26/06/2017

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Geração com mais de 50 anos revoluciona velhice e cria 'gerontolescência', diz guru da longevidade

Envelhecer não é mais o que era antes graças aos baby boomers, que estão transformando esse período e vivendo de forma diferente das gerações anteriores - é o que diz uma das maiores autoridades em envelhecimento do mundo, o médico brasileiro Alexandre Kalache.
Em entrevista à BBC Brasil, Kalache diz que o brasileiro terá que trabalhar mais tempo "quer goste ou não", acima de tudo porque terá uma vida mais longa. Mas a boa notícia, afirma, é que a chegada à velhice da geração do pós-guerra cria uma nova construção social, o que chamou de gerontolescência.que atualmente tem mais de 50 anos - estão revolucionando a velhice e transformando o período em uma nova fase porque são em maior número, têm um nível de saúde e vitalidade maior e melhor formação do que as gerações que envelheceram antes deles.
Para o médico, que atuou como diretor de envelhecimento na Organização Mundial da Saúde e já lecionou sobre o tema em universidades como a de Oxford, isso abre a possibilidade de promoção de uma nova forma de envelhecer, que vem sendo construída socialmente por esse grupo.
"A gente revolucionou o conceito de fazer a transição da infância para a idade adulta e criamos uma coisa que não havia antes da Segunda Guerra Mundial, que é a adolescência", explica Kalache, ao explicar que a adolescência como construção social não existia antes dos anos 1950.
"Fizemos muita coisa que está aí: a revolução sexual, a pílula, as revoluções musicais, a luta contra a ditadura - não vou deixar de ser essa mesma pessoa de 50 anos atrás. Eu e esse grupo todo, os baby boomers, estamos envelhecendo com isso tudo como legado. E daqui a um tempo vamos olhar para trás e ver que, assim como criamos a adolescência há alguns anos, estamos criando a gerontolescência", diz ele.
Para ele, no entanto, há uma diferença entre essas duas construções sociais. "A adolescência deve durar quatro ou cinco anos - se durar mais tem algo errado. Mas a gerontolescência é para durar 20, 30, 40 anos. É muito tempo para a gente se rebelar, virar a mesa."

Encarando a morte

Para tratar do tema do envelhecimento em palestras, Kalache costuma pedir à plateia que imagine rapidamente como vai morrer. O exercício, segundo ele, serve para mostrar como há uma "idealização da morte que já não é mais a regra".
Isso porque, diz ele, "vamos morrer mais velhos, mais doentes e mais lentamente do que muitos imaginam".
"A gente tem que se preparar para uma vida muito mais longa e pensar no processo de morte, porque no Brasil três quartos das mortes são de pessoas idosas e por doenças crônicas, inclusive aquelas arrastadas que causam sofrimento e despesas. Então é preciso tentar assegurar qualidade de vida até o final."
E essa é uma realidade que deve ser levada em conta especialmente no Brasil, que envelhece a passos largos. Estimativas da Organização das Nações Unidas apontam que até 2050 o Brasil terá 64 milhões de idosos - ou 30% da população, em comparação aos atuais 12%. Em 2001 esse total era de apenas 9%. Em menos tempo - em 2025 - o país deverá ocupar o sexto lugar em número de idosos no mundo.
Para Kalache, além de estar envelhecendo rapidamente, o Brasil percorre esse caminho em um padrão sem precedentes.
"Estamos envelhecendo com uma grande parcela da população em pobreza. É um desafio grande porque não temos precedentes, modelos. Nenhum país até hoje envelheceu sem ser rico. E estamos envelhecendo rápido e ao mesmo tempo sem recursos para políticas sociais e de saúde que possam responder a uma população já muito envelhecida, como seremos em três décadas."

