Sobre o produto poder causar algum dano à saúde, a dermatologista lembra que esses ativos indicados pelo fabricante não causam riscos às pessoas, mas o que estaria sendo alvo de preocupações era a possibilidade de o creme conter outros tipos de componentes.
Um dos possíveis componentes que poderia fazer parte do produto, segundo a comunidade médica, é a hidroquinona, um composto orgânico aromático. A dermatologista explica que a hidroquinona atuaria em todas as etapas do clareamento, mas, por causar efeitos adversos na pele, teria sido recentemente proibida na União Europeia. “Ela causa um efeito chamado leucodermia, que é a destruição do melanócito. É uma destruição tão intensa, que a pele se torna branca como se a pessoa tivesse vitiligo. Em alguns casos, a pele se torna clara demais com várias manchas brancas, sem a uniformidade desejada”, adverte.
Debate social
Outro ponto que tem sido abordado nesse caso é o fato de várias jovens negras estarem buscando o produto para branquear a pele. A própria cantora Dencia teria dito que o produto cosmético serviria para proporcionar bem-estar, visto que ao clarear a pele, as usuárias passariam a estar imunes ao racismo. No site oficial da venda do produto, a cantora africana diz que a criação do produto foi motivada pelo processo ininterrupto de marginalização da comunidade negra perante o mercado internacional de cosméticos.
Medidas como a incentivada pelo produto vão de encontro às ações afirmativas pela igualdade racial promovidas pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Mônica Oliveira, diretora de programas da Secretaria de Políticas e Ações Afirmativas da Seppir, lembra que a garantia de que o fato da pessoa clarear a pele vai torná-la imune ao racismo é ilusória. “As manifestações de racismo não se restringem à pele mais escura. Não é garantia. Os mecanismos de manifestação do racismo são muitos diversificados”, pontua.
Para Mônica, um dos efeitos mais perversos do racismo é justamente essa negação da identidade racial. “Se a pessoa convive desde a infância sob permanente violência sobre aquilo que ela é, ela pode desenvolver a tendência de negar sua condição racial para se proteger do racismo. As pessoas passam a se negar para serem aceitas”, explica.
Mônica diz também que é bastante delicado afirmar se as pessoas deveriam ou não usar o Whitenicious, visto que as pessoas são livres para fazer suas escolhas. O que a integrante do Seppir comenta é que o Brasil segue uma corrente oposta, com a identidade negra sendo cada vez mais valorizada. “A população negra no Brasil vem fazendo um caminho inverso a isso. No último Censo, a população negra se afirmou mais ainda: em 2010, 50,7% das pessoas se afirmaram negras ou pardas. Ou seja, hoje, do ponto de vista oficial o Brasil tem maioria negra. Isso é um avanço do movimento negro e das ações de afirmação da identidade negra”, aponta.
Sobre o creme especificamente e sobre a vinculação do produto com uma popstar, Mônica diz que não dá para avaliar imediatamente os efeitos disso, mas que esses efeitos vão aparecer. “Por que temos que ser todos da mesma cor e essa cor tem que ser a cor branca? Não se justifica a hierarquização de que uns são positivos e outros são negativos simplesmente pela cor da pele. É preciso destacar positivamente a identidade racial”, diz.
Reportagem de Rafael Gonzaga
fonte:http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2014/06/18/creme-que-promete-clarear-pele-negra-gera-polemica-medica-e-debate-social/
foto:http://jovii.com.br/polemico-creme-promete-clarear-pele-negra-em-uma-semana/

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