02/06/2015

Brasil, entre a diplomacia da paz e o destaque na exportação de armas

Nem só de soja vivem as exportações do Brasil. Existe um outro comércio, muito mais letal, no qual o país também vai muito bem: trata-se do mercado de revólveres, pistolas, metralhadores, fuzis, lança-granadas, artilharia anti-tanque, munições e morteiros. Atrás apenas dos Estados Unidos, Itália e Alemanha, o Brasil é o quarto maior exportador de armas leves do mundo, de acordo com o relatório As Armas e o Mundo divulgado na última segunda-feira pela Small Arms Survey, entidade que monitora conflitos armados e o comércio de armas de fogo no mundo.
De 2001 a 2012 o país exportou 2,8 bilhões de dólares (374 milhões apenas em 2012) em armas, deixando para trás potências do setor como a Rússia – fabricante do famoso fuzil AK-47, arma de escolha de nove entre dez grupos guerrilheiros, do Estado Islâmico às Farc – e China, que possui o maior exército regular do mundo. O Brasil, no entanto, é o único entre os quatro maiores exportadores do ranking cujas transferências de armamento não são transparentes, diz o relatório. Ou seja, o país não apresenta à ONU seus recibos e contratos de venda: não se sabe exatamente o que, para quem e quanto é comercializado.
Na prática, isso significa que existe a possibilidade de que os armamentos vendidos pelo país estejam sendo comprados por nações em conflito ou que violam os Direitos Humanos. Ou que o Brasil venda para terceiros que por sua vez irão repassar as armas para milícias, facções terroristas ou governos autoritários. O Brasil é signatário do ATT, um tratado que regula este comércio no mundo e proíbe transferências consideradas irresponsáveis. A legislação ainda não foi sancionada.
Em 2011 o país não entregou às Nações Unidas o relatório de suas transferências de armas, e se absteve na votação do embargo imposto à Líbia. Em 2013, grupos de monitoramento de conflitos denunciaram que granadas de gás lacrimogênio da marca brasileira Condor estavam sendo usadas pela polícia turca para conter protestos contra o Governo de Recep Erdogan.
“O Brasil costuma explorar no cenário internacional esse seu lado mediador, sua vocação diplomática”, diz Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica São Paulo. Segundo ele, os dados do relatório apontam uma contradição: “o país participa de missões de paz da ONU, e por outro lado vende armas”. De acordo com ele, houve um aumento nas exportações de armas brasileiras para o Haiti, onde as tropas do país participam de uma operação de pacificação.
Para professor, “existe o mito de que o Brasil é um clamor diplomático, mas aos poucos essa máscara vai caindo”. De acordo com ele, isso ficou claro durante a Primavera Árabe, “quando os ativistas que estavam sendo massacrados pelos seus governos começaram a perceber que armamentos brasileiros estavam sendo usados na repressão”. Angola é outro país onde essa “dualidade” do país se manifesta: “Lá o Brasil participou dos processos de negociação de paz, mas a Taurus [maior fabricante de pistolas e revólveres brasileira] está em Angola. É um duplo jogo”.
O Brasil também é o quarto país entre os maiores exportadores cujas transferências de armas leves mais cresceram entre 2001 e 2012: houve um aumento de 295% nas vendas. Nesse quesito, perdeu apenas para a China (1.456%), Coreia do Sul (636%) e Turquia (467%). As maiores fabricantes de armas brasileiras são a Forjas Taurus, Imbel e Companhia Brasileira de Cartuchos.

Reportagem de Gil Alessi
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2015/06/01/politica/1433176411_490477.html
foto:http://www.verdadegospel.com/comercio-mundial-de-armas-cresce-14-em-cinco-anos/

Comércio virtual de animais selvagens burla proibição internacional e ameaça espécies em extinção


