29/03/2017

Fazer pipoca e outros trabalhos que prejudicam seriamente a saúde


Trabalhar no processo de produção das pipocas industrializadas, aquelas que devoramos com tanto gosto no cinema ou no sofá de casa diante de um filme qualquer, acarreta um grave risco à saúde. Tanto é que essa profissão foi incluída numa recente revisão, publicada pela revista científica The Lancet, sobre novas vias de exposição a elementos que geram doenças pulmonares vinculadas ao trabalho. Também os empregados que trabalham nos processos de fracking(uma técnica de exploração de gás e petróleo também conhecida como fraturamento hídrico) ou fabricando telas de cristal líquido correm o risco de sofrer de doenças respiratórias.
Mais de 10 centros de pesquisas de vários países participaram dessa revisão científica focada nas doenças respiratórias de causa ocupacional. Dois milhões de trabalhadores morrem por ano devido a acidentes ou doenças no âmbito profissional. A terceira doença mais recorrente é de caráter respiratório. “Queremos conscientizar que há ocupações que, embora afetem pouca gente, têm muita relevância no conjunto, porque prejudicam a saúde”, diz o médico Xavier Muñoz, do serviço de Pneumologia do Hospital Vall d’Hebron, de Barcelona, o único centro espanhol que participou da pesquisa.
Antes de ter início o cerimonioso ritual de comer um balde de pipocas em frente ao filme da vez, o petisco passa por um processamento industrial para lhe dar um sabor específico e facilitar sua conservação. Nesse processo, algumas fábricas empregam um condimento, o diacetil, para conferir um sabor mais amanteigado às pipocas. Para quem come, esse aditivo não acarreta nenhum risco à saúde, mas no ambiente industrial, onde é aplicado a altas temperaturas, “o diacetil se evapora, é inalado e pode afetar os brônquios”. O estudo cita um caso relatado no ano 2000 com oito trabalhadores de uma fábrica de Missouri (EUA) diagnosticados com bronquiolite obliterante (uma infecção nas sub-ramificações dos brônquios). Também foram detectados casos similares em fábricas que produzem uma mistura seca de panificação e em fábricas de chocolates, batatas fritas e bolachas.
Mas a questão dos operários das fábricas de pipocas não é o único caso novo exposto pelos pneumologistas nesta revisão. A política técnica do fracking, que consiste em aflorar gás e petróleo do subsolo após destruir a rocha-mãe com o uso de água e produtos químicos a alta pressão, também está causando doenças em alguns trabalhadores. “É especialmente perigoso para os trabalhadores e para pessoas que estão perto de onde se pratica esta técnica, porque, com os ventos, sobe uma poeira com sílica e elementos orgânicos que podem provocar silicose, câncer, asma…”, aponta o pneumologista Muñoz.
Desbotar tecidos para fabricar jeans também é outra prática mais arriscada do que parece. Os especialistas afirmam que algumas fábricas usam um jato de areia que deixa partículas voláteis inaláveis. Foram identificados casos de silicose severa e deterioração na função pulmonar com exposições breves a estas partículas. O sistema de desbotamento (sandblasting, em inglês) é proibido em muitas companhias, mas ainda utilizado em fábricas da ChinaBangladesh e Paquistão, onde, segundo o estudo, não há sinais de que será proibido tão cedo.
Na fabricação de telas de cristal líquido, usadas em inúmeros aparelhos eletrônicos, os trabalhadores estão expostos ao óxido de índio, um componente que em 2003 foi associado pela primeira vez a um caso de doença pulmonar intersticial (quando o tecido pulmonar se inflama e é danificado). “Também a produção do mármore artificial, um sucedâneo do mármore, leva sílica. Isso é perigoso para o trabalhador quando o molda, mas não para o usuário que depois o tiver na sua casa”, acrescenta o médico.
Os pesquisadores também avaliaram o impacto sanitário de velhos conhecidos, como o amianto, um material usado durante boa parte do século XX como material de construção para cobrir edifícios e montar tubulações e telhados. Embora desde os anos 1940 os seus riscos à saúde fossem conhecidos, só em 2005 a União Europeia vetou totalmente o seu emprego, mas o mesmo ainda não acontece no Brasil. Os especialistas quiseram reiterar seu caráter nocivo porque, apesar de ter caído em desuso, as enfermidades vinculadas à exposição ao amianto – asbestose (um tipo de fibrose pulmonar), câncer de pulmão e mesoteliomas (tumores de pleura originados causados pelo amianto) – têm um período de latência de até 30 anos. “O pior está por vir. Daqui até 2035 veremos mais casos do que nunca de doenças causadas pelo amianto”, adverte Muñoz.
O pneumologista afirma que essa revisão precisa servir para “colocar o problema sobre a mesa”. “É para que fiquemos todos ligados. Cerca de 500.000 pessoas morrem no mundo por doença pulmonar contraída no trabalho. Não se pode baixar a guarda, especialmente os médicos, porque, como há poucos casos, custa relacionar que uma doença surja por causa de algum elemento vinculado ao trabalho. E se complica muito mais quando são agentes desconhecidos, que não vinculamos a essa doença”, afirma o médico.


