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10/04/2017

Ter uma doença mental na China: estigmatizado, ignorado e sem tratamento

Doentes mentais em fábricas de tijolos do leste da China 

Durante anos, Liu Chunhua foi um rosto muito mais conhecido na delegacia que no consultório de psiquiatria do hospital local. Quando ouvia vozes que lhe mandavam arremessar móveis em quem estivesse por perto, vagava sem rumo, falava sozinha ou tinha súbitas e violentas mudanças de humor, os vizinhos chamavam na hora a polícia para que a levasse e tentasse acalmá-la. Até que finalmente, em 2016, durante um desses episódios, um de seus irmãos resolveu que havia sido o bastante e levou Liu (que prefere ser chamada por esse nome fictício) ao hospital de Anding, o de maior prestígio em doenças mentais de Pequim, na China. A mulher, atualmente com 53 anos, foi finalmente diagnosticada como tendo esquizofrenia. Foi a primeira vez que sua filha de 14 anos ouviu essa palavra.
Os primeiros meses foram difíceis. Liu se recusava a tomar o remédio, queixava-se dos ruídos, tinha pesadelos em que ouvia tiros. “Queria me suicidar. Não conseguia suportar o sofrimento. Mas as vozes me diziam que nem me matando eu poderia me esconder”, lembra. Finalmente, foi internada num centro comunitário especializado. “Estava bem. A pessoa se sentia segura lá dentro. Podíamos jogar bola, cantar no coral, às vezes tecer…” Hoje, demitida antecipadamente de seu trabalho numa fábrica devido a sua doença, mantém os sintomas sob controle. É uma das sortudas no país asiático.
Nesse país modernizado a um ritmo nunca visto na história, urbanizado de forma forçada e com profundas desigualdades entre ricos e pobres, cerca de 100 milhões de chineses — cerca de 13,7% da população — padecem de doenças mentais. E o número continua a crescer, admite o Governo. Segundo dados do Ministério da Saúde, 54 milhões desses doentes sofrem de depressão. Muitos nunca chegam a ir ao médico ou receber tratamento. No caso da depressão, apenas 30% são diagnosticados; somente 10% se submetem a terapia, calcula o jornal Shanghai Daily.
A escassez de especialistas não ajuda nada a combater o problema. Em 2014 havia só 23.000 psiquiatras qualificados na China, o equivalente a 1,7 por 100.000 habitantes, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Nos Estados Unidos, essa proporção é de 12 por 100.000, por exemplo; na Noruega, 30 por 100.000.
A OMS calcula que o custo da depressão atinja na China  7,8 bilhões de dólares (cerca de 25 bilhões de reais) por ano em dias de trabalho perdidos, gastos médicos e pagamento de funerais. “Os custos da depressão são conhecidos. O que é menos divulgado é que a cada dólar empregado no tratamento da depressão a sociedade ganha quatro dólares em melhor saúde e capacidade de trabalho”, afirma o diretor da OMS na China, Bernhard Schwartländer. Só que a dotação para doenças mentais no orçamento chinês é de cerca de 1% somente.
É algo com raízes históricas. Num país que até 20 anos atrás tinha recursos muito limitados, os cuidados mentais eram secundários em relação ao tratamento de doenças fatais. As superstições tradicionais consideravam que um doente mental significava uma maldição do céu. Doentes podiam muito bem acabar presos em suas próprias casas, confinados por suas famílias para evitar comentários, ou em manicômios, em situação lastimável. Na época maoísta, quem tinha depressão era considerado traidor do regime, carente do entusiasmo exigido para participar da criação da “nova China”.
Ainda hoje persiste um enorme desconhecimento, que pode até provocar erros em alguns casos. Não é raro que a depressão seja confundida com um estado de ânimo ruim ou com algum tipo de fraqueza passageira; nada que não seja curado com boa alimentação, com disciplina ou com o passar do tempo. Também é frequente a ideia de que seja algo que acontece apenas com pessoas fracas, física ou mentalmente.
Em caso de problemas mais visíveis ou drásticos, a primeira reação de muitas pessoas é chamar a polícia, e não os médicos. “Acham que a polícia pode controlar o doente, mas os médicos não”, explica Cindy, sua filha.
Até quando o paciente reconhece os sintomas, reluta em pedir ajuda. “Têm medo que seu círculo de amigos e a família, ou seus chefes, possam não entendê-lo, que percam seu trabalho se deixarem saber o que se passa com eles. Também se preocupam que possa ser algo incurável”, explica Wu Hua, diretor da Shangshan, fundação dedicada a educar sobre a depressão.
“Na nossa cultura, o sentimento de vergonha é enorme”, explica T, um voluntário da Tulip, ONG de apoio a pacientes da depressão em Xangai. “Não somos muito tolerantes com o que é diferente. Todos temos que ser iguais, fazer as mesmas coisas. Os doentes mentais podem ficar muito isolados”, diz.
Mas essas atitudes estão mudando. O público começa a ser mais consciente do problema, graças ao cinema, à TV e às redes sociais. Cada vez mais há famosos que admitem lutar contra uma doença mental, conseguindo que a opinião pública discuta o assunto.
Zhang Jin, diretor adjunto da revista de economia Caixin, é um deles. Em 2012 precisou de um ano inteiro de consultas e várias mudanças de médico antes ser diagnosticado com transtorno bipolar, experiência que descreveu em seu livro Bypass. “Quinze anos atrás as pessoas nunca tinham ouvido a palavra depressão, agora é algo que está nas ruas”, explica.
Ainda assim, de maneira muito desigual. Doentes como Jin ou como Liu, de classe média e residentes na capital, têm mais acesso a especialistas e hospitais que os habitantes de cidades mais remotas, onde os psiquiatras podem ser uma raridade.
O Governo chinês começou a dar passos para enfrentar o problema. Em 2012 aprovou a primeira lei de saúde mental, que proíbe internar pacientes sem sua permissão. E em dezembro tornou essa questão prioritária ao dar luz verde a um documento político sobre a gestão das enfermidades psiquiátricas. O texto tenta melhorar a atenção psiquiátrica nos centros médicos, locais de trabalho e universidades até 2030.
Reportagem de Macarena Vidal Liy
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/07/internacional/1491576609_454149.html
foto:http://www.abim.inf.br/doentes-mentais-trabalhavam-como-escravos-na-china/#.WOuiA_nyvIU