Em vários mercados virtuais é possível encontrar animais selvagens – ou partes deles – à venda. São canais livres para a venda de espécies ameaçadas ou protegidas, tanto disfarçada quanto abertamente anunciada, violando a legislação norte-americana e vários acordos internacionais. O tráfico ilegal online de animais em risco de extinção está crescendo, e os esforços para controlá-lo têm se mostrado escassos e ineficazes.
O tráfico de produtos de origem animal pela Internet vem acelerando o processo de extinção de várias espécies há mais de uma década. Em 2004, o Fundo Internacional para o Bem-estar Animal (IFAW) deu início a uma investigação chamada "Flagrado na Internet", que documentava um enorme mercado online de espécies vivas em risco de extinção ou protegidas, bem como de suas partes, incluindo elefantes, rinocerontes, tartarugas marinhas, tigres, leões, falcões, gorilas, papagaios e servais.
Três anos mais tarde, outra investigação da IFAW, "Leiloando a extinção", focou-se no eBay no Reino Unido, EUA, Austrália, Canadá, Holanda, Alemanha, França e China. A IFAW relatou que "dos [2.275] itens que investigamos, mais de 90% desrespeitava as políticas sobre venda de marfim dos respectivos sites do eBay".
Qualquer pessoa ou empresa norte-americana que ajude a vender animais selvagens ou partes de animais selvagens ilegalmente, sejam eles obtidos em qualquer país, pode ser processada por violação criminosa da lei Lacey, que proíbe o comércio destes itens. Outra investigação do IFAW, "Matando com o teclado", de 2008, revelou a existência de 5.159 anúncios de marfim de elefante em 7.122 links hospedados em oito países, com 4.304 deles oferecidos através do eBay. Quase imediatamente após a divulgação do relatório, a empresa baniu a venda de marfim de seus sites.
O eBay é um dos poucos sites se esforçando para eliminar o tráfico de animais selvagens em sua plataforma de vendas, excluindo anúncios de produtos ilegais – mas apenas os poucos sobre os quais a equipe é notificada ou capaz de localizar.
Produtos de marfim são os itens de origem animal mais populares nos mercados virtuais, a despeito da proibição internacional da venda de marfim, acordada pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES, na sigla em inglês), firmada por 180 países. A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos estima que 100 mil elefantes tenham sido mortos ilegalmente por caçadores entre 2010 e 2012, principalmente para satisfazer a demanda por marfim de novos ricos chineses. Neste ritmo, os elefantes poderão ser extintos dentro dos próximos vinte anos.
Em menos de dez minutos de busca, eu encontrei o que pareciam ser cerca de cinco objetos de marfim no eBay. Relatei isso a Ryan Moore, gerente-sênior de assuntos corporativos internacionais do eBay. Quatro destes anúncios foram confirmados e excluídos. Uma semana mais tarde, encontrei um anúncio de venda da borboleta Rainha Alexandra, espécie ameaçada e globalmente protegida, a maior borboleta do mundo, com asas que chegam a mais de 30 centímetros e, no caso dos machos, cores iridescentes (amarelo, azul e verde). A Rainha Alexandra é o Santo Graal dos colecionadores. No dia seguinte, o anúncio havia sumido.
Excluir os anúncios, no entanto, não dá conta do problema. Embora o eBay tenha criado filtros que identificam palavras como "marfim", os vendedores costumam dar um jeito de contorná-los. Primeiro, chamam o marfim de "fauxivory", falso-marfim. Quando os filtros começaram a ser capazes de identificar o truque, passaram a chamá-lo de "osso bovino" – até que o termo também passou a ser incluso na filtragem. Sempre que o eBay programa um novo falso nome em seus filtros, os vendedores inventam outro.
Cidadãos como eu – e mesmo as grandes ONGs – têm suas investigações dificultadas pelo fato de que podem apenas sinalizar o que é ilegal ou parece ser. Não podemos produzir provas reais comprando os objetos, já que isso seria violar a legislação norte-americana e internacional.
Não foi este o caso do agente aposentado do Serviço de Vida Selvagem e Peixes dos Estados Unidos (USFWS, na sigla em inglês), Ken McCloud. Antes de deixar seu cargo em 2007, McCloud cuidava das investigações sobre o eBay conduzidas na agência. Em 2011, McCloud obteve permissão de seus antigos colegas para comprar artigos de origem animal contrabandeados através do eBay.
"Eu comecei a encomendar itens ilegais oferecidos a partir de outros países, cujos vendedores já haviam sido notificados pelo eBay", disse ele. "Escrevia para os vendedores e perguntava: 'Isso é ilegal? Vamos nos meter em alguma confusão por causa disso?'. Eles escreviam de volta dizendo: 'Não se preocupe; fazemos isso o tempo todo. Nós temos contatos na alfândega [dos EUA]'. Quando eu costumava trabalhar disfarçado para me aproximar dos muito mais bem informados caçadores e traficantes nos EUA, levava pelo menos um mês para obter a confiança deles. O pessoal que vende pelo eBay entrega o jogo assim que eu demonstro a menor preocupação. Eles me deram exemplos de como subornavam as pessoas. Tudo o que comprei veio com etiquetas falsas".
Quando representantes do eBay viram a coleção de itens contrabandeados através do site e obtidos por McCloud, eles "ficaram chocados e aterrorizados", conta Ken White, presidente da Peninsula Humane Society & SPCA, organização em que trabalhava McCloud durante a investigação. Pouco depois, os representantes do eBay passaram a treinar seus funcionários a identificar o comércio de animais em risco de extinção.
Até meados de 2014, McCloud enviava periodicamente ao eBay listas com várias páginas de anúncios de itens ilegais, encontrados por ele e seus colaboradores no site, bem como das leis específicas sendo violadas. À medida que as listas de McCloud chegavam, o eBay excluía muitos deles. Mas os esquemas para enganar a filtragem continuavam.
"Pelo que sabíamos, o eBay estava contente em nos ajudar a tornar seu site um lugar melhor", diz White. "Mas não permitiam que falássemos sobre o problema para a imprensa ou que solicitássemos financiamento por outros meios, algo que acredito que conseguiríamos. Eventualmente, ficamos sem dinheiro e tivemos que acabar com o programa.”
O Serviço de Vida Selvagem e Peixes dos EUA não conta com um departamento de crimes virtuais, mas os resultados apresentados pela IFAW inspiraram a agência a dar início a investigações em 2011 e 2012, chamadas, respectivamente, Operation Cyberwild e Operation Wild Web.
Nesta última, agentes de 16 estados norte-americanos e do Cingapura, da Tailândia e da Indonésia vasculharam a internet por duas semanas. A equipe não foi atrás dos próprios sites; na verdade, visaram os traficantes, realizando 154 prisões. Os crimes incluíam diversos tipos de venda, de peles de tigre, leopardo e jaguar até dentes de baleia; marfim de morsa e de elefante; espécies aquáticas invasivas e perigosas, como piranhas e bagres andarilhos; cobras vivas e aves migratórias.
O estado da Flórida, que participou deste primeiro esforço e possui uma unidade de crimes virtuais, gostou tanto do resultado que repete a operação a cada oito meses.
A proibição do marfim imposta pelo eBay teve resultados mistos. Em 2013, a IFAW descobriu que anúncios para produtos de origem animal proibidos na Austrália, negociados em sua maioria por meio do site, aumentaram em 266% desde 2008. Em 2014, um relatório documentou um aumento de 48% em itens aparentemente feitos de marfim, oferecidos pelo eBay do Reino Unido. Por outro lado, a chefe da equipe de crimes virtuais da IFAW, Tania McCrea-Steele, relatou que "a proibição do marfim tem funcionado bem nos sites do eBay do Canadá, Alemanha, França, Bélgica e Holanda".
Este progresso não contribui tanto em nível global, e as medidas voluntárias de controle por parte dos próprios sites não parecem ser a solução. No ano passado, a IFAW observou 28 mercados online em 16 países. Em apenas seis semanas, a organização encontrou anúncios de 33 mil itens provenientes de animais ameaçados. Cerca de um terço dos itens eram de marfim.
Qual seria, portanto, a solução? Escritórios regionais do Serviço de Vida Selvagem dos EUA têm discutido a possibilidade de processar o eBay por sua plataforma permitir esse tipo de comércio. A principal maneira de o Serviço atuar judicialmente – processo por infração da lei Lacey – provavelmente se tornaria ineficaz contra uma empresa que tenta, embora sem sucesso, excluir itens ilegais. De acordo com Joe Johns, chefe de crimes ambientais do escritório da Promotoria dos EUA na Califórnia, o processo de acordo com as provisões de contravenção da lei Lacey – que requerem apenas a prova de negligência, e não o conhecimento ou a intenção – pode ser bem-sucedido. Mas essa medida não resolveria o problema.
Para salvar espécies ameaçadas, os países da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES) precisam ir além dos processos por infração do acordo contra os mercados online mais nocivos. Considerando a gigantesca quantidade de partes de animais selvagens disponíveis no eBay, um dos poucos sites que tem se esforçado por manter algum controle, podemos apenas imaginar como funciona o tráfico naqueles que não o fazem.

