Mostrando postagens com marcador Para sair da inércia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Para sair da inércia. Mostrar todas as postagens

04/04/2017

O assédio sexual dos bastidores não passou na Rede Globo


A esta altura, o Brasil inteiro já sabe que um galã da principal rede de televisão do país foi acusado publicamente por uma figurinista de tê-la assediado nos estúdios da TV Globo. Susllem Tonani, de 28 anos, relatou detalhes das insistentes investidas do ator José Mayer em um texto em primeira pessoa, publicado, em princípio, na madrugada do dia 31, no blog “Agoraéquesãoelas” do jornal Folhade São Paulo. Com o inequívoco título “José Mayer me assediou”, trouxe de volta a eterna temática do assédio sexual à pauta nacional. Desta vez, envolvendo um senhor que entrou na casa dos brasileiros reiteradamente nas últimas décadas, desde quando Mayer era apenas um jovem ator promissor.
A estampa do galã famoso e bem sucedido, no entanto, embaralha a mente de quem o imagina soltando um despretensioso (?) “fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho”, “você nunca vai dar para mim?”, como relatou Susllem, a jovem que viveu uma rotina contínua com ele durante o período que durou a novela “A Lei do Amor”. Segundo ela, foram oito meses de convívio profissional em que começou a ouvir elogios de Mayer, que passaram a cantadas e até chegar ao impulso macho de um homem das cavernas. “Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália.” Entende-se pelo texto de 879 palavras que depois disso ela parou de falar com ele. Contrariado, a chamou de “vaca” na frente de outras pessoas. Foi a gota d’água para que ela fosse ao RH da Rede Globo e à ouvidoria contar o que aconteceu.
O relato da figurinista foi polêmico desde o início, não só pela empresa e o personagem envolvidos, mas até pela forma como veio a público. O duro desabafo ficou no ar por algumas horas no blog, e depois retirado do ar. Diante de uma acusação tão forte, era preciso ouvir o outro lado, no caso a rede Globo e o próprio acusado. No final da tarde de sexta, o texto voltou a ser publicado, e a Folha deu a matéria completa. Ao jornal, ele disse, por meio de nota, que respeita as mulheres, “meus companheiros e o meu ambiente de trabalho e peço que não misturem ficção com realidade”. “As palavras e atitudes que me atribuíram são próprias do machismo e da misoginia do personagem Tião Bezerra, não são minhas!”, mencionando o vilão escroque que interpretou na novela que acaba de terminar.
Estaria ele insinuando que Sullem misturou ficção e realidade e que assédio é coisa de personagens malvados? Seria ela tão ‘suicida’ de inventar uma calúnia e se expor dessa maneira? E se é inocente, por que o ator não fala abertamente, em vez de escolher uma fria nota como meio de comunicação?
A TV Globo, por sua vez, disse à Folha que “o assunto foi apurado e as medidas necessárias estão sendo tomadas”, lembrando que repudia toda forma de desrespeito, violência ou preconceito. É uma saia justa e tanto para a emissora que exporta novelas para o mundo. Mas, tudo indica que não é o primeiro caso. Segundo a colunista de TV Keila Jimenez, do portal R7, “os casos de assédio são tantos que a emissora criou até um departamento para cuidar só disso.”
A empresa só não esperava que Sullen fosse tomada de uma coragem rara entre as mulheres. Não só por denunciar um homem muito mais poderoso que ela, protegido por um aparato midiático, mas pela crueza de suas palavras no texto. “Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo”, reitera ela em seu relato. Na terra em que se emprega a expressão “caralho” a três por quatro, a palavra “buceta” é algo quase chocante. Por que ela não optou por “vagina”? Bem, talvez porque a verdade precisa ser contada sem rodeios, na linguagem que ela se apresenta. “sua bundinha”, “seu peitinho”... que mulher não ouviu isso a vida inteira de estranhos na rua, no ônibus, ou até no confessionário de uma igreja... (sim, eu ouvi de um padre numa igreja do bairro Vila Mariana, quando tinha somente 12 anos).
A jovem figurinista tocou, ainda, em outra ferida cruel do machismo no Brasil, ao citar a presença de duas testemunhas femininas quando Mayer a tocou: a anuência de muitas mulheres que naturalizam esse comportamento masculino, diferenciando o papel dos gêneros. “Elas? Elas, que poderiam estar eu meu lugar, não ficaram constrangidas. Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade.”
A continuação deste episódio, vale dizer, já tem um roteiro conhecido. O aparente assédio de Mayer, na cabeça de muitos, será taxado como coisa de feminista histérica. Ele é perfilado pela mídia que cobre televisão como um homem bem casado, filhos, que gosta de cuidar de plantas e curtir a família. Empatia total com o público da rede Globo. Contrasta com o imaginário sobre assédio e o machismo, que seria obra de homens maus, escondidos na virada da esquina de uma rua escura esperando uma mulher passar de minissaia ou decotes provocantes. Não, ele também pode vir de um ator em posição dominante, de um parente, de um chefe, de um funcionário que vai consertar a TV na sua casa, como contou Rita Lee em su biografia, lembrando o episódio que a marcou na infância.
O tal assédio nosso de cada dia é muito mais grave do que pode parecer, e precisa ser explicado inclusive às crianças. Faz bem a mãe e o pai que alertam filhas e filhos para o que sempre existiu e ninguém admite, ou custa a acreditar.
Felizmente, ao reconhecer essa doença social, muitas mulheres do Brasil também começam a fortalecer o caminho da cura. Não se pode naturalizar essas grosserias, não se pode deixar de denunciar, de falar, de contar, de dar nome aos bois, venha o assédio de onde vier, inclusive da rede Globo. A maior emissora do país podia aproveitar o ensejo e usar seu poder de comunicação para abraçar melhor a primavera feminista que varre o Brasil nos últimos tempos. Assédio não é normal, como lembra o blog AgoraéqueSãoElas. É covarde e desprezível.
Reportagem de Carla Jiménez
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/01/opinion/1491069816_248752.html
foto:https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2015/07/20/ja-foi-humilhado-pelo-chefe-veja-casos-de-assedio-moral-e-o-que-fazer.htm

