28/02/2012

Novo projeto retira mudanças polêmicas em novo CPC


Enquanto tramita na Câmara dos Deputados, sob críticas, projeto do novo Código de Processo Civil feito pela comissão de juristas nomeada pelo Senado e já aprovado na casa, uma nova proposta pretende apaziguar os ânimos ao aproveitar as novidades, mas excluir itens que geram divergências. O Projeto de Lei 2.963/2011, do deputado Miro Teixeira, foi apresentado em dezembro do ano passado e, neste mês, direcionado à comissão especial da Câmara que avalia os projetos relacionados ao tema, inclusive o PL 166/2010, do Senado.
A nova proposta segue a linha do que foi aprovado no Senado. Não extingue, no entanto, os agravos retidos e os embargos infringentes, nem diminui o tamanho dos agravos de instrumento. A principal diferença é que os juízes não ganham os poderes cautelares e antecipatórios que o PL 166 criou. De outro lado, ficam mantidas ideias que conseguiram consenso, como a conciliação no início do processo, o desaparecimento da exceção de incompetência e da impugnação ao valor da causa, a citação eletrônica e os incidentes de desconsideração da personalidade jurídica e da resolução de demandas repetitivas. Ficam também as menções ao tratamento da advocacia e da defensoria públicas, da assistência judiciária e a modernização da disciplina dos honorários, do duplo grau obrigatório e do agravo de instrumento.
Um dos superpoderes tirados dos juízes no projeto de Miro Teixeira é o de deferir cautela de ofício, para além do pedido feito pelas partes, de forma genérica e não baseada em regra expressa. O juiz também deixa de poder intervir na atividade empresarial e de alterar prazos processuais ou inverter a ordem de produção das provas como bem entender, como aprovado no Senado. O texto do projeto da Câmara também exclui artigo que diz expressamente que o magistrado pode decidir com base nos princípios da dignidade da pessoa humana, da razoabilidade e da proporcionalidade. Para os críticos, menções abstratas podem dar ensejo a arbítrios e decisões sem base legal.
Retornam o arresto, o sequestro, a busca, a apreensão e o arrolamento de bens, excluídos da proposta no Senado. O novo projeto devolve também a exceção de suspeição do juiz, mas mantém excluída a exceção de incompetência, julgada em paralelo ao processo principal. Esse tipo de discussão passa a ser feita dentro do próprio processo.
O projeto de Miro Teixeira também inclui o agravo retido, retirado pelo Senado. Esse tipo de contestação fica retida dentro do processo para ser apreciada em tempo oportuno e permite ao juiz voltar atrás em uma decisão. Voltam ainda procedimentos especiais como a ação monitória, o usucapião, a nunciação de obra nova, a prestação de contas pelo devedor e a consignação em pagamento em caso de dúvida.
A proposta permite que conciliações sejam feitas por câmaras privadas. As pessoas jurídicas, associações ou tabelionatos poderão criar suas próprias câmaras de conciliação. Hoje, isso só existe para causas extrajudiciais. No projeto do Senado, essa atividade foi atribuída ao Judiciário, mas Miro Teixeira propõe tirar a exclusividade da Justiça. Dessa forma, assim que um processo começar, o juiz poderá ordenar a conciliação em uma câmara privada.
Cai também a limitação do agravo de instrumento para apenas 10 itens. O novo projeto amplia para mais hipóteses, como quando o juiz indefere pedido de prova pericial ou de exibição de documento, ou se fixa honorários em valor exorbitante. Pela proposta do Senado, todas essas contestações só seriam julgadas na apelação, o que hoje chega a demorar três anos em alguns casos. “Se isso passar, os advogados irão entupir os tribunais com mandados de segurança”, alerta o professor de Teoria Geral do Processo e Direito Processual Civil da Faculdade de Direito da USP Antônio Cláudio da Costa Machado. O professor foi um dos autores dos 2,5 mil comentários sugerindo mudanças no projeto do Senado em consulta pública feita pela Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça. O resultado da consulta foi entregue no dia 8 de fevereiro pelo secretário Marivaldo Pereira ao deputado Sérgio Barradas (PT-BA), relator, na Câmara dos Deputados, da proposta do Senado.