Reportagem de Ted Williams | Yale Environment 360 | São Francisco
Tradução: Henrique Mendes
fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/40567/comercio+virtual+de+animais+selvagens+burla+proibicao+internacional+e+ameaca+especies+em+extincao.shtml
foto:https://saladeprensaambiental.wordpress.com/2011/08/

Itália fecha acordo com banco para indenizar vítimas da lentidão judicial

A lentidão na Justiça italiana é tamanha que o país já foi condenado a pagar indenização por demorar a indenizar justamente aqueles que foram prejudicados pelo ritmo judicial lento. Para tentar evitar o pagamento duplo e facilitar a vida das vítimas, o Ministério da Justiça assinou um acordo com o Banco da Itália, que vai permitir o pagamento da compensação pela demora da Justiça em até 120 dias.
Funciona assim: o cidadão espera anos para seu processo — penal ou cível — ser resolvido. Uma vez solucionado, ele inicia um novo processo pedindo indenização por ter tido de aguardar tanto tempo. Concluída essa segunda ação, se for considerado que a demora judicial o prejudicou de alguma forma, aí sim entra em jogo o acordo com o Banco da Itália e, em até quatro meses, o cidadão recebe sua indenização.
Na Itália, o que garante reparação aos prejudicados pela morosidade da Justiça é a Lei 89, de março de 2001, apelidada de Lei Pinto, em referência ao redator da norma. A lei foi aprovada em resposta à exigência do Conselho da Europa. Em 2012, a Corte Europeia de Direitos Humanos decidiu que pedido de reparação pela demora judicial deve ser concluído em dois anos e meio, no máximo.

fonte:http://www.conjur.com.br/2015-jun-02/italia-acordo-banco-indenizar-vitimas-lentidao-judicial
foto:http://www.ideiajovem.com/viagem-para-italia/

01/06/2015

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Dormir é necessário para lembrar o importante e esquecer o inútil

Dormir é necessário para produzir memórias duradouras. Um século de estudo sobre o tema já deixou isso claro. No entanto, não se sabe bem como funciona esse mecanismo. No início, acreditava-se que a função do sono era passiva, desligando os sentidos para que os estímulos externos não interferissem na formação das lembranças. Nos últimos anos, porém, descobriu-se que durante as horas na cama se desenvolvem processos que fixam as memórias.
Quanto ao mecanismo, as teorias às vezes se contrapõem. Uma delas diz que o sono debilita parte das sinapses, as conexões entre células nervosas que ajudam a conservar as lembranças. Nesse sentido, um estudo recente sustenta que esquecer o desnecessário é fundamental para lembrar o importante, como às vezes é preciso jogar fora muitos papéis para conseguir encontrar com mais facilidade os documentos relevantes. Dormir serviria, segundo esta hipótese, para esquecer quase tudo, deixando apenas as memórias fixadas nas sinapses mais fortes.
Uma hipótese alternativa propõe um processo combinado no qual algumas conexões se enfraquecem e outras se reforçam, estas últimas por meio do que se conhece como potenciação de longo prazo (LTP), uma intensificação duradoura dos sinais entre dois neurônios produzida quando ambos são estimuladas ao mesmo tempo.
Agora, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), no Brasil, estudou as duas hipóteses medindo em ratos os níveis de uma proteína relacionada com a potenciação de longo prazo durante o sono. Depois, utilizaram esses dados para construir modelos em computador para observar como se formam as conexões entre neurônios durante o repouso.
Seus resultados, publicados esta semana na revista PLOS Computational Biology, sugerem que a LTP não só reforça algumas dessas conexões durante o sono como também as reorganiza, favorecendo o surgimento de novas memórias. Segundo os autores, esse mecanismo mostra que as duas teorias sobre o papel do sono na formação de memórias de longo prazo não são excludentes, mas correspondem a diferentes etapas da consolidação das memórias.
“O estudo indica que ciclos completos de sono, incluindo a fase REM, desencadeiam a potenciação de longo prazo durante o sono, produzindo a reestruturação e o fortalecimento de memórias duradouras”, afirma Sidarta Ribeiro, pesquisador da UFRN e coautor do artigo. Este tipo de resultados corrobora a ideia de que “sestas acima de 90 minutos de um ciclo completo de sono seriam a melhor opção”, segundo Ribeiro, para fortalecer as memórias recém-adquiridas. Diante da ideia de criar um medicamento que produza benefícios semelhantes ao sono, o cientista reconhece que, apesar de algumas proteínas essenciais ao processo de consolidação das memórias terem sido identificadas, “não está claro como aumentar esses níveis”.
Outros trabalhos com ratos mostraram que durante o sono são produzidas mudanças físicas relacionadas à formação de memórias. Uma equipe liderada por Wen-Biao Gan, da Universidade de Nova York, publicou há pouco tempo na revista Science como o aprendizado de uma nova tarefa, caso o animal durma em seguida, leva à formação de novos espinhos dendríticos, estruturas nos extremos dos neurônios que permitem a transmissão de sinais elétricos entre eles. Quando os ratos não dormiam, as estruturas associadas ao aprendizado não se formavam.
Muitas pesquisas tentam agora dirimir as dúvidas quanto ao papel de cada fase do sono, desde o REM, no qual sonhamos com mais intensidade, até a mais profunda, na formação de memórias e, em geral, no aprendizado. No entanto, existe um consenso de que, enquanto dormimos, em nosso cérebro acontecem muitas coisas importantes e que o sono não é, de forma alguma, um tempo perdido.

