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13/06/2017

O consumo de heroína chega a níveis de epidemia nos Estados Unidos



Luis González era viciado em crack e cocaína, foi preso, se recuperou, trabalhou como guarda-costas de um cantor dos Bee Gees e tornou-se monitor de viciados em um centro de desintoxicação. Mas esse homem tarimbado de 59 anos não tinha visto nada parecido com o que está acontecendo agora. “Eles estão indo todos para o cemitério”, diz. A epidemia de opiáceos queima as veias dos EUA. Segundo o The New York Times, em 2016 as drogas mataram mais gente do que nunca, pelo menos 59.700 (uma projeção a partir de dados oficiais do primeiro semestre e que continua subindo desde os 47.000 de 2014 e os 52.400 de 2015). No ano passado, morreram mais norte-americanos do que nos 19 anos da Guerra do Vietnã.
Desse total de mortes, cerca de 35.000 foram devidas ao consumo de heroína pura ou misturada com opiáceos sintéticos ilegais que têm como principal origem a China e que até pequenos traficantes conseguem receber pelo correio depois de fazerem o pedido em sites ocultos da Internet. O composto mais comum de cinco anos para cá, 50 vezes mais forte do que a heroína, é o fentanil –que matou Prince em 2016–, outro mais recente, mas pouco usual, é o carfentanil, 100 vezes mais potente que o fentanil e capaz sedar com uma pitada um elefante de seis toneladas.
Mas nenhum perigo por desmesurado que seja parece espantar um viciado em heroína. “Eu não tenho medo”, afirma Edward [os nomes dos viciados entrevistados são fictícios, a pedido deles], um branco de 31 anos, em Overtown, o mais antigo gueto negro de Miami. “É uma loucura o que estou te dizendo, não? Pois eu não tenho medo. Chega um momento em que você não se preocupa com mais nada. Esta manhã eu me levantei doente, vomitando, e acabei comprando uma heroína de merda, sem nenhuma força. Um lixo”. Dez minutos depois, Edward estava no chão, caído junto a um semáforo, vendo passar os carros.
“A informação disponível sugere que o problema continuará a piorar durante 2017”, diz por e-mail Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (NIDA, na sigla em inglês). “Essa tendência é resultado de uma crise de saúde pública alarmante. A overdose de drogas é a causa de morte mais comum entre os norte-americanos com menos de 50 anos”, acrescenta.
O consumo da heroína subiu nesta década e é consequência da facilidade de acesso que existiu na década anterior ao uso médico de fortíssimos analgésicos legais. Na esteira da batalha dos anos noventa contra as fábricas de cigarro, vários Estados processaram empresas farmacêuticas por terem supostamente incentivado o consumo de medicamentos que causam dependência, influenciando inúmeros médicos que os prescreveram sem restrição. A Flórida se tornou a capital das clínicas que dispensam comprimidos, chamadas pill mil (moinhos de comprimidos).
“Comecei com a oxicodona”, lembra Dylan, um rapaz loiro de série de televisão para adolescentes de 23 anos viciado em heroína. “Odeio estar assim. Eu era um cara muito popular quando era garoto. Mas estraguei tudo”. Ana, de 25 anos e origem porto-riquenha, começou com a heroína de uma maneira chocante: “Meu avô era viciado e injetou-me heroína para me estuprar quando eu tinha 14 anos. Fiquei grávida e abortei”. Agora ela anda sobre a corda-bamba dos coquetéis selvagens que consome: “Desde janeiro eu morri cinco vezes. Cada dia colocam coisas mais fortes na mistura e morro mais do que antes”.
Ana, Edward e Dylan recebem cuidados do Miami Needle Exchange, uma ONG de financiamento privado que lhes dá seringas novas e faz testes de HIV –Miami é a segunda cidade em novas infecções depois de Baton Rouge (Louisiana). Os agentes do programa estacionam o furgão e a briosa coordenadora Emelina Martínez, de 49 anos, sai para caminhar por Overtown para cumprimentar as pessoas, para que saibam que chegaram. Em cada esquina são percebidos movimentos fugidios entre as mãos que distribuem a droga discretamente. Uma branca gaiata e magra como um fio cumprimenta em meio segundo um negro de bicicleta e esconde suas doses sob as calças. “É La Flaca”, diz Emelina. Um rapaz branco, na faixa dos trinta anos, que usa uma camiseta com uma caveira passa de patinete ao lado dela e faz um gesto mal-humorado. “Ele é um dos mais ariscos”, comenta.