05/03/2016

O legado nocivo da industrialização na China pode custar milhões ao Estado


“O fechamento da fábrica nos trouxe uma coisa boa: pelo menos podemos respirar melhor”, diz Lao Zhang. Aposentado, ele mora na cidade de Tiejuzhai, em pleno cinturão industrial cerca de 200 quilômetros a nordeste de Pequim, na província de Hebei. A fábrica de aço Tangshan Antai, que se instalou na vizinhança há uma década, deixou de produzir em outubro. É uma das 16 indústrias do setor que fecharam as portas em Hebei no ano passado devido à desaceleração econômica e às medidas do Governo para reduzir o excesso de capacidade. Mas sua década de funcionamento, dizem os moradores, deixou um legado de poluição que será difícil de erradicar.
“A cidade está cheia de pó de ferro”, diz o aposentado, dando um chute no chão que faz levantar uma pequena nuvem. “Enquanto a fábrica funcionava, o ar era preto. A sujeira ficava na pele, na roupa... Gastamos tanto detergente! A poluição também afetou a chuva. Caía chuva ácida, que prejudicou nossos cultivos. E ninguém nunca nos compensou por isso.”
Xia Xuge, um entre os cerca de 100 desempregados deixados pela fábrica neste povoado de 4.000 habitantes, está de acordo com Lao. “Os cultivos estão arruinados. Antes cresciam árvores frutíferas, mas a poluição da fábrica as matou. A terra está muito contaminada.”
“A poluição do ar pode afetar o solo. As substâncias nocivas emitidas na atmosfera pelas fábricas, como os sulfuretos, os metais pesados e outras partículas tóxicas, podem se assentar diretamente nas plantas e na terra, poluindo o solo e prejudicando as colheitas”, dizem representantes da ONG chinesa Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais, que há quase 10 anos se dedica a difundir dados e informações sobre a poluição industrial no país.
“Indiretamente, as substâncias poluentes podem ser absorvidas pela chuva, a neve ou mesmo a névoa, resultando em chuva ácida, que é também prejudicial para as colheitas e as plantas”, acrescenta essa ONG. “As siderúrgicas, em particular, são grandes emissoras de dioxinas, muito prejudiciais para o solo.”
Na base de dados do Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais, a Tangshan Antai é citada em sete situações de violação das regras desde 2008, por emissões de poluentes ou equipamento inadequado. No mais recente, no ano passado, as autoridades provinciais impuseram uma multa de 32.000 yuans (19.550 reais) por superar o nível tolerado de partículas poluentes expelidas na atmosfera.
Mas o fim das operações da Antai não significa que o ar da região ficará muito mais puro. As siderúrgicas são onipresentes em todo o município de Tangshan, e muitas delas são igualmente responsáveis por violações das regras. Hebei tem uma das piores qualidades do ar em toda a China: 7 das 10 cidades mais poluídas do país, incluindo Tangshan, ficam nessa província, onde funcionam 183 fábricas de carvão, ferro, aço e cimento. Entre todas elas, apenas duas foram aprovadas em uma vistoria de emissões feita pela ONG Greenpeace no ano passado.