A falta de sono favorece a aparição de falsas lembranças

Além de mostrar a importância do sono na aprendizagem e na formação de lembranças, os cientistas observaram também que não dormir não só prejudica a memória como também favorece a aparição de recordações falsas. Em um estudo publicado na revista Psychological Science, um grupo de pesquisadores dos EUA perguntou a um grupo de 193 participantes quais eram suas lembranças sobre as imagens do voo 93 da United Airlines que caiu na Pensilvânia durante os atentados de 11 de setembro. Apesar de não haver imagens do acidente, os 54% de participantes do estudo que reconheceram ter dormido menos de cinco horas na noite anterior ao ocorrido garantiram tê-las visto. Entre os que tinham dormido mais, apenas 33% tinham essas falsas lembranças.
Em uma continuação da experiência, os pesquisadores pediram aos voluntários que escrevessem um diário com as horas que tinham dormido e outras características sobre a qualidade de seu sono durante uma semana. Depois desse tempo, imagens sobre um crime foram mostradas a eles. Em seguida, foi lido um relato dos fatos que incluía detalhes falsos. Finalmente, observou-se que os 18% dos participantes do estudo que tinham dormido menos de cinco horas incorporaram detalhes falsos, enquanto entre os que tinham descansado bem, apenas 13% o fizeram.

Reportagem de Daniel Mediavilla
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/27/ciencia/1432748324_013063.html
foto:http://www.thetelescopenews.com/opinion/7647-zanu-pf-will-not-lose-sleep-over-mdc-t-election-boycott-but-will-over-economic-meltdown.html

Como micróbios que vivem em ianomâmis isolados podem ajudar nossa saúde

O aumento da ocorrência de males como asma, diabetes e obesidade é frequentemente atribuído ao estilo de vida moderno sem provas contundentes de que nossos ancestrais também sofriam destas mesmas doenças. Até agora.
Em 2008, um helicóptero militar se encontrou por acaso com um grupo inexplorado de ocas em uma remota região amazônica no sul da Venezuela. Era um assentamento ianomâmi com 15 mil pessoas.
Acredita-se que eles tenham vivido completamente isolados desde que seus ancestrais chegaram até a América do Sul depois da última idade de gelo.
A população parcialmente nômade formada de caçadores-coletores nunca havia sido exposta à civilização moderna e, consequentemente, nem seus estômagos e intestinos.
A comunidade caça pequenas aves e mamíferos, além de rãs e peixes, para alimentar-se. De vez em quando, caçam também alguma anta e consomem bananas e mandioca.
Para beber, os ianomâmis recolhem água de um riacho que fica a cinco minutos a pé da aldeia.
Desde então, um grupo internacional de cientistas passou a estudar o grupo, cuja localização exata permanece protegida, para examinar a composição de microorganismos que vivem dentro deles.
Alguns micróbios causam doenças, mas a maioria deles é completamente inócua e indispensável para a vida humana.
Os micróbios com os quais nascemos, que provêm principalmente do canal vaginal de nossas mães durante o parto, conformam a base de um microbioma com o qual convivemos durante toda a nossa vida.
Somos literalmente habitados por trilhões deles. No entanto, a vida moderna pode alterar essa composição microbiana.
O consumo de antibióticos, de alimentos processados e de sabão, pode exemplo, pode ter contribuído para uma diversidade menor de nossa população de micróbios e para o surgimento de "novas" doenças como a asma, inflamações intestinais e diabetes, de acordo com Gautam Dantas, da Escola de Medicina de Washington, um dos pesquisadores que estuda os ianomâmi.

Comparando micróbios

María Gloria Domínguez Bello, da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, analisou micróbios dos ianomâmis e os comparou com os que habitam corpos de grupos modernos ocidentais.
Bello diz que a infância é um período importante para preparar o sistema imunológico quando se aprende a distinguir os bons micróbios daqueles que se deve combater.
No entanto, segundo ela, as crianças americanas recebem, em média, dois tratamentos com antibióticos em seu primeiros ano de vida. E uma a cada três nasce por cesárea, o que impede a formação do microbioma característica do parto normal.
Já no Brasil, um a cada dois bebês nasce por cesárea.
"Se alteramos as boas bactérias, o sistema imunológico do bebê pode ficar mal preparado e responder incorretamente a outros agentes e bactérias."
Os ianomâmis permitiram que micróbios de suas bocas, pele e fezes fossem analisados pela equipe internacional de cientistas. Bello diz ter ficado surpresa com o resultado.
Os micróbios da pele e dos intestinos dos indígenas amazônicos eram 40% mais variados do que os da população urbana moderna com a qual foram comparados.
"A diversidade no intestino é impressionante e acreditamos que ela tem um papel importante na digestão e na comunicação com o sistema imunológico", explica.
"Queremos saber que bactérias perdemos, quais eram suas funções e se podemos recuperá-las eventualmente."
Por outro lado, os micróbios encontrados nas bocas dos ianomâmis tinham um equilíbrio semelhante aos dos grupos urbanos modernos, o que alguns pesquisadores explicam como o resultado do hábito dos indígenas de mascar tabaco – um leve antisséptico – desde a juventude.