Mais trabalho

Então vamos ter que trabalhar mais? Kalache, que atualmente preside o Centro Internacional Longevidade Brasil, responde que sim, e vai além: critica o "luxo" do nosso sistema previdenciário atual.
"Vai ter que trabalhar mais tempo? Eu acho que sim. Um país como o Brasil que se dá ao luxo de ter a aposentadoria média aos 54 anos é um país inviável. Não existe nenhum país que tenha conseguido por muito tempo manter tanta gente aposentada, sobretudo porque a base da pirâmide, que são os jovens, está diminuindo. Então, a gente goste ou não, vamos ter que nos preparar para uma vida laboral mais longa. E já que vai ter que trabalhar mais tempo, vamos trabalhar para ter projetos e para ser estimulante", opina.
Por isso, segundo ele, será necessário pensar em uma política pró-natalidade para equilibrar a pirâmide social, ou seja, ter uma proporção menos desigual de jovens e idosos no país, e ainda garantir um envelhecimento melhor aos mais velhos.
Ele afirma que, para isso, são necessários quatro capitais fundamentais: saúde, conhecimento para não se tornar obsoleto (o manter-se antenado), bem-estar financeiro e bem-estar social (ou o "capricho nas relações para ter para a quem recorrer quando o negócio apertar").
"A gente sabe que a pensãozinha só no fim da vida não vai dar conta. Aproveite para fazer suas economias porque, no final da vida, a gente precisa de mais renda e mais dinheiro, e não de menos."

Reportagem de Néli Pereira
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Disputa no Ministério Público: sucessor de Janot pode prejudicar Lava Jato?

Na mesma semana em que deve encaminhar a primeira denúncia contra o presidente Michel Temer, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, começa a despedir-se do cargo.
O segundo mandato - de dois anos cada - de Janot, que ganhou grande visibilidade com o andamento da Operação Lava Jato, expira em setembro. Nesta terça-feira, os integrantes do Ministério Público Federal votam uma lista tríplice para indicar um sucessor; o próprio Janot não está na lista.
Além de ocorrer em meio a uma crise política, o processo será definido pelo próprio Temer, que tem a prerrogativa constitucional de escolher o procurador-geral da República. O único requisito é que seja membro da carreira do Ministério Público da União e tenha mais de 35 anos.
O costume seguido desde o governo Lula, no entanto, é que o presidente decida por um dos três nomes mais votados pelo MPF.
Dada a importância do cargo para a operação e o delicado momento político em que a transição ocorre, teme-se que o substituto de Janot possa interferir na Lava Jato. Levando essa dúvida em consideração, a BBC Brasil conversou com professores de Direito constitucional e penal para discutir se é possível (e provável) que, com seus poderes, o novo procurador-geral da República prejudique as investigações.
Os especialistas que consideram essa possibilidade viável evocam procuradores do passado do MPF que tinham pecha de "engavetadores da República" - conhecidos por evitar denúncias e investigações- e a concentração de poderes nas mãos dessa figura, que decide sobre denúncias importantes e determina, assim, o ritmo de investigações.
Já quem refuta a interferência do próximo procurador cita a solidez institucional do Ministério Público, o perfil comprometido de seus membros e a força da Lava Jato, sem falar da pressão de sociedade e imprensa para que os trabalhos continuem.
Antes de entrar nos argumentos, é importante entender melhor o que faz o procurador-geral da República. Como chefe do Ministério Público Federal, ele exerce as funções do Ministério Público junto ao Supremo Tribunal Federal e outros tribunais superiores.
"O MP é o órgão que, segundo a Constituição, faz a defesa da sociedade. O procurador, então, zela pelo interesse da sociedade, é como se fosse seu representante", explica a professora de Direito constitucional da PUC-SP Marina Faraco.
Ou seja, Janot é o chefe dos procuradores e seus deveres são similares aos de seus subordinados, só que em uma instância superior - por isso, lida com presidentes, ministros e parlamentares. No Supremo, ele pode pedir a abertura de investigações e propor ações penais contra esses personagens, como está acontecendo com Temer.
"As mais altas autoridades da República são processadas pelo procurador-geral. Nesse sentido, ele detém muito poder: de processar, de investigar, de mover ações. Em certa medida, a persecução penal (investigação e ação) é só dele. Se ele não investigar uma autoridade dessas, ou denunciá-la, ela não passará por isso", diz o professor de Direito público da PUC-SP Marcelo Figueiredo.

