05/12/2014

“Há um enorme déficit de inovação na América Latina”


Os gastos da América Latina em inovação, pesquisa e desenvolvimento (P&D) cresceram nos últimos anos, mas ainda continuam longe dos valores empregados pelas regiões mais ricas do mundo. O investimento latino-americano em P&D chegou a 0,78% do PIB em 2011, o mais recente ano em que foram compilados dados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A taxa é superior ao 0,48% e ao 0,57% registrados em 1990 e em 2000, respectivamente, segundo a base de dados da organização. Mas continua distante dos 2,8% do PIB investidos pelos Estados Unidos e dos níveis dos líderes mundiais, como a Coreia do Sul (3,7% do PIB), a Finlândia (3,9%) e Israel (4,3%).
“Há um enorme déficit de inovação na América Latina”, admite o presidente do BID, Luis Alberto Moreno, em uma entrevista motivada pelas jornadas sobre inovação realizadas na terça-feira na sede do banco em Washington, e que buscam justamente reverter esse quadro. Após uma seleção prévia, 16 jovens empreendedores latino-americanos apresentaram seus projetos de inovação diante de um grupo de investidores privados e representantes do BID e de outros organismos. O objetivo é tornar os projetos conhecidos e estabelecer sinergias que possam levar a apoios econômicos.
O contexto atual convida a isso. O colombiano Moreno – que ocupa o cargo no BID desde 2005 – acredita que a inovação pode ajudar a amenizar a desaceleração econômica que cerca a América Latina. “Não há dúvidas de que os ventos mudaram. Tivemos ventos a favor com um consumo muito expressivo da China, bons preços e taxas de juros baixas. Tudo isso está mudando, o que significa que temos que fazer maiores esforços internos, temos que remar mais por conta própria. E a inovação é uma das maneiras de remar melhor”, afirma.
Mas ao mesmo tempo, o presidente do BID gosta de exaltar os avanços conquistados. “É verdade que temos esses déficits, mas também é verdade que quando vejo os jovens que selecionamos, uma das coisas que nos falta é justamente comemorar os êxitos dos inovadores da mesma maneira que eles são comemorados em outras partes do mundo”, afirma Moreno, que antes de entrar no BID foi embaixador da Colômbia nos Estados Unidos. E recorre a uma analogia futebolística: “Nós, na América Latina, celebramos os grandes jogadores de futebol. Não há nada de mau nisso. Mesmo nós, colombianos, nos sentimos muito contentes por ter um James Rodríguez no Real Madrid. Mas me pergunto onde está o James Rodríguez da biotecnologia”.
Como exemplo do progresso nos últimos anos, Moreno menciona o impacto da aplicação de técnicas de P&D na produção agrícola do Brasil e da Argentina. São os dois países que lideram os investimentos em inovação na região. Os gastos em P&D do Brasil representaram 1,21% do PIB em 2011, seguido de longe por Argentina (0,65%), Costa Rica (0,48%), México (0,46%), Chile (0,45%) e Uruguai (0,43%), segundoos últimos dados disponíveis compilados pelo BID.
Moreno acredita que na América Latina a inovação pode servir para diminuir desigualdades sociais e ocupar os vazios que podem ser gerados pela falta de serviços públicos. O objetivo é obter “aplicações que pode ser apropriadas para nossos problemas”. Como exemplo, ele cita as várias diferenças entre as necessidades das classes médias latino-americanas e da norte-americana, esta composta por “famílias que têm dois carros e uma piscina em casa”.
Alguns dos projetos selecionados nas jornadas avançam nessa direção. Um jovem brasileiro, por exemplo, criou uma empresa que utiliza tecnologias móveis para oferecer assistência médica a comunidades com pouco acesso ao serviço público. A plataforma identifica, por meio de uma série de exames, o risco de uma pessoa vir a sofrer de doenças graves. Um colombiano desenvolveu um sistema de tratamento de águas que gera uma economia de 70%. Outro jovem, um chileno, idealizou um sistema de avaliação oftalmológica que reduz custos e tempo de espera. “Nosso espaço vital é construir soluções de tecnologia para nossas próprias necessidades”, afirma Moreno.
O presidente do BID insiste que a inovação é um “ecossistema” com três pilares: educação, financiamento e acesso a redes de empreendedores. “Enquanto todo esse ecossistema funcionar, os empreendedores terão mais capacidade de se sobressair”, diz. Ele destaca ainda que o apoio público é um fator importante, mas lembra que também há valores intangíveis: “Entender que o fracasso é um dos instrumentos através do qual se aprende para inovar melhor. Isso é algo que falta em nossa cultura”.