Resistência antibiótica

Outra descoberta importante foi a de que os micróbios que habitam o corpo dos ianomâmis têm genes mais resistentes aos antibióticos, apesar de nunca terem sido expostos a remédios modernos. Estes genes, no entanto, não estão ativados.
Segundo Gautam Dantas, foram encontrados seis genes resistentes.
"A resistência antibiótica é uma característica natural das bactérias no corpo humano. Não é algo gerado pelo uso de antibióticos, mas é amplificado pelo uso de antibióticos."
O microbioma "de referência" da população isolada ianomâmi também foi comparado com o de outros povos de caçadores-coletores do Malauí, na África, e com índios guahibos, da Colômbia, cujas populações estão fazendo a transição para a vida urbana com acesso a cuidados médicos e mudanças em suas práticas de agricultura.
A comparação comprovou que quanto mais expostos os povos nativos estão à vida moderna, menos diversificado é seu microbioma.
Dantas, no entanto, afirma que são precisos mais estudos para entender o papel destes genes resistentes e entender o efeito que eles têm sobre o sistema imunológico e o metabolismo.
Mas, uma vez que se saiba disso, poderíamos simplesmente "recarregar" nossos micróbios para reduzir o impacto do estilo de vida em nosso organismo?
Dantes acredita que haverá interesse comercial no desenvolvimento de compostos sintéticos que modulem os efeitos da vida moderna.
Mesmo assim, ele afirma que é nossa responsabilidade reduzir o usos de antibióticos e, talvez, ser menos obcecados com a limpeza.

fonte:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/06/150529_pesquisa_ianomamis_saude_cc#orb-banner
foto:http://eportuguese.blogspot.com.br/2010/12/quem-sao-os-ianomamis.html

O que muda com a retirada de Cuba da lista de países considerados terroristas pelos EUA

O Departamento de Estado norte-americano anunciou, na última sexta-feira (29), a saída de Cuba da sua lista de países patrocinadores do terrorismo. A decisão avança no sentido do restabelecimento das relações diplomáticas entre os países, contudo ainda é incerto o fim do embargo econômico que os Estados Unidos impõem sobre a nação cubana.
Com a decisão, algumas mudanças acontecem, dentre elas, a possibilidade de Cuba realizar transações bancárias em território norte-americano. Medidas como essa fazem parte de um pacote específico de sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, ligado ao Departamento do Tesouro norte-americano.
Outras sanções específicas ligadas aos departamentos de Estado, Comércio e Defesa também deixam de valer. Como exemplos, estavam as proibições de exportar e vender armas aos países considerados terroristas, bem como o controle de determinadas exportações que poderiam melhorar suas capacidades militares e restrições de ajuda econômica.
No entanto, essas mudanças não significam o fim do embargo comercial e financeiro, que por ser codificado em lei só pode ser encerrado por decisão do Congresso estadunidense, que possui legisladores que se opõem frontalmente a Cuba, como os senadores Marco Rubio e Robert Menéndez.
30 anos depois
Desde 1982, Cuba era colocada na lista elaborada anualmente pelo Estado norte-americano dos países que considera como terroristas. A decisão é anunciada no prazo limite de 45 dias dada pelo presidente Barack Obama ao Congresso para que avaliasse a retirada da ilha caribenha dessa lista.
Em nota oficial, o porta-voz da chancelaria estadunidense, Jeff Rathke, afirmou que “embora os Estados Unidos tenham preocupações e divergências significativas” com Cuba em diversos temas, estes estão “fora dos critérios relevantes” para manter o país na lista, que tem nações como Irã, Síria e Sudão.
A aproximação entre os dois países vinha se dando nos últimos meses. Em dezembro de 2014, os presidentes Raúl Castro e Barack Obama anunciaram conjuntamente que pretendiam avançar no sentido de restabelecer as relações diplomáticas entre as nações, que estavam rompidas desde 1961, dois anos após a Revolução Cubana.

fonte:http://www.brasildefato.com.br/node/32169
foto:http://www.jornalnh.com.br/_conteudo/2014/12/noticias/regiao/111975-relacoes-entre-eua-e-cuba-e-aumento-da-luz-nas-charges-dos-jornais-de-quinta-feira.html

"Quem protege o trabalhador são as leis trabalhistas, não o Judiciário"

Há quem diga que a Justiça do Trabalho protege o trabalhador. No entanto, para o presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, Lorival Ferreira dos Santos, isso é um equívoco. Em sua opinião, os juízes apenas cumprem o seu dever de aplicar a lei que, esta sim, por opção dos legisladores, protege os trabalhadores.
Natural de Clementina (SP), Lorival dos Santos começou a trabalhar cedo, aos 12 anos, para ajudar a família. “O mote era: é melhor trabalhar do que estar na rua”, conta. Hoje, depois de 29 anos dedicados à Justiça do Trabalho, ele enxerga que a afirmativa deveria ser outra: “É melhor estudar, é melhor brincar”. Uma criança sadia e que estudou, garante o presidente do TRT-15, não será o criminoso de amanhã.
Com a missão de comandar o segundo maior TRT do país, com sede em Campinas e abrangência de 95% do estado de São Paulo, Lorival dos Santos aponta que um dos maiores desafios é respeitar a duração razoável do processo com uma estrutura deficiente: faltam servidores e magistrados. Em seus cálculos, o tribunal precisaria de pelo menos mais onze desembargadores para acompanhar o ritmo da demanda.
Para diminuir o número de processos que chegam à Justiça, o presidente sugere dois caminhos: incentivar as soluções extrajudiciais e mudar a sistemática dos recursos. “Aquele que recorrer e perder tem que pagar um pouco a mais”, defende. Assim, acabariam os recursos que servem para retardar a execução.
Lorival Ferreira dos Santos tomou posse como presidente do TRT-15 em dezembro de 2014. Para esta entrevista, ele recebeu a revista Consultor Jurídico no tribunal.
Leia a entrevista:
ConJur — Quais têm sido os principais desafios do senhor nesse início de gestão?
Lorival Ferreira dos Santos — O desafio não é pequeno. O nosso tribunal é o segundo maior do país. Procuramos julgar dentro do que diz a Constituição, respeitando a duração razoável de um processo. Para isso, contamos com servidores abnegados e com juízes comprometidos. Mas temos problemas históricos na corte, como os déficits de servidores e magistrados.

ConJur — Seria possível determinar um prazo para essa duração razoável do processo?
Lorival Ferreira dos Santos — Não, porque isso depende do processo. Em varas mais pesadas, com mais de 1,5 mil processos, a audiência de cognição pode demorar um pouco mais, mas na maioria das varas, acontece dentro de 30 dias. Muitas vezes, temos o resultado do processo entre 60 a 90 dias, no primeiro grau. E, no segundo grau, no máximo em 120 dias tem uma solução do conflito. Por óbvio que existe uma outra fase, aquela mais dificultosa, que é dar a efetividade ao processo, efetuando o pagamento ao trabalhador.

