02/02/2014

Conheça as profissões 'mais ameaçadas' pela tecnologia


Cargos nas áreas de educação, saúde, arte, mídia, gestão, negócios e finanças são os que têm maior probabilidade de sobreviver aos avanços na tecnologia, aponta estudo da Universidade de Oxford.
A crescente informatização, porém, continuará a eliminar profissões, principalmente aquelas que não exigem habilidades criativas, sociais e percepção espacial mais sofisticada. São atividades em áreas como vendas, produção industrial, suporte administrativo, transporte e construção civil.
Os pesquisadores Carl Benedikt Frey, do Departamento de Filosofia, e Michael A. Osborne, do Departamento de Engenharia, analisaram 702 profissões - retiradas de uma classificação americana - segundo a probabilidade de perdas de postos de trabalho devido aos avanços tecnológicos.
Aplicando fórmulas estatísticas, eles deram notas entre 0 e 1 para essas profissões - quanto maior a classificação, maior o risco de desaparecimento.
A fórmula aplicada levou em conta o quanto essas atividades demandam criatividade, interação social, percepção espacial e atividades manuais complexas.
São habilidades que ainda não foram incorporadas por computadores e talvez nunca sejam. O atual estágio tecnológico não indica que isso seja possível nas próximas duas décadas, observam os pesquisadores.
"Profissões que exigem habilidades criativas e sociais estão imunes à informatização", disse Osborne, em entrevista à BBC Brasil.
O artigo que apresenta a pesquisa explica que a criatividade depende de valores humanos que variam muito no tempo e em diferentes culturas, o que torna difícil reproduzi-los em uma máquina.

Avanço das máquinas

Já as habilidades sociais que não podem, ao menos por enquanto, ser informatizadas incluem a capacidade de perceber a reação das pessoas e entender suas causas, de negociar, reconciliar e persuadir, e de cuidar dos outros, dando suporte emocional e médico.
A limitação atual de computadores e robôs de lidar com formas e espaços não padronizados reduz também as possibilidades de substituição de algumas funções, notam os pesquisadores.
Outros avanços tecnológicos, porém, têm permitido substituir mais atividades humanas por máquinas, detalha o estudo. Antes, a mecanização estava restrita a atividades manuais mais padronizadas. O desenvolvimento de sensores cada vez mais modernos e o aumento da capacidade de armazenamento e processamento de dados estão permitindo, no entanto, que mesmo atividades menos "ensaiadas" possam ser executadas por máquinas.
É o caso por exemplo do carro autônomo desenvolvido pelo Google, que é conduzido por seu próprio sistema, prescindindo do motorista.
Esses avanços tecnológicos também vêm permitindo mecanizar atividades cognitivas, notam os pesquisadores. Oncologistas do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, já usam tecnologia da IBM para fazer diagnósticos.
Escritórios de advocacia também usam softwares para fazer pesquisas em leis e decisões judiciais antes dos julgamentos, o que reduz a necessidade de pessoal, embora não ponha em risco a existência da profissão que exige, por exemplo, a capacidade de persuadir.

Mais qualificação

Os trabalhos mais ameaçados com a contínua evolução tecnológica são trabalhos de baixa qualificação. Entre eles estão o telemarketing, caixas, e corretores de imóveis. No caso da construção civil, por exemplo, os pesquisadores de Oxford acreditam que o aumento do uso de partes pré-fabricadas vai eliminar algumas etapas do processo.
O principal desafio para evitar o aumento do desemprego com a perda dessas vagas, portanto, é o investimento na educação para desenvolver as habilidades criativas e sociais das pessoas, diz Osborne.
O estudo se baseou em 702 profissões categorizadas pelo Departamento de Trabalho dos Estados Unidos. Embora os pesquisadores não calculem quantos postos devem ser fechados, eles estimam que haja risco elevado de perda de vagas em 47% das atividades americanas nas próximas duas décadas.
Para Osborne, essa é uma tendência mundial, mas que deve ser mais lenta nos países pobres, onde a mão de obra é mais barata e há menos recursos para investimentos em informatização.

fonte:http://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2014/01/31/conheca-as-profissoes-mais-ameacadas-pela-tecnologia.htm
foto:http://www.endeavor.org.br/artigos/operacoes/tecnologia/8-fontes-de-inspiracao-para-negocios-em-tecnologia