Reportagem de Joan Faus

foto:http://www.nitmantiqueira.org.br/portal/index.php/noticias/265-plano-para-geracao-de-patentes-na-america-latina-e-apresentado-no-mcti

Venezuela encabeça a lista dos mais corruptos da América Latina


A Venezuela lidera mais uma vez a lista dos países vistos como os mais corruptos da América Latina, segundo relatório da Transparência Internacional divulgado na última quarta-feira. O país ficou com 19 pontos numa classificação que vai de 0 (altamente corrupto) a 100 (muito transparente). A Venezuela ocupa o 161º lugar entre os 175 países analisados. O país latino-americano seguinte no ranking é o Paraguai, na 150ª posição, com 24 pontos.
As restrições ao exercício da liberdade de expressão e de participação cidadã – nos meios de comunicação e organismos não governamentais – somam-se a uma cultura de tolerância maior da corrupção, diz Jesús Lizcano, presidente da Transparência Internacional Espanha. “Esses elementos limitam o controle social, num continente que ainda apresenta enormes assimetrias e disparidades.”
Essas desigualdades se refletem, por exemplo, no fato de México e Chile, dois países com “boas leis de transparência”, terem resultados tão diferentes no Índice de Percepção da Corrupção, visto como referência no combate aos delitos econômicos. O México está na 103ª posição no ranking, e o Chile, na 21ª. Chile e Uruguai, empatados na lista, tiveram as melhores notas da América Latina.
“Não são apenas as leis, mas sua aplicação e a estrutura das instituições de cada país”, destaca Lizcano, acrescentando que existe na América Latina uma impressão geral de que o problema da corrupção não é enfrentado com firmeza. A Transparência Internacional não mede a percepção de corrupção política ligada aos partidos, mas a percepção da corrupção ligada às instituições públicas, por meio de uma dezena de estudos comparativos e pesquisas em cada um dos países. “Não o fazemos em Berlim”, esclarece o presidente da organização na Espanha.
Nos países de qualificação pior, a corrupção é encarada com “certa naturalidade” e está “impregnada” na sociedade de maneira sistêmica. Lizcano fala de uma metástase quando se encara como normal que qualquer funcionário – desde professores até juízes e policiais – peça dinheiro aos cidadãos para fazer seu trabalho. Os subornos são parte do dia a dia, ele diz.
Dos 31 países do continente americano analisados, 68% são reprovados em matéria de transparência, tendo recebido menos de 50 pontos. O Canadá lidera a lista, com 81, e o Haiti empata com a Venezuela, com 19. Ainda segundo o relatório, esses dois países foram vistos como os mais corruptos da América nos últimos nove anos.
A lista dos reprovados continua com Cuba (46 pontos), Brasil (43), El Salvador (39), Peru (38), Colômbia e Panamá (37), Bolívia e México (35) e Argentina (34). Estão muito distantes dos países que lideram o índice: Dinamarca (92), Nova Zelândia (91) e Finlândia (89). A Espanha recebeu 60 pontos, e as piores qualificações de todas foram da Somália e da Coreia do Norte (8 pontos).
A Transparência Internacional observa “graves problemas” de corrupção e lavagem de dinheiro nos países conhecidos como os Brics, entre os quais o Brasil. “Este ano veio à tona que uma das principais empresas petrolíferas teria usado sociedades secretas para subornar políticos no Brasil.” Por regiões, a Europa ocidental registra uma média de 66 pontos, seguida pela América, com 45.

Reportagem de Alejandra Torres

foto:http://www.candeia.jor.br/patrimonialismo-corrupcao-e-tao-necessaria-reforma-politica-2/

Conheça a nova placa unificada do Mercosul


O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) divulgou ontem (4) o novo modelo de placas (foto acima) que será usado no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela a partir de janeiro de 2016. A resolução foi publicada no Diário Oficial da União. Segundo o órgão, a licença terá sempre quatro letras e três números, com distribuição aleatória. Dessa forma serão possíveis mais de 450 milhões de combinações.  
De acordo com o Denatran, a placa terá as mesmas medidas das utilizadas no Brasil: 40 cm de comprimento por 13 cm de largura. Em termos de cores, será branca com letras pretas, com um emblema do Mercosul e a bandeira do país onde o veículo é registrado. Já a identificação do estado e do município do automóvel, no caso do Brasil, vão ficar no lado direito, abaixo da bandeira nacional. 
Segundo o coordenador do Denatran, Rone Barbosa, "as novas placas permitirão um controle mais rigoroso do transporte de cargas, de passageiros e também de carros particulares entre os países do Mercosul, que adotaram o padrão de identificação dos veículos". Atualmente, a frota circulante no bloco comercial é de cerca de 110 milhões de carros.



04/12/2014

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"Não discutir impostos sobre riqueza é loucura"

O economista francês Thomas Piketty defende o aumento dos tributos sobre heranças e fortunas e afirma que a fatia de riqueza dos 10% mais ricos está sendo subestimada.



