29/10/2012

Desenvolvimento baseado no consumo


Com a redução do IPI, prorrogada pela segunda vez na última semana e que será mantida até o final do ano, quem quiser comprar um carro novo nacional 1.0 não vai pagar nada de IPI. Já o imposto dos carros de 1.0 até 2.0, que é de 11% continua em 5,5% e o IPI de veículos utilitários que é de 4% do valor do carro, fica em 1%. Quanto aos carros importados a redução é bem menor, cai de 41% para 35,5%.




Pois bem, isto é ruim? Evidentemente que o consumidor aplaude toda diminuição da carga tributária e que o objetivo do governo ao tomar esta medida, aquecer a economia, gerar (e manter) postos de trabalho, alavancar o crescimento do País também é uma iniciativa que gera euforia e concordância na sociedade. Mas será que tudo é o que parece ser?

Segundo estudo realizado pelo pesquisador Juciano Martins Rodrigues do Observatório das Metrópoles a partir de dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), a frota de veículos das doze principais capitais do Brasil praticamente dobrou em dez anos. São Paulo foi a metrópole que mais ganhou carros em números absolutos: recebeu 3,4 milhões de veículos entre 2001 e 2011.  A região metropolitana que proporcionalmente ganhou mais carros foi Manaus. O aumento da frota foi de 141,9%. A cidade ganhou 209.000 veículos (saltou de 147.000, em 2001, para 357.000.

Ainda de acordo com este mesmo estudo - um fato que os paulistanos e os moradores das demais metrópoles que foram pesquisadas observam com nitidez no cotidiano - as cidades não estavam (e não estão) preparadas para receber este aumento substancial da frota de carros. Exemplos: Em 2001 São Paulo tinha 1.200 agentes de trânsito nas ruas, em 2011, 2.000. Outros efeitos do aumento do número de veículos nas ruas de São Paulo: diminuição da velocidade média dos veículos em alguns corredores da capital paulista como o Eusébio Matoso-Rebouças-Consolação que passou de 17,9 km/h em 2001 para 7,6 km/h em 2011. Ou seja, a infraestrutura viária brasileira não foi preparada adequadamente para suportar o aumento da frota de veículos. 

Com relação aos danos ambientais e consequentemente à saúde da população os dados são ainda mais alarmantes. Um relatório de qualidade do ar no estado de São Paulo publicado pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), revela que os veículos são responsáveis por 97% das emissões de monóxido de carbono, 97% de hicrocarbonetos, 96% de óxidos de nitrogênio, 40% de material particulado e 35% de dióxido de enxofre. 

Deixando todas estes fatos de lado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirma que a renovação da redução do IPI é uma medida que garante que os empregos continuem aumentando no Brasil. No entanto, a questão é a seguinte: a redução tributária é uma medida pontual que não provoca transformações reais no setor, apenas circunstancialmente e que só terá efeito se continuar sendo prorrogada. Enquanto isso, os problemas ambientais  e sociais provocados pelo aumento da frota de veículos nas grandes cidades continuam se agravando, a falta de infraestrutura viária segue sem solução e o governo comemora.

O desenvolvimento de um País baseado unicamente no consumo caminha na direção contrária as expectativas sociais e culturais da contemporaneidade. A questão não é barrar o consumo, mas torná-lo consciente, incentivar o fim do desperdício, da compra por impulso, da submissão a propaganda, enfim....que desenvolvimento é este que estamos vivendo?