O trote, um ritual bárbaro ainda vigente nas universidades do Brasil

No dia 28 de março do ano passado, Alexandre Coutinho, que estreara havia pouco como aluno de exatas da USP, voltava para seu quarto no alojamento de estudantes do campus de São Carlos, no interior de São Paulo. No caminho foi abordado por um grupo de veteranos que, empolgados com uma festa, quiseram ‘brincar’ com o calouro. Eram oito. Encurralaram Alexandre em um canto, tiraram as calças dele e se esfregaram pelados contra seu corpo, o tocaram e o humilharam, conforme o relato do rapaz de 23 anos.
Naquele dia, ele começou uma peregrinação de escritório em escritório da faculdade. "Quando ninguém me ouviu fui na delegacia e me falaram que o crime mais perto daquilo que ocorreu era estupro. Na mesma noite vazaram para a imprensa o Boletim de Ocorrência", explica o jovem. Alexandre decidiu abandonar as aulas um mês depois. "Estudar na USP era meu sonho, meus pais são apenas alfabetizados", diz. "A partir da denúncia vieram as represálias. Eles amenizaram a história, falaram que estavam bêbados, que só foi uma brincadeira. Mas essa foi a versão que deram para a polícia, na faculdade era outra coisa. Comecei a sofrer depressão e iniciei tratamento psiquiátrico".
Na noite de 28 de agosto, exatos cinco meses depois, Alexandre pegou um revólver que tinha comprado por mil reais "para se proteger em casa" e apareceu no alojamento à procura daqueles oito veteranos. Deu uma coronhada em um dos estudantes, que tentou tirar sua arma e disparou várias vezes em diferentes direções. Fugiu por 45 quilômetros em um bicicleta e ficou foragido duas semanas até que se entregou para a polícia. Aquele episódio mudou sua vida, virou um ativista nas redes contra os trotes, está se preparando de novo para o vestibular e responde em liberdade a um processo que pode custar a ele três anos de cadeia. "O que eu fiz não foi correto, acabei fazendo besteira depois de tanta frustração, mas eu tentei fazer tudo dentro da lei e a lei não me apoiou", conta ele.
O caso de Alexandre foi o último a colocar os trotes nas manchetes dos jornais do país. Meses antes, no mesmo campus, 50 simpatizantes da Frente Feminista de São Carlos fizeram uma manifestação contra o Miss Bixete, um concurso no qual os veteranos obrigam as estudantes a desfilar e, entre outras coisas, tirar a camisa, chupar um picolé o dançar até o chão. Ritual que é depois publicado na internet. Os veteranos responderam ao ato hostilizando as meninas enquanto simulavam relações sexuais com bonecas infláveis ou mostravam seus genitais. “Jogaram cerveja, copos e duas bombas em nossa direção. Houve empurrões, tentativa de agressão, assédio às meninas, e um grupo que no final da manifestação perseguiu algumas de nós com pedaços de pau”, conta Monique Amaral, já formada pela UFSCar. Com isso, novas manchetes. “Os rapazes foram reconhecidos e a punição foi o pagamento de algumas cestas básicas. Muitas de nós, no entanto, seguiram todo o ano letivo sendo assediadas e hostilizadas nos corredores da universidade e nas redes sociais”, lembra Amaral.
A poucos dias do início do novo curso, as calouradas, ilegais no papel para a maioria das universidades, já começaram. Os trotes, comuns em muitos países do mundo, são vistos como um ritual de integração, mas no Brasil atingiram níveis de violência não tão comuns. Mesmo assim, uma ampla lista desses abusos continua sem resolução conhecida.
No ano passado, uma aluna da Universidade do Sudoeste da Bahia foi obrigada a chupar os testículos de um boi e acabou no hospital com a boca sangrando. Também no ano passado, na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, um aluno foi amarrado a um poste fantasiado de Hitler, enquanto uma outra menina foi pintada de preto simulando a mítica escrava Chica da Silva. Em 2008, onze calouros foram queimados com uma substância ácida durante um trote na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, em Minas Gerais. Procuradas, as universidades, que tinham condenado publicamente os atos e anunciado sanções, ou não responderam ou não souberam informar qual foi a punição dos responsáveis. Nenhuma conhecida.
A impunidade acabou virando regra.
Já era assim em 1999, quando o estudante de medicina Edison Tsung Chi Hsueh apareceu afogado em uma piscina depois de uma noite intensa de trotes e o STF resolveu o caso assim: “Ainda que fossem veementes todos os depoimentos (e não o são) em afirmar que houve excessos, violência, agressões e abusos no ‘trote’, não se mostram suficientes para sustentar a acusação de homicídio qualificado imputada aos réus, por não existir o menor indício de que o óbito da vítima tenha resultado dessas práticas”. Caso arquivado.
“Eu sofri muito pelos trotes. A minha faculdade estava em uma cidade pequena, Guaratinguetá, onde o sistema de alojamento em repúblicas facilitava bastante o trote”, lembra o já engenheiro Henrique Mendonça, de 30 anos. “No primeiro ano você era tratado pior que um escravo. O clima acaba sendo muito militar. Um dos trotes que eles faziam era Miss B, ali os veteranos das principais repúblicas organizavam um desfile onde os bixos (calouros) desfilam pelados para todo o mundo ver e são julgados por uma equipe de travestis que trazem da cidade. Ao descobrir o que era, eu escapei, mas por ter fugido sofri trotes muito piores. Perdi meu quarto e fiquei dormindo na sala por mais de um mês com todas as minhas coisas, além de ganhar uma lavagem por dia, onde te pegam pelas pernas e botam sua cabeça no vaso sanitário enquanto dão a descarga". As 'aventuras' de Mendonça daquela época também incluem uma noite internado no hospital por um coma alcoólico, após ser obrigado a beber durante horas.
Apesar de ter sido em 2003, Mendonça conta com detalhe cada uma dessas brincadeiras. “Lembro de cada um dos meus trotes. Hoje em dia não tenho contato nenhum com as pessoas da minha faculdade, muito menos com os veteranos da minha república. Com certeza, foi um trauma", disse.
Para as mulheres, mesmo a agressividade sendo menor que com os homens, a conotação é sempre sexual. Monique Amaral, que participou do protesto contra o Miss Bixete em São Carlos, resume assim as experiências que viveu com seus veteranos: “Nós éramos alvos a serem ora caçados e ridicularizados, ora caçados e, se possível, consumidos. Andar na rua livremente era algo vetado pela agressão verbal, que se esforçava para destruir ainda mais a autoestima, e estar nas festas era estarmos disponíveis. Em tom de brincadeira e ritmo de festa, naquele momento eles estavam tentando nos dizer como deveríamos nos comportar e quais espaços poderiam ser cedidos a nós em quais condições".
Uma das professoras do campus de São Carlos explica a reação das suas alunas ao protesto de Amaral e suas amigas. “Não entenderam a causa. Criticavam as meninas e diziam que essas feministas que protestavam contra o Miss Bixete eram as mesmas que mostravam nos peitos na Marcha das Vadias. É difícil porque a normalização dos trotes acaba vindo dos próprios alunos”, relata Rosângela Ferreira.
Para José Roberto Leite, especialista em medicina comportamental, o professor também tem uma grande responsabilidade em uma prática que ele considera doentia. “Integrar o novo indivíduo nesse grupo já constituído é a ideologia por trás do trote. Mas o que acontece é que o líder, que já tem um caráter agressivo, propõe algum absurdo e tudo mundo aceita. E essa agressividade vai evoluindo a cada turma porque quem sofre essa agressão acaba criando um impulso de aplicar essa mesma prática no próximo integrante do grupo”, explica o professor. Leite destaca o clima de impunidade que se vive nas faculdades a respeito dos trotes. “Temos um exagero sem punição nenhuma por parte das instituições. Os próprios professores acham que isso faz parte do ritual de entrada e não avaliam que essas atitudes correspondem, muitas vezes, a uma mente doentia.