No Brasil, a simples menção a um aumento nos impostos é garantia de turbulência para o governo. No caso do tributo sobre grandes fortunas, previsto na Constituição Federal e jamais aplicado, o tema só foi lembrado nas eleições deste ano por partidos de esquerda como PSOL e PSTU. Durante a campanha, Dilma Rousseff nem ousou pisar no terreno espinhoso. Nos países desenvolvidos, cujas fortunas chegam a superar em seis vezes a renda nacional, a criação de taxas para limitar os ganhos de capital já começou. Em 2012, a França aprovou uma alíquota de 75% sobre as maiores riquezas do país.
Não à toa, trata-se da terra natal de Thomas Piketty, economista alçado ao status de celebridade após entrar para a lista dos autores mais vendidos do New York Times por seu livro O Capital No Século XXI, lançado no Brasil pela editora Intrínseca. O sucesso explica-se não apenas pela densidade de sua base de dados, responsável por atestar o grande aumento da desigualdade de renda nos países ricos do Ocidente a partir da década de 1970. O livro inspira-se na tradição historiográfica francesa ao enxergar política, economia e cultura como dimensões integradas, e as relaciona com notável erudição. Por esse motivo, Piketty se vê mais como um cientista social e menos como um economista.
De passagem pelo Brasil, o pesquisador concedeu uma entrevista a CartaCapital. Simpático, fez questão de reiterar inúmeras vezes a necessidade dos países adotarem impostos mais onerosos às grandes fortunas para impedir a acumulação crescente dos 10% mais ricos no planeta. "A limitação da concentração é a saída para fazer da propriedade privada algo temporário", diz.  "É como dizer: 'Você é o dono, mas não para sempre. Se você continuar investindo e trabalhando, poderá manter essa propriedade. Se mantiver seu capital parado, iremos distribuí-lo.".
Afinado com a realidade política e econômica brasileira, Piketty defende o aumento de impostos sobre as heranças no País, até 10 vezes inferiores aos da Alemanha e dos Estados Unidos, e critica o grande volume de tributos indiretos, a alta taxa de juros e a falta de transparência nos dados da Receita Federal para grandes fortunas. Sobre programas como o Bolsa-Família, defende sua importância na redução da pobreza, mas considera ainda mais relevante a política de valorização do salário mínimo. A dificuldade em debater o aumento dos impostos sobre riqueza e patrimônio no país o surpreende. "Não discuti-los no Brasil é uma loucura. Todos os países têm impostos sobre herança muito superiores ao brasileiro. Você não precisa ser de esquerda para defender essa medida. Por acaso Angela Merkel ou David Cameron são de esquerda?"
CartaCapitalProfessor, um dos aspectos mais interessantes de seu livro é o diálogo apresentado entre a economia e as outras humanidades, em especial a história. Há uma forte base da história social de Fernand Braudel e Geroges Duby em seu trabalho. Trata-se de uma abordagem rara atualmente. Por que é tão difícil encontrar estudos econômicos interdisciplinares no contexto atual?
Thomas Piketty: Eu estou muito feliz que você diga isso, pois eu gostaria que meu trabalho se situasse na tradição de Braudel e outros historiadores franceses. Em 1995, deixei o MIT, nos Estados Unidos, para retornar à França, e fui para a Ecóle de Hautes Etudes en Ciencies Sociales, onde Braudel era o presidente, havia grandes historiadores, sociólogos como Pierre Bourdieu. Mas também fui influenciado por economistas anglo-saxônicos como Simon Kuznets, que foi um dos pioneiros na coleta de dados sobre distribuição. Eu tento combinar essas duas tradições. As fronteiras entre economia, história e sociologia são tênues demais. A divisão é bem menos clara do que os economistas imaginar ser. Me vejo mais como um cientista social.
CC: Seu livro mostra como as duas guerras mundiais e suas consequências econômicas proporcionaram uma forte distribuição de renda. Todavia, em momentos de maior harmonia comercial e econômica entre as potências, como ocorreu na Belle Époque do fim do Século XIX e está ocorrendo atualmente, a riqueza acumulada pode superar e muito a renda nacional. Karl Marx não estava certo sobre o acúmulo infinito de capital ao menos em momentos de paz?
TP: Acho que ele estava um pouco certo, mas também errado em alguns pontos. No tempo em que ele escreveu, havia uma grande acumulação de capital e toda a nossa base de dados indica uma longa estagnação dos salários no Reino Unido e na França, entre 1800 e 1870, mesmo com a revolução industrial. Por isso, foi uma observação tão forte. Mas vejo erros em alguns pontos. A sua primeira limitação é o que ocorreria após a abolição da propriedade privada. Os países que o fizeram não foram capazes de organizar a sociedade e o Estado, foi um grande desastre. É fácil perceber o tamanho da acumulação de capital excessiva, mas é difícil pensar nas boas e democráticas soluções para limitar o poder do capital, entre elas o estabelecimento de impostos progressivos.
Não é por conta do desastre das experiências socialistas que precisamos parar de pensar nisso. A limitação da concentração da riqueza é uma saída para fazer da propriedade privada algo temporário. É como dizer "você é o dono, mas não para sempre. Os impostos vão tirar parte de sua propriedade ao longo do caminho. Se continuar a investir e trabalhar, poderá manter essa propriedade, mas se mantiver seu capital parado, iremos distribuí-lo".
CC: No Brasil, a discussão do imposto sobre grandes fortunas é vista por muitos como uma agenda radical da esquerda. Na campanha eleitoral, Um dos únicos partidos a tocar abertamente no assunto foi o PSOL, cuja representação no Congresso é tímida. O senhor considera a proposta de esquerda?
TP: O Brasil poderia ter um sistema de imposto mais progressivo. O sistema é bastante regressivo, com altas taxas sobre o consumo para amplos setores da sociedade, enquanto os impostos diretos são relativamente pequenos. As taxas para as maiores rendas é de pouco mais de 30%, é tímido para os padrões internacionais. Países capitalistas taxam as principais rendas em 50% ou mais. Os impostos sobre herança e transmissão de capital são extremamente reduzidos, apenas 4%. Nos Estados Unidos é 40%, na Alemanha é 40%. Não discutir a cobrança de impostos sobre a riqueza no Brasil é uma loucura. É tudo muito ideológico. Todos os países têm imposto sobre herança muito superiores ao brasileiro. Você não precisa ser de esquerda para defender essa medida.  Por acaso Angela Merkel ou David Cameron são de esquerda?