ConJur — A fase de execução.
Lorival Ferreira dos Santos — Isso. Muitas vezes executamos a dívida e o devedor não tem bens. Hoje, existe uma série de ferramentas que nós utilizamos, como o Bacenjud e outros, que facilitam a execução, mas quando o devedor não tem meios, o processo fica estagnado.

ConJur — O relatório Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça, mostra que a execução é o principal desafio da Justiça do Trabalho. Como resolver isso?
Lorival Ferreira dos Santos — Sou de uma época da Justiça do Trabalho em que citávamos, o empresário pedia as guias, recolhia e pagava. Eu não sei se é a situação econômica que gera muitas dificuldades. O empresário hoje tem mais medo da fiscalização e das multas do que da Justiça. Por isso sempre dizemos que é melhor conciliar do que, de repente, ter uma sentença nas mãos, sem a certeza da execução do pagamento. Na conciliação já há uma predisposição de conciliar e pagar.

ConJur — Quais são as dificuldades para suprir o déficit de magistrados e servidores?
Lorival Ferreira dos Santos — O primeiro desafio é a aprovação do projeto. Por exemplo, mandamos um projeto para o Conselho Superior da Justiça do Trabalho de [criação de] 66 varas do Trabalho. Foram aprovadas 33, cada uma com um juiz titular e um substituto. No Conselho Nacional de Justiça, conseguimos uma modificação para ter mais 33 substitutos, e o processo voltou para o Tribunal Superior do Trabalho para ser avaliado. Quanto aos servidores, conseguimos a aprovação de 973 cargos. Esse projeto está no Congresso Nacional, que, agora, depende de inclusão de verba na Lei Orçamentária Anual. Com isso, conseguiremos praticamente resolver o nosso déficit de mil servidores. Nós estamos produzindo muito, com poucos servidores. Os gabinetes deveriam ter 16 servidores. Hoje, há, em média, dez.

ConJur — Quais são os projetos para a sua gestão?
Lorival Ferreira dos Santos — Estamos fazendo uma gestão de processos e de pessoas, o que inclui um aperfeiçoamento da qualificação profissional dos servidores por meio de nossa Escola Judicial. Outro objetivo é atacar na área dos precatórios, dando continuidade ao trabalho feito pelo ex-presidente Flavio Cooper. Ele fez uma audiência com os devedores, que são entes públicos, e isso tem facilitado o pagamento dos precatórios. Outro aspecto que queremos dar ênfase é com relação à conciliação. A Justiça do Trabalho tem vocação conciliatória. Devemos lançar um novo olhar para a conciliação e quebrar o paradigma da cultura da sentença que existe no país. Para isso criamos recentemente dois Centros Integrados de Conciliação, CICs, um no primeiro grau de jurisdição, que funciona no Fórum Trabalhista de Campinas e outro, atuando no segundo grau. Queremos criar mais sete centros como este, um em cada circunscrição do TRT no estado de São Paulo.

ConJur — Como funciona esse centro?
Lorival Ferreira dos Santos — Precisamos ir além das tentativas de conciliação nas audiências normais. A principal atribuição desse centro é propor a mediação e a conciliação em qualquer fase processual. Para isso, conta com estrutura composta por magistrados e servidores, atuando em mesas redondas. O projeto almeja também solucionar por acordo ações em que são parte grandes grupos empresariais com unidades instaladas na 15ª Região, sob coordenação da Vice-Presidência Judicial da Corte.

ConJur — Qual é a maior dificuldade da Justiça do Trabalho?
Lorival Ferreira dos Santos — As maiores dificuldades não são os temas,  dos mais variados. O juiz do Trabalho está preparado para isso. O problema maior nosso é o número de ações. Há um volume elevado causado pela quantidade de recursos. Se existisse uma forma alternativa de solução de conflitos, esse número talvez fosse menor. Uma forma alternativa para solucionar os conflitos de menor complexidade.

ConJur — Que forma seria essa?
Lorival Ferreira dos Santos — Extrajudicial. É preciso aperfeiçoar o projeto das comissões de conciliação prévia, que foi desvirtuado. Hoje o instituto das comissões de conciliação prévia funciona como se fosse um órgão de homologação. Vai ao Ministério do Trabalho, ao sindicato e homologa. Além disso, é preciso mudar a sistemática dos recursos. Aquele que quer recorrer, pode recorrer, mas se perder tem que pagar um pouquinho mais porque, muitas vezes, o cidadão litiga para ganhar tempo e isso não é razoável. Há, no Congresso, um projeto nesse sentido. Algo que também precisamos é aumentar o número de fiscais do trabalho. Se tivesse um número suficiente para uma atuação mais eficaz, não teríamos esse grande número de reclamações trabalhistas.

ConJur — Alguns ministros do Tribunal Superior do Trabalho assinaram um manifesto contra o projeto de lei sobre terceirização. É papel do ministro, ou do juiz, se manifestar contra um projeto de lei?
Lorival Ferreira dos Santos — O TST fez muito bem em apontar os caminhos. Quem entende bem dessa matéria são os magistrados que lidam com ela quase que diariamente. O magistrado não é um extraterrestre. Ele vive na sociedade, tem responsabilidade social e deve apontar caminhos. Sabemos que a terceirização não tem volta, mas precisamos e  vamos cuidar para que ela não seja prejudicial ao trabalhador.

ConJur — Como assim?
Lorival Ferreira dos Santos — Não é razoável que aquele que prestou serviços fique sem receber. No serviço público, por exemplo, às vezes a empresa que vence um contrato tem um capital pequeno e desaparece. Os trabalhadores não vão receber? Parece razoável que a lei permita a inclusão da empresa beneficiária da prestação de serviço no polo passivo, mesmo que seja pública. Nesse ponto o Congresso Nacional já deveria ter atuado faz tempo, mas ele não coloca o dedo na ferida.

ConJur — Com isso, as discussões são levadas ao Judiciário.
Lorival Ferreira dos Santos — À míngua de uma legislação específica, o Tribunal Superior do Trabalho editou a Súmula 256 e a aperfeiçoou para a 331.