Reportagem de María Martín
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/31/sociedad/1391206610_121778.html
foto:http://leandrocustodiopoeta.blogspot.com.br/2011/02/fim-do-trote-e-rodeio-das-gordas-um.html

O drama das pessoas intersexuais

Elas nascem sem genitália definida como feminina ou masculina, mas não formam, necessariamente, um terceiro gênero. Na Alemanha e em outros países, recebem tratamento especial. No Brasil, não há políticas públicas que as atendam.


No início de novembro passado entrou em vigor na Alemanha uma lei que permite registrar recém-nascidos sob a classificação “sexo indefinido”. Ou seja, a opção “masculino” ou “feminino” poderá ficar em branco no documento. Voltada para aqueles que nascem com características físicas que não se enquadram nos padrões médicos “masculino” ou “feminino”, chamados pessoas intersexo, a lei – que, aparentemente, representa uma ampliação dos direitos dessas pessoas – tem sido questionada por militantes da causa. Isso porque traz à tona questões sobre a discriminação e os preconceitos sofridos por pessoas intersexo e, a partir daí, surgem os debates acerca de sua eficácia e dos verdadeiros benefícios que traria para o público ao qual é destinada.
Artigo publicado pelo site BBC Brasil considerou a lei uma vitória: “A Alemanha passa a ser o primeiro país europeu a oficializar o terceiro gênero. Essa mudança é uma opção para pais de bebês hermafroditas, que nascem fisicamente com ambos os sexos”. O site da emissora de rádio alemã Deutsch Welle também saudou a legislação – “Os órgãos públicos alemães passarão a reconhecer legalmente que o sexo de uma pessoa pode ser outro além do masculino ou feminino” –, mas questionou alguns pontos que não teriam sido esclarecidos: “Como será, por exemplo, o futuro passaporte? Em alguns países, a falta de uma definição clara do sexo pode levar a um problema na imigração. Também a questão de se futuramente os intersexuais poderão se casar ou somente firmar uma união civil ainda precisa ser esclarecida”.
Discriminação
Esses e outros problemas foram igualmente apontados por militantes. A Organisation Intersex International Europe (OII Europe), por exemplo, publicou nota em seu site analisando o texto legal na qual evidencia que o caminho para a não discriminação de pessoas intersexo é mais longo do que pode parecer. “Quem determina que uma criança não pode ser definida como sendo nem do sexo masculino nem do feminino? De acordo com a prática atual, apenas a medicina.” Ou seja, como a definição do sexo da criança ainda está nas mãos de médicos, a lei não representaria um avanço – e o que parece uma escolha, na verdade, seria uma determinação, pois o sexo do recém-nascido ainda teria que ser classificado de acordo com padrões binários.
Hailey Kass, tradutora e pesquisadora das áreas de linguística e gênero, reforça a visão da OII Europe. Em texto publicado pelo site revista o Viés, ela afirma que a nova lei “parece ser só aplicável para pessoas intersexo”. “Pessoas não intersexo não poderiam ser designadas fora do binário para no futuro escolherem? Por que só as pessoas intersexo?” Ela menciona outra passagem da nota da organização europeia: “Em vez de permitir que o registro de sexo fique aberto para todos(as), e não apenas para crianças intersexuais, novamente regras especiais são criadas, o que produz exclusão. As condições de vida da maioria das pessoas intersexo não irão melhorar como resultado disso”.
Despois da lei
“Os efeitos dessa lei podem, na prática, apresentar-se em forma de discriminação e estigmatização”, diz Shirley Monteiro de Lima a Retrato do Brasil. Ela é doutoranda da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e trabalha no Centro de Referência da Diversidade (CRD). “Uma diferença que está no corpo e poderia ser manejada pelo círculo familiar e por decisão do indivíduo intersexo, ao tornar-se pública no registro de nascimento, expõe a pessoa a julgamento social, discriminação e pressão por normatização. A lei abre espaço para mais violações de direitos”, conclui.
“Ainda não sabemos ao certo o impacto dessa lei na dinâmica da família e se a criança sofrerá algum tipo de restrição social por não ter o sexo determinado no registro de nascimento”, diz Ana Canguçu-Campinho, psicóloga do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a RB. Ela trabalha desde 2002 com a temática intersexo, acompanhando pessoas nascidas intersexuais e suas famílias. Apesar das dúvidas, Ana enxerga possíveis pontos positivos na mudança. “Até o momento, acho uma alternativa interessante, uma vez que, ao não identificar o sexo no registro, permite-se que o tempo seja usado como um aliado pela própria pessoa intersexual. A criança passa a ser considerada cidadã, ao mesmo tempo em que é dado, ainda que provisoriamente, um tempo para definição do sexo.” Ela esclarece que a “lei de registro não prevê um terceiro gênero, pois no formulário não existe uma nova categoria além do masculino e do feminino. A opção de deixar ‘em branco’ o item implica uma flexibilização na forma de registrar o sexo”.