03/02/2017

Duas barreiras que afastam as mulheres da ciência


Na semana passada, dois estudos colocaram em evidência algumas das barreiras que impedem o aproveitamento do potencial das mulheres na ciência. O primeiro deles, publicado na revista Nature, se refere à presença feminina como avaliadoras dos trabalhos de seus colegas. Essa avaliação é uma das bases do sistema científico e acadêmico, e permite que as revistas científicas analisem a qualidade dos artigos submetidos para publicação. Além disso, trata-se de um caminho para que os avaliadores melhorem em sua própria área de conhecimento e fortaleçam vínculos com outros pesquisadores.
Uma análise da União Americana de Geofísica (AGU, na sigla em inglês) indica que mulheres de todas as idades têm menos probabilidades de participar desse processo. O estudo mostra que, entre 2012 e 2015, a presença feminina entre os revisores foi de 20%. Trata-se de uma porcentagem bem inferior aos 27% de mulheres que conseguem ter aceitos artigos em que aparecem como primeiras autoras, e abaixo dos 28% de membros femininos da AGU. A presença de mulheres varia com a idade. Entre aquelas na casa dos 20 anos, elas representam 45%. Em contraste, os autores da análise, Jory Lerback e Brooks Hanson, mostram que a porcentagem de artigos aprovados para publicação apresentados por mulheres é ligeiramente maior que a de homens (61% a 57%).
Sobre os motivos para essa menor representação, os autores mencionam como primeira causa o fato de as mulheres receberem menos convites para avaliar artigos do que os homens. Além disso, as mulheres também recusam esses convites com mais frequência.
Os autores apresentam duas possíveis interpretações para esses resultados. A primeira é que as mulheres que escrevem artigos sofram uma discriminação às avessas. A outra, talvez mais plausível, é que elas preparem melhor o envio de seus trabalhos já esperando encontrar mais dificuldades. Essa hipótese coincide com os resultados de outros estudos que indicam que as pessoas que esperam mais obstáculos dedicam mais esforço à preparação e assumem menos riscos. Isso explicaria também, pelo menos em parte, por que as mulheres enviam menos artigos para publicação do que os homens. “Um processo de estudo duplo-cego poderia lançar mais luz sobre esses fatores”, propõem os autores do artigo na Nature.
Nesse sentido, estudos como o que foi publicado na PNAS por um grupo liderado por Corinne A. Moss-Racusin, psicóloga do Skidmore College (Estados Unidos), sugerem que os professores universitários, independentemente de seu gênero, avaliam de maneira mais favorável uma candidatura para diretor de laboratório se ela vem acompanhada de um nome masculino. Outras análises semelhantes observaram como candidaturas idênticas para postos fixos na universidade têm mais possibilidades de sucesso se o suposto aspirante for homem. Esses trabalhos observam ainda que essas inclinações também atingem indivíduos que valorizam a igualdade e se consideram objetivos.