Miro Teixeira também devolve os embargos infringentes, em que uma votação por maioria em segundo grau é feita novamente caso o voto vencido seja no mesmo sentido da decisão de primeiro grau. “Isso qualifica as decisões. Se nem o tribunal se entende, por que não admitir?”, questiona Machado. Segundo ele, o recurso é usado em apenas 2% das causas. Mesmo assim, a proposta desagrada a julgadores dos tribunais, que consideram o recurso mera postergação da solução final.
Pondo fim à discussão criada pela Emenda Constitucional 66, de 2010, o projeto restabelece a possibilidade de separação consensual. A chamada emenda do divórcio tornou mais simples os procedimentos ao deixar de exigir a separação judicial de um ano ou a separação de fato de dois anos para se deferir o divórcio. No entanto, a emenda não deixou claro se a separação consensual ou litigiosa foi extinta. Segundo especialistas, mesmo que isso tivesse ocorrido, a emenda dependeria de uma alteração no Código Civil ou na Lei do Divórcio, a Lei 6.515/1977.
De outro lado, pelo Projeto 2.963 ficam mantidos a antecipação de tutela e os procedimentos específicos do processo cautelar. Também permanecem o incidente de resolução de demandas repetitivas e o incidente de desconsideração da personalidade jurídica, inseridos no CPC pelo Senado. O projeto mantém a reformulação sobre o tratamento dos honorários advocatícios, que define parâmetros para a redução quando a Fazenda Pública é derrotada. Em caso de valores expressivos, o teto é de 1%. As previsões de prestação de assistência judiciária pela defensoria e pela advocacia públicas ficam mantidas conforme definição do Senado, assim como o auxílio direto de um juiz em relação ao outro, sem formalidades rigorosas, como no caso de colaboração para se ouvir testemunhas ou para fazer diligências.
Entre 12 de abril e 16 de maio de 2011, o Ministério da Justiça colheu opiniões sobre as mudanças propostas no Senado. Ao todo, foram colhidos 2,5 mil comentários e sugestões acerca de cada um dos 1.007 artigos do projeto. A Secretaria de Assuntos Legislativos resumiu o resultado em mais de cem sugestões de alteração.
Em outubro de 2009, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), instaurou uma comissão de juristas para elaborar o anteprojeto do novo CPC. Em 8 de junho de 2010, a comissão entregou o anteprojeto ao presidente do Senado. Entre os diversos pontos abordados no anteprojeto estavam a redução do formalismo processual e do número de recursos, o incentivo ao uso da mediação como meio para a solução de conflitos e a criação mecanismos que permitam a solução conjunta de demandas repetitivas.
Para Clito Fornaciari Júnior, professor e membro das Comissões de Direito Civil e de Direito Processual Civil da International Bar Association, a existência de órgãos conciliadores fora da Justiça prejudicam a observância das regras do devido processo legal. Ele concorda, no entanto, com a limitação de poderes aos juízes em relação ao uso de princípios como os da dignidade da pessoa humana, da razoabilidade e da proporcionalidade. “São regras que servem para alimentar a lei e não para interpretar a lei”, diz. “O devido processo legal exige regra expressa e muito clara de processo, a fim de que a lei processual não seja apenas aquilo que o juiz entende que deve ser.”
Segundo ele, com as seguidas mudanças, a proposta de um novo Código se aproxima ainda mais do atual, o que põe em dúvida a real necessidade de novo regramento. “A mudança de uma lei processual é mais problemática do que a mudança de uma lei de direito material, pois se mexe na ferramenta, no modo de se trabalhar e não no conteúdo das questões”, afirma.