Na Flórida, um dos Estados mais atingidos pela praga, mais de 4.000 pessoas morreram em 2016 de overdoses relacionadas com opiáceos, de acordo com cálculos preliminares não oficiais. As estatísticas públicas registraram um aumento de mais de 100% no número de mortes por heroína e fentanil entre 2014 e 2015. Os casos compilados pela imprensa são cada vez mais brutais. No último sábado foi divulgada a autópsia de um casal encontrado morto na madrugada do Ano Novo em Daytona Beach (Flórida) com seus três filhos pequenos na parte de trás do carro. Overdose de fentanil.
Depois de vários anos resistindo, o governador Rick Scott, um republicano muito conservador, declarou estado de emergência de saúde em maio e concedeu 54 milhões de dólares (cerca de 179 milhões de reais) para o próximo biênio que serão investidos em prevenção, tratamento e reabilitação. Os viciados, admitiu Scott, “são filhos, filhas, mães, pais, irmãs, irmãos e amigos e suas tragédias deixam seus entes queridos em busca de respostas e elevando orações para que alguém os ajude”.
Tomando café com Luis González, seu amigo de origem cubana, Danny Tricoche, de origem porto-riquenha, ex-heroinômano de 63 anos e membro de outro centro de reabilitação, diz com amargura: “Antes a droga era coisa dos latinos e dos negros pobres das grandes cidades; agora que foi para os subúrbios dos brancos, ah!, agora sim temos um grande problema”. Os registros de usuários da organização Miami Needle Exchange refletem a nova característica racial da epidemia: 152 são brancos, 117 são latinos e apenas 12 são afro-americanos. Ermelina Martínez diz: “Os jovens negros gostam de maconha, mas não costumamos vê-los consumindo heroína. Eu acho que como cresceram vendo esses viciados em drogas em suas ruas e sabem o que aconteceu com seus pais com o crack na década de noventa, não se metem nisso”. Ela conta que se ao seu furgão chegam profissionais dos bairros acomodados dirigindo seus carros de gama superior, trocam suas seringas sem dizer uma palavra e se retiram.
“Eu não entendo esse massacre” lamenta González, e conta com familiaridade exemplos do novo pesadelo americano que, por causa do trabalho que faz, sabe em primeira mão, como “uma cheerleader da Carolina do Norte que não sai de Overtown”, ou uma dançarina de striptease chamada Strawberry [morango] por seu cabelo ruivo: “Algum tempo atrás ela veio me pedir dinheiro e pedi que tivesse cuidado porque estão jogando fentanil em tudo. Mas ela já estava tão ruinzinha que disse: “O fentanil me cura”. Bom, há um mês foi encontrada morta debaixo de uma ponte. Assim perdemos a Strawberry. Pobre branquinha”.
Dados de uma nação viciada
Os números da epidemia são colossais. Em 2015, dois milhões de norte-americanos tiveram problemas com opiáceos de prescrição e 591.000 com heroína. Essa droga implicou num custo social de 51 bilhões de dólares naquele ano, quase o mesmo montante do novo aumento de gastos militares anunciado pela Casa Branca. Os EUA possuem 5% da população mundial, mas consomem 80% do mercado mundial de medicamentos opiáceos. Policiais e bombeiros começaram a portar doses de naloxona, um antídoto de urgência para overdoses, para intervir nos casos que encontram nas ruas. Nora Volkow, diretora do principal instituto público contra as drogas, afirma que é urgente uma resposta “multifacetada” para a qual defende “pesquisar medicamentos alternativos contra a dor que não causem dependência, desenvolver métodos mais eficazes para neutralizar as overdoses e para o tratamento da dependência; e educar a população, incluindo os médicos”. Trump criou uma comissão contra a epidemia. Em seus discursos definiu-a –ao lado “do crime e das gangues”– como um fator do que chama de “a carnificina americana”.