O Brasil precisa de um sistema mais progressivo de impostos. Deveria haver uma redução de impostos indiretos. O PT poderia ir nessa direção, é uma forma de ter um sistema mais transparente e trazer mais confiança para o governo. Eu entendo que o PT está buscando um novo projeto para este mandato. Uma grande reforma tributária seria importante.
CC: O caso francês é uma referência?
TP: O imposto sobre a fortuna é uma evolução importante. O problema na França e na Europa é que só agora estamos mudando para um transmissão automática de informação entre os países sobre ativos financeiros transnacionais. Até agora, se você tinha uma conta bancária na Suíça, a receita francesa não possuía a informação. É muito difícil controlar a cobrança de impostos em um continente com tamanha integração econômica e fluxos livres de capital. É necessário mais cooperação, e acho que vamos seguir nesta direção.
CC: No debate da USP, na quarta 26, o senhor discutiu suas ideias com André Lara Resende, ex-presidente do BNDES no governo Fernando Henrique Cardoso, e Paulo Guedes, um dos fundadores do instituto Millenium, dois economistas de posição neoliberal e contra impostos sobre a riqueza. É um tipo de reação comum que o senhor tem testemunhado?
TP: Sempre há grupos de pessoas com diferentes reações. Muitas pessoas no Ocidente querem adiar o imposto sobre a riqueza. Eu entendo que os dois economistas com quem debati são também homens de negócios, talvez não economistas bilionários, mas eles querem adiar o máximo possível. Eles são a favor de um aumento dos impostos sobre herança, o que já é algo. O que me surpreende é ter conhecido muita gente a favor do imposto sobre herança, mas não ver ações concretas neste sentido.
CC: O senhor também comentou no debate sobre suas dificuldades em acessar os dados anuais consolidados da Receita Federal no Brasil, principal fonte de sua pesquisa em 20 países. Quais são os maiores entraves?
TP: Quando há apenas o sistema de pesquisas domiciliares para se medir a distribuição de renda, você tende a subestimar a desigualdade. Os 10% mais ricos em particular não são bem registrados em pesquisas com famílias. Na maior parte dos países, quando há imposto de renda, os governos publicam balanços anuais detalhados. No Brasil, o governo não está publicando estas informações de forma transparente. Fomos capazes de encontrar os balanços de imposto de renda entre 1963 e 1999. A partir desse ano a base parece ter desaparecido. Recentemente, algum acesso foi dado a um grupo de economistas brasileiros, do professor Marcelo Medeiros, da UnB, relativo ao período de 2006 a 2012. O fim da publicação da base de dados em papel pode ter contribuído para isso. Muitas vezes há mais restrição para acessar os dados informatizados.
Em termos gerais, há uma falta de transparência na base de dados do imposto de renda no Brasil. As conclusões preliminares de Medeiros mostram um nível de desigualdade bem maior do que aquele aferido pelas pesquisas domiciliares. Ao tomar como referencia os dados da receita entre 2006 e 2012, houve inclusive um aumento na concentração dos 10% mais ricos, que saltou de 50% para 55% da renda total.
CC: Embora não seja tanto o foco da sua pesquisa, como o senhor vê os programas de transferência de renda no Brasil como o Bolsa Família?
TP: Olho bastante para base a pirâmide. Me preocupo muito no livro com os 50% mais pobres. O Bolsa Família tem sido um imenso sucesso, o que contribui para a redução da extrema pobreza e o aumento da renda dos mais pobres. A parte dos impostos tem peso em meu livro, mas a transferência também. No caso brasileiro, mais importante ainda é a política de valorização do salário mínimo. Isso foi muito positivo. Quaisquer que sejam os dados, a diminuição da miséria no Brasil é um fato, pelas políticas introduzidas pelo PT. Mas é possível ainda que os 10% mais ricos tenham ampliado sua distância. Pode ser ter ao mesmo tempo uma diminuição da pobreza e um aumento da desigualdade. É um erro imaginar que o Brasil já fez o suficiente em termos de redução da pobreza.
CC: O Brasil tem uma taxa de juros alta, superior a 11%. Quais os riscos desse alto patamar para o futuro da distribuição de riqueza no País?
TP: Há limites com o que você pode fazer com política monetária. Precisamos de mais políticas e reformas fiscais. Inflação pode ser importante em alguns casos para distribuir renda, mas muitas vezes não têm funcionado. O Brasil paga muito mais em juros do que está colocando no Bolsa Família. Se você realmente quer distribuir riqueza e limitar o acúmulo e concentração de capital, é necessário um sistema mais progressivo. Para mim, os impostos progressivos sobre riquezas privadas são uma forma civilizada de inflação. A inflação geralmente pune cidadãos com pouco dinheiro em suas contas bancarias.
CC: Qual a sua visão sobre o sistema de Bretton Woods hoje e qual o potencial do banco dos Brics, recém-criado?
TP: Precisamos de um sistema multipolar e faz sentido uma instituição coordenada pelos Brics. Também acredito que esse sistema deveria envolver uma Europa mais forte e o fortalecimento do Euro. Não é bom ter apenas dois países hegemônicos. O poder do dólar é bom para os Estados Unidos, mas não para o resto do mundo. Especialmente pelo sistema legal por trás do dólar. Recentemente, a Argentina teve de pagar uma dívida bilionária da noite para o dia. Na França, o maior banco, o BNP Paribas, foi subitamente acionado a pagar uma multa enorme pelo sistema judicial norte-americano. Isso é errado. Nós todos nos beneficiaríamos de um sistema multipolar, com alternativas. Se você não está feliz com o dólar e o sistema jurídico por trás da moeda, você deve poder recorrer a outros sistemas.