Abusos infantis impunes no Sri Lanka


Em 2011 foram denunciados 1.463 casos de exploração sexual de meninos e meninas no Sri Lanka. A polícia constatou que todos eram genuínos e iniciou investigações em cada um deles. Contudo, no final do ano, nenhuma das denúncias havia chegado aos tribunais superiores que, pelo sistema judiciário nacional, são os encarregados de julgar delitos contra a infância. 
Os casos de abusos de menores param nos tribunais. Até agosto passado, os 34 tribunais superiores do país tinham em suas prateleiras quatro mil denúncias de abuso contra crianças, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). “Um terço dos casos pendentes nos tribunais supremos estão relacionados com meninos e meninas”, segundo o Unicef.
Porém, ativistas pelos direitos da infância garantem que o número na verdade é maior, se forem considerados os abusos que nem mesmo chegam à justiça. Quando se denuncia pela primeira vez um abuso infantil, a polícia realiza investigações preliminares e um tribunal de primeira instância decide se envia o caso a um tribunal superior ou o arquiva.
“Se considerarmos todos os casos que ainda esperam uma conclusão da investigação, estamos falando de aproximadamente oito mil”, disse Visakha Tillekeratne, da organização local de direitos humanos Justiça para as Vítimas. Em média, no Sri Lanka, um caso de abuso infantil demora cerca de seis anos para ser concluído, segundo o Unicef.
“Um estudo de 2010 sobre 110 casos de abuso infantil que chegaram ao Departamento de Medicina Forense da Universidade de Kelaniya indica que o tempo médio para obter evidência era de 62,5 meses (cinco anos) desde o primeiro exame” da vítima, disse a porta-voz do Unicef em Colombo, Suzanne Davey.
Atrasos legais não são registrados apenas em casos de abuso infantil, mas são comuns em todo o sistema, paralisado pela falta de pessoal capacitado tanto na Polícia quanto na Promotoria. “É um grande tema”, disse à IPS o superintendente principal da Polícia, Ajitha Rohana. No final de 2010 os tribunais tinham 650 mil processos sem resolver, acrescentou. Agora, “estão fazendo esforços para dar atenção especial aos casos de abuso infantil”, ressaltou.
O Unicef colabora com o Ministério da Justiça, o Departamento de Polícia e a Promotoria para capacitar funcionários a fim de acelerar as investigações e os processos legais. Mais de 900 funcionários são instruídos desde janeiro, e está em andamento um projeto-piloto destinado a dar prioridade aos casos de abuso infantil em seis distritos. Rohana disse  que os primeiros resultados do projeto são positivos. “O plano é introduzir um sistema para todos os distritos”, contou. Os especialistas acreditam que isto é urgente, já que a longa espera agrava o trauma das vítimas. “É brutal esperar, especialmente quando ano após ano nada se faz”, disse Tillekeratne.
“A demora nos processos tem como resultado maior vitimização das crianças que já sofreram muito abuso e exploração”, disse Caroline Bakker, chefe de proteção no escritório do Unicef no Sri Lanka. Segundo ela, quando as vítimas veem que os responsáveis são soltos sob fiança, sentem-se ainda mais desamparadas. “Os responsáveis continuam livres e cometendo crimes contra crianças impunemente”, afirmou.
Rohana informou que a polícia agora tem especial cuidado em não permitir que os suspeitos saiam livres, a menos que haja ordem de um tribunal. “Todos os funcionários encarregados das delegacias foram instruídos a adotarem ações imediatas quando receberem um caso de abuso infantil”, acrescentou. Contudo, Tillekeratne disse que é urgente maior ação concertada em nível nacional, devido à enormidade do problema. “É preciso não que o projeto-piloto seja aplicado em fases no resto da ilha, mas que se faça ima implantação imediatamente”, apontou.
Rohana acrescentou que desde 2005, quando o governo distribuiu funcionários dedicados especialmente à proteção dos direitos das mulheres e das crianças em todo o país, a polícia começou a receber mais denúncias. Davey ressaltou que é difícil saber se esse fenômeno tem relação com a nova política do governo ou se há outros fatores envolvidos. A densamente povoada Província oeste e as agrícolas Sabaragamuwa e Central do Norte são os lugares mais afetados pelo abuso infantil no país.
Estatísticas policiais mostram que a maioria dos abusos em áreas rurais ocorreram em momentos em que as crianças foram abandonadas por muito tempo por adultos que eram seus responsáveis. Citando um estudo de 2005, o Unicef diz que 89% dos abusos infantis são de natureza sexual, 70% são cometidos por um familiar ou alguém próximo da família da vítima, 27% por conhecidos do menor e apenas 3% por estranhos. Uma recente série de abusos envolvendo políticos e outro caso de uma menina de seis anos violentada e assassinada por um familiar de 16 anos voltaram a colocar o assunto sobre a mesa neste país da Ásia meridional.

Reportagem de  Amantha Perera
foto:cis.edu.vn

Anote na agenda: Curso Política de Drogas no Brasil


A Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj) faz em novembro o curso sobre Política de Drogas no Brasil. O curso de extensão acontece nos dias 05, 09, 23 e 30 de novembro e tem carga horária total de 20 horas. As palestras acontecem sempre das 9h às 13h.
As inscrições podem ser feitas pelo emerj.deama@tjrj.jus.br. Em caso de dúvidas, mais informações pode ser obtidas pelos telefones (21) 3133-1808 ou (21) 3133-3398.
Os Cursos de Extensão da Emerj têm como objetivo promover a formação continuada e o aperfeiçoamento profissional, de curto prazo, dos operadores do Direito e de integrantes de outros segmentos da sociedade. A Coordenação do curso é feita pelo dr. Alcides da Fonseca Neto.
Serviço
Data: 5, 9, 23 e 30 de novembro
Horário: 9h às 13h
Local: Rua Dom Manuel, 25, Centro, Rio de Janeiro – RJ
Inscrições: emerj.deama@tjrj.jus.br
Informações: (21) 3133-1808 ou (21) 3133-3398

Veja a programação abaixo
05/11 - Drogas e Geopolítica
Palestrantes: Dra. Vera Malaguti Batista – doutora e pós-doutora em Saúde Pública; Ricardo Soberón, doutor em Política Internacional.

09/11 - Drogas e a Questão Criminal
Palestrante: Pedro Abramovay

23/11 - Drogas e Saúde Pública
Palestrante: Francisco Inácio Bastos, doutor em Saúde Pública( Fundação Osvaldo Cruz)

30/11 - Drogas e Segurança Pública
Palestrantes: dr. Alcides da Fonseca Neto - juiz de Direito, mestre em Ciências Penais; Orlando Zacconi – delegado de Polícia.