É possível que prejudique

A concentração de poderes na mão de uma única pessoa é o principal ponto daqueles que julgam ser possível que um procurador-geral possa prejudicar a Lava Jato.
A decisão de denunciar ou não um presidente - como a que está sendo tomada por Janot -, depende apenas do procurador-geral, diz Figueiredo, por isso, o perfil do sucessor faz muita diferença. Embora acredite que a operação "já tenha pernas próprias", afirma que alguém mais ativo ou destemido deve acelerar os procedimentos. Já as características opostas poderiam fazer as coisas caminhar lentamente.
"É a pessoa que imprime um ritmo, que diz 'vamos investigar agora' ou 'vamos esperar mais provas'. Se for alguém inseguro, pode demorar mais."
Para o professor, além do conhecimento jurídico, ao avaliar se move uma ação ou não, é inevitável que o procurador leve em conta fatores subjetivos, sua "sensibilidade".
Eloisa Machado, da Escola de Direito da FGV, lembra como antigos ocupantes da cadeira tiveram abordagens bem distintas. Ela cita Claudio Fonteles, que exerceu o cargo entre 2003 e 2005, e moveu ação de inconstitucionalidade contra a pesquisa com células-tronco embrionárias. Católico, ele sustentava que a existência acontece a partir da fecundação e que as pesquisas não observavam o princípio constitucional do direito à vida.
No polo oposto estaria a ação para reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo, movida em 2011 pelo então procurador- geral Roberto Gurgel.
"Sempre há uma questão de escolha. Procuradores mais liberais vão propor ações com enfoque mais liberal. O mesmo acontece com conservadores", diz Machado.
"O procurador não é obrigado a levar nenhuma ação ao Supremo. No governo Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Brindeiro era chamado de 'engavetador geral da república'. É o papel que (Rodrigo) Maia faz hoje na Câmara: uma pessoa que consegue barrar todos os pedidos de impeachment."
Ao discutir que tipos de interferências poderiam ocorrer, Machado e Figueiredo falam mais de atrasos do que de interrupção.
A professora diz que, por natureza, o andamento das ações é mais lento no Supremo Tribunal Federal se comparado à primeira instância. Além de julgar crimes de alto escalão, os 11 ministros lidam com centenas de ações de inconstitucionalidade e processos complexos que vêm de outros tribunais. Sem falar nos julgamentos, feitos coletivamente e não por apenas um juiz.
Com um procurador-geral da República menos dinâmico, uma demora maior é iminente, afirma Machado. Até agora, nenhum político acusado na Lava Jato foi condenado pelo STF.
"Estamos falando de procuradores que tiveram coragem e disposição para levar as pessoas mais poderosas da República ao Supremo, tanto no mensalão quanto na Lava Jato. Se com toda essa disposição tudo anda mais devagar, caso o próximo coloque o julgamento desse núcleo político em segundo plano, as ações podem não chegar ao fim."
Em debate na quinta-feira, os oito candidatos à sucessão de Janot disseram que pretendem intensificar a atuação do Ministério Público no combate à corrupção. São eles os subprocuradores Eitel Pereira, Ela Wiecko, Franklin da Costa, Frederico Santos, Mario Bonsaglia, Nicolao Dino, Raquel Dodge e Sandra Cureau.
Apesar do consenso sobre a luta contra a imoralidade na política, Cureau foi contra a abertura de investigação sobre crimes praticados por um presidente antes de seu mandato - caso de Temer, acusado de pedir propina e receber repasses ilegais para suas campanhas. No evento, o último antes da eleição, os concorrentes não discutiram especificamente a situação do mandatário.