Reportagem de Pablo de Llano
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/12/internacional/1497295458_563632.html
foto:http://cnecdrogas.blogspot.com.br/2015/06/trabalho-de-heroina.html

11/05/2017

‘Morte Cinza’, o novo coquetel de opiáceos que se alastra pelos Estados Unidos

Desde o boom da heroína do último terço do século passado os Estados Unidos não viviam uma epidemia de opiáceos tão devastadora como a atual. Em 2015 foram registradas 33.000 overdoses mortais por consumo de coquetéis de heroína e outros derivados do ópio. E a ameaça se renova confundindo polícia, cientistas e usuários, que têm cada vez menos segurança sobre o que estão comprando e colocando no corpo. A última novidade nefasta é uma mistura conhecida com o apelido de Morte Cinza.
A substância, de aspecto similar ao cimento, às vezes compacta, às vezes em pó, inclui heroína, fentanil, carfentanil – um tranquilizante tão potente que é usado em tigres e elefantes – e um opiáceo sintético denominado U-47700 ou Pink [Rosa] ou O-4. Os consumidores a injetam, engolem, fumam ou cheiram. A toxicidade é tão alta que os pesquisadores afirmam que o simples toque representa um perigo real para a saúde, já que o composto é absorvido pela pele.
Por enquanto sua presença não é nacional. Foi detectado nos estados de Alabama, Geórgia e Ohio. Na Geórgia foram registradas 50 overdoses ligadas à Morte Cinza nos últimos três meses. “É uma das combinações mais terríveis que vi em 20 anos de análise forense”, disse à Associated Press a perita Deneen Kilcrease, do Governo da Geórgia.
Apesar de o mercado da droga estar sempre um passo à frente da polícia e da ciência em sua capacidade de inovar, a nova geração de coquetéis de opiáceos promoveu uma corrida química voraz que se metamorfoseia cada vez mais rápido e com maior perigo. Os usuários, convencidos de que estão comprando heroína ou outras misturas conhecidas, expõem-se a substâncias desconhecidas e para as quais não existe o mínimo padrão de segurança de consumo. São cobaias dos laboratórios do narcotráfico.
O promotor Mike De Wine, do estado de Ohio, declarou que os cientistas costumavam dar uma resposta certeira quando analisavam essas drogas: “Diziam: ‘Isto é heroína’, ou ‘isto é fentanil’, mas agora acontece que, às vezes, pelo menos inicialmente, dizem: ‘Não sabemos o que é’”. Ohio foi o estado com mais mortes por overdose de opiáceos em 2016, com mais de 3.000.
Uma dose dessas misturas mortais pode ser comprada na rua por menos de 20 dólares.
A epidemia tem suas raízes na explosão de dependentes de opiáceos farmacêuticos na primeira década dos anos 2000. Os controles para a compra dessas substâncias eram frágeis. Quando o Governo dos Estados Unidos reconheceu a gravidade do problema e estabeleceu normas mais rigorosas para a venda desses fármacos, grande quantidade de consumidores migrou para o mercado clandestino em busca de efeitos similares na heroína e nas novas misturas.
Essa onda de mortes afeta sobretudo a população branca trabalhadora. Dos 33.000 falecidos em 2015, 27.000 eram brancos, 2.700 eram negros e 2.500 latinos. Ligada socialmente à depressão socioeconômica da classe média branca tradicional, a epidemia é conhecida nos Estados Unidos como deaths of despair[mortes por desespero].
Reportagem de Pablo de Llano
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/05/10/internacional/1494367579_668341.html
foto:http://bowl-a-roll.com/Youth/Say-No-to-Drugs