Poucos países têm leis voltadas exclusivamente para pessoas intersexo. Segundo levantamento publicado pelo site da Deutsch Welle, desde 2010 vigora no Paquistão legislação que reconhece intersexuais como cidadãos, embora não existam dados oficiais sobre o número de pessoas intersexo vivendo no país. Antes disso, as pessoas intersexo não podiam ser registradas – ou seja, não podiam votar ou ter conta em banco, por exemplo. “Com a lei, os intersexuais passaram a ter acesso à educação gratuita, ao sistema público de saúde e a eles é reservada uma cota de 2% dos postos de trabalho em órgãos governamentais.”
Diferente
Na Austrália, os documentos de pessoas intersexo contam com um terceiro campo, ao lado dos de “masculino” e “feminino”, em que é empregado o termo “diferente”. Países como Afeganistão e Nepal também reconhecem pessoas intersexo. Já na Índia existem as Hjiras, pessoas que não são consideradas “nem homem nem mulher” e que possuem um papel social definido: são encarregadas de batizar crianças e abençoar casamentos. Nesse país, “as crianças intersexuais são abandonadas em templos e criadas em uma comunidade específica”, explica Ana.
O tema da intersexualidade, além de complexo, tem sido submetido a interpretações equivocadas. Em 1993, o termo hermafrodita ficou conhecido no Brasil após o sucesso da novela “Renascer”, transmitida pela TV Globo, que contava com a personagem Buba, interpretada pela atriz Maria Luísa Mendonça. Mas o assunto não foi aprofundado e essa passou a ser uma das únicas referências comuns sobre intersexualidade. Hoje, a expressão “hermafroditismo” não é mais usada por pesquisadores, especialistas e militantes, por trazer um conceito equivocado.
Shirley explica, em sua dissertação de mestrado, que o termo hermafrodita é oriundo da mitologia grega, da história de Hermafroditus, um jovem muito bonito, filho de Hermes e Afrodite, que despertou a paixão da bela ninfa Salmacis. Mas Hermafroditus a rejeitou e dizia preferir a morte ao amor de Salmacis. Já a ninfa pediu aos deuses que nunca se separasse dele. Para atender aos dois pedidos, os deuses uniram Salmacis e Hermafroditus em um único ser com dois sexos.
“Pela definição médica, uma pessoa nascida sob a condição de intersexualidade não apresenta sexo cromossômico, genitália externa ou sistema reprodutivo interno dentro do padrão considerado normal para o sexo masculino ou feminino”, diz Shirley. Isto é, não se trata de um homem e de uma mulher em um único corpo, nem de uma pessoa que seja homem e mulher ao mesmo tempo.
Em maio de 2004, o site da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo (ILGA, na sigla em inglês) publicou declaração assinada por Mauro Cabral, ativista argentino intersexual, que afirma que, para a medicina ocidental, os intersexuais são “pessoas com genitália ambígua, indefinida, deformada ou patológica”. Cabral explica que, “para o movimento internacional de pessoas intersexuais e seus aliados, no campo da teoria e dos direitos humanos, intersexuais são aqueles cuja genitália difere dos estereótipos masculino ou feminino, sem que tal variação na aparência genital signifique uma deformação ou uma patologia herdada”. Assim, conclui ele, “intersexualidade é um termo guarda-chuva, descrevendo uma grande variedade de situações em que os genitais de uma pessoa não correspondem aos estereótipos sociais, culturais e políticos atuais”.
Terceiro gênero?
Mas, ao contrário do que muitos acreditam, isso não significa que as pessoas intersexuais se identifiquem, necessariamente, com um “terceiro gênero”. Da mesma forma como no caso de pessoas transexuais, pessoas intersexo podem se identificar como homens ou como mulheres, independentemente de seus órgãos genitais e reprodutivos. “No Brasil, ainda é muito raro que uma pessoa nascida intersexual reivindique um espaço distinto dos já consolidados homem e mulher”, explica Ana. “O que acontece com maior frequência é uma tentativa de ajustar seus corpos aos padrões estabelecidos para o sexo. O poder exercido pela medicalização destina pouco espaço para expressão de corpos e identidade que destoem dos padrões estabelecidos socialmente.”
Ou seja, há diversas variações nos corpos e identidades de intersexuais, e generalizar afirmando que pessoas intersexo são, necessariamente, um “terceiro gênero” pode acabar tendo o efeito contrário do que se pretende, limitando as possibilidades de ser de cada indivíduo e obscurecendo as questões específicas relacionadas aos intersexuais. “O sexo, no fim das contas, pode ser mais social do que biológico”, disse Gerald Callahan, imunologista e professor da Universidade do Colorado, nos EUA, em entrevista publicada pelo site da revista semanal Época em 2007. “Por isso, acho que a opinião da pessoa é um fator determinante.” Em sua dissertação de mestrado, Shirley também aborda a questão de identidade, colocando-a como “uma consequência das relações vivenciadas pelo indivíduo com os outros, com o seu contexto social e consigo mesmo”.