Reportagem de Alessandro Cristo
foto:porsimas.blogspot.com

27/02/2012

Pesquisa pode ajudar a identificar melhor os sintomas que antecedem a menopausa


Especialistas identificaram padrões de alguns problemas experimentados antes do período e como, e por quanto tempo, eles persistem.


Um novo estudo publicado neste mês na revista British Medical Journal (BMJ) pode auxiliar os médicos a identificar melhor os sintomas que antecedem a menopausa, assim como prever por quanto tempo eles vão durar durante a pós-menopausa. A pesquisa, conduzida na Universidade de Queensland, na Austrália, junto ao Conselho de Pesquisa Médica da Grã-Bretanha, estabeleceu perfis de acordo com os sintomas que podem aparecer nas mulheres antes da menopausa, determinando um padrão que relaciona intensidade e duração dos problemas antes e depois dessa fase.
Segundo o levantamento, a gravidade e a amplitude dos sintomas que as mulheres experimentam na meia-idade têm padrões e gravidade diferentes, e essas características presentes antes da menopausa podem determinar como a mulher se sentirá durante essa fase. Por exemplo, os especialistas indicaram que mulheres que experimentam sintomas leves antes de entrar na menopausa têm menos riscos de desenvolverem sintomas graves posteriormente.
A pesquisa — Para chegar às conclusões, os pesquisadores basearam-se em dados de 695 mulheres que participaram do Estudo Longitudinal Australiano, uma pesquisa anual feita com mulheres de meia idade. Elas tinham entre 47 e 54 anos e haviam passado pela menopausa, mas nenhuma havia feito tratamento hormonal ou histerectomia. Elas informaram sobre 20 sintomas de saúde em comum, que foram classificados em quatro grupos: psicológicos (como ansiedade e depressão); somáticos (como dores de cabeça e nas articulações); vasomotores (ondas de calor e suores noturnos, por exemplo); e desconforto sexual. Os pesquisadores concluíram que, exceto os somáticos, todos os outros sintomas tinham relação direta com a menopausa na maioria das mulheres.
Após observarem a duração e a intensidade dos sintomas, os especialistas identificaram os padrões existentes e classificaram as mulheres de acordo com os perfis de sintomas de cada uma. Por exemplo, as participantes que apresentaram sintomas psicológicos graves antes da menopausa tinham mais chances de atingir uma intensidade maior do problema um ano após o início desse período.
Outro padrão foi encontrado entre as mulheres cujos sintomas vasomotores graves começaram antes da menopausa e aumentaram até a chegada do período: elas tendiam a sentir cada vez menos calores após a menopausa. Já aquelas que experimentaram esses sintomas mais tardiamente, as chances de conviver com eles durante quatro anos ou mais após a menopausa eram maiores. Curiosamente, os pesquisadores também observaram que mulheres com maiores níveis socioeconômico e de educação tinham menos chances de sofrer com sintomas vasomotores.
"Embora ainda seja ideal comparar os nossos resultados com os de outros estudos, acho que os perfis de sintomas fazem parte de um movimento em direção a uma abordagem mais adaptada às mulheres que estão próximas da menopausa. Nossa pesquisa indica que os profissionais de saúde podem fazer uma avaliação mais clara sobre o que as mulheres podem esperar nesse período com base no seu histórico de sintomas. Isso seria vantajoso não só em termos de garantia, mas na seleção de opções de tratamento", afirma Gita Mishra, coordenadora do estudo.