19/01/2017

4 em cada 10 usuários na Cracolândia nunca foram avaliados por um médico


Um censo inédito da população da Cracolândia feito pelo programa estadual de combate ao crack, o Recomeço, e obtido pelo Estado revela que quase 40% dos usuários nunca passaram por uma avaliação de saúde. Isso apesar de um terço frequentar a região há mais de cinco anos e de Estado e Prefeitura terem ações voltadas ao tratamento dessa população há pelo menos dez anos. O número de dependentes sem acompanhamento médico pode chegar a 283, tendo em vista a média das contagens de pessoas no fluxo obtida pelo estudo: 709.
“Estou no fluxo há 29 anos”, conta Adailton Ferreira de Souza, de 45 anos, possivelmente um dos frequentadores mais antigos da Cracolândia da Luz. Ele passa o dia sobre um cobertor na Alameda Cleveland, ao lado da mulher, Otaviana Moreira Campos, de 46, grávida de 5 meses. “Nunca fui ao hospital, nunca fiz exame, nada. O pessoal até chama, mas eu não sinto dor no corpo, dor de cabeça, nunca desmaiei, nunca tive tontura. Não preciso, estou bem de saúde”, diz ele. A mulher afirma só entrar nos postos de atendimento da região para “pegar água”. “Nunca fui para o médico nem precisei fazer pré-natal. E olhe que eu tenho dez filhos”, afirma Otaviana.
Coordenado pelo psiquiatra Marcelo Ribeiro e pela psicóloga Clarice Madruga, ambos do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), da Secretaria de Estado da Saúde, o censo ouviu 107 pessoas entre e maio e junho do ano passado. O resultado mostra também que 68% dos dependentes vivem nas ruas, 54% têm filhos menores de idade, 69% estão à procura de ajuda e 31% já sofreram ao menos uma overdose na vida.
“É a primeira vez que se faz um levantamento sociodemográfico da Cracolândia. Saber o perfil das pessoas que frequentam a área é essencial para operacionalizar melhor nossas ações”, diz Ribeiro, que é diretor do Cratod. 
“A pesquisa mostra que mais da metade (dos usuários), 56%, está disposta a largar o crack. É um índice alto, que me surpreendeu. Temos de dar respostas a essas pessoas”, diz Clarice. Para Ribeiro, a responsabilidade do poder público aumenta. “Com o censo, passamos a saber de fato o que sempre imaginamos de forma empírica. O crack não mata sozinho.”
Perfil. No universo dos dependentes que formam a Cracolândia, 79,4% são homens, 16,8%, mulheres, e 3,7% se declaram transexuais. A maioria não trabalha, passou a morar nas ruas em função do vício, não terminou o ensino fundamental e tem origem no Estado - 42% são da capital.
Para o secretário estadual de Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, os dados levantados pela pesquisa indicam que as políticas públicas falharam, apesar dos recursos estaduais e municipais empregados nos últimos anos. E a pesquisa só reafirma a necessidade de se aprimorar as abordagens de agentes sociais. “O novo programa que estamos desenhando em parceria com a Prefeitura (Redenção) vai focar neste aspecto. Vamos criar um padrão de abordagens. A meta será atingir 100% da população, não apenas 60%, como é hoje. Os agentes terão de ser persistentes. Os usuários precisam chegar aos serviços de saúde, que existem e funcionam.”
Sífilis é uma das principais preocupações
O censo ainda confirma alerta dado por muitos especialistas em saúde pública: a dependência química não é a única doença enfrentada pelos usuários. Segundo a pesquisa, uma a cada cinco pessoas da Cracolândia já contraiu sífilis. Tuberculose, hepatite e aids são outras doenças associadas a muitos. Outro dado aponta que 60,6% dos dependentes já trocaram dinheiro por sexo - e, segundo especialistas, a relação sexual é uma das principais maneiras de transmitir as doenças registradas entre os moradores e frequentadores da área. Outros 31% já tentaram se matar. 
“Até hoje a gente trata o crack como se ele fosse um problema de polícia. Não, é problema de saúde pública. A sífilis é mais grave que o vírus zika”, afirma o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Gonzalo Vecina. “A mulher que a contrai terá filhos com sífilis congênita, doença que compromete todo o desenvolvimento do bebê. É muito grave isso, pois estamos falando de uma doença que tem diagnóstico e tratamento baratos.”
Para Vecina, os dados revelados não surpreendem. “Os drogaditos, geralmente, têm baixa imunidade e vivem em condições adversas de vida, o que pode levar, sim, a quadros de tuberculose, por exemplo”, diz, referindo-se à taxa de 12,4% levantada pelo censo. De acordo com o professor, a pesquisa é importante porque mostra claramente os outros riscos a que são submetidos os dependentes, e sem que o Estado atente para isso.
Redenção. O secretário municipal da Saúde, Wilson Pollara, afirma que o futuro programa municipal de combate ao crack vai dividir os dependentes da Cracolândia de acordo com suas características físicas e mentais, a fim de personalizar o atendimento médico dedicado a eles. “Vamos ter classificação específica, que vai nos ajudar na condução das políticas. Cada um precisa ser avaliado individualmente.” 

Reportagem de Adriana Ferraz e Felipe Resk
fonte:http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,4-em-cada-10-usuarios-na-cracolandia-nunca-foram-avaliados-por-um-medico,70001633633
foto:http://www.defato.com/infograficos/195/os-efeitos-do-crack-no-corpo

24/10/2016

Heroína chega à Cracolândia a R$ 50; droga é trazida de países africanos

A heroína chegou ao fluxo da Cracolândia, na Luz, região central de São Paulo. A Polícia Civil investiga um grupo de nigerianos e tanzanianos que está trazendo a substância do oeste da África e a comercializando em pequenas quantidades, que custam R$ 50 – cinco vezes mais cara que a pedra de crack.