Exame de Ordem existe em quase todos países europeus


Na Europa, não tem escapatória. Quem quer trabalhar como advogado precisa prestar Exame de Ordem. Praticamente todos os países europeus exigem que o bacharel em Direito seja aprovado pelo conselho de Advocacia local ou, pelo menos, que se submeta a programas de treinamento oferecidos pelo órgão. Atualmente, apenas a Andorra não faz nenhuma avaliação dos bacharéis antes de eles começarem a advogar. É o que mostra relatório divulgado pelo Conselho da Europa sobre o funcionamento da Justiça dos Estados europeus.
O último país a instituir o Exame de Ordem foi a Espanha. Até o meio do ano passado, bastava o diploma da faculdade de Direito para o bacharel se inscrever na Ordem espanhola e começar a trabalhar. Com o registro, podia atuar em toda a União Europeia. A falta de exame fazia da Espanha o caminho para aqueles que se formavam em outros países da UE e queriam driblar a avaliação. Bastava homologar o diploma nas autoridades espanholas para receber cartão verde para advogar. Em outubro do ano passado, a Espanha começou a exigir a aprovação no exame para o bacharel poder advogar.
A situação da Alemanha também é um pouco diferente da dos demais países. Lá, não há nenhuma formação específica para ser advogado. Quem quer entrar para a advocacia passa por treinamento e tem de fazer os mesmos exames que aqueles que vão optar por uma carreira na Magistratura ou no Ministério Público.
Mundo da advocacia
O relatório do Conselho da Europa divulgado neste mês relaciona dados de 2010, enviados pelos próprios países. Dos 47 países que fazem parte do conselho, apenas o pequeno Liechtenstein não forneceu as informações pedidas e ficou fora do diagnóstico. O estudo dedica um capítulo inteiro ao universo da advocacia dentro do continente, com dados que possibilitam comparar o número de advogados entre os países e a sua relação com o número de habitantes.

Em 2010, a Europa tinha, em média, 257 advogados para cada 100 mil habitantes ou 26 para cada juiz. A maior concentração de advogados por número de habitantes está no sul do continente. A Itália e a Espanha, por exemplo, tinham 350 e 369 advogados, respectivamente, para cada 100 mil moradores. A proporção cai bastante nos países no norte europeu, como a Dinamarca (105 advogados por 100 mi habitantes) e a Finlândia (35 por 100 mil).
A Inglaterra e o País de Gales apresentam um quadro curioso. Comparado com o número de habitantes, os dois países, juntos, não tinham um número muito alto de advogados: 299 para cada 100 mil moradores. Mas, se comparado com o número de juízes, eles disparavam na frente de qualquer outro estado. Em 2010, eram 83 advogados para cada juiz. Na Irlanda e na Escócia, o número de advogados para cada magistrado também é alto: são 58 defensores para cada julgador.
O relatório mostra que o número de advogados tem aumentado ano a ano, exceto em Mônaco, na Escócia e na Irlanda, onde o número de profissionais da advocacia sofreu uma ligeira queda. O aumento foi mais marcante nos países que ainda têm um número baixo de advogados e estão tentando fortalecer seu sistema judiciário. Nesses, de 2006 até 2010, o crescimento do total de defensores ultrapassou os 20%, mas a relação defensores e população continua ainda baixa se comparada com os outros países. O Azerbaijão, por exemplo, tem oito advogados para cada grupo de 100 mil habitantes. O número sobe para 35 na Armênia e 47 na Moldova.
A média de crescimento do total de advogados na Europa entre 2006 e 2010 foi calculada em 6%. Em 15 países, o aumento não chegou nem a 5%. Foi o caso da Bélgica, França e Espanha.