foto:ricasaude.com

Projeto de Lei visa legalizar o ensino domiciliar

Os entusiastas da educação domiciliar - aquela em que os pais são os responsáveis pela formação escolar dos filhos em casa - terão mais uma chance de tornar a modalidade legal.  Entrou em análise na Câmara dos Deputados este mês um projeto que prevê a possibilidade de a educação básica ser feita em casa, desde que com supervisão e avaliação periódicas. No ano passado, outra proposta havia sido rejeitada.
O Projeto de Lei 3179/12, do deputado Lincoln Portela (PR-MG), inclui dispositivo na Lei de Diretrizes e Bases da Educação facultando aos sistemas de ensino admitir a educação básica domiciliar, sob a responsabilidade dos pais ou responsáveis pelos estudantes desde que monitorem o resultado.
A Constituição Federal estabelece a educação como um dever do Estado e da família e determina também a obrigatoriedade da educação básica dos quatro aos 17 anos de idade.  Para o autor, isso não impede que seja feita em casa. “Não há impedimento para que a formação, se assegurada a sua qualidade e o devido acompanhamento pelo Poder Público certificador, seja oferecida no ambiente domiciliar, caso esta seja a opção da família do estudante”, disse.
Na prática, já há casos
Atualmente, mesmo sem base legal, há várias famílias que fazem esta opção. De acordo com a Associação Nacional de Ensino Domiciliar (Aned) são cerca de 400. Em geral, elas travam batalhas judiciais ao serem questionadas por conselhos tutelares. Há casos vencedores, como o do professor paranaense Luiz Carlos Faria da Silva, que conseguiu a permissão, e do designer Cleber Nunes, que perdeu todos os processos - mesmo assim foi até o fim e concluiu a formação dos filhos adolescentes.
O deputado Portela argumenta que garantir na legislação ordinária essa alternativa é reconhecer o direito de opção das famílias com relação ao exercício da responsabilidade educacional para com os filhos. “Não podemos descuidar do imperativo em dar acesso, a cada criança e jovem à formação educacional indispensável para sua vida e para a cidadania”, afirma o autor do projeto. Existe um número crescente de famílias no Brasil e no exterior que tem optado por educar suas crianças em casa, com ou sem a ajuda de professores particulares. O projeto  ainda será distribuído às comissõres antes de ser analisado.
Em 2008 uma proposta semelhante foi feita pelo Projeto de Lei 3518/08, feito pelos deputados Henrique Afonso – PT/AC  e  Miguel Martini – PHS/MG e que propunha igualmente que a educação pudesse ser feita de modo domiciliar e supervisionada por alguma instituição credenciada.
O ensino domiciliar ou doméstico é legalizado em vários lugares do mundo, como nos EUA, onde é chamado de "homescholling", porém é considerado como "abandono intelectual" pelo Ministério Público e é ilegal no Brasil.

foto:claudeko-claudeko.blogspot.com

TVs brasileiras só serão interativas em 2013


O governo federal cedeu aos apelos dos fabricantes de televisores digitais e decidiu adiar para 2013 a obrigatoriedade de incluir o software Ginga nos aparelhos produzidos no país. A partir do ano que vem, 75% dos aparelhos de televisão produzidos na Zona Franca de Manaus deverão vir equipados com o software, que garante a interatividade no sistema de TV digital adotado no Brasil. 

O percentual deverá ser ainda maior a partir de 2014, ano da Copa do Mundo. Depois de 1º de janeiro de 2014, 90% dos aparelhos deverão vir com o Ginga. A proposta inicial do governo era incluir o Ginga no PPB (Processo Produtivo Básico) para pelo menos 75% de todos os televisores com tela de cristal líquido a partir deste ano, mas a indústria reivindicou mais prazo para a conclusão dos testes. Os fabricantes queriam que em 2013 o percentual de televisores com o software fosse de 50% e em 2014, 95%.

De acordo com a portaria elaborada pelos ministérios do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Ciência, Tecnologia e Inovação, os fabricantes que optarem pela produção de aparelhos interativos ainda em 2012 serão beneficiados com a redução do percentual obrigatório para o próximo ano. A portaria também define que modelos de TV do tipo conectada (com acesso à internet) deverão vir obrigatoriamente com o Ginga.

A razão para essa medida, no entendimento do governo, é de que não há necessidade de as empresas adicionarem nenhum componente ao televisor. O Ginga é um middleware (camada de software intermediário) que possibilita, por exemplo, que o telespectador consulte informações sobre a programação, faça compras e acesse dados bancários pela televisão. É totalmente desenvolvido em código livre e, portanto, qualquer empresa pode criar sua própria implementação.

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Honduras cria comissão para investigar presídios