Não deve prejudicar

Para os professores que rejeitam possíveis prejuízos à operação, os candidatos ao cargo, assim como os demais membros da carreira, estão comprometidos em dar continuidade ao esforço de Janot. Além disso, acreditam que a instituição e a operação teriam força suficiente para não depender do desempenho do procurador-geral.
"É impossível na minha cabeça vir alguém que boicote a Lava Jato, porque ele participa de uma instituição que tem como função acusar as pessoas. As carreiras de Estado no Brasil tiveram um amadurecimento tão grande que é impossível alguém acabar com tudo", diz o professor de Direito da FGV Luciano Godoy.
Ele cita o avanço do Ministério Público nos últimos oito anos, frisando que o órgão está mais presente na vida política do país e tem mais credibilidade.
Nesse cenário, afirma o professor da PUC e procurador de Justiça Antônio Carlos da Ponte, não cabe um "engavetador".
"Pela própria cobrança institucional, não há chance, e a sociedade não admitiria isso. Esses episódios que envolveram a Presidência foram uma prova concreta disso: não há mais espaço para tentar frustrar a operação."
Segundo Ponte, que atua como procurador desde 2009, todos os participantes da disputa têm um histórico respeitável e o MP é "muito maior do que poucas pessoas representam".
O mesmo se aplicaria à operação Lava Jato, que já está numa fase avançada, com vários presos e investigados.

Lista tríplice

Os oito nomes citados acima concorrerão à eleição organizada pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). Os três mais votados formarão a lista tríplice. Entre os favoritos, estariam os subprocuradores-gerais Mario Bonsaglia, Raquel Dodge, Ela Wiecko e Nicolao Dino.
Há 14 anos, o presidente da República escolhe o primeiro colocado da lista como procurador-geral, que depois precisa ser aprovado pelo Senado. No entanto, o Palácio do Planalto vem dando pistas de que poderá mudar esse costume, já que não há obrigação legal de segui-lo.
A maioria dos entrevistados considera essa hipótese pouco provável, pela indisposição que Temer criaria com o Ministério Público, mas não deixam de vê-la com preocupação.
De acordo com o professor de direito penal Salah H. Khaled, da Universidade Federal do Rio Grande, ignorar a lista seria um "enorme desrespeito" com a instituição e um indício de que o presidente age para obstruir investigações nas quais poderia estar implicado.
"Agravaria a crise institucional e o cenário de guerra entre Poderes da República. Apesar de tudo isso, não descarto a possibilidade. Temer indicou Alexandre de Moraes para o STF, um constitucionalista de escassa relevância acadêmica. A indicação visivelmente foi política. Não seria surpreendente se agisse da mesma forma neste caso."
Com tal indicação política, diz a professora Eloisa Machado, a continuidade da operação como é hoje estaria em jogo.
"É o investigado definindo o investigador. É um escândalo. O presidente deveria ao menos escolher o primeiro indicado (da lista tríplice)."
Segundo ela, ainda que indicar qualquer integrante do MPF com mais de 35 anos seja uma prerrogativa do presidente, as consequências de ignorar a lista seriam graves - e haveria um contra-ataque da instituição. A reação poderia vir por meio das ações criminais da Lava Jato e até de uma atuação contra políticas governamentais.
Descumprir a prática também levaria a um isolamento do sucessor de Janot, já que ele não seria visto como legítimo por seus colegas, diz Luciano Godoy, da FGV.
No fim das contas, pondera Marcelo Figueiredo, da PUC, há mais razões para seguir a tradição do que para rompê-la. Segundo o professor, Temer estaria numa situação muito delicada para comprar uma briga que pode ser evitada.
"Um presidente democrata não pode ignorar uma lista tríplice. Não acho impossível, mas ele iria arrumar mais um problema na Procuradoria. Ainda que não siga (o costume) pela ética republicana, acredito que o respeite pela conveniência política."

