28/08/2015

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Seis pessoas são torturadas por dia no Brasil


relatório anual da ONG Human Rights Watch (HRW) revelou que diariamente seis pessoas são vítimas de tortura no Brasil. A maioria delas, 84%, estão em penitenciárias, delegacias e unidades de internação de jovens. Os dados divulgados como um capítulo do relatório mundial da entidade, são baseadas nas denúncias recebidas pela Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. De janeiro de 2012 a junho de 2014 foram relatados 5.431 casos de tortura.
Para a HRW, uma das razões para isso ocorrer é a falta de punição dos agressores. "Mais do que uma herança da ditadura militar a tortura é uma herança da impunidade. O agente sabe que não será punido, por isso tortura", afirmou a diretora da HRW no Brasil, Maria Laura Canineu.
Outro motivo que, conforme a ONG, estimula a tortura é a superlotação carcerária, impulsionada pelo encarceramento massivo. Com mais de meio milhão de presos, o Brasil está com 37% a mais de detentos do que comporta. O fato de presos provisórios (que ainda não foram julgados) dividirem espaço com condenados também influenciaria na falta de controle dos presídios e, consequentemente nos seguidos casos de tortura registrados.
“A ausência do Estado, a falta segurança e a ociosidade nos presídios favorecem a criação de organizações criminosas e só piora a situação desses espaços”, analisou Canineu.
No relatório do ano passado, a HRW já havia citado essa preocupação com a superlotação dos presídios. De lá para cá, poucos avanços foram notados. Segundo a organização, o projeto de lei 554/11 que prevê mudanças na audiência dos presos seria uma das saídas para reduzir a lotação dos presídios e evitar a ocorrência da tortura. Conforme essa proposta legislativa, todo suspeito que for detido tem que ser ouvido por um juiz em um prazo razoável, que seria de 24 horas. Atualmente, não há essa delimitação de tempo, a HRW encontrou casos excepcionais em que um homem detido por receptação de produtos roubados demorou três meses para se encontrar com um magistrado. Nesse tempo, dividiu uma cela com bandidos condenados e membros de facções criminosas.
Na visão de Canineu, o que faltam são mudanças estruturais, na qual os presos sejam respeitados e tenham condições de retornar em segurança para a sociedade após cumprirem suas penas.

Violência policial

Outra crítica no relatório da HRW é o alto índice da letalidade policial. Em dois dos principais Estados brasileiros a ONG registrou preocupantes aumentos de mortes ocasionadas por policiais. No Rio de Janeiro, o aumento foi de 40% e em São Paulo, de 97%, nos três primeiros trimestres de 2014 em comparação com o mesmo período do ano passado. “Tanto o Rio quanto São Paulo tomaram medidas importantes para reduzir essas mortes. Mas elas estão longe de serem necessárias”, disse Canineu.
No Rio, o Governo implantou o pagamento de prêmios para o cumprimentos de metas. Em São Paulo, os policiais foram proibidos de socorrer vítimas de supostas trocas de tiros. Neste caso, o objetivo era evitar que os suspeitos baleados fossem torturados ou assassinados no caminho para o hospital.
A mesma violência se replica na repressão aos protestos sociais. De acordo com a ONG, um exemplo disso é na prisão ou na agressão contra jornalistas. Um levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo concluiu que 178 jornalistas que cobriam as manifestações de 2013 e 2014 foram presos ou feridos. Houve ainda um caso de homicídio, o do cinegrafista Santiago Andrade, morto no Rio após ser atingido por um rojão.

Mais cobranças

No relatório divulgado nesta quinta-feira, a HRW cobrou ainda que as autoridades atuem no combate à violência sofrida por homossexuais, que registraram mais de 1.500 casos de agressões em 2013, e no direito reprodutivo, autorizando a realização de abortos legais.
A HRW também disse que de 2014 foi histórico para o Brasil pois foi o ano em que a Comissão Nacional da Verdade publicou seu relatório apontando parte dos culpados pelos abusos cometidos durante a ditadura militar (1961-1985). Por outro lado, a entidade cobrou que Governo puna os militares e colaboradores responsáveis pelos crimes mesmo diante de uma lei da anistia. “No nosso entendimento, não é necessário haver uma revogação em si da lei da anistia para se punir quem agiu no regime militar. O Chile puniu seus agressores, mesmo com uma lei da anistia. Entendemos que a anistia não é aplicável para crimes contra a humanidade”, ponderou a diretora.