Após o incêndio que matou mais de 350 pessoas, o presidente de Honduras, Porfirio Pepe Lobo, anunciou a decisão de criar uma comissão especial, formada por seis ministros. O objetivo é investigar o sistema penitenciário do país e apontar alternativas para evitar que o colapso nos presídios se repita. 
No dia 14, um incêndio atingiu a penitenciária de Comayagua, no norte de Honduras. No local havia mais de 800 pessoas, o dobro da capacidade de detentos. Ainda há 471 detentos hospitalizados. Os parentes dos mortos  pressionam as autoridades para a liberação dos corpos e a investigação das causas do incêndio. As autoridades informaram que há dificuldades na identificação dos corpos devido à gravidade das queimaduras. A Organização das Nações Unidas (ONU) também cobra uma investigação criteriosa sobre a situação dos presídios em Honduras.
Pelos dados das organizações de direitos humanos do país, 24 prisões enfrentam problemas de superlotação. Segundo essas organizações, as penitenciárias foram construídas para abrigar cerca de oito mil prisioneiros, mas sua capacidade foi excedida em até 50%. Em julho de 2010, o governo hondurenho declarou emergência em nove prisões que entraram em colapso por superlotação.
De acordo com o presidente de Honduras, farão parte da comissão os ministros dos Direitos Humanos, Ana Pineda; de Segurança, Pompeu Bonilla; de Planejamento, Julio Raudales; de Investimento Social,  Edgar Martinez; da Família, Felipe Morales; e do Desenvolvimento Social, Hilda Hernandez.

foto:noticias.r7.com

Bacharéis sem trabalho processam faculdades nos EUA


E quanto a qualidade de ensino? Será que está não deve ser a preocupação primordial não apenas dos estudantes de Direito mas de todo universitário? E neste sentido o que observamos é, infelizmente, muita propaganda enganosa, que terá como consequência a formação de profissionais com qualificação inferior a almejada pelo mercado de trabalho e pela sociedade. Como mudar isso? 

Nos Estados Unidos, estudantes de Direito que se formam mas não encontram trabalho, já têm o que fazer nos tribunais: processar as faculdades de direito. Apenas neste mês, um grupo de sete firmas de advocacia, que representa bacharéis desempregados, já moveu ações coletivas contra 12 faculdades de direito e está pronto para processar mais 20. O grupo promete transformar 2012 no "ano do contencioso contra faculdades de direito". Essa é a nova onda de ações judiciais no país, diz o site Above the Law.
Os bacharéis estão processando as faculdades de direito por danos, resultantes da publicidade enganosa das faculdades e de indução a erro. Os anúncios da faculdades de direito em seus sites e em diversas publicações convencem futuros universitários de que vale a pena investir em curso de Direito, porque o mercado de trabalho está melhor do que nunca. Para se formar em advocacia, os estudantes contraem uma dívida média de US$ 150 mil, nos EUA. Mas, quando terminam o curso não encontram trabalho, nem mesmo vaga de estagiários.
No entanto, o professor da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, Brian Leiter, que escreve um blog bastante popular sobre educação jurídica, afirma que as ações coletivas têm pouca chance de sucesso. Tudo que as faculdades de Direito têm de fazer é declarar que seguiram as regras estabelecidas pela American Bar Association (ABA — a ordem dos advogados dos EUA). Nove de 15 faculdades denunciadas nas ações (três foram processadas no ano passado, somando-se às 12 processadas este mês) já declararam à agência Reuters que não fizeram nada de errado.
O fato é que as orientações prestadas pela ABA, que credencia as faculdades de Direito, sempre foram muito vagas, no que se refere aos dados sobre mercado de trabalho que devem divulgar. Historicamente, a ABA orienta as faculdades de Direito a seguir os dados disponibilizados pela Associação Nacional para Colocações na Área Jurídica (NALP — National Association for Law Placement). No entanto, a NALP não distingue o que é trabalho que requer diploma de advocacia do que não requer. No ano passado, quando os bacharéis começaram a botar a boca no trombone, a ABA pediu às faculdades que prestem informações mais detalhadas sobre o mercado de trabalho, como onde, como e se os formandos têm conseguido trabalho.
Antes dessa mudança, as faculdades de Direito anunciavam que mais de 90% de seus bacharéis encontravam trabalho em menos de nove meses, depois da formatura. Em suas ações, os bacharéis alegam que, com seu marketing e outros esforços de divulgação, as faculdades os induziram a erro, levando-os a pensar que essa percentagem se referia ao volume de colocações no mercado de trabalho na área jurídica.
Por exemplo: uma ação judicial foi movida em 1º de fevereiro contra a Faculdade de Direito de Brooklin, que anunciou que as taxas de contratação de seus formandos era de 88% a 98%, em um período de nove meses, após a formatura. Um queixoso, Adam Bevelacqua, alegou que foi induzido a erro, o que o levou a tomar dezenas de milhares de dólares em empréstimos, para fazer o curso, e não consegue encontrar emprego na área jurídica, um ano depois de se formar. Naquele ano, a faculdade teria divulgado uma taxa de emprego de 90% para seus bacharéis, no prazo de nove meses. Uma porta-voz da faculdade declarou à Reuters que a ação não tem mérito e que a faculdade vai se defender vigorosamente contra ela no tribunal.
O reitor da Faculdade de Direito Williams Roger de Rhode Island, David Logan, disse que embora os dados fornecidos pelas faculdades possam ser "opacos", a ação coletiva não tem mérito porque as faculdades seguem os padrões estabelecidos. "Trombetear grandezas não é a mesma coisa que fraude", argumentou. As ações também vão depender de quão forte é a legislação de proteção ao consumidor em cada estado, disse o professor da Universidade de Saint Louis, Douglas Rush, especializado em educação jurídica. Ele afirma que a NALP e a ABA fornecem explicações sobre o termo "empregado". Se os estudantes não se deram ao trabalho de lê-las, os tribunais vão dizer: "Que pena, o queixoso perde".
Por outro lado, alguns estados, com legislação que protege um pouco melhor os consumidores, pode concluir que foi uma publicidade enganosa anunciar a um "bando de estudantes deslumbrados" que 95 dos bacharéis estão empregados, enquanto apenas 22% estão trabalhando na área jurídica. Outros podem estar empregados em lojas do McDonalds, Wal-Mart... Não há como não aceitar qualquer emprego que aparece, dizem os estudantes. Afinal, eles têm uma dívida de US$ 150 mil, mais ou menos, para pagar.

