12/12/2011

Espanha ocupa liderança em superqualificação profissional

Triste recorde. Mais uma vez, a Espanha ocupa a liderança dos países da União Europeia em número de trabalhadores superqualificados. Segundo o último estudo publicado pela Eurostat (a agência de estatísticas da Comissão Europeia) sobre esse assunto, 31% das pessoas na faixa etária de 25-54 anos que possuem um diploma universitário ou uma formação profissional superior ocupam um emprego inferior à sua qualificação. Assim, a Espanha se encontra à frente da Irlanda (29%) e do Chipre (27%), e bem além da média europeia (e francesa), de 19%.
Mas o mais preocupante é que esse estudo foi realizado a partir dos números de 2008, antes que a crise causasse seus estragos no mercado de trabalho espanhol. Antes que o índice de desemprego disparasse, ultrapassando 21% da população ativa. Antes que muitos espanhóis retomassem os estudos, esperando assim aumentar suas chances de encontrar um emprego.
Diante da pergunta “Qual a sua profissão?”, são muitas as pessoas que informam tanto sua formação quanto seu emprego, para ressaltar a inadequação dos dois: “Sou químico, mas faço sites de internet”, conta o marido de uma arquiteta, ela mesma convertida em corretora imobiliária. “Tenho um amigo arquiteto que virou garçom”, afirma Andrea Torregrosa, em uma reportagem sobre arquitetos diante da crise. “Sou jornalista, mas trabalho em um bar”, confessa Laura, uma “indignada” da Puerta del Sol. “Sou engenheiro civil, mas trabalho em um escritório de licitações, pois falo inglês...”, conta José Unceta, desapontado, em uma reportagem sobre os jovens que querem ir trabalhar no exterior em busca de um futuro melhor.
Hoje, para não ficarem desempregados, há cada vez mais espanhóis dispostos a aceitar qualquer trabalho. No entanto, a Espanha provavelmente possui hoje a geração mais bem formada de sua história.
“Entre 1999 e 2009, a porcentagem da população espanhola com curso superior passou de 21% para 30%. Entre os jovens, esse índice passou para 39%”, lembra o jornal “El País”. Mas a Espanha desenvolveu uma economia baseada em construção e em serviços, que não lhe ofereceu muitas portas de saída à altura de suas capacidades.
Ao mesmo tempo, esse país cheio de contradições continuou sendo um dos países europeus com o mais elevado índice de abandono escolar (31%, o dobro da média europeia).
“O ‘bônus salarial’ para as pessoas qualificadas caiu durante os anos do boom imobiliário”, explica o economista Florentino Felgueroso, diretor da cadeira de capital humano e emprego na Universidade de Oviedo. “As pessoas que não haviam estudado tinham salários elevados no setor da construção, enquanto os universitários muitas vezes viravam ‘mileuristas’ [nome dado à grande parte dos espanhóis cujo salário não passa de mil euros]. Era um incentivo para abandonar a escola...”
Resultado: “Há muita gente na Espanha com um altíssimo nível de estudos, e muita gente com um baixíssimo nível de estudos. Quase nada no meio-termo. O mercado de trabalho é muito pouco adaptado a eles”, conclui Felgueroso.
O tema é ainda uma das questões principais da campanha eleitoral de novembro, e o Partido Popular prometeu desenvolver a formação profissional para que emprego e educação estejam intimamente ligados...

Reportagem de Sandrine Morel para o jornal francês Le Monde
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2011/12/10/espanha-ocupa-lideranca-em-superqualificacao-profissional.jhtm
Tradução: Lana Lim
foto:vitalvereador.wordpress.com

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