Reportagem de Ingrid Fagundez
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40377214#orb-banner
foto:https://www.portalaz.com.br/noticia/geral/381121/ministerio-publico-federal-funcionara-no-domingo-em-regime-extraordinario

Cristina Kirchner confirma que será candidata e sacode a política argentina


Muitos pensaram que Cristina Fernández de Kirchnerestava acabada com a derrota eleitoral de 2015, quando Mauricio Macri chegou ao poder contrariando todos os prognósticos no país do peronismo. Mas a ex-presidenta está de volta às campanhas. Na noite deste sábado, mantendo o suspense até o final, como sempre, ela decidiu que será candidata ao Senado pela província de Buenos Aires em outubro, confirmaram ao EL PAÍS fontes do kirchnerismo. Se obtiver um bom resultado, será a líder indiscutível da oposição e, dessa sua eventual cadeira no Senado, ameaçará voltar ao poder em 2019 e desbancar Macri.
Há um ano e meio, a derrota do kirchnerismo para Macri foi um marco na América Latina. Era o início do fim da década dourada da esquerda latino-americana. O chavismo perdeu as eleições legislativas na Venezuela pouco depois, e Evo Morales foi derrotado no referendo para poder ser reeleito na Bolívia. A guinada parecia definitiva com a vitória do Pedro Pablo Kuczynski no Peru. Meses mais tarde caiu Dilma Rousseff, com um impeachment. E a volta de Sebastián Piñera ao poder no Chile é mais que provável.
Mas, desde alguns meses atrás, as coisas não parecem tão claras como antes. No Equador, ganhou o candidato de Rafael Correa, Lenín Moreno. No Brasil, Michel Temer está cada vez mais debilitado e muitas pesquisas apontam que Lula poderia voltar ao poder, se a Justiça não o impedir antes. Na Bolívia, Evo Morales continua sem rivais claros e com uma enorme aprovação. E na Argentina? Como sempre, nada é o que parece nesse país.
Se examinamos friamente os números, Macri é um dos presidentes com maior aprovação na América Latina. Mantém um apoio de quase 50%, apesar da crise econômica que vive o país, e tem como oposição um peronismo cada vez mais dividido. Seria possível dizer que a situação política argentina está bastante controlada para o Governo. Mas para concluir isso seria preciso ignorar um fenômeno chamado Cristina Fernández de Kirchner.
"Há um ano e meio diziam que [Cristina Kirchner] estava acabada, queriam se livrar dos kirchneristas. E diziam isso muitos dos intendentes [prefeitos] que agora se somam a seu movimento porque viram que em seus municípios ela tem um apoio de 40%, e não faz sentido ser contrário a ela. Agora todos a procuram. Não há ninguém como ela", assinala um kirchnerista.
A ex-presidenta deixou o poder derrotada pela classe média, que se cansou de 12 anos de kirchnerismo, de suas lutas contra tudo e contra todos, e de sua política econômica heterodoxa, que levou ao corte no financiamento internacional e à limitação da compra de dólares, uma autêntica obsessão do argentino com um pouco de capital. Ela é alvo de uma rejeição enorme. Mas também há entre 25% e 30% de argentinos que a adoram e a apoiarão haja o que houver. Os escândalos de corrupção a seu redor ou os casos que afetaram a ex-presidenta e sua família com vários processos judiciais não fazem diferença nesse setor.
Depois da derrota, ela se refugiou no sul, na Patagônia, à espera de que a crise econômica afundasse a imagem de Macri e recuperasse a sua. E agora decidiu apostar na volta à linha de frente. Na terça-feira, exibiu sua força ao reunir 25.000 pessoas no estádio do Arsenal. E agora se lança numa campanha que a terá como maior protagonista.
Se vencer, algo factível pelo apoio que mantém na área metropolitana de Buenos Aires, a zona mais afetada pela crise, Macri sofrerá. Mesmo que fique em segundo lugar, Cristina Kirchner entrará no Senado e será a grande protagonista, embora o golpe moral para o Governo, neste caso, seja menor. Tudo gira em torno dela, até mesmo a economia. Os investidores estão muito pendentes de sua volta. “Antes nos perguntavam como íamos baixar o déficit e agora perguntam o que vai acontecer nas eleições”, admite uma fonte da Casa Rosada.
A Argentina atravessa uma crise forte, que já estava lá no final do mandato de Cristina Kirchner, embora se notasse menos porque ela subsidiava a energia, por exemplo. A economia começa a melhorar − o último dado trimestral fala de 1% de crescimento −, mas por enquanto quase ninguém nota. A classe média baixa está sofrendo muito com a inflação, com a alta do gás, luz, água e transporte, com o medo a perder o emprego. E é aí onde ela se move com desenvoltura.