Reportagem de João Ozorio de Melo
foto:professorsergiogabriel.blogspot.com

26/02/2012

Acordo energético entre Peru e Brasil é contestado por organização indígena


Uma ação civil pública ajuizada na última quinta-feira  por uma organização indígena peruana contra o Congresso e o Ministério das Relações Exteriores daquele país demanda a suspensão do acordo energético entre Brasil e Peru assinado em junho de 2010 pelos ex-presidentes Lula e Alan Garcia.
A Central Ashaninka del Rio Ene (CARE) entrou com a ação no Superior Tribunal de Justiça em Lima com pedido de liminar contra o acordo que prevê a construção de uma série de grandes hidrelétricas na Amazônia peruana pela Eletrobras e empreiteiras brasileiras, afirmando que os empreendimentos violam os direitos de populações indígenas.

“Os direitos à vida, à integridade, à liberdade, à terra e ao consentimento livre, prévio e informado são ameaçados, considerando que o acordo jamais foi objeto de consulta com os povos indígenas”, disse David Velasco, advogado da Fundação Ecumênica para o Desenvolvimento e Paz (FEDEPAZ), ONG peruana de assessoria jurídica.

“A legislação peruana e internacional estabelece a obrigatoriedade de consultas prévias com povos indígenas no caso de projetos de desenvolvimento que afetem seus territórios, e isso não aconteceu.”

Milhares de indígenas, inclusive grupos não-contatados, e outras populações locais sofreriam deslocamento e outras conseqüências negativas da construção de hidrelétricas previstas no acordo, segundo a ação. O pedido de liminar visa a proteger os direitos constitucionais dos povos indígenas ao consentimento livre, prévio e informado sobre assuntos de Estado que possam ter impacto sobre os seus direitos.

O acordo ainda não foi ratificado pelos parlamentos dos dois países. No Peru, o acordo está na Comissão de Relações Exteriores na forma de um projeto de lei. A ação movida pelos indígenas cita declarações na imprensa de autoridades peruanas que afirmam a alta prioridade do acordo e iminência da construção das hidrelétricas. Como uma forma de evitar danos, a ação busca a suspensão do acordo energético.