Reportagem de Afonso Benites
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/29/politica/1422542790_405990.html
foto:http://muslimpresence.com/?p=2360

A política que barra negros e pobres e ameaça a democracia da areia no Rio


Os rapazes, negros e pobres, viajavam em vários ônibus de linha regular até a privilegiada zona sul carioca. O destino, no domingo passado, eram as praias mais famosas do mundo, mas eles acabaram no fundo de um furgão policial, sem ter cometido nenhum crime. A ação pretendia conter uma nova onda de arrastões, um fenômeno complexo que se repete periodicamente nas praias do Rio desde a década de 90, mas a estratégia revelou outro frequente escândalo: o racismo institucional das polícias brasileiras.
Uma semana antes, já estavam no Arpoador, área cobiçada de Ipanema e ponto final dos ônibus que vêm da periferia, os elementos desta espécie de violento jogo de gato e rato  entre assaltantes e policiais que não raro termina com cadeiras voando pelos ares em meio a centenas de banhistas aterrorizados. O roubo da carteira de um gringo no Posto 8 desencadeou caos na areia. A polícia chegou até a orla de cassetete em mãos e espancou os jovens que encontrou pelo caminho, nem sempre os culpados. Muitos deles, da Favela da Penha, bebiam e conversavam. Momentos depois, uma ferida ardia nas costelas de Marcos, enquanto a amiga Ana reclamava que ele apenas estava sentado, sem fazer nada. O roubo e a agressão —aparentemente sem relação com o crime já que Marcos não foi preso—, foram o broche final de um dia de praia regular, com cenas que a polícia carioca se diz, mais do que nunca, determinada a evitar.
O problema é que, para o juiz titular da 1ª Vara da Infância, Pedro Henrique Alves, e a Defensoria Pública do Rio, a solução não pode ser evitar que grupos da periferia cheguem às praias, como no fim de semana. Ambos consideraram “ilegal” a detenção no ônibus. “A polícia só pode prender um adolescente se o encontra cometendo um delito ou se tem uma ordem judicial fundamentada”, explica a defensora pública Eufrásia Souza das Virgens, que abriu um processo contra o Estado por danos morais e constrangimento dos jovens.
Enquanto uma parte da sociedade levava as mãos à cabeça chocada com a medida extrema, o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão(PMDB), defendia os agentes: “A inteligência da polícia mapeou esse movimento de menores desde seu embarque nos ônibus. Quantos assaltos praticaram esses menores? Não estou falando que são todos os que estavam ali [nos ônibus], mas tem muitos deles que já tinham sido detidos mais de cinco, oito, dez ou 15 vezes”.
O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, defensor de um discurso bastante progressista em um país que ainda mantém uma polícia militarizada, quis dar ao episódio uma dimensão social. “A polícia fez um trabalho de prevenção, o que falta dizer às pessoas é a total situação de vulnerabilidade que se encontravam esses jovens. Não se fala em racismo, não se quer dizer que esses jovens iam praticar crimes. A questão é a seguinte: a liberdade de ir e vir também exige deveres. Se você quer ir, estava indo sem pagar passagem. Você sai da sua casa que fica há quilômetros sem comer, sem dinheiro e vai voltar pra casa como?”, questionou Beltrame. “O que está em jogo é a vulnerabilidade dessas pessoas", completou.
Especialistas em segurança e a própria Defensoria Pública se perguntam, então, por que o controle não está em mãos de assistentes sociais, em vez de nas mãos de homens armados. “É uma ação absurda, desastrada e escandalosa, uma expressão do racismo no Brasil, muito comum em sua polícia, e que conta com a autorização tácita da sociedade”, critica o antropólogo Luiz Eduardo Soares, coordenador de Segurança e Justiça no Rio em 1999 e secretário nacional de Segurança Pública em 2003.
Soares lembra como os cariocas viveram a democratização de suas praias no começo dos anos 80, um lugar até então reservado principalmente à elite branca e moradores das favelas da zona sul. “Foi o governador Leonel Brizola que promoveu o transporte e facilitou o acesso dos jovens dos subúrbios mais distantes até as praias. Essa estratégia começou a democratizar a areia e provocou o desprezo da classe média mais racista, que puniu politicamente o governador. Hoje em dia a reação não pode ser a mesma que nos anos 80. Existem leis contra o racismo. Por isso, é surpreendente ver que essa mesma atitude continua presente”, segue ele. “Os jovens negros são sempre tratados como suspeitos, o que nos ajuda a entender, e isso é muito mais grave do que qualquer roubo na praia, as mais de 10.600 mortes provocadas pela polícia, na maioria de jovens negros, pobres em territórios vulneráveis.”