O kirchnerismo pega carona na crise econômica que Macri ainda não foi capaz de resolver para tentar recuperar o poder com uma pergunta simples, feita nos bairros populares, nas favelas, no coração do voto peronista: hoje vocês vivem melhor ou pior do que quando Cristina estava no poder? Ela se apresenta como uma grande protetora, ao estilo Evita Perón, que soube cuidar das pessoas. “Desorganizaram a vida da sociedade. Com eles não temos futuro. Voltou o fantasma do desemprego, a flexibilização trabalhista, temos preços e tarifas nas nuvens”, discursou na terça-feira, rodeada de seguidores.
Macri vive de expectativas. Uma parcela significativa de argentinos diz nas pesquisas que está pior do que antes, mas acredita que estará melhor dentro de um ano. No entanto, a paciência vai se esgotando com a persistência da crise, e essa parcela diminui lentamente.
A chave de tudo está na província de Buenos Aires. Ali vivem 40% dos eleitores do país. Macri é presidente porque sua candidata a governadora, María Eugenia Vidal, conseguiu, contrariando os prognósticos, derrotar ali o peronismo, que controlava essa província desde os anos 80. E é ali, novamente, onde essa nova mutação do peronismo que é o kirchnerismo tenta começar a retomada do poder.
Desta vez não parece fácil, porque Macri tem muitas coisas a seu favor. Mas a ex-presidenta quer tentar. “No país como um todo, ela tem um apoio médio de 28% a 30%, mas na terceira seção eleitoral [a zona superpovoada e problemática que rodeia Buenos Aires], ultrapassa 40% de imagem positiva. E esse apoio tem uma forte correlação com nível de renda, é um esquema tipicamente peronista: à medida que esse nível baixa, o apoio aumenta. O país se divide entre quem acredita que com ela estava melhor e quem quer que ela seja presa”, explica Eduardo Fidanza, diretor do Poliarquía, um dos maiores institutos de pesquisa do país. “Nos últimos 25 anos, a oferta peronista reuniu 60% dos votos na província de Buenos Aires. Por isso, a aposta do Governo é fragmentar ao máximo o peronismo. Só aí o Governo tem uma uma chance de derrotar Cristina”, insiste Fidanza.
A estratégia, por enquanto, está funcionando. O peronismo está divido no mínimo em três. De um lado está Cristina Kirchner, com sua lista de kirchneristas e alguns peronistas que finalmente se renderam à sua força eleitoral – a capacidade deste grupo para brigar entre si e se reunificar é infinita, como demonstra o fato de que o número dois de sua lista será Jorge Taiana, ex-chanceler que foi expulso do olimpo kirchnerista em 2010. De outro lado está Sergio Massa, peronista adversário dos Kirchner. E de outro está Florencio Randazzo, ex-ministro kirchnerista dos Transportes, com um pequeno grupo de prefeitos.
Essa divisão deveria favorecer o Governo, mas a força eleitoral da ex-presidenta é tanta que ninguém se atreve a prever sua derrota. O Executivo apresenta seu ministro da Educação, Esteban Bullrich, para enfrentar Cristina Kirchner, mas é evidente que o próprio Macri e a governadora Vidal, muito bem avaliada, é que comandarão a campanha governista.
Fontes da Casa Rosada procuram tranquilizar os investidores e qualquer um que pergunte sobre o futuro: mesmo que Cristina Kirchner ganhasse em Buenos Aires, dizem, ela não teria nenhuma possibilidade de voltar ao poder em 2019, por causa da rejeição que provoca. Em um sistema de dois turnos, como o argentino, a rejeição é quase tão importante quanto o apoio. Se ela chegasse a disputar a eleição de 2019 contra Macri, no segundo turno todos que a detestam, embora não gostem muito de Macri, iriam se reunir contra ela e dariam uma nova vitória ao presidente, asseguram.
Essa é a explicação oficial, que tranquiliza quem se convence mais fácil. No entanto, depois de considerá-la morta politicamente em 2015 e ver como reviveu em um estádio com 25.000 pessoas chorando com seu discurso como se fosse Evita Perón, o temor de uma volta triunfal de Cristina Kirchner está se instalando na Argentina que se mobilizou para removê-la do poder. Os partidários da ex-presidenta, enquanto isso, têm confiança e cantam “vamos voltar”. A campanha será longa e o resultado de 22 de outubro marcará os dois anos de presidência que restam a Macri.
Reportagem de Carlos E. Cué
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/25/internacional/1498347919_687285.html
foto:http://www.lanacion.com.ar/2036730-elecciones-2017-paso-cristina-kirchner-provincia-de-buenos-aires