Reportagem de Miguel Martins
fonte:http://www.cartacapital.com.br/economia/thomas-piketty-nao-discutir-impostos-sobre-riqueza-no-brasil-e-loucura-7525.html
foto:http://karaminholas.zip.net/arch2013-04-01_2013-04-30.html

'Amigos que odiamos' estressam mais que inimigos, diz estudo

Uma pesquisa feita por psicólogos nos Estados Unidos revelou que as "relações ambivalentes" – amigos com quem costumamos ter uma relação de amor e ódio – podem ter um efeito mais nocivo na nossa saúde do que nossos inimigos.
Na língua inglesa existe até mesmo um termo para descrever esse tipo de pessoa: "frenemy" – uma combinação das palavras "friend" ("amigo") e "enemy" ("inimigo").
Segundo a psicóloga Julianne Holt-Lunstat, da Bringham Young University do Estado americano de Utah, metade das pessoas que conhecemos, em média, são pessoas com quem mantemos esse tipo de relação.
"É raro encontrar alguém que não possui pelo menos uma dessas relações", diz Holt-Lunstad.

Amizade e saúde

As relações que mantemos são importantes para nossa saúde. Cerca de 150 estudos diferentes analisados pela psicóloga mostraram que relações sociais saudáveis podem reduzir o risco de morte pela metade – o mesmo índice registrado por pessoas que param de fumar. Ser solitátio é quase duas vezes mais perigoso que ser obeso.
Amigos ajudam a reduzir os níveis de estresse, reduzindo a pressão sanguínea e riscos de infecção. Alguns males como distúrbios de sono estão ligados à falta de amizades.
Mas as amizades possuem diferentes graus. O famoso antropólogo Robin Dunbar, da universidade de Oxford, chegou a propor o "número de Dunbar": ele sustenta que cada pessoa só é capaz de manter 150 amizades com alguma profundidade.
"[Em suas relações com os outros] você está sempre lidando com vários interesses que concorrem entre si. O problema é neutralizar os estresses para permitir que o seu grupo social se mantenha coerente ao longo do tempo", diz Dunbar.
"Então é preciso agradar seus aliados, o que pode incluir alguns 'frenemies'. Você os tolera para conseguir administrar melhor os seus interesses."