Reportagem de Jessica Mouzo Quintáns
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/23/ciencia/1490298937_947740.html
foto:http://www.pantucci.com.br/origem-pipoca/

Terceirização: quais são as lições da experiência internacional?

Após a aprovação, na semana passada, do projeto de lei que libera a ampla terceirização, o Brasil ficou a um passo de ter um mercado de trabalho mais flexível. Mas quais são os prós e contras da mudança e como isso funciona em países onde a medida já é uma realidade?
Para buscar respostas, a BBC Brasil ouviu especialistas e órgãos nacionais e internacionais - como a OIT (Organização Internacional do Trabalho), o autor da proposta original da reforma, a CUT (Central Única dos Trabalhadores), a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e as Nações Unidas - e consultou estudos sobre o tema e os modelos existentes em outros lugares do mundo.
A proposta, que agora está nas mãos do presidente Michel Temer para sanção, gerou polêmica. Críticos dizem que sua entrada em vigor provocaria a precarização das condições de trabalho, enquanto defensores afirmam que a nova regra poderia trazer mais segurança jurídica para as empresas e os atuais cerca de 12 milhões de trabalhadores terceirizados do país.
Apesar de não haver consenso, os especialistas são unânimes em afirmar que a economia e as relações de trabalho mudaram, e que há necessidade de adaptação. A preocupação, segundo vários deles, é sobre as condições nas quais essas transformações são executadas e a vulnerabilidade dos trabalhadores diante delas.
Caso seja sancionada, a legislação permitirá às empresas subcontratar funcionários para realizar as chamadas atividades-fim - as tarefas centrais na produção de bens e serviços.
Desse modo, por exemplo, uma fábrica que monta eletrodomésticos poderá gerir toda a sua força de trabalho por meio de contratos terceirizados, evitando o vínculo empregatício com operários - hoje, só é permitido delegar a eles atividades-meio, ou seja, serviços periféricos como limpeza, segurança e suporte.
Além disso, pela regra proposta os contratos temporários poderão serão válidos por um semestre - hoje, é permitido um trimestre -, prorrogáveis por mais três meses, salvo acordo coletivo ou outra negociação.

O modelo no mundo

Na opinião do diretor da divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, UNCTAD, Richard Kozul-Wright, o modelo proposto pelo Brasil se mostrou pouco eficaz em outros lugares do mundo.
"Se a ideia é flexibilizar o mercado de trabalho para baixar os custos e fazê-lo mais competitivo, incentivando investimento estrangeiro direto, o que observamos em outros países é que esse modelo não é tão bem-sucedido", afirma.
"A maioria do investimento estrangeiro direto não é atraído somente por mão de obra barata, apesar de casos específicos. Mas não acredito que esse seja o perfil do Brasil, de competir como uma economia de mão de obra barata como a China e outros países do Leste Asiático."
A pedido da BBC Brasil, a Organização Internacional do Trabalho se posicionou a respeito do tema. Segundo o diretor do órgão para o Brasil, Peter Poschen, a terceirização é uma "realidade", mas é necessário tomar algumas precauções.
"Há que se verificar as condições em que são executadas, para que se garantam as condições de um trabalho decente", disse.

A internacionalização do trabalho

O fenômeno da fragmentação da produção por meio de contratos terceirizados se deve em parte à internacionalização do trabalho que ocorreu nas últimas três décadas - por meio da qual um produto passa por vários países desde a sua concepção até a venda. O processo é conhecido como Global Supply Chains, GCS em inglês (cadeias globais de valor, em tradução livre).
O iPhone é um exemplo de produto com cadeia global de valor - é concebido na Califórnia e manufaturado na China com componentes vindos de diversos países, para depois ser exportado para o mundo todo. A fábrica onde o celular é montado não pertence à Apple e os empregados que ali trabalham não têm nenhuma associação com a empresa criada por Steve Jobs.
Mas, em perspectiva, a participação em GCS traz prós e contras. Um estudo de 2013 da Organização Mundial do Comércio avalia o impacto positivo da redução de custos, mas alerta que os benefícios às vezes não são repassados aos trabalhadores.
O documento afirma que, por um lado, é positivo por contribuir para a "expansão da produção e ganhos de economia de escala, por meio da redução de custos, além de permitir que empresas e nações se beneficiem da transferência de tecnologia e práticas de administração".
Por outro lado, avalia que "enquanto a produtividade sobe, a participação avançada em cadeias globais não está associado com ganhos setoriais, o que sugere que os ganhos econômicos obtidos nem sempre são necessariamente repassados aos trabalhadores".
Ou seja, o lucro resultante da otimização não se traduziria em salários maiores.