Reportagem de Aline Pinheiro
foto:bloguevermelho.blogspot.com

Obesidade, mal planetário


Quando deixou seu emprego de soldador para fundar, em 1985, a empresa Goliath Casket, sem dúvida Forrest Davis não imaginava alcançar tão grande sucesso. Em uma América com menos de 15% de obesos, o mercado de “caixão gigante” era incerto. Desde então, a medida da cintura do país aumentou consideravelmente. Enquanto a pequena empresa familiar do leste de Indiana vendia apenas um caixão do modelo “triplo” por ano no fim dos anos 1980, ela entrega hoje cinco por mês. Com mais de um terço de adultos com sobrepeso e outro terço de obesos, os Estados Unidos aparecem hoje entre os países mais gordos do planeta.
O mercado entrou em sintonia com essa nova estrutura. Entre as empresas que tentam se adaptar ao fenômeno e oferecem produtos especialmente destinados a pessoas obesas – poltronas maiores para estádios e teatros, colchões king size, sites de encontro para solteiros gordinhos etc. – e as que pretendem fornecer soluções para moderar o peso, os lucros adquiridos são estimados em dezenas de bilhões de dólares. As causas para o ganho de peso generalizado nos Estados Unidos são, entretanto, conhecidas: o modo de vida dos norte-americanos, que, há trinta anos, consomem mais e eliminam menos calorias.
Baseado no culto ao consumo e ao progresso tecnológico, o American way of life favorece a falta de atividade física. Elevador, escada rolante, controle remoto: “Essas invenções diminuíram a quantidade de calorias que queimamos sem perceber”, explicam Eric A. Finkelstein e Laurie Zuckerman. Um mal que veio para o bem? Ou seja, livrando-se de certas tarefas domésticas, os norte-americanos não poderiam se dedicar a atividades de lazer que permitem gastar energia? Sim, mas esse tempo é essencialmente utilizado em frente a uma tela ou atrás de um volante.
O modelo urbano dominante encoraja o uso cada vez mais excessivo do carro. No pós-Segunda Guerra Mundial, em resposta à alta dos preços das moradias no centro das cidades, os cidadãos deslocaram-se para a periferia, formando subúrbios em todas as direções. Na falta de uma rede de transporte público digno desse nome – exceto nas metrópoles –, as distâncias cada vez mais longas tornaram o carro indispensável para a maior parte dos deslocamentos cotidianos. Desde os anos 1960, o número de pessoas obrigadas a sair de seu bairro de residência para ir trabalhar multiplicou-se por 3, e a distância percorrida de carro, por 3,5. A cada semana, um norte-americano passa mais de dez horas em seu automóvel. Um tempo totalmente sem atividade física que favorece o ganho de peso: de acordo com um estudo realizado na região de Atlanta, cada hora a mais passada por dia atrás de um volante aumenta em 6% as chances de ser acometido pela obesidade, enquanto um pouco mais de 800 metros percorridos a pé reduzem essa probabilidade em cerca de 5%.
Mas, quando se trata da diminuição da atividade física, o tempo gasto dentro do carro conta pouco em comparação às 40 horas gastas toda semana diante de uma tela (televisão, computador, videogame). Ligada de manhã até a noite, a TV tornou-se o elemento central de numerosos lares. Ademais, esse lazer totalmente sedentário impele seus adeptos ao consumismo, direcionando, com seu fluxo incessante de publicidade, as práticas alimentares dos telespectadores, em particular dos mais jovens, para o consumo exagerado.
A constatação dessa realidade acarreta outra, que contradiz a argumentação teórica do mercado de alimentação: é possível um indivíduo comer além do que seu corpo precisa. Essa afirmação não é ainda uma evidência. De fato, se uma pessoa pode comprar uma camisa da moda ou um celular de última geração que não têm real utilidade, por que ela absorveria voluntariamente mais calorias do que seu organismo necessita, com a possibilidade de colocar sua saúde em risco? O metabolismo humano deveria assim fazer da alimentação um mercado de crescimento lento, fixado com base no crescimento da população. No entanto, em 1970, um norte-americano consumia 2.200 calorias por dia – ou seja, a quantidade recomendada; 40 anos depois, ele absorve 2.700.
 Uma política salarial que engorda
Para aumentar os lucros, as indústrias de alimentos souberam romper essa limitação natural. Elas inundaram as revistas de novos produtos, a fim de suscitar no consumidor um desejo constante de descoberta. Entre 1990 e o fim dos anos 2000, mais de 116 mil novos produtos surgiram nas prateleiras dos supermercados. Entrar na seção “Bebidas” de um mercado norte-americano é suficiente para perceber a inventividade dos arquitetos dessa “diversificação da oferta”: refrigerantes de sabores os mais variados e derivações de Coca-Cola, sem açúcar, sem cafeína, de cereja, de limão (taiti ou siciliano), de baunilha... Essa estratégia se revela de uma eficácia assustadora: por ano, cada norte-americano toma 178 litros de refrigerante com açúcar, em contrapartida aos 85 litros em 1970 e 135 em 1980.
As empresas também buscaram novos clientes nas classes baixas. Graças à sofisticação crescente dos procedimentos de embalagem, conservação e distribuição, os produtos industrializados, particularmente calóricos, custam menos do que os alimentos frescos. Em outras palavras, um dólar de salgadinhos enche mais o estômago do que um dólar de cenouras. Se os norte-americanos respeitassem os “conselhos alimentares” prescritos pelo governo, eles iriam gastar US$ 400 a mais por ano. A política salarial norte-americana faz os mais pobres engordarem. De acordo com o Wall Street Journal de 7 de julho de 2011, mais de um terço dos adultos que vivem com menos de US$ 15 mil por ano é obeso, enquanto 24,6% dos que ganham mais do que US$ 50 mil estão nessa situação.
A diminuição dos custos de produção não apenas inverteu a relação secular dos pobres com a alimentação (da carência ao consumo excessivo), mas também alterou a distribuição econômica do mercado. Atualmente, a alimentação por si só constitui uma parte muito pequena do preço de venda de um produto – em relação à embalagem, promoção, concepção etc. –, por isso se tornou mais rentável vender grandes quantidades em um mesmo recipiente. No Walmart, por exemplo, uma embalagem com 321 gramas de chocolate com amendoim e caramelo custa US$ 3,58, ao passo que 1.100 gramas saem por US$ 8,98. Menos de três vezes o preço e quase quatro vezes maior: para aproveitar o bom negócio, muitos clientes, em particular os mais modestos, optam pelo segundo formato.
Uma boa notícia seria pensarmos que o argumento econômico se une às necessidades ecológicas. Entretanto, “existe alguma coisa em nossa psicologia que nos faz comer mais quando há mais comida a nosso alcance”,explica a nutricionista Marion Nestle. Prova disso é que Barbara Rolls, professora da Universidade da Pensilvânia, reuniu um grupo de homens jovens e magros, habitualmente muito atentos à forma física, e lhes serviu todos os dias pratos de macarrão com queijo em quantidades diferentes, depois mediu seu consumo cotidiano: se ela oferecia um prato com 450 gramas, eles comiam 280, mas se o prato tinha 700 gramas eles devoravam 425, ou seja, 50% a mais do que a quantidade que os tinha deixado satisfeitos no dia anterior.