Antes de Rio 2016

Os chamados arrastões, como no Brasil foi batizado esse tipo de furto em gangues em lugares públicos muito concorridos, são já habituais nas areias do Rio em dias de calor e ameaçam a imagem paradisíaca da cidade às portas dos Jogos Olímpicos de 2016.
Os ladrões, alguns mais crianças do que adolescentes, dão o golpe de várias maneiras. Uns aproveitam o enorme grupo de amigos e conhecidos com os quais vão à praia para se proteger, se separam deles e percorrem a areia em busca de banhistas desprevenidos. Ao voltar, trocam entre si os calções de banho e dão a seus cúmplices o botim. Outros, e esta é a técnica mais chamativa e com a qual se espalha o pânico na areia, fingem brigas multitudinárias e aproveitam o tumulto para arrasar com tudo o que puderem.
Após o roubo, é raro que as vítimas apresentem boletim de ocorrência – no Brasil só 20% denuncia furtos, segundo Soares – e a praia continua igual de cheia. "Sabemos por outras pesquisas que a frequência à praia não diminuiu", diz Soares, "o que afasta as pessoas não é o furto, o que aterroriza é a violência".

Reportagem de María Martín
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/27/internacional/1440710239_607074.html
foto:http://grabpage.info/t/www.bing.com:80/images/search?q=Ipanema+Beach&FORM=RESTAB

Estudo feito pela Nasa revela que nível do mar está subindo mais rápido do que o esperad

O estado da Flórida, nos EUA, bem como Cingapura e Tóquio (Japão) correm o risco de desaparecer em 100 anos; 150 milhões de pessoas serão afetadas.



O último estudo realizado por meio de satélites pela NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço) mostrou que o nível dos oceanos está aumentando mais rapidamente do que o esperado e que, nos próximos 100 a 200 anos, subirá um metro ou mais. O fato provocará o desaparecimento de diversas cidades litorâneas e países, sobretudo do oceano Pacífico. Somente nos últimos 23 anos, o nível do mar subiu 7,62 centímetros.
Em vídeo divulgado pela agência, é possível ver a graduação de cores de como cada parte do mundo foi afetada nos últimos 23 anos pelo aquecimento global e consequente derretimento das geleiras e aumento do nível dos oceanos.
De acordo com o estudo da agência aeroespacial, apresentado na quarta-feira (26/08), as camadas de gelo estão derretendo mais rápido do que nunca, os oceanos estão se aquecendo e, consequentemente, se expandindo mais rapidamente do que no passado.
Tal fato terá “profundo impacto” em torno do mundo, disse Michael Freilich, diretor da Divisão de Ciência da Terra da Nasa. Ele apontou que mais de 150 milhões de pessoas, a maior parte na Ásia, vivem em áreas que não chegam a um metro acima do nível do mar.
O estado da Flórida, nos Estados Unidos, bem como a cidade-Estado de Cingapura e a cidade de Tóquio, no Japão, correm o risco de desaparecer.
“Teremos provavelmente mais de um metro de aumento no nível do mar, somente baseado no aquecimento que nós tivemos até agora”, afirmou o líder da equipe de estudos do aumento do oceano da Nasa, Steve Nerem. Ele acrescentou ainda que “isso muito provavelmente vai piorar no futuro”. 
Eric Rignot, glaciologista da Universidade da Califórnia Irvine, disse ainda que com o aquecimento global não há razão para esperar que o derretimento das geleiras ocorra no mesmo ritmo que no passado. De acordo com as leis da física, elas vão se deteriorar mais rapidamente - e já estão. “Nós não estamos falando de cenários futuros”, afirmou.
As previsões da Nasa são baseadas em uma série de altímetros que, do espaço, medem a altura do oceano. A agência norte-americana e a CNES, sua equivalente francesa, começaram a medir o nível do mar com satélites em 1992.
De acordo com os cientistas, ainda que sejam tomadas ações para reverter a situação, levaria séculos para que os oceanos e mares voltassem aos níveis prévios à mudança climática.

fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/41461/estudo+feito+pela+nasa+revela+que+nivel+do+mar+esta+subindo+mais+rapido+do+que+o+esperado.shtml

Conheça o primeiro banco de currículos online para pessoas em situação de rua

Criado por grupo de publicitários, Projeto Olhe quer dar visibilidade e emprego à população de rua em todo Brasil.


Da série de livros-infantis “Onde Está Wally?” surgiu a ideia de um projeto que pretende criar o primeiro banco de currículos online voltado a pessoas em situação de rua. “Fizemos uma comparação entre o famoso personagem e a condição daqueles que não tem uma moradia para viver. Ambos são praticamente invisíveis em meio à multidão. A diferença é que na história do Wally, o desafio é resgatá-lo do anonimato, enquanto a população de rua segue no esquecimento”, explica o publicitário e um dos idealizadores do projeto Olhe, Edgard Vidal.
Atualmente, em todo Brasil, aproximadamente dois milhões de pessoas sobrevivem em meio a marquises, praças, calçadas e outros meios de moradias improvisadas. Entre essa população, maior que a de cidades como a capital uruguaia Montevidéu , por exemplo, cerca de 70% exerce algum tipo de atividade remunerada.
Segundo pesquisa do Ministério de Desenvolvimento Social, das atividades profissionais mais comuns entre os moradores, 27,2% são ligados à construção civil, 4,4% ao comércio e trabalho doméstico e 4,1% à mecânica. “O objetivo é trazer um novo olhar para essa parcela da população, mostrando que eles têm talentos e habilidades diversas, como qualquer um de nós. Queremos que nossa plataforma ajude essas pessoas a conseguirem novas oportunidades”, ressalta Edgard.
Para dar vida ao projeto, os publicitários Thómas Fernandes, Lucas Cordeiro, Júlia Rebouças, Gustavo Orsati e Edgard Vidal, à frente do Coletivo Criativo F5, buscaram inspiração no comum interesse pela situação de vulnerabilidade social aliada à rotina profissional do mercado publicitário.

“Como muitos dos integrantes são de cidades diferentes, a quantidade de pessoas vivendo nas ruas de São Paulo foi algo que impactou a cada um individualmente. Por trabalharmos juntos, diversas conversas surgiram ao longo do tempo sobre o assunto. Um dia, em uma reunião de brainstorm, surgiu a vontade de fazermos algo específico para essa parcela da população. A ideia não se encaixava no briefing daquele cliente, mas decidimos levar o projeto adiante por conta própria”.
Qual o maior desafio enfrentado desde que surgiu a campanha?
Nossa maior dificuldade é (e continuam sendo) conhecer o assunto a fundo. A cada dia aprendemos mais e mais sobre as pessoas que vivem em situação de rua e estamos longe de esgotarmos a questão. Lemos diversos materiais, entramos em contato com profissionais e instituições para tentar entender a heterogeneidade do assunto. Antes de querermos quebrar o preconceito dos outros, precisamos nos desfazer dos nossos.
Nesse tempo, nos deparamos com informações que não imaginávamos. Soubemos, por exemplo, que há quase 2 milhões de moradores de ruas no país, dos quais quase 16 mil estão em São Paulo. Além disso, segundo pesquisa do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, muitos moradores de rua são alfabetizados e a maioria não bebe ou usa drogas.
Quantos currículos já foram cadastrados?
O banco de currículos está em processo inicial de formação. Hoje, no site, contamos a história de quatro pessoas que tem habilidades diferentes e estão dispostas para o trabalho. Agora estamos em um momento de buscar parcerias com novas instituições que realizem um trabalho sério nessa área para imputar novos currículos na plataforma e fazer com que mais gente seja beneficiada.
Quantas pessoas foram impactadas?
A campanha em si está tendo um alcance fenomenal. Sem realizarmos uma única divulgação paga, já conseguimos milhares de visualizações nas redes sociais. O retorno das pessoas sobre o projeto tem sido bastante positivo e tem aparecido muita gente querendo ajudar de alguma forma.
Quais são as propostas para o futuro?