Concepção x manufatura

É exatamente a forma como se dá a regulamentação dos processos de terceirização, bem como a qualificação da mão de obra e o investimento em pesquisa e desenvolvimento, que determina a posição das economias globais entre as que agregam mais ou menos valor ao produto.
No topo da pirâmide, estão os países ricos - responsáveis pela concepção, design e marketing do produto -, enquanto que na base estão os países pobres, responsáveis pelos insumos e manufatura.
Embora admita a dificuldade de comparar diferentes países, Poschen afirma que é possível fazer algumas constatações.
"Em geral, nos países desenvolvidos o trabalho terceirizado pode ser encontrado em todos os setores, com predominância nas ocupações de salários mais baixos. Já nos países em desenvolvimento o emprego terceirizado segue representando uma porção importante do emprego assalariado."
"Tem havido uma proliferação dessa modalidade nos setores onde o emprego típico era mais comum, como no setor público ou no manufatureiro", observou.

Problemas na Ásia e sucesso no Uruguai

A vulnerabilidade dos trabalhadores é o ponto central que distingue as situações de terceirização em experiências positivas e negativas.
"A OIT reconhece que o trabalho pode ser visto de formas contratuais variadas. O objetivo não é que ele se ajuste ao modelo típico, mas que todos estejam no conceito de Trabalho Decente", disse Poschen.
Segundo ele, para garantir esse conceito, é necessário que as tarefas sejam "regulamentadas com o objetivo de equilibrar as necessidades dos trabalhadores, das empresas e dos governos".
No caso de alguns países da Ásia, não são raros os episódios de abuso, nos quais fábricas operam em condições insalubres, fazendo uso de trabalho escravo ou mão de obra infantil.
As marcas que comercializam esses produtos raramente chegam a ser responsabilizadas, pois estão ocultas atrás de diversos contratos de terceirização.
O projeto de lei brasileiro abre uma brecha para que incidentes semelhantes ocorram.
Na versão aprovada pela Câmara foram suprimidos os artigos que tratavam da obrigação das empresas contratantes de reportar acidentes de trabalho. Por exemplo, se ocorrer a morte de um profissional terceirizado na oficina de uma fábrica que produz itens de grife, essa empresa não precisará reportar às autoridades a tragédia, permitindo que a marca se desassocie da responsabilidade social pelo caso.
"Em alguns casos podem ser criados acordos com múltiplas partes com o objetivo específico de eliminar responsabilidade e contornar a regulamentação (…) A fissuração ocorre através de uma gama de acordos contratuais, incluindo trabalho temporário por agência, subcontratação e franchising. Podem também aparecer através de cadeias de fornecimento, grupos empresariais, terceirização de trabalhadores autônomos, esclareceu Poschen.
Em contrapartida, um exemplo de regulamentação da terceirização bem-sucedido ocorreu no Uruguai, na indústria de Tecnologia da Informação e call centers.
Em 2002, a Tata Consultuncy Services, líder no setor de outsourcing da Índia, se instalou no país incentivando a construção de cadeias de valor global. A chegada de empreendimentos estrangeiros se seguiu a políticas públicas de forte investimento em educação.
O vizinho latino, que possui zonas francas para receber as empresas estrangeiras, exportou US$ 500 milhões em serviços em 2015. Cerca de 63 mil pessoas estão empregadas no setor e são profissionais com alto nível, que ganham na média US$ 2.500 ao mês.
A lei de subcontratação, aprovada ali em 2007, prevê que as empresas contratantes sejam responsáveis por garantir que os terceirizados cumpram com os pagamentos dos encargos sociais e em caso de litígio são solidários perante a Justiça, ou seja, dividam a responsabilidade.
Já no projeto de lei brasileiro, a responsabilidade só recairá sobre a contratante quando tiverem sido exauridas as possibilidades de acionar a terceirizada na Justiça.
Mas segundo Luciana Freire, advogada da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), essa subsidiariedade não é necessariamente ruim.
"Imagine um engenheiro que trabalhe para uma construtora. A construtora quebra, ele não tem a quem recorrer. Na situação terceirizada não. Ele ainda tem duas pessoas jurídicas acima dele para recorrer."