Os níveis de poluição atmosférica na província, entretanto, começaram a cair. Segundo um estudo do Greenpeace publicado no mês passado, a poluição no triângulo Pequim-Tianjin-Hebei diminuiu 25,6% em 2015 com relação aos níveis de 2013. Isso pode ser explicado em parte à adoção de padrões ambientais mais rigorosos, mas também pelo fechamento de fábricas por questões econômicas e pelas ordens de Pequim para reduzir a capacidade industrial ociosa do país. Hebei se comprometeu a diminuir em 25% a sua produção de aço – 60 milhões de toneladas num total de 240 milhões – e 15% a de carvão – 40 milhões de toneladas do principal poluente no país – até 2017.
Contudo, segundo o estudo, Hebei se mantém no terceiro lugar na concentração das partículas poluentes mais perigosas, chamadas PM 2,5, de diâmetro inferior a 2,5 micra (milésimos de milímetro). A média diária da província é de 77,3 partes por metro cúbico de ar, só melhor do que a província de Henan e Pequim.
O departamento local de inspeção ambiental prometeu fechar até o final deste ano todas as pequenas empresas que descumprirem os padrões, segundo a agência Xinhua, e subvencionará investimentos em instalações para a limpeza de refugos contaminantes dos setores mais poluentes. Também prometeu investir o equivalente a 120 bilhões de reais para combater a poluição hídrica. Pequim calcula que aproximadamente 60% das águas subterrâneas da China e 70% na planície do norte – onde fica o cinturão industrial de Hebei – contenham elementos nocivos.
Mas a poluição mais difícil de erradicar pode ser a do solo. Um relatório do Ministério de Recursos Naturais e da Terra, elaborado ao longo de cinco anos e mantido em sigilo até sua divulgação parcial em 2014, concluiu que 19,4% da terra cultivável na China está poluída. Em 3,3 milhões de hectares é proibido semear devido à quantidade de produtos tóxicos no solo.
A grande causa disso é a rápida industrialização na China, junto com o uso excessivo de pesticidas. Além das partículas poluentes que chegam ao ar – o que não é o fator principal –, os dejetos tóxicos das fábricas se infiltram no solo. Em outros casos, os agricultores empregam água reciclada da mineração para irrigar seus campos. Entre os metais pesados que a investigação identificou estavam o cobre, o zinco, o mercúrio e o cádmio.
E, uma vez que chegam ao solo, esses materiais permanecem aí para sempre se não forem limpos. “Os metais pesados não são biodegradáveis”, diz por telefone Ada Kong, diretora da campanha do Greenpeace contra produtos tóxicos no leste da Ásia.
Sua eliminação pode ser muito custosa. Segundo Kong, limpar um acre de terreno (4.046,86 metros quadrados) pode custar o equivalente a até 60.000 reais.
Até agora, o Governo chinês se mostra mais lento na hora de fazer frente a esse tipo de contaminação do que contra a poluição do ar ou da água, que já contam com seus respectivos planos de ação. Chang disse esperar que o plano de descontaminação dos solos seja finalmente adotado este ano, com “medidas concretas para combater o problema”.
O Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais observa que “para reduzir danos às colheitas e ao solo é fundamental reduzir as emissões industriais de poluentes atmosféricos, e que as fábricas cumpram os padrões de eliminação de detritos. Se as fábricas divulgarem seus dados sobre a eliminação de detritos o público terá condições de fiscalizar seu comportamento ambiental e contribuir para que os padrões sejam cumpridos”.