“Esperamos que esta ação resulte numa ordem judicial para convencer congressistas e altos funcionários do governo a obrigar o Ministério de Minas e Energia a respeitar nossas terras”, disse Ruth Buendia Mestoquiari, presidente da CARE. “Já vivemos uma guerra civil, quando milhares de nossos irmãos e irmãs morreram ou tiveram de ir embora para longe. Não vamos deixar essa história de deslocamento forçado se repetir. ”

O acordo energético, com duração de cinqüenta anos, prevê a exportação pelo Peru de até 7.200 MW de energia para o Brasil. A expectativa é que a quase totalidade da energia vem da construção de cinco grandes hidrelétricas na Amazônia perguna: Pakitzapango (2.200 MW), Inambari (2.000 MW), Tambo 40 (1.270 MW), Mainique I (607 MW) e Tambo 60 (579 MW).

A maioria dos projetos, alguns em fase avançada de planejamento, foi concebida pela Eletrobrás em conjunto com grandes empreiteiras brasileiras, como a Odebrecht e Andrade Gutierrez, contando com a previsão de financiamento pelo BNDES.

Várias hidrelétricas já provocaram protestos de grupos indígenas e outros grupos locais pela ausência de consultas prévias, apesar das conseqüências previsíveis em seus territórios, como a inundação de aldeias e lugares sagrados, perda de terras agricultáveis, florestas e pesca, proliferação de doenças, e comprometimento da qualidade da água. Várias áreas previstas para a construção de hidrelétricas são consideradas de extrema importância para a conservação da biodiversidade.

A hidrelétrica Pakitzapango, prevista para construção no rio Ene, com impactos diretos sobre os Ashaninka, encontra-se suspensa uma ação movida pela CARE em 2009. Em 2009, a Odebrecht anunciou que estava desistindo da hidrelétrica Tambo-40, prevista para construção no rio Tambo, em função da forte oposição de comunidades indígenas.

A hidrelétrica Inambari (2.000 MW) prevista na região de Puno foi suspensa pelo governo em junho passado em função de fortes protestos de comunidades locais/

O recém-eleito presidente Ollanta Humala, ex-oficial do exército, declarou seu discurso de posse a determinação de construir uma série de novas hidrelétricas no pais. Atualmente, 20 barragens estão previstas somente no rio Marañon, na região amazônica. O povo indigenas Awajún, o segundo maior grupo indígena depois dos Ashaninka, seria o mais afetado. A maioria das comunidades ainda não têm informações básicas sobre os projetos, apesar dos fortes impactos previsíveis sobre seus territórios e modos de vida.

A ação movida pela CARE afirma a necessidade de uma ampla avaliação das necessidades de energia no Peru e opções para o seu atendimento, antes de avançar com projetos específicos, como a construção de hidrelétricas na região amazônica. A ação também exige a realização de uma profunda análise de impactos socioambientais das hidrelétricas, inclusive de seus efeitos cumulativos, associada a uma ampla processo de consulta prévia com as populações indígenas, como demanda a legislação peruana e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Segundo o processo, a construção prevista de barragens e linhas de transmissão na Amazônia peruana teria graves impactos em função de inundações e destruição de florestas, os impactos sobre a flora e fauna, e da produção de emissões gases de efeito estufa. A ação afirma a necessidade de respeitar as mais elevadas normas sociais e ambientais no acordo, para evitar projetos destrutivos na Amazônia.

“Nós, os Ashaninka do rio Ene estamos preocupados com o que poderá acontecer como os nossos filhos se inundar as nossas terras. Para onde vamos?” disse Ruth Buendia Mestoquiari.

“Eu já vi vídeos sobre os impactos de barragens na Amazônia brasileira, e já conheci muitas pessoas do Brasil que foram despejadas de suas terras por hidrelétricas e agora vivem como mendigos. As empresas brasileiras têm cometido muitos erros na construção de barragens em seu pais. Agora, como podemos confiar a elas os nossos rios e as nossas terras?”
foto:santafotografia.blogspot.com

Governo confirma 2 mortes em base brasileira na Antártida


Dois sargentos da Marinha brasileira morreram nesta madrugada em um incêndio que atingiu a Estação Comandante Ferraz, base científica e militar brasileira na Antártida. Havia 60 pessoas na estação, metade delas pesquisadores de universidades nacionais, que escaparam ilesos. Um terceiro militar teve ferimentos.