Pesquisas

Mas estudos conduzidos em Utah mostram que tentar administrar relações com pessoas que "amamos e odiamos" pode trazer mais malefícios do que se pensa.
Em uma das pesquisas, cientistas mediram a pressão sanguínea de voluntários quando em contato com seus amigos. Como seria de prever, os amigos mais amados produziram pressões sanguíneas baixas nos voluntários; colegas de trabalho irritantes ou chefes ruins fizeram a pressão subir.
Mas a surpresa foi descobrir que a pressão atingiu seu ponto mais alto diante de um certo grupo de amigos – justamente os "frenemies".
Outras pesquisas posteriores confirmaram e ampliaram estes resultados.
"Mesmo quando a pessoa em questão está no quarto ao lado, a pressão aumenta, com maiores níveis de ansiedade. Só por causa da sensação de logo ter que lidar com a pessoa", diz Holt-Lunstad. Em alguns casos, bastava mostrar o nome da pessoa em uma tela para que o batimento cardíaco subisse.
O problema, segundo os cientistas, é que esses amigos de amor e ódio têm um impacto muito grande na vida das pessoas. Pequenos sinais do cotidiano que desencadeiem memórias deles são suficientes para castigar o corpo com sensações ruins.
Para Hold-Lunstad, é a falta de constância na relação que gera estresse.
"Há sempre uma incerteza [quando encontramos um 'frenemy']. Será que a pessoa veio para me ajudar ou para falar novamente de algo desagradável?"
O psicólogo Bert Uchino, que trabalhou na mesma pesquisa, diz que "frenemies" têm um impacto mais nocivo no nosso comportamento porque são pessoas que costumamos levar a sério e com quem nos importamos. Segundo ele, comentários maldosos feitos por inimigos nossos são mais fáceis de serem ignorados, já que não consideramos muito a opinião de quem não gostamos.
"Temos tendência a ficar ruminando conversas dolorosas [que tivemos com nossos 'frenemies'] por mais tempo", diz Uchino.

Estratégias

Por ora, todas as pesquisas feitas analisam apenas períodos curtos, mas os cientistas querem entender o efeito de longo prazo dessas relações na nossa saúde. Uchino está estudando o impacto das amizades no DNA para determinar se há consequências mais graves para a saúde, como a incidência de câncer.
O desafio para a maior parte das pessoas, segundo os psicólogos, é romper as relações com os "frenemies", já que muitos deles são amigos de longa data. Há também uma sensação de que se deve ter "grandeza" e manter relações mesmo com pessoas que não amamos totalmente.
Uchino conta que, pessoalmente, estuda duas estratégias para lidar com seus "amigos que odeia". Uma delas é expor mais os pontos de conflito na relação, na tentativa de reduzir a sensação de ambiguidade e incerteza. A outra é meditar sobre o papel de cada amigo na sua vida, o que segundo alguns estudos pode ajudar a reduzir o estresse nas relações.
No entanto, ele diz que esses estudos ainda não são cientificamente robustos o suficiente para serem levados a sério.

Reportagem de David Robson
fonte:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/12/141201_vert_fut_frenemies_dg#orb-banner
foto:http://www.theprospect.net/5-steps-for-making-up-after-a-fight-21630

A obra sem fim para levar água ao sertão nordestino brasileiro

Com sete anos de atraso, as águas da transposição do rio São Francisco começam a correr em Pernambuco. As famílias, no entanto, ainda não sabem quando nem como serão beneficiadas.