O nosso objetivo é que, em um futuro não tão distante, esse projeto ganhe o país. Queremos expandi-lo para as outras regiões e estabelecer contato com instituições de todo o Brasil. E, claro, que as empresas possam apostar na iniciativa e comecem a abrir postos de trabalho para essas pessoas.


Reportagem de André Nicolau
fonte:https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/conheca-o-primeiro-banco-de-curriculos-online-para-pessoas-em-situacao-de-rua/

27/08/2015

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Racismo contra imigrantes no Brasil é constante, diz pesquisador

"A noção de que o Brasil é um país hospitaleiro, onde todos os estrangeiros e imigrantes são bem-vindos, não passa de um mito", diz o pesquisador Gustavo Barreto, após analisar mais de 11 mil edições de jornais e revistas entre 1808 e 2015.

Em tese de doutorado defendida recentemente na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ele concluiu que o racismo na imprensa brasileira contra o imigrante se manteve constante, apesar dos avanços, e que a aceitação é seletiva, com diferenças entre europeus e africanos, por exemplo.
Na tese Dois Séculos de Imigração no Brasil: A Construção da Identidade e do Papel dos Estrangeiros pela Imprensa entre 1808 e 2015, Barreto analisou a cobertura do tema em jornais como O GloboO Estado de S. PauloFolha da Manhã (hoje Folha de S. Paulo), Correio da ManhãO País e Gazeta do Rio de Janeiro ao longo de 207 anos.
Em entrevista à BBC Brasil, ele explica como os termos são usados de forma diferente na imprensa. "O refugiado é sempre negativo, um problema grave a ser discutido. O imigrante é uma questão a ser avaliada, pode ser algo positivo ou negativo, mas em geral a visão é de algo problemático. Já o estrangeiro é sempre positivo, inclusive melhor do que o brasileiro. É alguém com quem podemos aprender", diz.
Barreto incluiu em seus estudos as hostilidades sofridas em junho por haitianos em um posto de gasolina na região metropolitana de Porto Alegre. E, recentemente, houve em São Paulo uma suspeita de ataque xenófobo contra haitianos, que foram baleados com chumbinho na escadaria de uma igreja.
Barreto também relembrou a estigmatização sofrida por africanos e haitianos no ano passado, quando uma pessoa da Guiné foi identificada como suspeita de estar contaminada pelo vírus ebola, e afirma que o Brasil ainda está longe de promover uma discussão real sobre a imigração.
"Em geral, os novos imigrantes estão sempre sendo vistos como problemáticos na sociedade. As notícias não estão discutindo imigração, problematizando o assunto, e não se vê discussões de política imigratória ou da legislação. O foco não é a solução ou discutir o tema, mas a noção de crise", avalia.
Veja os principais trechos da entrevista:
BBC Brasil – De acordo com sua pesquisa nos relatos da imprensa brasileira, como o país "pensou" e "problematizou" seus imigrantes ao longo dos últimos 207 anos?
Gustavo Barreto - Houve diferentes momentos, mas o que se manteve por muitas décadas foi a intenção de trazer mão de obra, sempre com uma clara preferência por cristãos, brancos, europeus e trabalhadores.
Até 1870 ocorrem pequenos experimentos isolados, com uma média de chegada de 2 mil a 3 mil imigrantes por ano, e a partir de 1870 começam as grandes levas de imigrantes, com mais de 10 mil por ano, o que ocorre até 1930.
Havia um consenso de que não se podia contar só com os portugueses para popular o país, e o governo implementou políticas de subsídios para estrangeiros. Do governo Vargas em diante, o país passa a selecionar muito mais quem entra, e, décadas depois, passa a prover mais imigrantes brasileiros para o mundo do que os receber.