A estratégia supersize

Hábeis conhecedoras desse aspecto da psicologia humana, as redes de fast-foodcolocaram em prática essa estratégia do supersize: mediante alguns dólares a mais (mas uma quantia pequena o suficiente para criar um efeito de promoção vantajosa), o cliente pode “aumentar” seu pedido, ter uma bebida maior, um hambúrguer a mais no lanche ou uma porção dupla de batatas fritas. Para satisfazer as novas expectativas dos consumidores, todos os restaurantes tiveram de adaptar as quantidades oferecidas. Há quarenta anos, o único formato de bebida vendido pelo McDonald’s era de 200 ml; o menor copo tem agora 350 ml, e o maior, quase 1 litro. O único hambúrguer vendido na época é hoje servido para as crianças, e os adultos o comem apenas como aperitivo.
Graças às propagandas, como os mais pobres, os jovens norte-americanos constituem um mercado relativamente recente. Durante muito tempo, os gastos alimentares eram de responsabilidade exclusiva dos pais. O aumento do poder de compra da maioria e a mudança do olhar sobre os desejos infantis fizeram das crianças consumidores plenos. O mestre do marketing para crianças, James McNeal, ex-professor da Texas A&M University, estimava no New York Times(20 abr. 2011) que elas influenciam a cada ano mais de 8% dos gastos de seus familiares com comida e bebida, isto é, US$ 100 bilhões.
Elas são particularmente bajuladas pela publicidade. Estima-se que uma criança norte-americana é exposta em média a 25 mil propagandas televisivas a cada ano, das quais mais de 20% são relacionadas à alimentação.
Diante das práticas agressivas da indústria alimentícia, os poderes públicos ficaram por muito tempo sem agir. O mercado de junk foodatinge somas estratosféricas – em 2011, segundo estatísticas do Financial Times (9-10 jun. 2012), a venda mundial de pizzas e defast-foodcresceu para US$ 706 bilhões – e as grandes marcas podem dedicar meios desmedidos em defesa de seus interesses. Contudo, o mercado vem se fechando lentamente. A obesidade chegou a tais proporções que os problemas que ela causa (depressão, discriminação, riscos à saúde, perda de produtividade etc.) preocupam toda a sociedade. Com cerca de 200 mil mortes por ano – ficando abaixo do tabaco (mais de 400 mil mortes), mas bem à frente do álcool e dos acidentes automotivos –, ela tornou-se a segunda causa de “mortes evitáveis”.
Nos últimos anos, o governo federal multiplicou os dispositivos: incentivo à atividade física para jovens, criação de um selo garantindo os valores nutritivos de um produto, proibição da venda de refrigerantes nas escolas, entre outros. Em escala local, os estados e os municípios também adotam legislações cada vez mais impositivas. Em maio de 2012, a cidade de Nova York proibiu a venda de bebidas supersized com açúcar em restaurantes, cinemas e estádios. Para se garantir, as multinacionais se voltam agora para os novos mercados, menos saturados que os Estados Unidos e, sobretudo, menos controlados.
Antigamente privilégio dos países ocidentais e dos Estados do Golfo Pérsico, a obesidade se estendeu por todo o planeta. Todos os países emergentes são afetados, como se o peso dos cidadãos estivesse ligado ao crescimento do PIB. Com 30% de adultos obesos, o México faz papel de mau aluno diante da África do Sul (18,1%) e do Brasil (13,9%). Mesmo a Índia e a China podem ser citadas. Urbanização, mecanização, industrialização da produção alimentícia, surgimento da grande distribuição: o desenvolvimento econômico gerou uma profunda mudança no modo de vida e uma adaptação progressiva ao sistema norte-americano.

Gordurinha, símbolo de sucesso

As redes de fast-food seguiram esse movimento e aplicam nos países emergentes a receita experimentada nos Estados Unidos e na Europa. Foi necessário apenas adaptar-se ao sabor local. Na Índia, por exemplo: nas propagandas, estrelas bollywoodianas e jogadores de críquete substituem atores holywoodianos e jogadores de basquete. As redes nacionais (Moti Mahal, Nahus Sweets, Sagar Ratna etc.) disputam com os mastodontes norte-americanos o lucro do mercado de fast-food, que cresce de 25% a 30% ao ano. Em 2011, Yum Brands – dono das redes KFC, Taco Bell e Pizza Hut, entre outras – anunciou seu desejo de abrir mil novas sucursais na Índia até 2015. Uma quantia ínfima se comparada ao plano de investimento previsto para a China, onde prevê inaugurar 20 mil filiais durante os próximos anos. Nesses dois países, a obesidade, ainda que limitada, está em constante elevação, e o sobrepeso já chega a níveis significativos (15% dos adultos indianos e 31% dos chineses, dos quais 12% são considerados obesos).
As diferenças descomunais na distribuição da riqueza e a distância entre rural e urbano confrontam certos países, em particular os mais pobres, com o “duplo fardo da malnutrição”. No interior, a alimentação é escassa e cara, e muitos trabalhadores rurais são desnutridos; nas metrópoles, onde os alimentos industrializados são encontrados em abundância, as novas classes médias, ávidas por passeios, divertimento e consumo, adotam um regime hipercalórico. No Níger, 30% dos habitantes das cidades ultrapassam o peso recomendado, enquanto 20% dos camponeses são desnutridos. Na Namíbia, esses números são de 40% e 18%, respectivamente, e, na Índia, 25% e 50%. Ao contrário da maioria dos países ocidentais, a lógica é respeitada nos países emergentes: os mais ricos são frequentemente mais gordos e os mais pobres são magros. Em Chennai, as gordurinhas se tornaram sinal de ascensão social. Umfast-food dessa cidade indiana fez propaganda, durante um tempo, de um de seus produtos interpelando os pedestres: “Você é gordo? Parabéns!”. Em certas cidades africanas, onde a aids – conhecida por ser uma “doença de magro” – afeta quase uma entre duas pessoas, o sobrepeso é até valorizado como prova de boa saúde física.
A obesidade e a desnutrição não dividem apenas as cidades interioranas, fartas de miseráveis: elas podem coabitar um mesmo grupo social, um mesmo espaço geográfico ou um mesmo lar. Essa coexistência se explica pelas diferenças entre gerações e pelas rupturas de regime alimentar. Uma pessoa desnutrida no começo da infância percebe seu metabolismo mudar bruscamente, desenvolvendo uma tendência a estocar gordura. Se, na idade adulta, ela adota um regime mais calórico, mas sempre pobre em nutrientes, ganhará peso rapidamente. Seus filhos podem, pelo contrário, sofrer de deficiências nutritivas, ser muito pequenos ou anêmicos. No Egito, 12% das crianças raquíticas têm mães obesas.
Em escala mundial, o número de pessoas com sobrepeso (cerca de 1,5 bilhão, das quais 500 milhões são obesas) excede o de desnutridos (em torno de 1 bilhão). Enquanto o contra-ataque começa na Europa e nos Estados-Unidos, muitos países demoram a reagir. Mas em sua lista de trinta obstruções para crescer, a Coca-Cola já se preocupa: “A obesidade e outros problemas de saúde poderiam reduzir a demanda de alguns de nossos produtos”.