A complexidade do problema das inclinações também foi abordada em um artigo publicado na mesma revista em 2015. Apesar de haver uma grande quantidade de dados que refletem a desvantagem das mulheres nas carreiras ligadas à ciência e à engenharia, e de isso poder estar relacionado com os estereótipos de gênero, esses dados não são avaliados igualmente dependendo de quem leia sobre eles. Naquele artigo, foi observado que os homens – em particular aqueles em posições de poder dentro do mundo acadêmico – eram reticentes em aceitar o valor dos dados apresentados nesse tipo de estudo. Essa percepção, em um campo dominado pelos homens, dificulta que as inclinações sejam reconhecidas e comecem a ser combatidas.
Um segundo artigo publicado na semana passada traz mais informações sobre as possíveis causas da sub-representação feminina na ciência e na engenharia. Em um estudo apresentado na revista Science, foi perguntado a meninos e meninas se acreditavam que uma pessoa descrita para eles como especialmente inteligente era de seu sexo ou do oposto. Quando as crianças tinham 5 anos, não se observavam diferenças. Mas a partir dos 6 ou 7 anos, a probabilidade de que meninas considerem a pessoa brilhante como sendo de seu sexo cai.
Em outro experimento do mesmo estudo, os autores viram que as meninas mais velhas, a partir dos 6 anos, têm menos interesse em jogos que, segundo a descrição, teriam sido planejados para crianças muito inteligentes. No entanto, o interesse não variava entre os gêneros quando o jogo era apresentado como dirigido a crianças muito persistentes. Os responsáveis pelo estudo consideram que essas ideias sobre gênero e inteligência, que aparecem em uma fase inicial da infância, podem afastar as meninas das carreiras em ciência e engenharia. Um dado interessante é que tanto meninos como meninas reconhecem que elas tiram melhores notas, o que sugere que não associam essas notas com brilhantismo. Agora, os autores querem entender as origens dessas diferenças de percepção.
Reportagem de Daniel Mediavilla
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/31/ciencia/1485861412_947023.html
foto:https://bio4esobil2009.wordpress.com/2010/03/08/women-in-science/

12/12/2016

A menina que trabalhava em pedreiras, virou desembargadora e hoje luta contra o trabalho infantil

Aos 63 anos, a desembargadora Maria Zuíla Lima Dutra (foto acima) ainda se lembra de quando, muito pequena, vendia merenda em fábricas e apanhava pedra das pedreiras de Santarém, no Pará, para ajudar a mãe. Mas não se lembra quantos anos tinha. Cinco anos? Talvez menos, diz.
"Eu era muito pequena. Não tenho lembrança de algum período da minha infância em que eu não estivesse trabalhando."
A família de Zuíla era muito pobre. A mãe, analfabeta, criava sozinha os cinco filhos. Estudar exigia força de vontade: a menina estava sempre cansada de acordar de madrugada e, sem luz elétrica em casa, a lamparina cansava ainda mais os olhos. Zuíla pedia às colegas os restos dos cadernos delas e, com as folhas ainda em branco, sua madrinha costurava cadernos para que ela pudesse estudar.
Vendedora de merenda, trabalhadora de pedreira, a menina seguiu arrancando pedras no meio do caminho e se transformou em referência na luta contra o trabalho infantil no Pará e no Brasil.
Foi telefonista, professora de matemática, funcionária do Banco do Brasil, cursou Direito, virou juíza do Trabalho em 1995 e em maio deste ano tomou posse como desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (Pará e Amapá).