Mais recentemente, nos últimos dez anos, o Brasil voltou a receber muitos imigrantes, sobretudo bolivianos, haitianos, angolanos, senegaleses, ganenses, portugueses e espanhóis, entre outros.
Duas coisas foram cruciais ao longo do tempo: as questões do trabalho e da raça. Em 1891, o governo decretou que amarelos e negros não poderiam entrar subsidiados pelo Estado. Se entrassem, o dono da embarcação poderia perder o alvará de funcionamento.
Além disso, na imprensa fica claro que os "bons" europeus eram os alemães e italianos, enquanto os provenientes das ilhas dos Açores e Canárias eram "ruins". Durante uma época as elites e formuladores de políticas públicas promoveram ideias eugenistas, segundo as quais uma raça era cientificamente superior à outra, estimulando um embranquecimento da população brasileira.
BBC Brasil – Quanto ao racismo, é possível identificar avanços? Como tem sido a cobertura da chegada de imigrantes haitianos e bolivianos ao Brasil, mais recentemente?
Barreto - O racismo era algo natural e aceitável no século 19, incluindo o destaque às ideias de supremacia de raças, entre 1870 até o governo Vargas. A partir da Segunda Guerra, os grupos começam a ser valorizados. Judeus, alemães e italianos no Brasil começam a recontar sua história, assim como os japoneses, depois de um momento muito difícil. Após as cartas de direitos humanos, os valores eugenistas já não são mais declarados, o que é um avanço.
Mais recentemente, o país passou a receber um número considerável de bolivianos e haitianos. Mas também chegam portugueses e espanhóis. A imprensa, no entanto, costuma destacar muito os problemas que os haitianos trazem, e rapidamente começa a ser construída uma visão de que eles são um problema. Enquanto isso, os imigrantes europeus recentes são valorizados por sua cultura e contribuição ao Brasil.
Contribuições culturais ou produtivas dos haitianos e bolivianos, que têm uma riqueza cultural enorme, dificilmente viram notícia. O racismo atual se dá pelo não dito, pelo que a imprensa omite. Quando aparecem na mídia estão atrelados a problemas, crises, marginalizações, ou ligados à ideia de uma invasão.
BBC Brasil - Apesar dos nítidos avanços no tratamento aos imigrantes na imprensa brasileira, a pesquisa identificou algum retrocesso na cobertura atual? Algo que chame a atenção?
Barreto - Há reportagens que promovem um retrocesso inacreditável, sobretudo no que diz respeito à construção da ideia de que há nacionalidades mais propensas à submissão, e não ao empreendedorismo.
No passado, após 1850, durante muitos anos a mídia rejeitou a entrada de chineses no Brasil por meio de um discurso que os comparava com escravos, sem iniciativa empreendedora como os europeus. A imprensa dizia que eles não se classificavam para os programas de imigração subsidiada pelo governo porque isso acarretaria em "escravidão amarela".
Hoje, guardadas as diferenças, a imprensa faz algo parecido com os haitianos. De acordo com algumas das reportagens analisadas, há a ideia de que eles vão ser explorados, abusados. Pede-se direitos humanos, e divulga-se uma ideia de que eles vão virar novos escravos. Você vê jornais de São Paulo relacionando diretamente os haitianos à escravidão. Numa matéria de 2014, diz-se que os brasileiros estavam escolhendo os imigrantes haitianos pela canela.
BBC Brasil - Na sua visão, a imprensa brasileira consegue dar conta do tema da imigração, incluindo a discussão de soluções e políticas imigratórias, ou acaba tratando o assunto de forma alarmista, valendo-se de estereótipos?
Barreto - A imprensa parece não se preocupar com a figura do imigrante ou em discutir o tema imigração em toda sua complexidade. Sobretudo dos anos 2000 em diante, o imigrante aparece nas páginas dos jornais brasileiros como explorado, submisso ou relacionado a denúncias de violações de direitos humanos.