Reportagem de Benoît Bréville
foto:osemanario.com.br

Eleição municipal dá o contorno da disputa presidencial de 2014

Encerrada ontem, a corrida municipal de 2012 ajudou a dar o contorno do que poderá ser a disputa presidencial de 2014. Com a missão de reforçar as campanhas dos candidatos que apoiaram nesta eleição, cotados para disputar o Palácio do Planalto daqui a dois anos fizeram uma peregrinação pelo País afora, testaram sua capacidade de puxar votos e ganharam a chance de fortalecer seus respectivos partidos em cidades estratégicas para a próxima empreitada nas urnas. 
Candidata natural à reeleição, a presidenta Dilma Rousseff (foto acima) se empenhou pessoalmente na campanha, mas coube principalmente ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva  visitar cidades importantes e puxar votos para os candidatos do PT e aliados na eleição. Além da presidenta, dois nomes tidos como possíveis candidatos entraram na lista de protagonistas da corrida municipal: o governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, e o senador mineiro Aécio Neves (PSDB). 

Após circular por diversas cidades no primeiro e segundo turnos e gravar material de campanha em favor de outras dezenas de candidatos, Lula subiu em dez palanques na reta final do segundo turno em uma última tentativa de alavancar candidatos e aliados. Além de levar a Prefeitura de São Paulo, com Fernando Haddad, o ex-presidente conseguiu eleger candidatos em cidades do ABC paulista, berço do PT, como Santo André e Mauá, Guarulhos, além das capitais Goiânia, João Pessoa e Rio Branco. Na última semana de campanha, chegou a ter sua presença requisitada em Cuiabá, onde o candidato Lúdio Cabral (PT) foi derrotado por Mauro Mendes (PSB), mas a agenda cheia impediu a participação.
Entre os aliados, Lula apoiou candidatos como a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB), que acabou derrotada pelo adversário tucano Arthur Virgílio, em Manaus. O ex-presidente gravou ainda material de campanha para outros partidos, como o PDT de Roberto Góes, em Macapá, e o PSOL de Edmilson Rodrigues, em Belém, mas ambos acabaram derrotados nas urnas.
Apesar da vitória expressiva em São Paulo, o PT sofreu uma derrota para o PSB de Eduardo Campos no Ceará, onde Roberto Cláudio foi eleito 53,15% dos votos válidos contra 46,85% de Elmano de Freitas. A candidatura do deputado estadual socialista foi lançada após um racha com o PT quando a legenda não aceitou a indicação da candidatura de Elmano.
Além de Fortaleza, Campos teve uma de suas principais vitórias com o PSB ainda no primeiro turno, quando ajudou a eleger o desconhecido Geraldo Júlio (PSB) no Recife, desbancando nomes fortes como o do senador pernambucano Humberto Costa (PT).
Outra vitória socialista foi a reeleição de Márcio Lacerda, também no primeiro turno, em Belo Horizonte, um dos principais colégios eleitorais do País. Apoiado pelo PSDB, Lacerda ainda foi uma das principais apostas do senador Aécio Neves, que se engajou pessoalmente na campanha socialista.
As duas vitórias do PSB foram consideradas fortes golpes no PT, em cidades onde o partido tinha suas próprias apostas para a eleição. Ex-prefeito de Belo Horizonte, Patrus Ananias foi uma indicação de Dilma  e um dos poucos candidatos petistas a receber seu apoio no primeiro turno das eleições. No Recife, o petista Humberto Costa despontou como primeiro colocado nas pesquisas, mas acabou como o terceiro nas urnas.
Peregrinação
Após o fim da apuração, o PSB sai das urnas neste domingo com seis vitórias dentre as sete prefeituras que disputava o segundo turno. No total, a legenda conquistou cinco capitais, deixando para trás o PSDB e o PT, que comandam quatro capitais cada a partir de 2013.