Callahan também tocou em uma das questões mais polêmicas relacionas ao tema: a das intervenções cirúrgicas realizadas em recém-nascidos com genitália ambígua. Mesmo não havendo nenhum indício de que a condição de intersexualidade traga problemas de saúde ao indivíduo, esse é um dos principais problemas relatados por pessoas intersexo. As intervenções – questionadas por especialistas e militantes – podem ocorrer, inclusive, sem o conhecimento e a autorização dos pais. “Na maioria das vezes não há nada a ser feito do ponto de vista cirúrgico na infância. Não é uma condição que ameace a vida nem que necessite de tratamento imediato”, disse o imunologista.
“Considero o principal desafio o reconhecimento social do intersexo como uma diversidade de existência e não como uma anormalidade”, diz Ana. Ela entende que esse é um dos pontos mais importantes na luta das pessoas intersexuais. “A visão do intersexo como anormalidade é histórica. Na Idade Média, as pessoas intersexuais eram percebidas como monstros ou aberrações e muitas vezes eram executadas. Hoje, com a medicalização das sociedades, o intersexo é classificado como doença e anormalidade.”
A OII USA publicou um texto para explicar algumas ideias falsas sobre pessoas intersexo, traduzido por Hailey Kass e publicado no blog Transfeminismo. A organização afirma que as cirurgias que visam a uma “normalização” dos corpos intersexo é equivalente à eugenia, isto é, uma tentativa de “remover diferenças, as quais algumas pessoas decidiram como indesejáveis e que, constantemente, criam problemas que não existiam”. A organização também salienta que as práticas médicas, como as cirurgias e tratamentos hormonais, podem ser contrárias à identidade de gênero da pessoa.
Políticas Públicas
Na declaração publicada pelo site da ILGA, Cabral afirma que estudos apontam que pelo menos uma em cada 2 mil pessoas nasce com órgãos genitais fora dos padrões médicos e que essas pessoas acabam submetidas a cirurgias para a “correção” da genitália. Shirley explica que, “na prática, os neonatos, quando têm identificada a condição intersexual, são submetidos a intervenção cirúrgica e a registro de nascimento no sexo masculino ou feminino de acordo com a assignação realizada na cirurgia”. Ou seja, recém-nascidos que são identificados com genitália ambígua passam por cirurgia para poderem se enquadrar nos padrões médicos de masculino e feminino e serem registrados com o sexo que foi definido com o procedimento. Mas não há dados precisos sobre o número de procedimentos como esse e sobre o número de pessoas intersexo.
Em artigo publicado há uma década, a revista Super Interessante já apontava a dificuldade de obtenção de informações confiáveis e precisas a respeito. “Os cálculos mais conservadores admitem que um em cada 3 mil bebês nasce com essa morfologia, em suas várias formas (no Brasil, isso significaria uma população de mais de 56 mil pessoas).” Segundo a revista, pesquisadores como Anne Fausto-Sterling, professora de Biologia Molecular da Universidade de Brown, no estado americano de Rhode Island, especialista no tema, “garantem que o número é o dobro: um bebê em cada 1,5 mil”. O texto também explica que a prática de cirurgias em recém-nascidos não é novidade. “As cirurgias para determinar o sexo de bebês são aceitas desde a década de 1960, o que reduz as possibilidades de estudos de longo prazo que confirmem ou neguem virtudes para essa intervenção na natureza dos recém-nascidos e, principalmente, seus efeitos na vida adulta do indivíduo.”
De acordo com o artigo, uma das regras ditadas em manuais oficiais de medicina é operar recém-nascidos que tenham pênis de tamanho inferior a 0,9 centímetro, na tentativa de enquadrar o genital nos padrões femininos, transformando-o em um clitóris. Depois da cirurgia, é recomendado começar um tratamento hormonal. Embora a ideia de que a maioria das cirurgias em pessoas intersexo é para as designar como do sexo feminino, a OII USA desfaz esse mito. “Muitas condições intersexo em bebês designados homens são constantemente ignoradas e seus pais são simplesmente informados de que existe algum problema em urinar adequadamente ou que um testículo não foi formado, etc. Ademais, em várias partes do mundo, pessoas intersexo são designadas como homens o quanto mais possível for, porque ser homem é visto como mais socialmente desejável.”
Sem registros oficiais, com discriminação médica e social, intersexuais acabam por encontrar muita dificuldade em serem reconhecidos e aceitos socialmente e, dessa forma, também enfrentam muitos obstáculos na luta por políticas públicas que realmente atendam às suas demandas. Segundo Shirley, um dos maiores desafios dos intersexuais é “conquistar o direito de decidir em assuntos que afetam seus corpos e sua saúde, decidir se desejam realizar alguma intervenção cirúrgica e pensar criticamente sobre o espaço social que desejam ocupar”.
No Brasil, não há políticas públicas específicas para intersexuais. Assim como não há nenhuma associação atuante que seja exclusivamente voltada para a demanda de pessoas intersexo. “As demandas são expressas e resolvidas isoladamente ou articuladas às reivindicações e projetos de leis de outros grupos indentitários, como transexuais e travestis”, explica Ana. Assim, “a visibilidade pode ser considerada como um instrumento de emancipação e de promoção da dignidade em pessoas nascidas intersexuais”.