Em geral os novos imigrantes estão sempre sendo vistos como problemáticos na sociedade. As notícias não estão discutindo imigração, problematizando o assunto, e não se vê discussões de política imigratória ou da legislação em nenhum momento.
Quando os haitianos chegaram a São Paulo, há algo nítido na cobertura da imprensa. Vê-se um esforço homérico para jogar a Prefeitura, os governos dos Estados de São Paulo e do Acre e o governo federal uns contra os outros. O foco não é a solução ou discussão do tema, mas a noção de crise.
Quando as quatro instâncias decidiram se sentar e organizar os problemas que estavam acontecendo, num encontro nacional sobre refúgio e imigração, a imprensa praticamente ignora, com pequenas notinhas e um dos grandes jornais nem registra.
Outra coisa que chamou a atenção foi o episódio do ebola, no ano passado. Quando ocorre a suspeita de uma pessoa da Guiné contaminada, todos os africanos e haitianos – que são do Caribe, em outro continente – passam a ser suspeitos e gera-se um grande debate nacional sobre a proibição da entrada dessas pessoas no país.
BBC Brasil - Suas observações não contrastam com a ideia tão difundida do Brasil como um país hospitaleiro, e do brasileiro como um povo acolhedor, famoso no mundo todo pela simpatia e boa recepção aos estrangeiros?
Barreto - Na verdade entre os pesquisadores do assunto há a noção do "mito da hospitalidade". Há uma diferença entre a maneira como nos vendemos para o mundo e a verdadeira hospitalidade a qualquer estrangeiro ou a democracia racial.
O estudo de como a imigração é retratada no país entre 1808 e 2015 mostra que a hospitalidade é seletiva, mas que essa noção sempre foi difundida, em benefício do Brasil. Esta é uma das minhas principais conclusões na tese, a de que a nossa famosa hospitalidade é um mito.
A partir de 1870, você vê nos jornais a palavra "hospitaleiro" sendo usada para algumas situações, e ao lado os discursos racistas e eugenistas claramente em posição contrária contra outros grupos de imigrantes. O brasileiro também emigra para diversos países, e nossa presença tem aumentado lá fora, mas ainda recebemos um número muito baixo de refugiados, por exemplo. Contribuímos pouco neste sentido.
BBC Brasil - Você citou um editorial do jornal Folha da Manhã, de 1926, entitulado "Fechem-se as fronteiras". Esta seria um pouco a noção de que o Brasil enxergou durante muito tempo a imigração de forma unilateral e seletiva? Ainda vemos este discurso?
Barreto - Sim, o tema do editorial de 1926 é justamente a noção de que o país já teria recebido todos os imigrantes necessários. Já chegaram todos que nós queremos, após a vinda em massa de alemães e italianos, foi cumprida a função da imigração no Brasil. Já ocupamos e populamos o país, e agora as fronteiras devem ser fechadas e quem entrar deverá ser muito bem selecionado.
Hoje em dia a posição continua, mas travestida por outro argumento. A imprensa trabalha com o mito de que somos um país pobre, em desenvolvimento, e não temos condições de receber mais ninguém. Vamos receber somente os melhores e mais úteis. São evidências no discurso da imprensa e na visão da sociedade brasileira que contrastam diretamente com a ideia do "Brasil hospitaleiro, onde todos são bem-vindos".
No contexto atual, de crise econômica e política, há que se observar atentamente a maneira como o imigrante será retratado na imprensa, por ele ser um excelente bode expiatório para os problemas. Não tem grande chance de defesa, não está integrado ao país, é o outro, o diferente, que traz dificuldades.
Desemprego, inflação e crise tendem a tornar a visão dos imigrantes ainda mais negativa.