'Filhas de criação'

Sua dissertação de mestrado, defendida em 2006 na Universidade Federal do Pará e publicada em livro no ano seguinte, analisa as trajetórias de meninas saídas do interior paraense para trabalhar na casa de terceiros em Belém.
São as chamadas "filhas de criação" - um eufemismo para disfarçar o que a desembargadora, na vida, na academia e na prática profissional, constatou ser a exploração sem limites de uma mão de obra jovem e barata.
Em entrevista à BBC Brasil por e-mail e telefone, Zuíla Dutra relembrou sua trajetória e analisou a persistência do trabalho infantil doméstico no Brasil (apesar da queda verificada nos últimos anos).
"Muitas vezes, nas audiências, os empregadores negavam veementemente a relação de trabalho, alegando tratar-se de 'filha de criação'. Mas as provas demonstravam claramente a existência de autêntico vínculo laboral (relação de trabalho) e, mais ainda, de superexploração de trabalho. Esse tipo de explorador de mão de obra doméstica utiliza a expressão 'filha de criação' como substitutivo para 'trabalho escravo', 'trabalho servil' e outros assemelhados", afirma ela.

Rotina de exploração

A história de Zuíla passa por um barraco sem luz nem água em Santarém.
"Éramos muito pobres. Minha mãe, Oscarina, criou os cinco filhos sozinha. Analfabeta, não tinha profissão definida, lavava roupa, fazia todo tipo de serviço. Morávamos de favor no fundo do quintal de uma fábrica de beneficiamento de látex, num canto sem água nem luz. Então consentiram que ela fizesse merenda para vender nas fábricas, e eu e meus irmãos vendíamos. Eu me lembro perfeitamente: um levava o tabuleiro com suco, outro os sanduíches", conta a desembargadora.
"Minha mãe, mesmo analfabeta, teve a sabedoria de não deixar que nenhum dos filhos saísse de perto dela. Um dia, na fábrica, um casal de São Paulo quis me levar para morar com eles. Eles diziam que eu ia estudar, ter tudo. Minha mãe não deixou, dizia que filho tinha que ficar com ela. Era a mesma história de hoje, prometem tudo, mas na verdade vira uma rotina de exploração, com jornadas de 16, 18 horas", afirma.
Aos 16 anos, Zuíla passou no concurso público para telefonista. Foi professora de matemática e, posteriormente, funcionária do Banco do Brasil.
Embora sonhasse ser juíza do Trabalho, só pôde fazer Direito alguns anos depois, a partir de 1990, quando o curso foi criado em Santarém. Logo depois mudou-se com a família para Belém, onde se formou e se tornou juíza, fazendo do combate ao trabalho infantil uma das missões de sua vida.
A desembargadora integra a Comissão Nacional de Combate ao Trabalho Infantil e de Estímulo à Aprendizagem do Tribunal Superior do Trabalho e coordena idêntico grupo no TRT da 8ª Região. Entre as ações desenvolvidas estão palestras em escolas e uma marcha que reuniu mais de 20 mil pessoas em Belém no ano passado.
Neste ano, o foco é esclarecer jovens e empresários sobre a Lei da Aprendizagem, que estimula a formação profissional e supervisionada, em algumas carreiras, de adolescentes a partir de 14 anos.

Situação aceita

Para Zuíla Dutra, uma das dificuldades do combate ao trabalho infantil doméstico é que ele, diferentemente do que ocorre quando se vê uma criança numa pedreira ou carvoaria, não causa indignação no grosso da sociedade. Pelo contrário: acontece dentro das casas de família e é culturalmente aceito como um ato de solidariedade ou uma chance de ascensão social.
A rotina da trabalhadora doméstica infantil é outra, alerta: o mais comum é que a garota se afaste da família, abandone a escola ou pouco possa estudar, e ainda seja cotidianamente submetida a jornadas longas, sem folga semanal e com salário abaixo do mínimo legal - além de enfrentar riscos que vão desde acidentes domésticos, como ser quimada por uma panela de água quente, até o assédio sexual dos patrões.
"A cantilena dos empregadores para atrair a presa é sempre a mesma, no sentido de que vão tratar a menina como 'filha', oferecendo-lhe estudo e a oportunidade para mudar de vida. O que se observa, em regra geral, é que os filhos das pessoas que exploram o trabalho infantil doméstico frequentam escola particular de excelente qualidade e dispõem de tempo para brincadeiras com outras crianças, tratamento que as meninas empregadas jamais recebem. Até mesmo a frequência à escola pública é dificultada ou negada, diante da extensa e penosa jornada de trabalho", afirma.
A desembargadora destaca outros problemas, como a falta de maturidade de uma menina ou adolescente para cuidar de outras crianças, e a retirada da garota do convívio familiar. Apesar disso, ainda é comum que famílias pobres, por necessidade, mandem suas filhas para morar e trabalhar como agregadas em outras casas.
"De irmã ou filha, ela passa à condição de serviçal, empregada, babá ou agregada. Para esses pais ou mães, tal doação representa libertar sua filha da necessidade, pois imaginam que ela terá escola, comida, teto, roupa, calçados e lazer garantidos. Pensam estar oferecendo a chance de um futuro diferente do seu. As meninas que são entregues por seus pais para serem criadas como 'filhas' na verdade não passam de mão de obra explorada de forma desumana, salvo raríssimas exceções."
Zuíla Dutra sabe que ela própria é uma exceção. Em sua trajetória, destaca seguidamente o papel da mãe, Oscarina, que nunca cedeu a quem quisesse levar sua prole como "filhos de criação". Os cinco filhos estudaram e só duas, por decisão pessoal, não concluíram o curso superior.
"Já adulta, eu ensinei minha mãe a escrever o nome. Minha mãe está viva, tem 85 anos, e foi à minha posse como desembargadora. É minha heroína", orgulha-se.