Se antes a droga, um opióide extraído da papoula, aparecia apenas de maneira esporádica, agora basta ir ao local para encontrá-la, ainda que comercializada por poucos traficantes. A heroína disponível na Cracolândia é vendida em pequenos sacos, em pó, e é consumida em cachimbos, assim como o crack. O efeito entorpecente é mais fraco do que quando a substância é injetada, mas há maior risco de overdose.
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Os principais usuários da droga não são brasileiros, mas outros africanos que moram na região central de São Paulo, principalmente nigerianos e tanzanianos. O consumo não é generalizado e não é comum encontrar usuários nas ruas, ainda dominada pelo crack.
Estado ouviu agentes de saúde que atuam no local e psiquiatras que confirmaram a presença constante da droga por meio dos relatos de usuários. De acordo com eles, a substância circula há pelo menos dez meses, mas em pequena quantidade. “Eles comercializam à noite e vem até gente de fora para comprar” diz um agente de saúde que atua no local.
A reportagem circulou pelo fluxo com auxílio do agente, que apontou parte dos locais onde há o consumo, mas não foi possível ver nenhum usuário ou traficante que tivesse a substância. “Não é todo mundo que vende, é mais raro que as outras drogas. Para achar usuário, tem que olhar nas barracas”, diz.
Ao menos três dependentes químicos disseram que a droga está circulando, mas negaram consumi-la. “É coisa de gringo, custa caro”, disse um deles. Um dos rapazes ofereceu heroína à reportagem, “que tem efeito que demora mais para acabar”, mas afirmou que precisaria pedir a outra pessoa. Também exigia pagamento antecipado.
Crime. Agentes do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) tentam identificar o grupo de traficantes nigerianos e tanzanianos e a quantidade de droga que circula na região, mas há dificuldades. 
O delegado de polícia Ruy Ferraz Fontes, diretor do Denarc, diz que a droga não fica armazenada no local, como as pedras de crack, que são facilmente vistas em pratos no meio do fluxo. “Eles têm intermediários que são procurados por quem consome e aí vão buscar a droga em outro lugar. E esses intermediários mudam, não são os mesmos”, explica o delegado. “Ainda é um uso bem restrito. O forte da região é o crack, até porque a população dali não tem dinheiro para comprar a heroína, que é mais cara”, explicou. 
A única apreensão de heroína na Cracolândia foi feita em março do ano passado. Dois policiais atendiam a uma ocorrência de suspeita de tráfico de drogas por tanzanianos em um apartamento na Rua General Osório. Quando chegaram na porta do edifício, viram que um homem entrou no local, ficou por cerca de 15 minutos e desceu. Ao abordá-lo, verificaram que tinha uma porção do que mais tarde se confirmou, pela perícia, ser heroína. O homem disse que era usuário e havia comprado a substância de uma dupla de africanos que morava no prédio. Todos foram detidos e o usuário, liberado depois.
Embora os homens não tenham dado informações à polícia sobre a origem da droga – ela é produzida na Ásia, passa pela África e vem para o Brasil –, a suspeita é que pertenciam a nigerianos. Para Fontes, os africanos podem ter feito um acordo com o PCC, que domina o tráfico no local. “Sem autorização eles não conseguiriam vender nada.” Fontes disse que o grupo atuaria na Cracolândia há mais tempo do que foi detectado pelos agentes de saúde. Segundo o ele, o bando está lá há pelo menos um ano e três meses. 
Apesar das incursões feitas no fluxo, com câmeras escondidas, a heroína não é vista na ‘feirinha” de rua. “Sabemos que há uma rotatividade, mas em pequena quantidade”, diz Fontes.
Consumo. O psiquiatra e coordenador do programa Recomeço do governo estadual, Ronaldo Laranjeira, disse que o núcleo que atua no local, o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), tem relatos do uso da heroína, principalmente da população africana, mas ainda não se sabe a dimensão do consumo. “Não temos um diagnóstico claro da rede ou da extensão do problema”, diz. 
Ele diz que, embora o núcleo tenha medicação para tratar da abstinência da droga, não há evidências, por enquanto, de que a substância vá se espalhar. “Por que o ecstasy não é mais consumido que o crack, por exemplo? Porque o crack custa R$ 10 e o ecstasy, R$ 50. Essas drogas (heroína e ecstasy) têm um ciclo mais restrito”.
Embora a droga não tenha se espalhado, especialistas apontam para o risco de a substância, com altas chances de overdose, ganhar mais adeptos, por causa do ambiente favorável ao consumo. “Um dos fatores de risco para o consumo de drogas é o ambiente. Essa população da Cracolândia está exposta à heroína. Não estão consumindo, mas podem consumir. Não é nem pelo prazer, mas pelo comportamento de experimentação, pela curiosidade”, diz a pesquisadora do Instituto de Políticas sobre Drogas (Inpad) e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ana Cecília Marques. 
Ela explica ainda que a substância fumada, com efeito mais fraco que a injetada, pode ter consequências ainda mais graves. “Tão rapidamente quanto outras drogas fumadas, ela chega no cérebro e já faz sua ação de droga depressora. A heroína mata mais do que cocaína.” 
O diretor médico do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da USP, Anthony Wong, diz que a existência de uma comunidade de usuários de heroína, ainda que pequena, é um risco que deve ser combatido assim como o crack. “Há 20 anos ninguém sabia o que era o crack. E já se dizia: se esse negócio ficar sem controle, vai ser a maior tragédia que o Brasil verá. Hoje o crack é um dos maiores problemas de saúde pública. E com a heroína, uma das drogas que causam dependência mais rapidamente, não deve ser diferente.” Wong afirma ainda que, se a substância for injetada, aumentam os riscos de doenças transmitidas com agulhas.
Dados. O relatório mundial sobre drogas da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2016 aponta que os opiáceos (ópio, heroína e morfina) têm cerca de 17 milhões de usuários pelo mundo.
O número global de usuários, segundo o estudo, mudou pouco nos últimos anos, afetando 0,4% da população global de 15 a 64 anos em 2014. A concentração do uso, segundo a ONU, acontece na seguinte ordem: Ásia oriental, Ásia central, Europa e América do Norte. 
Mesmo com uma queda de 38% na produção de ópio, o órgão vê baixa possibilidade de redução no consumo. O relatório destaca que houve um aumento do uso de heroína na América do Norte na última década, o que explica o aumento no número de overdoses pela droga.
Já na Europa, o consumo vem caindo. O Brasil não é citado no capítulo que fala sobre a droga - o destaque do País é em cocaína.
O Irã registrou a maior quantidade de opiáceos apreendidos, respondendo por 75% da apreensão mundial em 2014. De toda a morfina apreendida no mundo, 61% vieram do país, além de 17% de toda a heroína. A Turquia aparece no relatório em segundo lugar nas apreensões de heroína, seguida pela China, Estados Unidos, Afeganistão e Rússia. 