Mão de obra ociosa

O texto da lei aprovada pela Câmara é uma adaptação de um projeto de 1998, idealizado no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) pelo então ministro do Trabalho, Paulo Paiva.
Em entrevista à BBC Brasil, Paiva explicou que um dos objetivos originais era retirar trabalhadores sazonais da informalidade e dar aos empregadores a oportunidade de cortar custos em situações de ajuste.
"Muitas pessoas da atividade urbana pediam licença para participar de colheitas e neste caso não existia nenhuma cobertura legal", exemplificou.
"Além disso, se a economia está retomando, você pode estimular a empresa a contratar um trabalhador. Se essa atividade se consolidar, a empresa pode mudar o contrato para tempo indeterminado, mas se não fizer isso, não terá de arcar com os custos de demissão", defendeu.
Para ele, a terceirização ainda evitaria gastos com mão de obra ociosa.
"É exatamente para que a empresa possa minimizar o custo de ter trabalhadores que em um determinado período ficam subutilizados. Com isso, ela consegue reduzir os seus custos e consequentemente aumentar a produtividade."
"Eu tenho a convicção de que o que estamos fazendo é aumentar a possibilidade de contratação de trabalhadores em uma economia que está passando por transformações", disse.
O secretário internacional da CUT, Antônio Lisboa, não concorda.
Segundo ele, o projeto "acaba totalmente com as relações de trabalho que o Brasil construiu nesses últimos cem anos". Na prática, avalia, há um "esfacelamento", porque a prestadora de serviço passa a contratar os trabalhadores como pessoa jurídica, um processo de "pejotização" que os deixa desamparados.
Lisboa faz referência ao termo "PJ", ou pessoa jurídica - amplamente utilizado para designar os trabalhadores que são terceirizados e emitem notas fiscais aos empregadores como empresas, ou pessoas jurídicas.

Reportagem de Marina Wentzel
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39413856#orb-banner
foto:http://tribunadainternet.com.br/governo-temer-quer-incentivar-a-terceirizacao-que-virou-sinonimo-de-corrupcao/

Em seis anos, Brasil desativou mais de 10 mil leitos pediátricos, diz entidade


Mais de 10 mil leitos de internação em pediatria clínica – destinados a crianças que precisam permanecer no hospital por mais de 24 horas – foram desativados na rede pública de saúde nos últimos seis anos. É o que revela levantamento divulgado na última segunda-feira (27) pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
Os números mostram que, em 2010, o país dispunha de 48,3 mil leitos pediátricos para uso exclusivo do Sistema Único de Saúde (SUS). Já em novembro passado (último dado disponível), o total baixou para 38,2 mil – uma queda de cerca de cinco leitos por dia. Ainda segundo o estudo, 40% dos municípios brasileiros não têm nenhum leito de internação desse tipo.
Das 5.570 cidades do Brasil, 2.169 não têm nenhum leito. Entre as que possuem pelo menos uma unidade de terapia intensiva infantil, um terço tem menos de cinco leitos em todo o território municipal e 66 contam com apenas um leito.
“A título de dimensionamento, vale citar que só a cidade de São Paulo (SP) tem leitos em quantidade equivalente a oferecida atualmente em mais de 780 municípios de pequeno porte”, destacou a entidade.
As informações foram levantadas por meio do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde e, de acordo com a SBP, preocupam especialistas. A redução do número de leitos, segundo a entidade, tem impacto direto no atendimento, provocando atrasos no diagnóstico e no início do tratamento de uma população que vem aumentando.
A SBP também ressaltou que as doenças que prevalecem em crianças são sazonais. Nos primeiros semestres do ano, geralmente se acentuam as viroses gastrointestinais que, em muitos casos, demandam internações. Casos mais sérios de dengue, bem como alergias, infecções respiratórias e pneumonia também contribuem para o crescimento da demanda.
Estados e capitais
Em números absolutos, os estados das regiões Nordeste e Sudeste foram os que mais sofreram redução de leitos pediátricos no período: 4.032 e 3.060 leitos a menos, respectivamente. Em escala, surgem as regiões Sul (-1.873 leitos), Centro-Oeste (-689) e Norte (-428).
São Paulo foi o estado que mais perdeu leitos de internação infantil entre 2010 e 2016, com 1.109 desativações. Na outra ponta, apenas um estado apresentou número positivo no cálculo final de leitos desse tipo no SUS ativados e desativados nos últimos seis anos: Amapá, que saltou dos 180 leitos pediátricos em 2010 para 230 no fim do ano passado.
Entre as capitais, São Paulo lidera o ranking dos que mais perderam leitos na rede pública (-378), seguido por Fortaleza (-364) e Brasília (-150). “Quatro capitais, apenas, conseguiram elevar a taxa de leitos, o que sugere que o grande impacto de queda tenha recaído sobre as demais cidades metropolitanas ou interioranas dos estados”, avaliou a SBP.
Agência Brasil entrou em contato com o Ministério da Saúde e ainda aguarda posicionamento do órgão.

