluntário, técnico, interno) e valorizam o respeito”, afirma o voluntário da Apac Macau Cleber Costa.
Aos presos é confiado o dever de manter-se limpo, sob pena de expulsão. Na unidade potiguar, exames toxicológicos são feitos sem aviso prévio (em todos os internos ou por amostragem) e sempre que deixam a unidade em saídas temporárias, autorizadas pela Justiça (para procurar emprego, por exemplo).
“Na Apac do Rio Grande do Norte, os casos de testes positivos de uso de drogas são estatisticamente desprezíveis. Mesmo assim, testar positivo é considerado falta grave, que implica volta para o sistema comum. O lema é ‘nós confiamos em vocês, mas queremos reciprocidade’. Por isso, as chaves das dependências internas ficam com os presos, que se revezam em turnos, mas a chave da porta da rua fica com a direção”, diz Costa.
Pós-Apac
O gerente de segurança e disciplina Apac Paracatu (MG), Silas Porfírio, tenta convencer a Justiça local a permitir o acompanhamento mais próximo de ex-presos pela equipe da Apac. Pede para que os presos do regime aberto possam assinar seu compromisso periódico com a Justiça, condição para muitos presos autorizados a cumprir o final da pena em casa, na Apac. Em 2013, a superlotação da Cadeia Pública de Paracatu motivou decisão judicial que obriga desde então os presos a se dirigir ao fórum para se manter em dia com suas obrigações com a Justiça.

“A gente quer olhar no olho do sujeito e ver se ele está bebendo, usando droga”, afirma Porfírio, que tem a ajuda de voluntários da igreja, de grupos como o Narcóticos Anônimos, Alcóolicos Anônimos e outros parceiros, para acompanhar os egressos e evitar recaídas no vício e na criminalidade.
Muitos internos se frustram ao sair da Apac e encararem a discriminação do mercado de trabalho. “Quando o empregador puxa a ficha do candidato à vaga de emprego e vê que ainda deve à Justiça, normalmente não contrata. Aí o egresso volta a traficar, a roubar”, diz.
Afastamento do crime
Dois anos após cumprir sua pena, M. Ribas garante que os 16 meses que passou na Apac de Barracão, interior do Paraná, foram decisivos para afastá-lo definitivamente do mundo do crime.

 “Foi importante para assumir responsabilidade pela minha própria vida, o que não tinha acontecido antes da minha prisão. Quem é preso foi porque faltou responsabilidade, faltaram objetivos. Lá dentro da Apac aprendi a meditar, a acalmar minha mente e a retomar gosto pelo estudo”, diz. M. Ribas que é um dos 137 presos que passaram pela Apac Barracão em quatro anos de funcionamento da unidade que não voltaram a praticar crime. Apenas dois deles reincidiram, segundo a juíza responsável pela execução de penas no município paranaense, Branca Bernardi.
Dos três dias que passou no presídio de Barracão, entre o momento da prisão e a transferência para a Apac, M. Ribas carrega a lembrança de que poderia ter permanecido para sempre no mundo do crime. “O presídio é um antro cheio de pessoas que podem influenciar qualquer um que entra lá, que também pode se deixar influenciar”, afirmou. Ao período na Apac, concluído há dois anos, atribui nunca mais ter tido problemas com a lei. “Sequer sofri abordagem da polícia, uma revista”, diz Ribas. 

fonte:http://www.conjur.com.br/2017-abr-19/prisoes-metodo-apac-indice-reincidencia-tres-vezes-menor
foto:http://www.am.grupodifusora.com.br/noticias/apac-esta-iniciando-curso-de-mecanica-basica-para-internos/