Fora das capitais, uma das principais apostas dos socialistas foi Jonas Donizette (PSB), que conquistou a Prefeitura de Campinas (SP), terceiro maior colégio eleitoral do Estado. Donizette recebeu o apoio de Campos em duas visitas à cidade, onde enfrentou o petista Marcus Pochmann (PT), apoiado por Lula e pela presidenta Dilma. Campinas também foi a única cidade do interior de São Paulo a ter a presença de Dilma na campanha.
A presença de Campos no Sudeste faz parte da estratégia de fortalecer a figura do governador nos Estados dessa região. Durante a campanha, o governador pernambucano esteve ainda em cidades como o Rio de Janeiro, Petrópolis, São Luís, Cuiabá, Porto Velho.
Considerado um dos principais nomes do PSDB para a eleição presidencial de 2014, Aécio Neves foi um dos nomes que mais trabalhou sua imagem na campanha municipal deste ano. A peregrinação do senador mineiro começou ainda no período de pré-campanha: até junho deste ano, Aécio já havia percorrido 14 Estados nas cinco regiões brasileiras, participando de encontros, fóruns, convenções, lançamentos e eventos que reuniam lideranças tucanas locais.
Já em campanha, Aécio passou por capitais onde o PSDB e aliados concorreram, como Rio Branco, Manaus, Belém, Recife, Salvador, São Luís, Teresina, João Pessoa e Vitória, além de cidades estratégicas no interior de São Paulo, no Sul e no Nordeste do país. 
Em Salvador, o senador tucano apoiou a candidatura do aliado do partido ACM Netp(DEM), eleito com 53.51% dos votos válidos. O demista venceu a candidatura de Nelson Pelegrino (PT), que também contou com o apoio intenso no palanque com Lula, Dilma e com o atual governador da Bahia, Jaques Wagner (PT).
Apesar de desalojado de São Paulo, o PSDB conquistou prefeituras em capitais como Manaus, Belém, Teresina, Maceió e grandes cidades, como Taubaté (SP), Campina Grande (PB), Blumenal (SC) e Pelotas (RS).
Aproximação
Em Campinas, Donizette recebeu também o apoio de Aécio Neves, que participou de eventos de campanha com o candidato socialista na cidade. O tucano Henrique Teixeira é vice na chapa.
Na ocasião de uma das visitas, Aécio afirmou que em suas “andanças por 23 dos 27 estados da federação que eu coloquei mais 40 no peito do que 45”, em referência aos números das urnas do PSB e do PSDB, respectivamente. A afirmação aconteceu em meio a especulações sobre a aproximação das duas legendas nas figuras de Aécio e Eduardo Campos..
Os dois chegaram a dividir o palanque em Uberaba, no Triângulo Mineiro, onde apoiaram juntos o deputado estadual Antônio Lerin (PSB). Lerin disputou o segundo turno com o deputado federal Paulo Piau (PMDB), mas acabou derrotado nas urnas. Piau teve 51,36% dos votos válidos contra 48,64% de Lerin.
Aécio e Campos evitaram falar sobre suas pretensões para 2014 e negam um possível acordo entre o PSDB e o PSB durante toda a campanha. Em visita a Manaus, Aécio chegou a afirmar que os dois partidos "quase se confundem na história dos agentes políticos" e que o crescimento do PSB não é visto como "uma ameaça" e é até interesse do PSDB que o partido esteja forte. “Nós estamos tranquilos porque vamos construir um projeto de oposição. Se no caminho, forças que hoje estão com o governo se sentirem mais confortáveis em uma nova proposta para o Brasil, naturalmente serão muito bem vindos", disse à época.
Uma pesquisa estimulada divulgada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) em agosto deste ano simulou uma possível disputa presidencial entre Dilma, Aécio e Campos. O socialista foi o que teve o pior desempenho, com 6,5% das inteções de votos. O tucano teve 14,8% e a atual presidenta, 59,0%. Em uma simulação com Lula no lugar de Dilma, o ex-presidente teria 69,8% dos votos, Aécio Neves 11,9% e Eduardo Campos, 3,2%.

foto:diretodaredacao.com




28/10/2012

Crianças pagam alto preço de conflito com o Taleban no Paquistão


Caso de paquistanesa baleada na cabeça mostra perigos da violência; crianças são forçadas a deixar casas, abandonam a escola e são recrutadas para ataques suicidas.