Um país arrasado pela poluição

Cerca de 60% da água subterrânea na China contém elementos nocivos, segundo o Governo, que investirá o equivalente a 123,7 bilhões de reais no combate à poluição hídrica. A poluição no triângulo industrial Pequim-Tianjin-Hebei caiu 25,6% em 2015 com relação a 2013, segundo o Greenpeace. Das 183 fábricas de carvão, ferro, aço e cimento da província de Hebei, só duas foram aprovadas pelo Greenpeace em uma vistoria de emissões. O Ministério de Recursos Naturais e da Terra estima que 19,4% das terras cultiváveis na China estão poluídas. É proibido semear em 3,3 milhões de hectares.
Reportagem de Macarena Vidal Liy
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/26/internacional/1456503291_708266.html
foto:https://storify.com/ucirvine/made-in-china-air-pollution-as-well-as-exports

06/07/2013

Por que tantos jovens japoneses têm medo de sair do quarto?


Acredita-se que até 1 milhão de jovens no Japão estejam enfurnados em suas casas - em muitos casos por décadas. Mas por quê?

Para Hide, os problemas começaram quando ele decidiu largar a escola.
"Comecei a me culpar e a meus pais por não ir ao colégio. A pressão começou a crescer", afirma.
"Daí, aos poucos, comecei a ficar com medo de sair e com medo de encontrar pessoas. E então eu não conseguia mais sair de casa."
Gradualmente, Hide foi abrindo mão de toda e qualquer comunicação com seus amigos e, ao final, até com seus pais. Para evitar encontrá-los, ele dormia durante o dia e ficava acordado durante à noite, assistindo TV.
"Eu tinha todo tipo de emoção negativa dentro de mim", afirma. O desejo de ir para fora, a raiva contra a sociedade e contra meus pais, tristeza por ter essa condição, o medo sobre o que poderia acontecer no futuro e ciúmes em relação a pessoas que estavam levando vidas normais."
Hide se tornou um "arredio" ou hikikomori, o termo usado no Japão para descrever os jovens que acabam se isolando, termo bastante conhecido no país.
Tamaki Saito era um recém-formado psicólogo quando, no início dos anos 90, se surpreendeu ao notar o elevado número de pais que vinham buscar sua ajuda com crianças que haviam deixado a escola e se escondido por meses - às vezes por anos.
Estes jovens, de um modo geral, eram de famílias de classe média, quase sempre do sexo masculino e a idade média em que costumavam dar as costas à sociedade costumava ser de 15 anos.
O psicólogo afirma que os jovens que sofrem dessa condição se sentem paralisados pelos seus temores sociais. "Eles são atormentados mentalmente. Eles querem ver o mundo, fazer amigos e namorados, mas não conseguem."
Os sintomas variam entre os pacientes. Para alguns, rompantes violentos se alternam com comportamentos infantis. Outros podem ser obsessivos, paranoicos ou deprimidos.
Quando Saito deu início à sua pesquisa, o isolamento social ainda era pouco conhecido, e era tratado por médicos como sendo um sintoma de outros problemas comportamentais que exigem tratamento.
Desde que ele chamou atenção para essa condição, acredita-se que o número de pessoas diagnosticadas como tendo hikikomori aumentou. Uma estimativa modesta do número de pessoas que sofre desse mal atualmente é de 200 mil, mas um estudo realizado pelo governo japonês apresentou uma cifra muito mais elevada, de 700 mil. Como os que sofrem dessa condição ficam oficialmente isolados, o próprio psicólogo Saito estima que o número deve ser bem maior.
A idade média do hikikomori parece ter subido nos últimos anos, saltando de 21 anos para 32, na última década.
Por que eles se tornam arredios?
O motivo pelo qual um garoto se torna arredio pode ser relativamente pequeno - notas baixas ou um coração partido, por exemplo -, mas o comportamento arredio em si pode se tornar um trauma. E forças sociais poderosas podem conspirar para mantê-lo dentro do quarto.
Uma dessas forças é sekentei, a reputação de uma pessoa na comunidade e a pressão que ele ou ela sofrem para impressionar os outros. Quanto mais tempo o hikikomori permanecer longe da sociedade, mais consciência ele terá de seu fracasso social. Ele perde qualquer autoestima e confiança que tinha e a perspectiva de sair de casa se torna cada vez mais aterrorizante.