Reportagem de Natália Mendes
fonte:http://www.brasildefato.com.br/node/27282
foto:http://www.brasildefato.com.br/node/27282

01/02/2014

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Na Alemanha, transação penal depende de juiz para valer

Enquanto o Brasil discute se libera a transação penal sem interferência da Justiça, a Alemanha tem um modelo judicial que permite ao Ministério Público e acusado chegarem a um acordo, tudo isso chancelado por um juiz. É a forma como os alemães encontraram de combinar os princípios constitucionais da ampla defesa e do direito a não se autoincriminar com a celeridade e eficiência que promete a parceria entre réu e acusação.
O sistema alemão foi colocado em xeque no ano passado, quando a lei que regulamenta os acordos foi questionada no Tribunal Federal Constitucional da Alemanha. Ao analisar três casos de transação penal, o tribunal validou a legislação sobre o assunto, apontando que ela está de acordo com a Constituição do país. No entanto, a corte destacou que as regras têm sido muitas vezes desrespeitadas pelos juízes de primeiro grau, o que invalida qualquer acordo entre MP e acusado.
A lei sobre o assunto foi aprovada no país em julho de 2009 e regulamentou benefícios para o réu que confessa o crime e colabora com a acusação. A grande preocupação da legislação, destacada pelo Tribunal Constitucional, é permitir que esses acordos não invalidem as garantias constitucionais que todo réu tem. Para isso, a lei prevê que a transação penal deve ser seguida de um julgamento.
Quer dizer, na Alemanha, os acordos entre réu e promotor dependem de um juiz para valer. A colaboração do acusado tem o objetivo apenas de tornar o processo mais rápido, mas nenhuma etapa é pulada. O julgamento precisa acontecer e deve ser baseado em outras provas, além da confissão do acusado. Como destacou o Tribunal Constitucional, quando a condenação é baseada apenas na confissão, todo o acordo e o julgamento são ilegais e devem ser invalidados.
Para o procedimento ser válido, o julgamento deve transcorrer normalmente. Antes da confissão do réu, ele precisa ser informado que, se colaborar, poderá ter direito a alguns benefícios, como redução da pena. Mas não existe nenhuma garantia, já que a decisão final será de um juiz. O Tribunal Constitucional explicou que um pré-acordo entre promotor e acusado não obriga o juiz a validar o esquema. O magistrado pode descartar o combinado e condenar o réu de acordo com seu convencimento.
Nos casos julgados pela corte da Alemanha, os juízes consideraram que os acordos foram ilegais porque o réu não foi devidamente informado que o combinado com o Ministério Público poderia ser descartado pelo julgador. A transação só seria aceita se o MP conseguisse comprovar que o acusado teria confessado os crimes mesmo sem ter feito nenhum arranjo com a acusação. Caso contrário, os princípios da não autoincriminação e de um julgamento justo são violados.
Em um dos processos, o julgamento baseado em um acordo entre Promotoria e acusado também foi anulado porque a condenação foi imposta apenas a partir da confissão. Ou seja, não houve a colheita de provas que sustentassem os relatos do réu. Para o Tribunal Constitucional, isso viola o direito de o réu não se autoincriminar, já que, se ele tivesse ficado quieto, não existiria nenhuma prova contra ele.
No julgamento, a corte aproveitou para criticar os acordos informais, feitos sem respeitar o rigor exigido em lei. Esses acordos, muitas vezes, acabam chancelados por um juiz da primeira instância e só são suspensos depois que chegam aos tribunais superiores.
Entre as regras previstas na lei da transação penal está a transparência e publicidade dos combinados entre promotor e acusado. Toda a negociação precisa ser pública e claramente detalhada no processo. Caso contrário, todo o julgamento deve ser considerado ilegal, decidiu o Tribunal Constitucional.
A corte observou que, por enquanto, a legislação sobre o assunto tem se mostrado suficiente para garantir que os acordos respeitem a Constituição do país. Os julgadores destacaram, no entanto, que cabe aos legisladores ficar de olho nos desdobramentos decorrentes da lei, que ainda é bastante recente, para decidir se ela é, de fato, eficaz. Se constatarem que não tem sido eficaz, aí sim devem estudar uma mudança, sob pena de o Judiciário ter de interferir e declarar a inconstitucionalidade da lei.
Clique aqui para ler, em alemão, a decisão da corte em um dos três casos que questionaram a lei sobre acordos entre MP e acusado.

Reportagem de Aline Pinheiro
fonte:http://www.conjur.com.br/2014-fev-01/alemanha-permite-transacao-penal-participacao-juiz
foto:http://www.olhardireto.com.br/noticias/exibir.asp?noticia=Acao_de_vitima_do_nazismo_contra_Alemanha_nao_sera_processada_pela_Justica_brasileira&id=297826

Cerca de 17 mil meninas correm risco de sofrer mutilação genital na Espanha

Prática é realizada em 28 países africanos e afeta mais de 140 milhões de mulheres no mundo.