Reportagem de Luis Fernando Toledo
fonte:http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,heroina-chega-a-cracolandia-a-r-50-droga-e-trazida-de-paises-africanos,10000083912
foto:http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,heroina-chega-a-cracolandia-a-r-50-droga-e-trazida-de-paises-africanos,10000083912

01/07/2016

Por que a América Latina é a região onde mais cresce o consumo de cocaína no mundo

Antes considerada uma droga para ricos, a cocaína hoje é usada em favelas de São Paulo, bares de Montevidéu ou universidades de Bogotá.
A droga e seus derivados estão em setores de baixo nível socioeconômico, classes médias, entre jovens e adultos, universitários e homens de negócios.
O consumo de cocaína na América do Sul supera em quatro vezes a média mundial.
E não fica só nisso. O Cone Sul desbancou a Europa como a segunda região com mais usuários, atrás apenas da América do Norte.
Os dados aparecem em relatório divulgado nesta semana pelo UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime).
O mesmo relatório aponta que o consumo de cocaína no Cone Sul disparou mais do que em qualquer outra parte do mundo entre 2009 e 2015, e que sua porcentagem de usuários se aproxima cada vez mais do índice dos Estados Unidos.
A América do Sul não é mais a região que apenas abastece os mercados de cocaína de América do Norte, Europa e Ásia. Tem seu próprio mercado e o número de consumidores avança rapidamente.
E de modo mais veloz do que o resto do mundo, aponta o informe do UNODC.

Dimensão do crescimento

Enquanto 1,6% da população da América do Norte experimentou ou usou cocaína no último ano, o índice chegou a 1,5% na América do Sul.
A média mundial é 0,4%.

Consumo de cocaína na América do Sul
PaísPorcentagem de uso na população
Uruguai1,8%
Brasil1,75%
Chile1,73%
Argentina0,73%
Colômbia0,70%
Peru0,69%
Venezuela0,64%
Bolívia0,36%
Paraguai0,25%
Equador0,08%
Média1,5%
Fonte: Relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC)


Segundo Angela Me, chefe de investigações e análise de tendências do UNODC e principal autora do estudo, diferentes fatores explicam a alta no uso de cocaína na América do Sul.
"Além do aumento na renda em toda a região, a cocaína agora tem um mercado maior. A cocaína costumava ser uma droga para gente rica, mas agora temos países como o Brasil onde a droga se usa em outras camadas da sociedade",disse a pesquisadora à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Outro elemento, diz Angela Me, é o aumento no número de consumidores esporádicos, que não usam a droga regularmente.
"Por isso há um incremento na quantidade de consumidores, mas não tanto no volume de cocaína usada", diz.
Na avaliação do pesquisador Ricardo Soberón, ex-chefe antidrogas do Peru, o relatório mostra como a produção da folha de coca e da cocaína cresceram na esteira do aparecimento de novos mercados.
"Isso está levando a um problema complexo de ordem global", afirmou Soberón.

Por que tantos novos consumidores?

O Uruguai encabeça a lista de países sul-americanos com maior número de consumidores.
Sua porcentagem (1,8%) supera a da América do Norte (México, Canadá e EUA, 1,6%), embora ainda esteja abaixo da dos EUA (2,1%).
O jornalista Guillermo Garat, autor do livro "Maconha e outras ervas: proibição, regulação e uso de drogas no Uruguai", ressalta, sobre o líder de consumo na região, que o Uruguai tem renda per capita alta em comparação com outros países do continente.
"A cocaína é muito barata (de US$ 11 a US$ 15 o grama) e praticamente não mudou de preço desde o ano 2000", diz Garat.
O jornalista lembra ainda que na região a cocaína costuma estar "disponível 24 horas, mediante apenas uma chamada telefônica".
"A cocaína também está territorializada. Há bares em todas as camadas da sociedade onde sempre há traficantes. É muito provável que um usuário de drogas ou um amigo tenha o telefone de um traficante".
Segundo Angela Me, o relatório mostra que o consumo de drogas cresceu em geral no Uruguai, e não se trata apenas de cocaína.
Sobre o Brasil, a pesquisadora diz que é preciso considerar o índice alto de consumo de derivados da cocaína de baixa qualidade, como o crack e outras substâncias feitas a partir de resíduos da pasta-base.
Situação semelhante ocorre na Argentina e no Chile.
Com a disponibilidade de substâncias de baixa qualidade e preço, o número de consumidores e de viciados sobe.
Nos últimos dois anos, países como Bolívia e Peru redobraram esforços para conter o corredor aéreo de tráfico de cocaína que conecta seus países ao Brasil, maior mercado da região.
Autoridades bolivianas e peruanas chegaram a apontar que até 20 aviões de pequeno porte por dia realizavam os chamados "narcovoos" ao Brasil.