fonte:http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2017/03/27/em-seis-anos-brasil-desativou-mais-de-10-mil-leitos-pediatricos-diz-entidade/
foto:http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/fotos-charges-e-tirinhas-658

28/03/2017

Descanse em paz, minha querida amiga!




Meus mais profundos e sinceros sentimentos ao amigo Messias de Morais Júnior, familiares e amigos da nossa querida Vanessa de Morais, uma referência de mulher determinada na luta pelos seus objetivos e ao mesmo tempo muito terna e gentil com todos. Minha companheira de Doutorado na Universidade de Buenos Aires, considerada uma das melhores alunas da turma. 
Guardarei para sempre, com carinho e saudade, todos os momentos que compartilhamos, nossos risos e lágrimas, nossas expectativas acadêmicas, nossos ideais de Justiça e principalmente a sua amizade e alegria contagiante que me davam força para continuar na luta por dias melhores. 
Descanse em paz, minha amiga.

                   Dra. Tânia Mota de Oliveira

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“De quem é a Patagônia?”: Tensão cresce entre indígenas e latifundiários no paraíso argentino


Carlo Benetton, o irmão caçula da família que controla o império têxtil italiano, é um dos muitos milionários do planeta apaixonados pela Patagônia argentina. Em 1991, o grupo comprou neste paraíso 900.000 hectares (uma área equivalente a seis vezes o município de São Paulo) onde cria quase 100.000 ovelhas, que chegaram a produzir 10% da lã usada pela marca. Carlo viaja quatro vezes por ano para desfrutar com seus amigos do lugar, e de passagem controlar a produção da matéria-prima. Mas sua plácida e enorme propriedade enfrenta agora um problema com o qual ninguém sabe lidar: um grupo de mapuches, indígenas que ocupavam estas terras até serem praticamente aniquilados pelos argentinos no final do século XIX, se instalou numa pequena parte da fazenda com a intenção declarada de “começar a reconstrução do povo mapuche”. “É como se eu agora fosse a Inverness, na Escócia, para reivindicar as terras dos meus antepassados”, protesta Ronald McDonald, um neto de escoceses que chegaram à Patagônia para criar ovelhas, administrador-geral da empresa de Benetton, a Compañía de Tierras del Sud Argentino. McDonald percorre com um jipe a enorme propriedade numa paisagem assustadora, com os majestosos Andes ao fundo. Só as ovelhas e o vento patagônico rompem o silêncio. Os gauchos que as pastoreiam também são mapuches. Alguns são primos dos rebeldes. Mas uns ganham salário da Benetton e montam cavalos selados, enquanto outros não têm quase nada e montam em pelo, como seus antepassados.
A tensão é permanente. “De quem é a Patagônia? Eles falam de violência, mas mataram e humilharam nossos avós, entregaram as meninas aos homens de Buenos Aires. Eles abaixavam a cabeça, nós dissemos chega. Não temos mais medo”, desafia Soraya Maicoño, porta-voz do grupo. A Constituição argentina permite a reivindicação de terras dos povos originários, mas a Benetton recusa o direito ancestral ao qual apelam os mapuches, alegando que estes vieram do Chile. “Aqui são tão imigrantes como meu avô”, arremata McDonald.
A Patagônia sempre foi uma terra de excessos e foragidos. A poucos quilômetros da fazenda da Benetton, em Cholila, refugiaram-se em 1901 Butch Cassidy e Sundance Kid, míticos bandidos dos EUA. Quase tudo aqui sempre foi feito na marra. E desta vez não parece diferente. Em Leleque, a propriedade principal da Benetton, os funcionários mostram que são uma companhia produtiva, e não uma casa de campo para milionários. Está tudo em regra, mas a empresa nunca esclarece por quanto a família comprou estas terras imensas. A Justiça está ao seu lado. Por enquanto, os mapuches só têm um pequeno povoado com lojas e 20 pessoas de forma permanente. Mas estão muito organizados e dispostos a resistir como for. Instalaram-se aqui há quase dois anos, e a última tentativa de desocupação acabou com 14 feridos, um deles alvejado pela polícia. McDonald defende o modelo de enormes latifúndios, frequente em toda a Argentina. “Na Patagônia só funcionam as grandes extensões, por causa dos invernos tão duros. Se lhes dermos alguns hectares, só terão uma economia de subsistência com ajudas do Estado. Desta forma temos 130 empregados diretos e damos trabalho a 200 pessoas com uma economia sustentável”, argumenta.