Reportagem de Fernanda de Escóssia
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36432846#orb-banner
foto:http://www.tvrba.com.br/noticia.php?idnoticia=370741

22/11/2016

A imagem de urso-polar com lata presa na boca que serve de alerta para o lixo jogado no mundo

Ambientalistas russos fizeram um alerta para os danos causados à vida selvagem pelo lixo que produzimos. O apelo ganhou força depois da divulgação das fotos de um filhote de urso-polar que ficou com uma lata presa na boca.
O caso ocorreu na remota ilha de Wrangel, um santuário natural no círculo Ártico, no extremo nordeste da Rússia, e que integra a lista de patrimônios mundiais da humanidade da Unesco.
O responsável pela reserva, Alexander Grudzev, disse à BBC que o filhote de urso sofreu durante duas semanas com a lata - de leite condensado - na boca e ficou muito estressado, sem conseguir se alimentar.
A operação de socorro mobilizou os guardas florestais da reserva, que tiveram que usar dardos tranquilizantes na mãe e no filhote de urso.

Santuário de biodiversidade

A montanhosa ilha de Wrangel tem a maior densidade populacional de ursos polares em cavernas e morsas-do-pacífico no mundo, segundo a Unesco.
O filhote foi avistado no fim de setembro, no início do outono europeu, seguindo a mãe em busca de comida, de acordo com o jornal local The Siberian Times.
A lata estava presa na língua do filhote e os guardas florestais tiveram que tomar cuidado ao retirá-la para não provocar um grande sangramento.
"Felizmente, tudo acabou bem e espero que isso não aconteça mais", disse Gruzdev à BBC.
"Mas este caso mostra o perigo do lixo que o homem produz para os animais selvagens".
"Às vezes os animais comem sacos plásticos onde havia sido guardada comida".

Seis fatos sobre a ilha de Wrangel

  • Tem a maior densidade populacional de ursos polares vivendo em cavernas no mundo
  • Acredita-se que foi um dos últimos refúgios dos mamutes, antes da sua extinção
  • A International Date Line (IDL) - a linha imaginária de navegação que une os Pólos Norte e Sul e marca a mudança de dia no calendário - foi deslocada para leste para evitar a ilha e a Península de Chukchi no continente russo
  • O ponto mais próximo do continente fica a 140 km de distância
  • Praticamente todo o território é uma reserva natural protegida por leis federais e administrada pelo Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais da Rússia
  • Fica entre os mares de Chukchi e da Sibéria Oriental, tem cerca de 7.600 km² de superfície e 125 km de comprimento

Operação de limpeza

"Tivemos o caso de uma raposa que ficou com a cabeça presa em um contêiner onde havia garrafas para a reciclagem."
"Temos que estar lembrando constantemente as pessoas sobre a melhor maneira de jogar fora o seu lixo".
Gruzdev contou que, ironicamente, a lata que machucou o urso fora deixada por um grupo de trabalhadores contratado para limpar a ilha. A ilha de Wrangel tenta se livrar de toneladas de lixo - parte dele ainda dos tempos da União Soviética.
"Os trabalhadores usaram um barril como lata de lixo. Eles jogaram ali todo o lixo do acampamento deles, inclusive latas vazias".
"O filhote de urso achou esse barril antes que fosse descartado e, infelizmente, a lata ficou presa quando ele tentou lambê-la por dentro".
O filhote escapou sem dano permanente, segundo os especialistas.