Um segundo fator social é amae - dependência - que caracteriza as relações familiares japoneses. As mulheres jovens tradicionalmente vivem com os pais até o casamento - já os homens podem nunca sair da casa da família. Apesar de cerca de metade dos hikikomori serem violentos com seus pais, para a maioria das famílias colocá-los para fora de casa não é uma opção.
Mas, em troca de décadas de apoio aos filhos, os pais esperam respeito, e que os filhos cumpram seu papel na sociedade de conseguir um emprego.
Matsu se tornou hikkomori depois de se desentender com os pais sobre sua carreira e seu curso universitário.
"Eu estava mentalmente bem, mas meus parentes me empurravam para um caminho que eu não queria", diz ele. "Meu pai é um artista e conduz seu próprio negócio - ele queria que eu fizesse o mesmo."
Mas Matsu queria se tornar programador em uma grande empresa japonesa, e seu pai vivia criticando a ideia.
Como vários hikikomori, Matsu era o filho mais velho e sentiu o pesada carga da expectativa dos pais. Ele ficava furioso ao ver que seu irmão, mais novo, podia seguir o seu próprio caminho.
"Fiquei violento e tive que viver separado de minha família", conta ele.
Uma forma de interpretar o caso de Matsu é vê-lo como no centro de uma mudança cultural no Japão.
Para Yuriko Suzuki, psicóloga do Instituto Nacional para Saúde Mental em Tóquio, "tradicionalmente, a psicologia japonesa era tida como orientada para grupos - os japoneses não querem se destacar em um grupo". "Mas eu acho que, especialmente os jovens, querem uma atenção e um cuidado mais personalizado e individual."
Mas mesmo os hikikomori que querem desesperadamente seguir os planos dos pais acabam tendo razões para muita frustração.
Andy Furlong, acadêmico da Universidade de Glasgow especializado na transição da educação para o trabalho, liga o crescimento do fenômeno hikikomori com o estouro da "bolha econômica" da década de 1980 e o início da recessão da década de 1990 no Japão.
Foi neste período que a corrente que ligava boas notas na escola, boas universidades e empregos para toda vida foi rompida. Uma geração japonesa inteira foi confrontada com a insegurança relacionada a trabalho casuais e de curto prazo.
"As oportunidades mudaram completamente", disse Furlong. "Eu não acho que as famílias saibam como lidar com isso."
Uma reação comum é os pais tratarem os filhos arredios com raiva, e fazê-los sentir culpa por trazer vergonha à família. O risco, nesse caso é - como acontece com Hide - o fim completo da comunicação com os pais. Mas alguns pais são levados a praticar medidas extremas.
Em Nagoya, uma empresa chegou a oferecer a pais, por um tempo, o serviço de entrar à força no quarto do filho, dar-lhe uma bronca e levá-lo à força para um dormitório, tudo que para que este enxergasse o seu erro.
Kazuhiko Saito, diretor do departamento de psiquiatria do Hospital Kohnodai em Chiba, diz que as intervenções bruscas - mesmo por profissionais de saúde - podem ser desastrosas.
"Em muitos casos, o paciente torna-se violento com os profissionais, ou com os pais ou mesmo com os psicólogos", diz Saito.
Kazuhiko Saito defende que profissionais de saúde visitem o hikikomori, mas diz que eles devem ser plenamente informados sobre o paciente, e que o paciente deve saber de antemão que eles estão chegando.
De qualquer maneira, a atitude de alguns pais de não abordar o problema tem se mostrado ineficiente. Tamaki Saito compara o estado hikikomori ao alcoolismo, na medida em que é praticamente impossível melhorar sem ajuda.
Sua abordagem é começar "reorganizando" a relação entre o paciente e seus pais, armar mães e pais desesperados com estratégias para reiniciar a comunicação com seus filhos. Quando o paciente está bem o suficiente para ir para a clínica em pessoa, ele pode ser tratado com medicamentos e terapia. A terapia de grupo é um conceito relativamente novo para a psicologia japonesa, mas os grupos de autoajuda têm se tornado uma forma essencial para trazer o hikikomori de volta à sociedade.
Para Hide e Matsu, a jornada para a recuperação foi ajudada por visitas a um clube para jovens em Tóquio conhecido como Ibasho - um lugar seguro para que visitantes possam se reintroduzir à sociedade. 
Ambos fizeram progresso no relacionamento com seus pais. Matsu esteve em uma entrevista para um emprego de programador e Hide tem um emprego meio período. Ele acha que ao ter voltado a se comunicar com seus pais permitiu que toda a família seguisse em frente. 