A agricultora Lindomar Ferraz Silva, de 65 anos, aponta para uma mangueira solitária quase sem folhas num descampado da zona rural de Floresta, cidade do sertão pernambucano onde nasce um dos eixos da transposição do rio São Francisco. No local ficava sua casa, que não existe mais. “A mangueira foi deixada ali, de recordação”, conta.
O terreno de Lindomar, cuja área equivale a dois parques Ibirapuera e meio, começou a se transformar em 2007. A vegetação rala e cinzenta da caatinga foi tomada por um canal de concreto que terá 477 quilômetros de extensão, feito para levar a água de um dos principais rios do país para onde as pessoas não têm, sequer, o que beber, em 390 municípios dos Estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.
Sete anos depois dos primeiros sinais da bilionária obra, e quatro anos mais tarde do que o previsto, a aposentada conseguiu, finalmente, ver um tantinho de rio passar em seu quintal. É ali que fica o reservatório Areias, o primeiro a se encher d’água, no último mês de outubro, quando os primeiros testes da transposiçãocomeçaram.
No final da tarde de 13 de novembro, ela observava sua criação de cabras descer pelo concreto do canal para saciar a sede. Naquela manhã, ela própria havia enchido alguns baldes no reservatório, para usar em suas “coisinhas” de casa. Mas Lindomar ainda não sabe quando, nem como, passará a receber uma parte do rio pelas torneiras de sua nova casa, construída ao lado do canal e da represa, com o dinheiro pago como indenização pela passagem da obra.
Uma das principais obras hídricas do Governo federal nos últimos anos, a transposição do rio São Francisco tem seguido a passos lentos. Prometida, inicialmente, para 2010, ela teve seu prazo estendido pelo próprio presidente Lula (PT)em dezembro daquele mesmo ano. Na ocasião, em visita à região, ele afirmou: “Estou percebendo que a obra vai ser inaugurada, definitivamente, em 2012, a não ser que aconteça um dilúvio.” Mas, mesmo em meio a maior seca já ocorrida na região nos últimos 50 anos, a entrega atrasou novamente. Agora, está programada para dezembro de 2015 e o Governo garante que, desta vez, não haverá nova prorrogação. “Estamos completando a meta piloto no Eixo Leste conforme o cronograma”, comemorou o secretário-executivo do Ministério da Integração, Irani Ramos, em um vídeo gravado pelo Governo após o início da passagem da água neste final de outubro.
Mas, a um ano de vencer a nova promessa, tudo indica que a construção não estará pronta a tempo mais uma vez. Ainda resta 32% da obra por fazer. Das seis metas de trabalho do projeto, divididas ao longo de dois Eixos (Leste e Norte), apenas uma está próxima do fim. Justamente a mais curta: a que compõe os 16 quilômetros de canal entre o reservatório de Itaparica, onde a água do São Francisco é captada, até o de Areias, no terreno de Lindomar. Todas as outras cinco têm menos de 75% da construção finalizada- uma tem só 30%.
O EL PAÍS percorreu por quatro dias uma parte da obra, e viu um enorme retalho de concreto com trechos prontos e outros onde a construção mal começou. Poucos pedaços já estão interligados.
Há casos como o da área que cruza o assentamento Serra Negra, localizado dentro da segunda meta do Eixo Leste. Apesar de o Governo considerar que 71% dessa meta já está feita, na área do assentamento o canal ainda está sendo escavado. A construção no terreno, reivindicado pela comunidade indígena Pipipan, enfrentou diversos protestos até que se chegasse a um acordo. Os sem-terra de Serra Negra também só concordavam com o início da construção do canal quando o posto de saúde e as quatro casas que teriam que ser demolidas fossem reconstruídas em outro local. Na segunda semana de novembro, centenas de operários corriam em meio a dezenas de caminhões e de tratores, trabalhando, inclusive, durante as noites.
A imagem contrastava com o que se via em outra área, a poucos quilômetros de distância, onde ficará a barragem de Cacimba Nova, também em Pernambuco. A construção ali estava adiantada, mas há alguns meses foi abandonada. Os sinais estavam no local: placas viradas, um buraco de terra revirado e árvores crescendo em meio ao concreto do canal. Só as cabras dos agricultores circulam por ali. “A obra foi parando aos poucos, mas há uns dois meses os operários foram embora”, diz Mauriceli Bevenuto da Silva, de 35 anos.
A família dele, que mora perto do local, depende da água enviada pelo Exército em caminhões-pipa. Na vila de cinco casas, só uma das cisternas é abastecida por essa água gratuita. “A gente divide. Dá para poucos dias. Depois tem que pegar o carro de boi e buscar água num poço.” Eles também compram. Um tambor de 200 litros, para 15 dias, custa 20 reais. Não se sabe a procedência dessa água.
O Ministério da Integração diz que o atual prazo de conclusão das obras é o “compatível com a complexidade do empreendimento, sobretudo se comparado a outras experiências de transposição de águas pelo mundo”. Diz que, em 2011, estabeleceu um novo modelo de licitação, contratação e acompanhamento das seis metas da obra. A construção, picotada entre várias empreiteiras, enfrentou problemas devido a um projeto básico mal feito. No Ceará, por exemplo, ele indicava que o túnel Cuncas I, visitado por Lula naquele dezembro de 2010, deveria ser construído num terreno arenoso. A estrutura desabou quatro meses após a passagem do então presidente e foi refeita ao lado, onde o solo tinha mais qualidade.
Situações como essa deixaram a obra 82% mais cara: um salto de 4,5 bilhões de reais para 8,2 bilhões. Também levaram desesperança a milhares de famílias, que sonham com a solução, que é planejada desde o século 19. E geraram inúmeras desconfianças. Há aqueles, como o padre Sebastião Gonçalves da Silva, destacado pela igreja para acompanhar os afetados pela obra, que acreditam que apenas o agronegócio lucrará com a grandiosa estrutura. Já o Governo federal garante que a água será destinada também aos pequenos agricultores.
Enquanto as águas do velho Chico não chegam, definitivamente, para as 12 milhões de pessoas no caminho da obra, a agricultora Lindomar já sabe o que fazer com o trechinho de rio que cruza o seu pedaço de sertão: “Vou comprar uma bomba pequena, dessas à gasolina, e puxar a água do reservatório direto para a minha caixa d’água.”

Reportagem de Talita Bedinelli
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/01/politica/1417445133_310596.html
foto:http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/tag/transposicao-do-rio-sao-francisco/

Congresso aceita chantagem e libera manobra fiscal

Texto principal da medida foi aprovado após 18 horas de sessão. Análise da última emenda ao projeto, no entanto, impediu que votação fosse concluída.



O Congresso Nacional aprovou na madrugada desta quinta-feira a manobra fiscal do governo para maquiar o descumprimento da meta do superávit primário. Depois de 18 horas de uma sessão conturbada, o texto principal do Projeto de Lei do Congresso (PLN) 36/2014, que altera a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), recebeu o aval dos parlamentares – que, com isso, receberão ao todo 444 milhões de reais em emendas. Na Câmara, o placar foi de 240 votos a favor, 60 contra e 9 abstenções. No Senado, o texto obteve 39 votos a favor e 1 contra.