Reportagem de Alastair Lawson
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/internacional-38049236#orb-banner
foto:http://g1.globo.com/natureza/noticia/2016/11/a-imagem-de-urso-polar-com-lata-presa-na-boca-que-serve-de-alerta-para-o-lixo-jogado-no-mundo.html

07/09/2015

Paraty: crônica de uma tragédia anunciada

Ontem, no meio da tarde, um terrível acidente com um ônibus em um local chamado Morro do Deus Me Livre, no caminho para Trindade, no município de Paraty (RJ) deixou 15 mortos e quase 60 feridos, cinco deles em estado grave. A maioria das vítimas tem entre 20 e 30 anos. É uma estrada extremamente perigosa de mão dupla, mal sinalizada e com curvas muito sinuosas. 
Estrada Morro do Deus Me Livre, Trindade
Mas o descaso administrativo n se restringe apenas a falta de sinalização na região. Segundo a imprensa de Paraty há mais de um ano o mato não é cortado nos acostamentos da estrada Rio-Santos e em muitos trechos não existe mais acostamento porque foi completamente tomado pelo mato que também esconde as placas existentes e aumenta a situação de perigo. No trecho próximo da Rio-Santos perto de Paraty não encontramos nem faixas pintadas no asfalto.
Embora as causas do acidente ainda não tenham sido esclarecidas totalmente, não é de hoje que os moradores de Paraty e região reclamam das condições dos ônibus da empresa Colitur, proprietária do veículo que se acidentou neste domingo. Segundo reportagem publicada na site R7 notícias, uma comunidade no Facebook, Basta Colitur, criada por moradores de Paraty, relaciona reclamações de passageiros a respeito das condições dos ônibus da companhia. Os usuários destes ônibus afirmaram que "ocorreu uma tragédia anunciada há muito tempo" e que "todos que utilizam este meio de transporte são obrigados a conviver diariamente com ônibus em péssimas condições e sem manutenção".
Segundo as primeiras informações da Polícia Civil o motorista perdeu o controle do veículo e caiu em uma ribanceira devido a uma falha no freio. A estrada, que funciona em mão dupla, tinha apenas uma faixa liberada no horário. Ainda de acordo com a Polícia Civil será aberto um inquérito para apurar se havia superlotação
Mas os problemas enfrentados pela população local não param por aí. Admirada por pessoas do mundo inteiro, tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1958 e em 1966 convertida em Monumento Nacional em 1966, Paraty continua não recebendo a atenção que merece por parte do poder público. Uma negligência que coloca em risco a vida de moradores e turistas e deixa aberta e exposta mais uma das tantas chagas nacionais.
Com cerca de 40 mil habitantes Paraty é a segunda cidade mais violenta do Estado do Rio de Janeiro, atrás apenas de Cabo Frio. Para citarmos apenas dois exemplos, no Carnaval de 2015 um tiroteio deixou um morto e nove feridos e em maio o prefeito da cidade sofreu um atentado a bala, o que levou as autoridades a investir mais em segurança pública.
Porém, as carências de Paraty não se restringem apenas a questão de segurança pública. Apenas em 2015 a cidade passou a ter tratamento de água e esgoto. De acordo com reportagem do jornal espanhol El País "com a água clorada, o Hospital Municipal de Paraty passou de 1.000 a menos de 100 atendimentos por mês. Mesmo assim, o lugar sofre com a alta demanda (é o único serviço de saúde da cidade, que carece inclusive de alternativas da rede privada), e será reformado em breve depois que foi pactado um investimento de R$ 15 milhões com a Eletronuclear, que financiará uma instalação anexa ao prédio atual, tombado. Outra medida essencial que está sendo tomada é a instalação de energia elétrica na zona costeira, onde, depois de mais de 100 anos, habitantes de pequenas comunidades isoladas como Ponta Grossa finalmente experimentaram acender a luz de casa e usar eletrodomésticos em pleno 2015."
Oxalá estas medidas continuam sendo realizadas e a cidade receba atenção redobrada em outros pontos críticos como a capacitação de jovens por meio de cursos técnicos profissionalizantes, a construção de clinicas para recuperação de viciados em drogas e a oferta de alternativas que atraiam as crianças e os jovens para a vida e não para morte. 
Paraty é belíssima,com um patrimônio arquitetônico e natural que enche os olhos de orgulho. Sua população, formada por pessoas batalhadoras,  está cansada de sofrer com a falta de segurança e com problemas de infraestrutura básica. Ela não pode continuar sendo relegada a um segundo plano. Paraty é o que é também por causa de sua gente e gente merece respeito e cuidado. 
Exigimos que a tragédia de domingo e outras tantas mais que assolam Paraty não se repitam mais!