O ministro da Defesa, Celso Amorim, confirmou a morte do suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo e do sargento Roberto Lopes dos Santos. Eles participavam do grupo de apoio que tentava apagar o incêndio originado na casa de máquinas da base.
“Num ato de heroísmo, eles estiveram justamente no local de maior risco, na tentativa de debelar o incêndio e não conseguiram. Todos os pesquisadores e funcionários civis foram resgatados e já se encontram no continente, no Chile, e amanhã já devem estar de volta ao Brasil”, disse Amorim.
Segundo o ministro, 12 militares da Marinha, inclusive o comandante da base, ficaram na base chilena, que é vizinha à brasileira na Ilha Rei George, na Antártica. Eles devem retornar a Comandante Ferraz, para ajudar no trabalho de perícia e no resgate dos dois corpos. Um navio da Marinha brasileira também se deslocou para a Ilha Rei George, para ajudar na tarefa.
Em nota, a presidenta Dilma Rousseff também destacou o heroísmo dos militares no combate ao incêndio e manifestou sua solidariedade e do seu governo com as famílias dos dois militares, "mortos ao servir a Pátria". "A presidenta reafirma a importância do programa de pesquisas desenvolvido na Estação e elogia a abnegação e o desprendimento dos brasileiros que lá trabalham. A presidenta manifesta, ainda, a firme disposição do País de reconstruir a Estação Antártica Comandante Ferraz", diz a nota.
Em telefonema hoje à tarde, Dilma agradeceu ao presidente do Chile, Sebastián Piñera, o apoio daquele país no socorro e no resgate dos brasileiros atingidos pelo incêndio.
Incêndio
O incêndio ocorreu na Praça de Máquinas, onde ficam os geradores de energia. Cientistas que estavam na estação contam que os dois sargentos não conseguiram sair do local, destruído pelas chamas. O ferido conseguiu ser resgatado por colegas da Marinha e foi levado para a base polonesa de Arctowski, próxima à brasileira, para receber os primeiros socorros. Depois, seguiu para a base chilena Eduardo Frei. Em comunicado, a Marinha garante que a vítima não apresenta risco de morte.
Os 30 cientistas, um alpinista, um representante do Ministério do Meio Ambiente e 12 funcionários do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro foram levados ao amanhecer para a base chilena, de onde seguirão para o Chile, em Punta Arenas. Ficaram na estação apenas 12 militares da Marinha, que tentam combater o incêndio. A Marinha enviou um Navio-Polar para apoiar o trabalho dos militares. Além dele, dois navios da Marinha Argentina, dois botes da Estação polonesa e três helicópteros chilenos já estão no local do incêndio.
Já a Força Aérea Brasileira (FAB) disponibilizou uma aeronave, que seguiu para Punta Arenas, a fim de trazer ao Brasil as pessoas que estavam na Estação. Um Inquérito Policial Militar foi instaurado para apurar as causas do acidente.
Prejuízo científico
O programa antártico brasileiro não será encerrado e os planos de reconstrução começam na próxima segunda-feira, segundo Amorim. De acordo com o ministro, grande parte da estação foi destruída pelo incêndio e, com ela, muitos materiais e equipamentos dos 30 pesquisadores que realizavam trabalhos na ilha foram perdidos.
“Todo o núcleo central da base, que é onde estão concentradas essas instalações foi perdido. O grau exato do que aconteceu ainda precisa ser objeto de perícia, mas a avaliação é de que realmente perdeu-se praticamente tudo”, disse.
Segundo Amorim, ainda não é possível dizer quando a estação voltará a operar, mas os planos para sua reconstrução já começam na segunda-feira (27). “Claro que o momento é de dor. O principal fato é a perda de vidas. Mas, evidentemente, quero expressar nossa determinação em continuar esse trabalho, que é tão importante para o Brasil e para o mundo. Esse é um projeto de 30 anos de empenho da sociedade brasileira, que tem todo o apoio do governo e do Congresso brasileiro. O programa [antártico] é um motivo de orgulho para nós, de modo que vamos continuar”, disse o ministro.

foto:correio24horas.com.br