A poucos quilômetros, em Vuelta del Río, fica a zona ocupada. Jessica, uma mapuche que veio de Esquel, acomoda seu lenço palestino na cabeça junto à porta de uma precária guarita. Numa fogueira – eles vivem sem água corrente nem eletricidade – cozinham carne e tentam suportar o frio. Alguns usam capuzes para não serem reconhecidos. “A Benetton é o foco do conflito por causa do seu peso político. O objetivo principal é nos fortalecermos como povo”, diz Jessica. Mirtha, de traços mais claramente indígenas, desceu das reservas de Cushamen: “Eles têm balas, nós pedras. Sabemos que estão desesperados por nos tirar daqui. Mas não vão conseguir”, afirma, com segurança. Não arredam pé. Já há inclusive uma criança nascida no acampamento. Seu plano é de longo prazo: convencer todos os mapuches a se rebelarem contra a Benetton e outros latifundiários, e construir um novo Estado dentro dos atuais territórios chileno e argentino. “Não reconhecemos fronteiras, nosso povo abrange de mar a mar”, conta Maicoño. Atilio e Rosa Curiñanco ficaram famosos em 2007 porque ocuparam outro terreno da Benetton. Chegaram a viajar à Itália para tentar convencer o patriarca Luciano, sem sucesso. Assim, continuam ocupando 500 hectares sem papéis, nem direitos. Mas ninguém mais tenta expulsá-los. Não aprovam a violência. “A maneira de lutar desses jovens não é aceita pelas 110 comunidades daqui. Mas sim a ideia de recuperar as terras. Aqui destruíram uma cultura. Viemos de sangue milenar, e queremos juntar o que o huinca [branco] esparramou”, diz um dos mapuches no seu pequeno sítio, onde mantêm apenas algumas galinhas. Como não possuem máquinas, é difícil para eles cultivar as terras. Já completaram 10 anos ali e se sentem livres, embora vivam na pobrezaabsoluta.
Os indígenas não estão sozinhos, pois contam com um forte apoio social e político. “Não são meia dúzia de malucos, há uma organização por trás, a Resistência Ancestral Mapuche”, indigna-se McDonald, queixoso do apoio da Anistia Internacional aos mapuches. Ele gostaria que o Estado argentino fosse tão duro como o chileno, que lhes aplica a lei antiterrorista. Na verdade, o líder destes mapuches, Facundo Jones Huala, é alvo de um pedido de extradição do país vizinho. “O Chile tem um Estado presente, se não isto vira um faroeste. Nosso pessoal está muito preocupado. Ordenei a eles que não aceitem provocações, mas é preciso acalmá-los. Porque já atormentaram vários empregados. Isto na Patagônia nunca aconteceu”, afirma, enquanto mostra junto a Juan Chuquer, diretor de reflorestamento da empresa, os pinheiros plantados nas terras reivindicadas pelos mapuches. “Esta empresa é a Benetton, mas também somos nós, os que trabalhamos aqui”, diz Chuquer. “Fizemos um reflorestamento para que um dia haja uma madeireira que dê trabalho ao povo. É um investimento para 50 anos, não podem dizer que estamos saqueando. Há 25 anos não havia ninguém por aqui, hoje várias famílias vivem de plantar e cuidar das árvores. Ameaçam queimar os pinheiros, já queimaram um casebre de trabalho. Nossa segurança física está em risco. Assim não se pode continuar.” diz. O juiz de Esquel que ordenou a última reintegração de posse, Guido Otranto, conta que os agentes encontraram coquetéis molotov. “São violentos, embora não possam ser chamados de terroristas, como querem alguns”, enfatiza. Todos sabem que esta não é uma batalha por alguns hectares. A briga de fundo questiona a construção de um continente a sangue e fogo. Por isso, o tempo não é um problema para ninguém. Na Patagônia tudo vai devagar. Mas em sua silenciosa paisagem de sonho a tensão é evidente. A qualquer momento pode eclodir a fagulha definitiva.
Reportagem de Carlos E. Cué
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/27/internacional/1490626020_914629.html
foto:http://www.joaoaraujopromocao.com/single-post/2017/01/05/Qual-a-melhor-%C3%A9poca-para-se-vistar-a-Patag%C3%B4nia

Ação que pode cassar chapa Dilma-Temer entra na reta final: e agora?