ConJur — Há um receio a respeito da decisão que o Supremo Tribunal Federal pode dar no ARE 713.211, ação na qual a corte discute os limites da terceirização?
Lorival Ferreira dos Santos — O STF saberá bem resolver isso, haverá bom senso. O Supremo tem utilizado bons recursos como as audiências públicas para debater questões complicadas. Além disso, há ministros que passaram pela Justiça do Trabalho como Marco Aurélio e Rosa Weber. Há uma expectativa positiva apesar da pressão do empresariado.

ConJur — Que a análise o senhor faz do processo eletrônico?
Lorival Ferreira dos Santos — Em um primeiro momento, ficamos temerosos com a novidade, no entanto hoje, aqui no TRT-15, entendemos que é benéfico, pois reduz o tempo morto do processo. O advogado, com uma boa ferramenta, consegue ingressar com a petição a qualquer momento, não há aquele acúmulo de pessoas que tínhamos no balcão. Esse é o ganho para o jurisdicionado: celeridade, otimização do serviço, sem contar ainda a preservação do meio ambiente. Quantas árvores deixaram de ser cortadas? Contamos com a parceria da Ordem dos Advogados do Brasil em nosso comitê que trata do PJe-JT.

ConJur — O PJe-JT já está instalado em todo o TRT-15?
Lorival Ferreira dos Santos — Já implantamos 100%. Primeiro no tribunal e depois nas varas, gradativamente, de maneira que somente os processos antigos continuam físicos. É uma ferramenta na qual nós buscamos, diuturnamente, o aperfeiçoamento. Isso é necessário porque, com essa facilitação de acesso, está aumentando o número de ações em decorrência do processo judicial eletrônico. Constatamos isso em um levantamento interno que fizemos.

ConJur — Isso é bom ou ruim?
Lorival Ferreira dos Santos — Eu não diria se é bom ou se é ruim, porque o magistrado que prestou concurso, está aqui para prestar o serviço ao jurisdicionado. Porém, se houver alguma distorção, alguém ficar sobrecarregado, precisamos corrigir.

ConJur — Qual é avaliação que o doutor faz da CLT? Ela precisa ser reformada?
Lorival Ferreira dos Santos — Aqueles que criaram a CLT — Getúlio Vargas e os seus ministros — tiveram uma sensibilidade para perceber e elaborar uma norma em que houvesse uma proteção jurídica em favor do trabalhador, para compensar o poder econômico. Porque, senão, o que seria do trabalhador para litigar contra uma grande devedora? A CLT é uma bela senhora que está muito atualizada porque, ao contrário do que muitos dizem, ela vem sendo aperfeiçoada.  Há questões, como os acidentes, a previdência, que estão na CLT e hoje são atuais. É lógico que há pontos que ainda necessitam de aperfeiçoamento e  adequação, mas a CLT em si, não.

ConJur — Não precisaria de uma grande reforma?
Lorival Ferreira dos Santos — Não, absolutamente. Tem alguns artigos emblemáticos ali que são a verdadeira espinha dorsal do contrato de trabalho. O artigo 9º, por exemplo: são nulos de pleno direito os atos praticados com objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar os preceitos da CLT. Puxa vida, olha que coisa maravilhosa! Porque se estiver desempregado, a família passando fome e alguém oferece um emprego, o trabalhador assina qualquer coisa. Depois não pode buscar uma reparação quando já não há mais aquela suposta coação econômica? Lógico que pode. A alteração no curso do contrato, onde não há garantia de emprego — e nem poderia dizer que vai ter uma estabilidade porque também não queremos engessar a vida dos empresários —, o trabalhador fica muito vulnerável. As alterações ocorridas no curso do contrato são feitas de forma unilateral e se trouxer prejuízo econômico financeiro, não pode buscar reparação? Pode, a CLT protege isso. Então temos vários artigos que eu costumo dizer que são a verdadeira linha dorsal do contrato de trabalho.

ConJur — A CLT e a Justiça do Trabalho, elas não protegem demais o trabalhador?
Lorival Ferreira dos Santos — Isto é um equívoco. A Justiça do Trabalho não protege ninguém, porque, quando o magistrado presta o concurso, nós juramos a Constituição e as leis da República. E assim é feito, julgamos de acordo com a CLT, esta sim, protecionista. E não é só ela, o Código de Defesa do Consumidor não é protecionista? As leis de previdência não são protecionistas? O Estatuto do Idoso não é protecionista? Do trabalho infantil não é protecionista? Então nós temos um arcabouço de proteções que o legislador chega e fala: “olha, aqui essa, aqui aquela, aqui aquela”. E assim foi com a CLT.

ConJur — Recentemente houve um debate acerca da portaria do Ministério do Trabalho que cria a chamada lista suja do trabalho escravo. O ministério poderia ter criado essa lista por meio de uma portaria? O senhor é favorável a essa divulgação?
Lorival Ferreira dos Santos — Não entro no mérito da criação da portaria, porque isso está sub judice. O que eu penso é o seguinte: se existe uma decisão, transitada em julgado, por que não se pode divulgar isso? Não há por que. É perfeitamente possível essa divulgação. A questão é se isso pode ser criado por portaria. Porque se formos esperar uma lei, jamais virá uma lei para fazer isso.

ConJur — Cabe arbitragem na Justiça do Trabalho?
Lorival Ferreira dos Santos — Cabe no âmbito do dissídio coletivo. A Constituição da República é muito taxativa, estando prevista a arbitragem no artigo 114. No âmbito do dissídio individual, não.

ConJur — Há projetos de lei no Congresso propondo a arbitragem em casos individuais também.
Lorival Ferreira dos Santos — No nosso entender, não cabe a arbitragem no âmbito trabalhista do dissídio individual, haja vista que não é preservada a autonomia da vontade do cidadão, essa autonomia da vontade estaria viciada. A arbitragem é feita de acordo com uma eleição, as partes elegem um árbitro. Dá para imaginar o trabalhador à mercê de uma grande empresa que tem centenas de empregados elegendo um árbitro juntamente com o dono da empresa? Como é que seria essa eleição do árbitro?