03/11/2012

Entenda o que está em jogo na transição de poder na China


O Partido Comunista Chinês, que governa a China em regime de legenda única, inicia na próxima quinta-feira um importante congresso no qual deverão ser anunciadas mudanças em sua liderança. Analistas preveem que essas alterações tenham um impacto profundo sobre o futuro do país. A China é hoje a segunda maior economia do planeta e desempenha um papel cada vez mais importante no cenário internacional. Como resultado, a reunião será acompanhada atentamente em todo o mundo.
A BBC fez um apanhado dos temas mais importantes que serão debatidos. Confira.

O que é o Congresso do Partido Comunista?

O Congresso do Partido Comunista Chinês é realizado a cada cinco anos e é uma plataforma para o anúncio de novas políticas e mudanças na liderança do PC, que governa o país desde 1949.
Mais de 2.200 delegados de toda a China se reunirão em Pequim para participar do evento, que começa no dia 8 de novembro.
O congresso será uma exibição cuidadosamente coreografada de poder e unidade, mas a maior parte dos eventos ocorrerá atrás de portas fechadas.
Muitas das decisões - senão todas - serão tomadas a partir de acordos entre os líderes mais importantes antes do início do evento.
Não se sabe quantos dias de duração o congresso terá, mas os mais recentes tiveram cerca de sete dias.

Por que este congresso é importante?

O congresso desse ano é particularmente importante porque anunciará e endossará mudanças na liderança do partido que só acontecem uma vez a cada dez anos.
O partido estabelece limites rigorosos de idade para seus líderes e sete dos atuais nove membros do poderoso Comitê Permanente do Politburo - a mais alta instância de poder na China - devem deixar seus cargos. Entre eles, o presidente Hu Jintao - chefe do partido e o Chefe de Estado da China - e o premiê Wen Jiabao, que é como um primeiro-ministro, encarregado de governar.
Imediatamente após o final do congresso, uma nova liderança será anunciada aos jornalistas reunidos. Um a um, os líderes sairão do recinto em ordem de importância.
A nova liderança vai governar a China pelos próximos dez anos.

Quem serão os novos líderes da China?