O processo que pode cassar o presidente Michel Temer está prestes a entrar em sua fase final no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O julgamento pode ter início já na próxima semana, informou a assessoria da corte ontem (27).
Após pouco mais de dois anos de o PSDB ter pedido a anulação da eleição de Dilma Rousseff presidente e de Temer vice, devido a supostas ilegalidades na campanha eleitoral, o ministro relator do caso, Herman Benjamin, liberou ontem o relatório final do processo (um resumo com os principais pontos da ação em 1.086 páginas) para os demais integrantes da corte.
Ele telefonou na segunda-feira para o presidente do TSE, Gilmar Mendes, e informou que o processo estará pronto para julgamento assim que o Ministério Público apresentar sua última manifestação, o que ocorrerá até esta quarta. Nesse tipo de ação, a lei determina que Mendes deve marcar o julgamento já na sessão seguinte à liberação do voto do relator.
A velocidade de Herman Benjamin surpreendeu. Em entrevista recente à BBC Brasil, Mendes disse que o início do julgamento poderia ficar para o segundo semestre.
Entenda abaixo o processo e seus possíveis desfechos.

Que processo é esse?

No final de 2014, o PSDB pediu ao TSE a cassação da chapa Dilma-Temer. A principal acusação - baseada em revelações da Operação Lava Jato - era de que a campanha petista tinha recebido vultosas doações de empreiteiras clientes da Petrobras e que esses recursos seriam na verdade propinas pagas com recursos desviados da estatal.
"Os benefícios dos recursos ilícitos recebidos são imensuráveis e, a toda evidência, desequilibram o pleito e afetam a legitimidade e a normalidade das eleições", destacaram os advogados tucanos no pedido inicial.
Outras denúncias envolviam também o suposto uso da máquina pública em favor da reeleição de Dilma.

O que foi apurado?

O TSE demorou quase um ano para decidir se havia indícios suficientes de ilegalidades para abrir um processo contra a chapa Dilma-Temer, o que aconteceu em outubro de 2015.
Desde então, ocorreu a fase de instrução do processo, ou seja, a investigação e produção de provas. Foram ouvidas 58 testemunhas e realizadas perícias em gráficas contratadas pela campanha, suspeitas de terem servido como meio de desvio de recursos.
Deram depoimentos delatores que fizeram acordo com a Operação Lava Jato e integrantes da campanha petista, como o ex-ministro Edinho Silva, que atuou como tesoureiro.
As acusações mais fortes constam dos depoimentos de executivos da Odebrecht realizados neste ano e que estão em sigilo.
Segundo reportagens da imprensa brasileira, Marcelo Odebrecht, ex-presidente do grupo, disse ao TSE que a empreiteira doou R$ 150 milhões para a chapa presidencial eleita em 2014, sem esclarecer quanto seria caixa 2 ou propina. Desse total, R$ 50 milhões teriam sido repassados em contrapartida pela aprovação de uma Medida Provisória que beneficiava o grupo.
Ainda segundo jornais brasileiros, outro executivo da Odebrecht disse que também negociou com Edinho Silva repasses de R$ 7 milhões a cinco partidos que estavam coligados ao PT na campanha, o que teria consistido numa "compra" por aliança e tempo de TV.

O que diz a defesa?

Os advogados de Dilma e Temer negam qualquer ilegalidade na campanha. Eles também reclamam da condução final da instrução do processo, já que o ministro Herman Benjamin não autorizou depoimentos de testemunhas de defesa que poderiam rebater acusações levantadas pelos executivos da Odebrecht.
Ambas as defesas também solicitaram a anulação dos depoimentos dos executivos da Odebrecht, já que as testemunhas foram ouvidas após vazamentos ilegais de trechos de acordos de delação na Lava Jato.
"Defendemos que os depoimentos da Odebrecht não têm validade. Mas se decidir isso (que valem), tem que ter contraditório para a defesa. Não é possível que num processo dessa importância só se ouve um lado. Só se ouviu Odebrecht, não se ouviu mais ninguém", disse à BBC Brasil o advogado de Dilma Flávio Caetano.
Segundo ele, as provas apresentadas pela empreiteira são pífias.
"Anotação do celular do Marcelo Odebrecht feita por ele mesmo, sem participação de ninguém, anotação de agenda com códigos que ninguém decifra. Impossível isso ser prova", argumentou.
"Prova se faz com a participação do outro. Então teria que dizer quem recebeu, quem pagou, aonde foi. Nada disso foi apresentado", afirmou ainda.