O efeito prático da medida é a redução da meta de superávit para 2014: de 116,1 bilhões para 49,1 bilhões de reais. A meta de superávit é a economia feita pelo governo para o pagamento dos juros da dívida. Diante do aumento dos gastos públicos em 2014, sem que houvesse também a elevação da arrecadação, o governo se encontrava em uma encruzilhada: se não mudasse a LDO, não conseguiria fechar as contas.
Emenda – A votação, entretanto, ainda não foi encerrada. Faltou quórum para a análise da última emenda ao texto: de autoria do PSDB, a proposta altera o projeto e inclui uma limitação nas despesas discricionárias, de forma que o governo só possa gastar o mesmo montante executado no orçamento do ano anterior. Às 4h57, o presidente Renan Calheiros encerrou os trabalhos. Com isso, a redação final do PLN 36 não foi aprovada e a votação terá de ser concluída na próxima terça, em sessão marcada para o meio-dia. São nulas, entretanto, as chances de a emenda do PSDB ser aprovada. 
Maratona – Por meio da apresentação de emendas, de questões de ordem e de pedidos de verificação de quórum, os parlamentares da oposição conseguiram prolongar os trabalhos até a madrugada. Com isso, o plenário foi se esvaziando. Por volta de 1h30 da madrugada, o líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), pedia aos líderes aliados que telefonassem aos parlamentares ausentes para pedir a presença deles em plenário. Na última votação nominal, perto das 4 horas, o quórum entre os senadores foi de 41, exatamente o mínimo necessário para impedir a derrubada da sessão.

A sessão do Congresso teve início pouco depois das 10h de quarta. Antes de apreciar o texto, era preciso analisar dois vetos presidenciais e um projeto que concede crédito adicional a aposentados do Instituto Aerus de Seguridade Social. Foi o que os parlamentares fizeram em meio a longas e extenuantes sessões. Enquanto isso, as galerias estavam vazias porque o presidente Renan Calheiros (PMDB-AL) ordenou que a segurança barrasse qualquer manifestante.

Os governistas repetiam a tese de que o PLN 36 era importante para reorganizar as finanças públicas. E acusavam a oposição de oportunismo: "Tem setores da oposição flertando com o golpismo. Estão se vestindo da roupagem da velha política golpista da UDN", disse o senador Lindbergh Farias (PT-RJ). Em resposta, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) lembrou o passado de cara-pintada do petista e respondeu chamando Lindbergh de "chapa-branca".

Antes, o tucano já havia afirmado que o governo estabeleceu um preço para cada parlamentar: 748.000 reais, o valor que será liberado a cada um agora que a manobra foi aprovada. Mesmo integrantes de partidos aliados se queixaram da chantagem. "Estamos tornando o mais explícito possível o escambo, o troca-troca, o toma-lá-dá-cá que a República vivenciou nos últimos anos", disse o deputado Esperidião Amim (PP-SC).

O líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), disse que a maioria dos parlamentares agiu como cúmplices. "Os senhores vão pagar caro por esse voto desastroso para a economia do Brasil. As consequências serão dramáticas", disse ele.

Dilma – A aprovação da manobra é essencial para que a presidente escape de um possível processo por crime de responsabilidade. No esforço para obter ajuda do Congresso, Dilma se reuniu com líderes da base aliada na segunda e pediu o apoio deles na votação. No mesmo dia, veio à tona um decreto em que ela libera 748.000 reais em emendas parlamentares para cada deputado e senador. Com uma condição: desde que o PLN 36 seja aprovado. Por oficializar o balcão de negócios, a proposta constrangeu os aliados e teve o efeito contrário em alguns casos: deputados e senadores temiam que, dando uma vitória fácil ao governo logo após a chantagem, estariam admitindo que têm um preço.

O texto chegou ao Congresso no dia 11 de novembro e tramitou sob fortes críticas da oposição. O debate sobre o PLN elevou a tensão no Congresso. Na terça, a votação não teve início por causa de um tumulto na galeria do plenário. Um grupo de pessoas que estava no local passou a protestar. Um dos gritos "Vai para Cuba" foi ouvido como "vagabunda" pela deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que pediu a Renan que liberasse as galerias. Os agentes da Polícia Legislativa chegaram a usar uma arma de choques elétricos. Após uma hora com a sessão parada, Renan Calheiros encerrou os trabalhos, que foram retomados na manhã da última quarta.


Reportagem de Gabriel Castro
fonte:http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/congresso-aceita-chantagem-e-libera-manobra-orcamentaria
foto:http://www.implicante.org/noticias/governo-amplia-verba-de-congressista-em-troca-de-aprovacao-de-manobra-fiscal/