A tentativa do Taleban de assassinar a militante adolescente pró-educação Malala Yousafzai (foto acima) no início do mês ilustra os perigos que o conflito representa para as crianças do país. Milhares de crianças e suas famílias foram forçadas a abandonar áreas do chamado "cinturão tribal" do Paquistão, na fronteira com o Afeganistão, onde estão os santuários do grupo radical. Muitas também ficaram sem acesso à educação como consequência de uma persistente campanha, por militantes do Taleban, contra o ensino não religioso.
Desde 2006, essa investida dos militantes já levou à destruição de quase mil escolas.
Anos de operações militares nessas áreas resultaram em mais destruição. Mesmo as regiões de onde os militantes foram expulsos não estão completamente seguras sob o controle de governos civis.
Muitos santuários importantes ainda persistem, especialmente no Waziristão do Norte, partes do Waziristão do Sul, e as regiões de Orakzai e Khyber. A partir desses santuários, os homens do Taleban organizam ataques contra os militares paquistaneses e alvos civis no coração do país, rompendo cordões de segurança e criando uma sensação permanente de insegurança.
Malala criticava abertamente a oposição do Taleban à educação de meninas. E por ser apenas uma menina, nunca acreditou que eles a veriam como uma ameaça real. O caso de Malala é diferente porque, embora não seja a única vítima infantil desse conflito, talvez tenha sido a única a ser alvo de um ataque motivado por suas opiniões.
Aviões não tripulados
Também há relatos constantes de crianças sendo mortas em ataques por drones, aviões não tripulados, nas regiões mais tribais do Paquistão. Os ataques são parte de uma campanha persistente dos EUA contra militantes em santuários tribais no noroeste do país, onde se acredita que o Taleban mantenha algumas de suas bases.
A mídia não tem acesso livre a essas áreas mas, em novembro de 2011, a ONG britânica Reprieve organizou uma viagem de vários membros de tribos da região para a capital, Islamabad, para protestar contra os drones. Tais ofensivas também já motivaram rusgas entre os governos do Paquistão e dos EUA.
A delegação inclui meninos supostamente mutilados em ataques por drones e homens que trouxeram depoimentos de pessoas que teriam presenciado mortes de civis, entre eles, crianças, nesses ataques. Nenhum desses casos pôde ser apurado de forma independente pela BBC.
Recrutamento de suicidas
O que foi confirmado, no entanto, é que o Taleban vem recrutando e doutrinando meninos adolescentes para atuar como homens-bomba no Paquistão. Em fevereiro de 2011, eles usaram um jovem de 12 anos para penetrar em uma fortaleza bem protegida na cidade de Mardan, noroeste do país, e atacar recrutas do Exército.
Vestindo um uniforme de uma escola situada dentro da área fortificada, o menino conseguiu passar por vários postos de segurança e detonar o colete com explosivos que vestia em uma área onde militares faziam exercícios físicos. Ao menos 30 pessoas morreram.
Três meses depois daquele incidente, a BBC entrevistou outro menino que teria atuado como homem-bomba mas foi pego pela polícia. Omar Fidai, de 14 anos, disse que ia participar de um ataque duplo contra um templo sufi na cidade de Dera Ghazi Khan. Ele ia detonar seu explosivo perto do local onde equipes de resgate trabalhavam após um atentado por outro homem bomba.
Esse primeiro ataque, feito por outro adolescente, um parceiro de Omar, matou mais de 40 pessoas. O colete de Omar não explodiu direito e ele foi ferido, mas sobreviveu.
Ele contou que foi treinado em um campo para homens bomba na região tribal do Waziristão Norte. Seus mentores o haviam convencido de que, uma vez que ele matasse os hereges e os infiéis, iria direto para o céu.
Guerra ao Terror
O relatório de 2012 da ONU registrou 11 incidentes ocorridos em 2011 nos quais meninos adolescentes, alguns com apenas 13 anos, foram usados em ataques suicidas por grupos armados.
As autoridades paquistanesas dizem que mais de 30 mil civis e 3 mil soldados morreram desde a chamada Guerra ao Terror, iniciada no final de 2001 pelos Estados Unidos, e não se sabe quantos desses foram crianças.
O último relatório das ONU sobre o assunto, divulgado em abril de 2012, diz que ao menos 57 crianças foram mortas no Paquistão apenas em 2011 - vítimas de explosões de minas terrestres, bombas colocadas em estradas e ataques. Esse número seria ainda maior se mortes por ataques sectários fossem incluídas.

Ministros franceses fazem 'aula contra machismo'


Por iniciativa de chefe do Ministério de Direitos das Mulheres, autoridades aprendem sobre linguagem inadequada, estereótipos e como evitar gafes.


Ministros do novo governo socialista da França estão comparecendo a um curso antissexismo com aulas sobre linguagem inadequada e estereotipada e dicas para evitar gafes. As aulas de uma hora de duração, que também abrangem a disparidade salarial e violência doméstica, foram ideia de Najat Vallaud-Belkacem (foto acima), chefe do recriado Ministério de Direitos das Mulheres e também porta-voz oficial do governo.
As sessões são parte de um esforço para eliminar o machismo na política. O presidente socialista François Hollande tem procurado estabelecer um novo tom. O mesmo número de mulheres e homens foram nomeados para cargos de ministros, pela primeira vez na história da França.
Alegações sobre a conduta do político socialista e ex-chefe do FMI, Dominique Strauss-Kahn, foram o pontapé inicial para um debate sobre o tema na França no ano passado. Ele estava a poucos dias de anunciar que iria concorrer à presidência francesa quando a polícia o prendeu, em Nova York, depois que uma empregada de hotel alegou que ele havia tentado estuprá-la. Promotores de Nova York depois retiraram as acusações.
Assobios no Parlamento para uma ministra do novo governo aumentaram a preocupações de que alguma orientação era necessária. "Os ministros adoraram", disse uma fonte do governo sobre o curso. "Eles estão vindo com ideias sobre como podem colocá-las em prática."
Doze ministros já estiveram presentes, incluindo o chanceler Laurent Fabius e o ministro das Finanças, Pierre Moscovici, e mais 26 inscreveram-se.
"Para aqueles que já estão cientes destas questões, é bom ouvi-las novamente. Para aqueles que não são, é especialmente útil", disse uma fonte próxima a Moscovici, um ex-aliado de Strauss-Kahn.

foto:lefigaro.fr