Alternativas

O UNODC defende a necessidade de novas políticas públicas para enfrentar esse aumento no número de usuários de cocaína na região.
"O primeiro a se fazer é prevenção. Trabalhar com famílias e nas escolas. Criar programas específicos focados na população jovem para prevenir o consumo de drogas", diz Angela Me.
A integrante do UNODC diz ainda que os países precisam pensar políticas para os consumidores de drogas, com ações de tratamento para conter consequências pessoais e sociais do uso.
Contudo, os próprios países sul-americanos questionam a baixa efetividade da comunidade internacional para mudar as políticas públicas nessa área.
Governos de países como Bolívia, México, Uruguai e Guatemala apresentaram posicionamentos críticos na última sessão especial da ONU sobre drogas, em abril.
Disseram considerar, por exemplo, que declarações da ONU não avançam de fato rumo a uma mudança real de paradigma na luta contra as drogas, e propuseram novas medidas em relação á regulação e legalização de substâncias controladas.

Reportagem de Boris Miranda
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/internacional-36682622#orb-banner
foto:http://eridannovidades.blogspot.com.br/2015/04/o-hipnotista.html

30/04/2016

A heroína golpeia os brancos dos EUA

A cidade de Dayton, em Ohio, é o epicentro de um vício cujas vítimas mortais quadruplicaram.





A mãe viu um dia que sua filha tinha marcas no braço.
“O que é isso?”, perguntou.
“Você sabe “, respondeu April.
Lori Erion tinha levado sua filha ao hospital. Achava que estava sofrendo de desidratação. Lá descobriu que April era viciada em heroína: uma das dezenas de milhares de pessoas golpeadas pelo que as autoridades chamam de epidemia de heroína.
O episódio de April ocorreu há quatro anos: Lori Erion – uma mulher pequena e combativa de 56 anos, uma mãe corajosa da comunidade local – repete a história a quem quiser ouvir. Em Dayton, sua cidade, não é um episódio incomum.
Dayton (Ohio) é uma das capitais da heroína nos Estados Unidos. É também a sede do condado de Montgomery, uma área urbana de meio milhão de habitantes. Em 2010, morreram 127 pessoas de overdose neste condado. Em 2014, o último ano com dados completos disponíveis, morreram 264.

A cidade de Dayton é um espelho ampliado das tendências em todo o país. Entre 2002 e 2013, as mortes por overdose de heroína nos Estados Unidos quadruplicaram. Morrem mais pessoas por drogas – a maioria, opiáceos como a heroína e outros analgésicos – que por acidente de trânsito. Entre as pessoas de 18 a 25 anos, como April, a filha de Lori Erion, o consumo de heroína dobrou.
Overdoses são rotineiras. “Ontem à noite tivemos seis casos e ainda 12 presos por uso de drogas”, diz o xerife Phil Plummer em seu escritório no centro de Dayton. “Na semana passada tivemos 14 overdoses em um dia. Um recorde”.
Em frente ao gabinete do xerife, do outro lado da rua 2, está a cadeia do condado, um edifício de cimento com quatro andares. Todos os anos, diz Plummer, mantê-la em funcionamento custa 20 milhões de dólares (cerca de 80 milhões de reais). Ali vivem cerca de 850 presos. A metade, por casos relacionados com drogas.
Plummer, nascido e criado em Dayton, lembra sua infância, quando havia trabalho e gigantes como a General Motors tinham fábrica aqui. Ohio pertence ao rust belt, o cinturão da ferrugem: o coração industrial dos Estados Unidos, hoje em declínio. Com a concorrência de países com mão de obra mais barata a partir dos anos setenta, a robotização do trabalho e a complacência das empresas, as fábricas começaram a perder postos de trabalho até fecharem. Bairros inteiros ficaram semi abandonados. O colapso das expectativas vitais preparou o terreno para a frustração.

“Vi como o lugar mudou”, diz o xerife.