O número de meninas e jovens com risco de sofrer uma mutilação genital na Espanha aumentou 61% nos últimos quatro anos, e agora são quase 17 mil as menores de 15 anos nesta situação, filhas de famílias procedentes de países africanos nos quais esta prática é realizada. O dado faz parte do estudo Mapa da Mutilação Genital Feminina (MGF) na Espanha 2012, que nesta sexta-feira (31/01) foi revelado pela antropóloga Adriana Kaplan.

O objetivo de dita investigação é prevenir a mutilação através de informação pormenorizada sobre a população em risco de sofrê-la na Espanha, e sua distribuição por regiões e municípios.
Adriana considera que isto "permite nos aproximar da realidade e é essencial para qualquer tipo de planejamento para a prevenção primária em saúde, trabalho social e educação". Trata-se, considerou Adriana, de "explorar o interior do número crescente de imigração subsaariana", estabelecer a procedência, a idade e a distribuição da população no território espanhol para "orientar o trabalho preventivo dirigido ao abandono da prática".
O relatório constitui na quarta atualização do mapa, com anteriores edições nos anos 2001, 2005 e 2009, o que permite ver a evolução da mutilação, estendida a 28 países africanos e que afeta mais de 140 milhões de mulheres no mundo todo devido à "diáspora" africana, de acordo com Adriana.
Segundo explicou a antropóloga, em algumas Comunidades Autônomas espanholas como o País Basco (norte), se optou por enfrentar a prevenção da mutilação e "já houve trabalhos para formar" seus profissionais da saúde.


No caminho contrário, Adriana afirmou que em outras regiões espanholas, como na Catalunha (nordeste), nos últimos anos foi rebaixado o nível de formação e se optou por recorrer à polícia para atalhar a mutilação genital feminina. A Catalunha é a região que concentra mais jovens com risco de mutilação, com mais de seis mil meninas, o que representa 36,6% do total.
Os médicos de família, pediatras e ginecologistas de atendimento primário, "que já estão trabalhando com as famílias", são os que deveriam ser formados para prevenir que as meninas de famílias africanas possam ser vítimas da mutilação, considerou Adriana, que afirmou que isto depende da "vontade política".
Por outro lado, Adriana elogiou o denominado documento "compromisso preventivo" para evitar a mutilação genital quando as meninas viajam aos países de origem dos pais e no qual são informados os dados da menor, da pessoa responsável da mesma e do doutor que a atende.
Este compromisso por escrito permite aos pais não ter de enfrentar suas comunidades de origem e justificar a não mutilação de suas filhas, e é uma fórmula que respeita ao mesmo tempo a menina e os costumes de seus ascendentes, opinou Adriana Kaplan.



fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/33744/cerca+de+17+mil+meninas+correm+risco+de+sofrer+mutilacao+genital+na+espanha.shtml
foto:http://g1.globo.com/mundo/noticia/2010/07/e-impossivel-descrever-dor-diz-modelo-sobre-circuncisao-feminina.html

Estudo associa maioria das mortes prematuras de russos ao álcool


O número elevado de mortes precoces na Rússia deve-se principalmente ao consumo excessivo de álcool, especialmente vodca, sugerem pesquisadores.

O estudo, publicado no jornal especializado The Lancet, diz que 25% dos homens russos morrem antes dos 55 anos, a maioria deles por causa do álcool. No Reino Unido, a proporção é de 7%. Já no Brasil, onde a violência mata muitos jovens, 37% dos homens não chegam a completar 55 anos.
As causas de morte relacionadas à bebida na Rússia incluem doença hepática e intoxicação por álcool. Muitos também morrem em acidentes ou brigas.
O estudo é considerado o maior do tipo no país. Pesquisadores do Centro de Pesquisa do Câncer da Rússia, em Moscou, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da Organização Mundial de Saúde na França acompanharam os padrões de consumo de 151 mil adultos, em três cidades russas, por até dez anos.
Durante esse período, 8 mil deles morreram. Os pesquisadores também se basearam em estudos anteriores em que as famílias de 49 mil pessoas mortas responderam sobre seus hábitos de consumo de álcool.
"As taxas de mortalidade dos russos têm flutuado descontroladamente nos últimos 30 anos, na medida em que as restrições ao álcool e a estabilidade social variaram sob os presidentes (Mikhail) Gorbachev, (Boris) Yeltsin e (Vladimir) Putin. A vodca foi o principal fator determinando essa variação no número de mortes ", disse o professor de Oxford Richard Peto, um dos autores do estudo.
Cada adulto russo bebe, em média, 13 litros de álcool puro por ano, dos quais 8 litros de destilados, principalmente vodca. No Brasil o número comparável é de 9,2 litros por adulto, sendo que 54% desse consumo é cerveja e 40%, destilados.
Colapso
Em 1985, o então líder soviético Mikhail Gorbachev cortou drasticamente a produção de vodca e proibiu a venda da bebida antes da hora do almoço.
Os pesquisadores dizem que o consumo de álcool caiu em cerca de um quarto com essas restrições, assim como as taxas gerais de mortalidade. Depois, com o colapso do comunismo, as pessoas começaram a beber novamente, e as taxas de mortalidade também subiram.
"Quando Yeltsin assumiu o lugar de Gorbachev, as taxas de mortalidade em homens jovens mais do que duplicaram. Isso aconteceu quando a sociedade entrou em colapso e a vodca tornou-se muito mais livremente disponível", disse Richard.
"Houve um grande aumento no consumo, e eles estavam bebendo de uma forma destrutiva", observou.
A maioria dos bebedores eram fumantes, o que agravava as taxas de mortalidade. O consumo entre as mulheres também oscilou de acordo com os acontecimentos políticos, mas, como elas bebiam menos, as taxas de mortalidade eram menores.
A Rússia voltou a adotar um controle mais rígido do consumo de álcool em 2006, incluindo o aumento de impostos e restrições às vendas. Os pesquisadores dizem que o consumo de álcool caiu em um terço desde então, e a proporção de homens que morrem antes de atingirem 55 anos de idade diminuiu de 37% para 25%.
Meio litro de vodca custa em torno de 150 rublos (R$ 10). Os bebedores intensivos acompanhados no estudo estavam consumindo pelo menos um litro e meio de vodca por semana.
'Estilo de vida'
Os pesquisadores dizem que o principal fator que influencia a alta taxa de morte é a forma como os russos bebem álcool.
"Os russos sempre beberam muito. Eles às vezes dizem que é por causa do frio, mas isso é apenas uma desculpa. Este é o estilo de vida da nação, que precisa mudar", disse o pesquisador David Zaridze, do Centro de Pesquisa do Câncer da Rússia.
"A expectativa de vida média dos homens na Rússia ainda é de apenas 64 anos, ficando entre as 50 menores do mundo. São urgentemente necessárias políticas mais eficazes de (restrição ao consumo de) álcool e tabaco", defendeu.
No Brasil, a expectativa de vida dos homens é de 71 anos, e a das mulheres, 78,3.