O julgamento pode durar quanto tempo?

Isso é imprevisível, já que ministros podem pedir vista do processo, para analisar melhor a ação. Na Justiça Eleitoral, esses pedidos em geral duram poucas semanas.
Além disso, embora seja improvável que Benjamin recue e atenda os pedidos da defesa, esses recursos também devem ser analisados pelos demais seis integrantes da cortes, quando tiver início o julgamento. Se a maioria considerar que mais testemunhas precisam ser ouvidas, por exemplo, isso poderia reabrir a fase de produção de provas, alongando o processo.

Quem vai julgar o processo?

O TSE é formado por sete ministros: três fazem parte do STF (Gilmar Mendes, Rosa Weber e Luiz Fux), dois do STJ (Herman Benjamin e Napoleão Nunes) e dois vêm da advocacia (Henrique Neves e Luciana Lóssio). Estes últimos são nomeados pelo presidente da República, a partir de uma lista tríplice eleita pelo Supremo.
Estão prestes a serem concluídos os mandatos de Henrique Neves (16 de abril) e de Luciana Lóssio (5 de maio), mas se o processo começar realmente na próxima semana eles ainda poderão votar.

O que é preciso para cassar a chapa presidencial?

Para que uma chapa eleita seja cassada não basta que fique provado que houve ilegalidade na campanha, é preciso que ela tenha sido suficientemente grave para interferir na lisura do pleito, violando o direito ao voto, explica a professora de Direito Eleitoral da FGV-Rio Silvana Batini. Essa é a avaliação que será feita pelos ministros.
A BBC Brasil conversou com juristas e integrantes do TSE sobre essa questão. Um dos pontos levantados, por exemplo, é se o recebimento de caixa 2 seria suficiente para cassar a chapa, tendo em vista que também há suspeitas envolvendo a campanha derrotada, do PSDB.
"Se os dois lados tiverem recebido, isso interferiu no resultado da eleição? É uma questão que terá que ser analisada", explicou um deles.
Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo publicada no domingo, Gustavo Guedes, advogado do presidente Temer, disse que os valores que têm sido apontados nas denúncias corresponderiam a uma fração pequena do total gasto na campanha (R$ 350 milhões, segundo a declaração da chapa ao TSE) e não seriam suficientes para interferir na eleição.
"A premissa do direito eleitoral é sempre manter a vontade popular. Eu só posso desconstituir isso se achar determinadas condutas decisivas para a alteração do resultado eleitoral", ressaltou.
Já o PSDB, na ação que deu início ao processo, destaca que Dilma e Temer venceram por pequena margem de votos ("diferença de apenas 2,28%") e que, por isso, a "legitimidade dos reeleitos é extremamente tênue".
Após o impeachment de Dilma, porém, o partido perdeu interesse na cassação da chapa, já que faz parte do governo de Temer. Em sua manifestação final, os advogados do PSDB isentaram o atual presidente de qualquer responsabilidade e apontaram Dilma como única culpada.

É possível cassar a chapa e manter Temer como presidente?

Uma das estratégias da defesa de Temer para tentar evitar sua cassação é argumentar que ele, individualmente, não teve papel determinante na captação de recursos e não cometeu qualquer ilegalidade.
A tese é considerada fraca por juristas: como presidente e vice são eleitos juntos, pelos mesmos votos, o entendimento predominante é que a chapa é indivisível. Se ficar comprovado grave abuso de poder econômico, a eleição é anulada e ambos perdem o cargo, independentemente da responsabilidade de cada nas ilegalidades.
Segundo a professora Silvana Batini, nunca houve decisão da Justiça Eleitoral no sentido de considerar ilegal uma campanha e cassar apenas o cabeça de chapa, preservando o vice, em casos de processos contra prefeitos e governadores.
Além de decidir sobre a anulação ou não do pleito eleitoral, os ministros também vão analisar se Dilma e Temer tiveram responsabilidade direta em alguma ilegalidade e devem ficar inelegíveis por oito anos.
Nessa caso, sim, pode haver separação das responsabilidades: a punição independe da cassação da chapa e pode ser aplicada a ambos, a apenas um deles ou a nenhum dos dois. Por exemplo, o TSE pode concluir que houve ilegalidade na campanha, cometida pelos tesoureiros, mas que Dilma e Temer não sabiam do ato ilícito.

Reportagem de Mariana Schreiber
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39413855#orb-banner
foto:http://diariodopoder.com.br/noticia.php?i=63646392132