A expectativa é de que, após o congresso, o vice-presidente Xi Jinping substitua Hu Jintao como secretário-geral do partido e torne-se presidente de Estado no início do ano que vem.
Ele pertence a um grupo seleto de altos oficiais do partido que são descendentes de ex-grandes líderes.
O vice-primeiro-ministro Li Keqiang, um aliado importante de Hu, deve substituir Wen Jiabao como primeiro-ministro.
Tem havido muita especulação em relação a quem seriam os outros membros do Comitê Permanente do Politburo. Analistas estudarão a lista final cuidadosamente em busca de pistas sobre a futura direção a ser tomada pela China.
Há vários relatos de que o Comitê Permanente do Politburo será encolhido, de nove para sete membros, como uma tentativa de simplificar o processo de tomada de decisões.

Como são selecionados os novos líderes?

Em teoria, o congresso do partido elege membros do Comitê Central que, por sua vez, elegem o Politburo - incluindo o Comitê Permanente.
Na prática, no entanto, o processo tem sido de cima para baixo e não de baixo para cima, e o congresso é na realidade um carimbo para as decisões dos líderes no topo.
Antigamente, quando o partido era comandado por Mao Tsé-Tung - o líder revolucionário mais reverenciado pelo PC chinês - e Deng Xiaoping, a própria cúpula indicava seus sucessores.
Terminada a era dos líderes todo-poderosos, a seleção de sucessores tornou-se um processo obscuro, marcado por intrigas e toma-lá-dá-cás entre várias facções do partido e grupos de interesses diversos.
Embora muitos acreditassem que Li Keqiang fosse o candidato favorito de Hu Jintao, Xi Jinping emergiu no topo porque era uma opção aceitável para todas as facções do partido.

Qual é a diferença em relação aos novos líderes?

Os defensores de reformas estão pedindo à nova liderança que faça mudanças urgentes para impedir que problemas econômicos e sociais gerem uma crise que enfraqueça o poder do PC chinês.
Em particular, eles advertem que, sem reforma política, há riscos de que os poderes ilimitados do Estado sufoquem o crescimento do país e exacerbem o descontentamento popular.
Segundo relatos recentes, Xi - o suposto futuro líder - disse ter ouvido chamados para que ele escolha um caminho mais ousado.
Porém, quaisquer reformas mais radicais podem encontrar a oposição de poderosos grupos, incluindo as próprias facções do partido que escolheram os novos líderes.

O que acontece com os líderes que se aposentam?

Com frequência, líderes chineses aposentados continuam a exercer grande influência por trás dos bastidores.
Após Jiang Zemin ter deixado o posto de líder do partido em 2002, ele continuou a liderar a Comissão Militar Central por dois anos, estabelecendo um precedente que, dizem alguns, Hu Jintao pode agora tentar seguir.
Mesmo os membros idosos sem cargos oficiais podem continuar ativos, especialmente nos períodos que antecedem renovações na liderança.
Ambos Jiang e seu rival Li Ruihuan, um ex-líder próximo de Hu Jintao, teriam, segundo relatos, feito aparições públicas de forma a fortalecer suas próprias facções.
Com os anciãos do partido ainda no controle, os novos líderes podem ficar limitados em termos de sua atuação logo após assumir o cargo.

Qual é o grau de transparência do regime chinês?

A China iniciou seu processo de abertura para o mundo em 1978. Hoje, observadores internacionais sabem muito mais sobre o povo e a sociedade chineses do que em qualquer outro momento na história.
Entretanto, o sistema político na China continua obscuro e secreto.
Por exemplo, não se ouve falar de Xi Jinping há duas semanas. A poucos dias do congresso, circulam cada vez mais rumores pela internet, alimentados pelo silêncio das autoridades.
Um documento deverá ser cuidadosamente analisado por observadores em todo o mundo: o esperado "relatório político" de Hu Jintao, que deverá ser entregue no dia 8 de novembro.
Há expectativas de que o documento traga, em meio ao indecifrável jargão que caracteriza discursos políticos na China, pistas preciosas sobre o pensamento do atual PC chinês.

foto:enchantedlearning.com