foto:https://linhanapipa.wordpress.com/tag/trindade-estrada-do-deus-me-livre/

03/09/2015

Uma criança é o mundo inteiro

Policial turco encontra o corpo de um menino sírio na costa de Bodrum, balneário popular no verão europeu
A morte de uma criança é uma afronta, um grito da vida contra a morte. Uma criança morta na praia, no lugar em que acontece esse idílio do mar com a terra e que aí não espalha felicidade, mas o terrível som de uma notícia de que chove como o pranto no coração. Uma criança morta na praia, em busca de refúgio no mundo, fugindo da guerra, fugindo do som cruel das armas e também da fome.
Essa imagem da criança síria morta em uma praia turca, a desolação que apresenta o gesto do guarda que foi salvá-lo, a luz, a praia, essa costa que parece um símbolo da própria passagem descalça da criança por um mundo que já não vai recebê-lo nunca, nem ele nem muitos. É um poema comovente, um réquiem como aquele que entoava José Hierro: é uma criança como milhões de crianças, um ser humano que já ri, pergunta e persegue sombras como se fossem brinquedos.
A machadada cruel dos nossos tempos faz dela o retrato com o qual a consciência do mundo há de conviver como expressão dessa afronta. O guarda fez o gesto desesperado; mas antes do guarda foi o mundo que não soube salvá-la; o guarda foi o herói dos olhos tristes, fez tudo o que podia. O mundo não soube salvá-la. Seu único destino, o de seus pais, o de seus passos, era sobreviver; seu horizonte não era sequer viver, ter profissão, amores e despedidas: seu destino, esse que agora jaz sem vida no mundo, era o de desenhar na areia a casa, o barco, e já não há nem casa nem barco nem nada. Não há nada. O mundo levou-lhe tudo: nem este nem aquele, nem este país nem este outro: o responsável por esta terrível expressão dos nossos tempos é o mundo inteiro, porque a criança é também o mundo inteiro. Suas mãos são os desenhos que deixa, seu corpo de três ou quatro anos é o que resta da árvore que ela teria imaginado que era a vida, e antes da hora soube que o mundo não sabe salvar as crianças, porque também desconhece como se salvar. Aí jaz, nessa praia, o mundo inteiro.

fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/02/internacional/1441216415_550941.html
foto:http://noticias.r7.com/internacional/fotos/tragedia-no-mediterraneo-cadaver-de-crianca-imigrante-e-encontrado-em-praia-na-turquia-02092015

25/03/2015

Congresso ameaça reduzir maioridade penal já. Como evitar?