ConJur — E nos casos de cargos de relevância, como gerência, diretoria?
Lorival Ferreira dos Santos — Nesses casos acredito que não há vício porque a autonomia da vontade está preservada. Um grande diretor de uma multinacional ou de uma grande empresa nacional, ele pode, perfeitamente, estar em um impasse. Não dar entrada na Justiça do Trabalho e eleger um árbitro. Tudo bem. Mas, no âmbito geral, dos trabalhadores, não.

ConJur — O trabalho infantil é um tema que chega muito no TRT-15?
Lorival Ferreira dos Santos — O trabalho infantil é uma situação interessante. Eu, por exemplo, comecei a trabalhar aos 12 anos, mas recebi o apoio, o carinho do meu pai, da minha mãe, educação, acompanhamento. É lógico que queria brincar, mas, em uma família grande, trabalhar era uma necessidade e eu não senti nessa época. Apesar disso, acredito que a criança deve estudar e ter uma atividade lúdica. Por isso temos uma campanha aqui no tribunal contra o trabalho infantil.

ConJur — A experiência que teve em sua vida seria considerada trabalho infantil?
Lorival Ferreira dos Santos — Seria, porque eu comecei a trabalhar aos 12. Mas naquele tempo o mote era: é melhor trabalhar do que estar na rua. No meu entendimento, é melhor estudar, é melhor brincar. A criança sadia, bem nutrida, que estudou, terá oportunidades e não será o criminoso de amanhã. Nós tivemos um caso emblemático de trabalho infantil aqui na 15ª Região.

ConJur — O senhor pode nos contar?
Lorival Ferreira dos Santos — Um garoto, o Gedeão, com cerca de dez anos de idade, trabalhava pregando caixas que serviam para o transporte de hortifrutigranjeiros. Certo dia, um prego escapou e perfurou um dos olhos dele. Então ele procurou a Justiça do Trabalho. Os pais dele tentaram obter a carteira de trabalho para ele, mas foi negada porque não tinha mais de 16 anos. A Constituição diz que o trabalho é permitido para quem tem mais de 16, salvo na condição de aprendiz, que é a partir de 14 anos. Mas a Constituição diz isso para proteger o menor e não para ser contra ele. Os pais da criança buscaram a Justiça do Trabalho e uma colega nossa, brilhante, concedeu uma liminar para que fosse expedida a carteira. Foi expedida e houve uma ação na Justiça do Trabalho, com a participação do Ministério Público. Depois de algum tempo foi fechado um acordo em que envolveu até imóveis e pagamentos. Encerrado o caso, nunca mais vi o Gedeão. Até hoje fico curioso para conhecê-lo depois de adulto. Diziam que ele queria ser advogado ou juiz. Foi um caso emblemático que chamou toda a atenção da Justiça do Trabalho. Hoje, nós estamos implantando na 15ª Região os chamados JEIAs: Juizados Especiais da Infância e Adolescência, que têm como uma de suas funções fazer esse controle da autorização para o trabalho. Esses juizados também buscam um envolvimento com a comunidade, viabilizando locais onde possam receber essas crianças para estudar e atuar como aprendizes. Serão implantados ao todo dez JEIAs em nossa jurisdição, com um juiz em cada um deles que tenha esse viés social.  Não basta apenas proibir o trabalho infantil. Vamos conversar com os pais e  fazer o encaminhamento para escolas de aprendizagem.

ConJur — A liberdade sindical deveria ser plena no Brasil ou esse modelo de sindicato único vigente atende às necessidades?
Lorival Ferreira dos Santos — Isso é uma incógnita, porque tem a unicidade sindical no Brasil e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) prega a pluralidade sindical. Depois de alguns anos de experiência, chego à conclusão que é melhor a pluralidade sindical, com sindicatos mais combativos e representativos. Mas isso depende de uma reforma na Constituição porque o artigo 8º aborda claramente da unicidade. A maioria dos sindicatos é boa — às vezes ficamos orgulhosos em uma sessão de julgamento de dissídio coletivo quando comparece um dirigente bem preparado, que não fica apenas na dependência do advogado. Mas há também muitos sindicatos de carimbo, que não representam nada, apenas arrecadam.

ConJur — Por que a Justiça do Trabalho impede o trabalhador de negociar os direitos chamados indisponíveis, como o horário de almoço?
Lorival Ferreira dos Santos — Existem aqueles direitos que envolvem a própria higidez do corpo humano. Vamos imaginar que alguém queira negociar a jornada de 12 horas ou de 14 horas por dia. “Não, eu estou novo, eu consigo”. Por quanto tempo ele vai conseguir fazer isso? Eu vejo aqui processos em que o cortador de cana, às vezes, trabalha por dez horas ou mais. Quanto tempo ele vai conseguir fazer isso? O ganho por produtividade o estimula a trabalhar mais, fazendo um intervalo para refeição de vinte minutos. Cinco anos, seis anos, depois de dez anos ele é mandado embora porque a produção cai. A Constituição da República traz um princípio fabuloso, artigo 1º, o princípio da dignidade da pessoa humana. Por isso, o Tribunal Superior do Trabalho editou uma súmula que não permite a flexibilização, para proteger o ser humano.

ConJur — Qual é o reflexo das crises econômicas na Justiça do Trabalho?
Lorival Ferreira dos Santos — Lamentavelmente, há uma cultura do empresário que, quando há uma crise econômica, a primeira iniciativa é demitir. Com isso, aumenta o número de dissídios coletivos. Ao julgar um caso da Embraer, que demitiu quatro mil trabalhadores de uma só vez em 2009, o TRT entendeu que a empresa não poderia simplesmente fazer uma demissão coletiva sem justa causa, como no âmbito individual. Isso porque a empresa tem responsabilidade social. Nós construímos um entendimento de que é necessário negociar com o sindicato da categoria profissional, buscando alternativas. Essa decisão foi levada ao TST, que manteve a jurisprudência.


Reportagem de Tadeu Rover
fonte:http://www.conjur.com.br/2015-mai-24/entrevista-lorival-ferreira-santos-presidente-trt-15
foto:http://empreenderesaber.blogspot.com.br/2014_04_01_archive.html