Para explicar por que Dayton é uma capital da heroína, o xerife aponta para a posição geográfica da cidade, no cruzamento das estradas I-75 e I-70: uma corre de norte a sul; a outra, de leste a oeste. As estradas que vão de Nova York a Los Angeles, de Chicago ao México, se cruzam aqui.
Pelas estradas chegam caminhões, ônibus e carros trazendo a heroína mexicana. Por essas estradas viajam os clientes, que dirigem por duas horas, a três condados de distância, para comprar em Dayton.
Quem conta isso é o xerife-adjunto Herbert Thornton enquanto patrulha as ruas do oeste de Dayton. Casas de família, apartamentos públicos, jardins descuidados, poucas lojas, um restaurante de fast-food: Thornton conhece esses bairros como sua sala de estar. Olha à esquerda e à direita, ao longe.
Cumprimenta um vizinho. São 15h. Há meia hora, ele e oito oficiais à paisana prenderam dois traficantes em uma casa. Sérios, com os olhares perdidos, os traficantes entraram algemados em um veículo. Os vizinhos – crianças, adultos – saíram na rua para olhar, curiosos.
A patrulha continua. “Tento me concentrar nos carros estacionados em frente às casas”, diz Thornton. Outro indício: “Se vejo um carro ocupado por brancos, isso desperta mais suspeitas, porque esta é uma área tipicamente negra”.
Thornton é branco, assim como o xerife, e como Lori Erion e sua filha – e como quase 90% dos novos consumidores de heroína dos Estados Unidos. Os traficantes detidos eram negros.
Na outra ponta de Dayton, em um escritório do aprazível campus da Escola de Medicina Boonshoft, os professores Robert Carlson e Raminta Daniulaityte debulham os resultados de um estudo pioneiro.
Durante três anos, eles seguiram um grupo de 383 pessoas em Ohio que consumiam opiáceos farmacêuticos sem serem viciados. Desses, 27 acabaram começando a consumir heroína durante esse período – injetada ou aspirada sobretudo, mas também fumada. A transição dos medicamentos analgésicos como OxyContin para a heroína ilumina uma das causas da crise.
Para muitos dependentes, o consumo de medicamentos que alguns médicos receitavam sem muita dificuldade abriu caminho para o consumo de heroína.
Outra conclusão chamativa do estudo: apesar de metade dos participantes serem negros ou membros de outras minorias, todos os que acabaram consumindo heroína eram brancos, à exceção de um hispânico.
Um possível motivo é que negros e brancos se deslocam por círculos sociais distintos – negros e brancos separados, sem contato. Outro é que os negros dos Estados Unidos já sofreram da epidemia há décadas e aprenderam a lição.
“Alguns se justificam [nas entrevistas do estudo] dizendo: ‘Vi o que a heroína foi capaz de fazer com meus tios, meus parentes de outra geração. Para nós, a heroína é uma droga tão suja que não a tocaremos”, conta Daniulaityte.
“Agora não é como nos anos sessenta, quando, ao pensar na dependência da heroína, pensávamos no gueto, nos negros pobres”, diz Carlson. “Já não é mais assim. Há jovens brancos de todos os níveis da sociedade: filhos e filhas de médicos, de psiquiatras, jovens que vivem em bairros residenciais abastados, assim como jovens brancos de um status socioeconômico mais baixo”.
O fato de a heroína ser uma droga de brancos talvez explique por que já não se demoniza seus consumidores como se fazia há algumas décadas, quando estes eram negros, e por que os políticos deixam de lado a retórica da mão de ferro a favor de políticas preventivas e de reabilitação. Também há quem veja na epidemia atual um sintoma mais profundo da insatisfação dos brancos norte-americanos. Na arena política, essa insatisfação se traduz nos milhões de votos conquistados por Donald Trump, um candidato que busca o apoio desse grupo com mensagens contra as elites e os imigrantes.
Em 2013, depois de descobrir que sua filha, April, era viciada em heroína, Lori Erion fundou a organização Families of Addicts (“Famílias de dependentes”), que reúne os adictos, seus familiares e amigos. Às quartas-feiras, eles se reúnem em um centro comunitário de Dayton. Há comida, refrigerantes e café. Um convidado dá uma palestra – hoje é o capelão de um asilo, que fala da perda e do luto. Depois, os presentes fazem perguntas e conversam.
“E como está April?”, pergunto a Lori antes de entrar na sessão da Families of Addicts.
“Ela está ‘limpa’ há dez meses”, intervém uma amiga.
Lori esclarece: “Ela está na prisão desde 1o de setembro”.
Na sexta-feira, ela saberá se April, que acaba de completar 22 anos, já pode ser libertada ou se terá de esperar até o fim de agosto.

Reportagem de Marc Bassets
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/28/internacional/1461795411_137643.html
foto:http://aprenderociclodavida.blogspot.com.br/2013_06_01_archive.html
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