Já era de se esperar que, com um congresso de perfil ultraconservador, o fortalecimento de pautas também muito conservadoras, seria inevitável. Evidente que, dentre essas, a redução da maioridade penal seria uma das primeiras a serem lembradas. E foi.
Cada um de nós pode ajudar enviando Notas assinadas por organizações, bem como manifestações individuais aos deputados que compõem a CCJC. Saiba como ao final do texto.
Os deputados membros da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados, podem aprovar, a qualquer momento, a PEC nº 171, de 1993 (Íntegra página 10), que têm por finalidade alterar a Constituição Federal, para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos.
A CCJC convocou uma Audiência Pública para a próxima terça feira, dia 24 de março. A expectativa é de que, após a audiência pública sobre a PEC da maioridade penal, a proposta seja votada no dia seguinte.
Arthur Lira (PP/AL), novo presidente da CCJC, ao ser inquirido por militantes dos direitos humanos, para que não pautasse o tema, teria negado o pedido de maneira taxativa. Ele disse estar sendo “pressionado por muitos deputados e pelo presidente da Câmara”. A PEC é um primeiros “problemas” a serem resolvidos pela comissão que, diga-se de passagem, é super ocupado por membros da “bancada da bala”.
O Deputado Luiz Couto (PT/PB), relator da proposta, apresentou a conclusão que poderá ou não ser votada. O texto defende que “pelas precedentes razões, por ofender a cláusula pétrea prevista no art. 60, § 4º, IV, da Constituição Federal, bem como por violar o princípio da dignidade da pessoa humana, insculpido no art. 1º, III, também da Carta Política, concluímos pela inadmissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição nº. 171, de 1993″.
A SDH também elaborou um parecer técnico contrário à proposta, esta ainda mais recente, de 5 de março de 2015, defendendo a inadmissibilidade, face à inconstitucionalidade da PEC 171/1993.
Ainda assim, considerando a conformação dos atores membros da CCJC, o risco de aprovação e do posicionamento favorável à referida PEC é iminente.
Aumento do tempo de internação também está na ordem do dia
Antes ainda da divulgação da pauta da CCJC, no dia 09/03 o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já havia dito que colocará em votação, ainda no mês de Março, projetos de lei para combater a criminalidade. Entre eles, estão propostas que visam aumentar o tempo de internação de adolescentes em casos de “crimes graves”. “O governador Alckmin mandou quatro grandes projetos, entre eles, o agravamento de penas contra agente público, policiais, e punição para menor infrator reincidente. É uma série de projetos que são relevantes”. Segundo ele, o objetivo é votar os projetos nos próximos dias.
Embora não seja objetivamente a mesma coisa, a proposta do aumento de pena para crianças e adolescentes que comentem crimes considerados mais graves tem efeito similar à redução da maioridade penal.
Sociedade civil organizada é contra a redução da maioridade penal
Importantes instituições e organizações sociais são contra a ideia de redução da maioridade penal como uma saída para os problemas da violência no Brasil. Entre elas, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, que já emitiu nota sobre o tema. A Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, e o Ministério Público Federal – MPF, também já se posicionaram contrários a medida.
A Fundação Abrinq, que detém assento no Conselho Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente (Conanda) e mantém um trabalho de acompanhamento da pauta do Congresso, também rejeita a proposta de redução e elaborou uma nota técnica sobre o assunto.
Movimento 18 Razões, que articula um conjunto de organizações sociais, mantém um trabalho permanente de comunicação e fomento de motivos pelos quais a maioridade penal não deve ser reduzida.
A Ong Aldeias Infantis, o Conselho Federal de Psicologia, a Pastoral da Criança, a Uneafro-Brasil, a Federação Nacional de Síndrome de Down, o Movimento Nacional de Meninas e Meninos de Rua; o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), a Associação Internacional Mylê Sara Kalí, a Associação Nacional dos Centros de Referência dos Direitos da Criança e do Adolescente – ANCED, o CECUP, o Conselho Federal da OAB, a Associação Lifewords do Brasil, a Associação Brasileira de Educação e Cultura, a Inspetoria São João Bosco-Salesianos, a Central Única dos Trabalhadores – CUT, a Federação Nacional dos Empregados em Instituições Beneficentes, Religiosas e Filantrópicas, a Federação Brasileira das Associações Cristãs de Moços, e dezenas de entidades e movimentos sociais devem se mobilizar nos próximos dias para evitar o que seria um grande risco aos direitos de crianças e adolescentes de todo o país.
Mobilização imediata. Participe!
A Sociedade Civil, a SEDH, o Conanda e um conjunto de Entidades e parlamentares defensores dos Direitos Humanos organizaram uma força tarefa para impedir a aprovação da PEC da redução da maioridade idade penal.
É muito importante a mobilização e participação de movimentos sociais e de todas e todas os/as defensores/as dos direitos da criança e do adolescente também pelas redes sociais.
Cada um e nós podemos incidir, enviando Notas assinadas por organizações, bem como manifestações individuais aos deputados que compõem a CCJC.
Façamos nossa parte!

fonte:http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/congresso-ameaca-reduzir-maioridade-penal-ja-como-evitar/
foto:http://www.geec.org.br/juntospelajuventude/reducao-da-maioridade-penal-justica-ou-vinganca/