fonte:http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/bbc/2014/01/31/estudo-associa-maioria-das-mortes-prematuras-de-russos-ao-alcool.htm
foto:http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1433762-5603,00-CONTRA+ALCOOLISMO+RUSSIA+DOBRA+PRECO+DA+VODCA+A+PARTIR+DESTA+SEGUNDAFEIRA.html

População sem-teto cresce 50% nos últimos 12 anos na França


O número de pessoas sem-teto cresceu 50% na França desde 2001, totalizando mais de 141 mil - incluindo 30 mil crianças -, segundo dados de um estudo divulgado nesta sexta-feira pela Fundação Abbé Pierre, que luta pela criação de moradias às populações carentes.
A situação atual na França "resulta do aumento do desemprego e do trabalho precário, associado à falta de moradias e à alta no preço dos aluguéis", afirma Christophe Robert, diretor-adjunto da Fundação Abbé Pierre, reconhecida como instituição de utilidade pública.
A fundação estima que 3,5 milhões de pessoas na França enfrentem problemas de moradia: além dos sem-teto, chamados de "sem domicílio fixo" (SDF), há pessoas que moram em condições difíceis (sem conforto, com banheiro e chuveiro fora do apartamento ou em locais superlotados) e precárias (em acampamentos, barracos, pequenos hotéis ou se hospedam esporadicamente na casa de amigos ou parentes).
"As soluções (de moradias) improvisadas, como acampamentos e barracos, estão ganhando espaço fora das cidades. Há também o ressurgimento de situações que imaginávamos ser coisa do passado, como barracos nas periferias das cidades e em terrenos baldios", afirma o relatório.
"Há pessoas em grande dificuldade, mas também há uma parte da população que se torna cada vez mais fragilizada em relação à moradia, mesmo no caso de quem trabalha", diz Robert, citando o exemplo de pessoas com emprego que são obrigadas a dormir em seus carros.
Dificuldades
Em Paris, por exemplo, as condições para se alugar um apartamento são cada vez mais rigorosas.
Os proprietários chegam a exigir que o inquilino ganhe o triplo do valor do aluguel, sendo que em Paris é raro o aluguel de um pequeno apartamento, de cerca de 30 metros quadrados, por menos de mil euros (cerca de R$ 3,3 mil).
Em Paris, é possível ver às vezes fileiras de pessoas dormindo em colchões na rua, sobretudo imigrantes romenos ou de origem roma, mesmo em áreas turísticas. Eles são posteriormente retirados do local pelas autoridades.
Ao mesmo tempo, a prefeitura de Paris vem instalando mobiliários urbanos (como bancos nas ruas e nos metrôs) projetados especialmente para que as pessoas não possam se deitar.
Aluguel mais caro
O estudo também aponta uma "alta não controlada do preço da moradia", ressaltando que os aluguéis subiram 55% em 13 anos. Enquanto isso, a situação econômica se deteriorou. O desemprego, por exemplo, aumentou 6% em 2013 e atinge 4,9 milhões de pessoas.
Os dados no relatório da Fundação Abbé Pierre sobre a população sem-teto são do Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (INSEE, equivalente ao IBGE brasileiro).
Mas o estudo sobre a crise da moradia na França, realizado anualmente pela fundação, faz um panorama completo da situação no país.
De acordo com o relatório, apesar do aumento de 34% da oferta de moradias sociais entre 2000 e 2013, ela ainda é "insuficiente para atender à demanda".
Segundo o estudo, 1,7 milhão de pessoas estão na fila à espera de uma moradia social no país.
Moradores de mais de 91 mil lares estão ameaçados atualmente de expulsão por não pagar o aluguel. E 3,8 milhões de lares estão em situação de "precariedade energética" por não conseguir pagar as contas de luz e de gás.



fonte:http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2014/01/31/populacao-sem-teto-cresce-50-nos-ultimos-12-anos-na-franca.htm
foto:http://noticiasongs.org/ministra-da-saude-da-franca-recomenda-a-sem-teto-que-fiquem-em-casa-durante-inverno/