Reportagem de Jefferson Puff
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150819_racismo_imigrantes_jp_rm#orb-banner
foto:http://slideplayer.com.br/slide/394672/

Exame de sangue antevê recaída de paciente com câncer de mama


Para lidar com alguma chance de sucesso com doenças mais graves como o câncer ou o mal de Alzheimer, se sabe há muito tempo que a chave é identificar a presença da doença quando ela ainda é invisível. Isso é o que está começando a conseguir um grupo de pesquisadores do Instituto de Pesquisa do Câncer (ICR, na sigla em inglês), em Londres (Reino Unido). Numa pesquisa publicada nesta semana pela revista Science Translational Medicine, é explicado como os pesquisadores desenvolveram um exame de sangue para identificar quais mulheres submetidas a tratamento para o câncer de mama sofrerão uma recidiva.
Os pesquisadores, liderados pelo espanhol Isaac Garcia-Murillas, analisaram 55 mulheres com câncer de mama em estágio pouco avançado que haviam feito quimioterapia e haviam sido submetidas a uma cirurgia. Durante dois anos depois da cirurgia, o sangue das pacientes foi extraído para procurar o material genético do tumor e analisar a evolução de suas mutações. Em 12 das 15 mulheres que sofreram uma recaída, a análise do DNA do tumor encontrado no sangue foi utilizada para prever o que iria acontecer. Essa informação foi obtida oito meses antes que os métodos convencionais de imagem médica fossem capazes de detectar que o câncer estava se espalhando novamente.
O sistema dos pesquisadores do ICR permite observar como se acumulam as mutações nos genes do tumor. O progresso dessas mutações faz com que o câncer seja cada vez mais difícil de combater e a informação sobre esse tipo de teste pode ajudar a tratá-lo enquanto ainda é administrável. Além disso, com esse monitoramento os autores do estudo esperam identificar as mutações mais perigosas para adaptar o tratamento e “impedir ou retardar a recaída de forma substancial”, disse Nicholas Turner, o principal autor do estudo. “No entanto, estamos em uma fase inicial de pesquisa e precisamos de mais estudos antes que o teste possa ser aplicado aos pacientes de maneira convencional”, acrescenta.
Embora as técnicas de sequenciamento genético permitam descobrir os restos de DNA tumoral que caem na corrente sanguínea, isso é mais fácil quando a doença está na fase metastática e já invadiu partes do corpo distantes do foco inicial do mal. No caso de câncer da mama, em que 95% dos diagnósticos ocorrem numa fase precoce, quando o tumor ainda está localizado, foram encontradas mais dificuldades para identificar a presença do câncer no sangue e acompanhar sua evolução por meio da análise de seu material genético.

Medicina personalizada

Métodos como o apresentado pelo ICR num estágio inicial de desenvolvimento são passos no que se conhece como medicina de precisão, uma abordagem que procura personalizar ao máximo os tratamentos em vez de buscar soluções gerais que valham, embora apenas pela metade, para muitas pessoas. No início deste ano, vinte hospitais da Espanha começaram a implantar a biópsia líquida para melhorar o tratamento do câncer. Nesse caso, trata-se de procurar, a partir de uma amostra de sangue, se os pacientes com câncer de cólon metastático têm ou não a mutação do gene RAS. Sabe-se que entre 55% e 65% dos pacientes com câncer têm essa mutação e não respondem à terapia com os medicamentos Cetuximab e Panitumumab, que é eficaz para outras variantes genéticas. A informação serve para escolher melhor o tratamento adequado.
Também no início deste ano, uma equipe do Instituto de Pesquisa Biomédica de Barcelona publicou a criação de um exame genético que serve para calcular o risco de um paciente com câncer de cólon desenvolver tumores secundários e atingir a fase metastática. Essa informação, caso esse avanço chegue aos hospitais, permitirá tratar apenas as pessoas que estão em risco e evitar a aplicação da quimioterapia em outros pacientes, cujos tumores não têm o mesmo perfil de risco.

Reportagem de Daniel Mediavilla
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/26/ciencia/1440604601_071020.html
foto:http://blog.shopfisio.com.br/5-fatores-que-podem-causar-o-cancer-de-mama/