Assim se deu o fracasso da condenação da Venezuela na Assembleia da OEA


Tudo corria como previsto. Os discursos dos diplomatas pareciam apenas a tediosa sala de espera de uma condenação sem precedentes contra o Governo da Venezuela na Organização dos Estados Americanos (OEA), o organismo mais crítico em relação ao chavismo na região. Os 23 votos necessários pareciam garantidos quando El Salvador tomou a palavra.
− Em nome da democracia, que haja um intervalo, um recesso, o que seja.
O pedido do chanceler salvadorenho, Hugo Martínez, foi acatado entre os olhares melancólicos de alguns ministros. A reunião de chanceleres se interrompia por 45 minutos. A derrota estava consumada.
México tinha preparado o terreno para chegar à Assembleia Geral e sair vitorioso. Em 31 de maio, os chanceleres da OEA adiaram sua reunião em Washington para tentar chegar a um acordo sobre as duas resoluções em discussão. O texto promovido pelo México e por outros 13 países − os mais capitalistas da região − exigia a libertação dos presos políticos, o fim da violência e a não realização da Assembleia Nacional Constituinte que o chavismo convocou para 30 de julho. O segundo texto, impulsionado pelos 14 países da Comunidade do Caribe (Caricom), era muito mais brando e só pedia o diálogo entre o chavismo e a oposição. Não exigia a libertação dos presos políticos e não fazia nenhuma referência à Constituinte.
A negociação estava em marcha. Pela frente, duas semanas intensas. Era preciso dar um passo além dos pronunciamentos dessa espécie de G-14 e do ativismo do secretário-geral da OEA, Luis Almagro, que anunciou neste sábado que deixará a OEA no dia em que houver “liberdade na Venezuela”. Se conseguisse a aprovação da resolução, o México conquistaria uma grande vitória para sua diplomacia, ausente da América Latina nas últimas décadas. A diplomacia mexicana recorre frequentemente à criação do Grupo de Contadora, nos anos 1980, para recordar os tempos em que seu prestígio internacional lhe permitiu ajudar a obter a paz na América Central.
Logo após o adiamento da reunião de 31 de maio, começaram as negociações, segundo a reconstrução desse processo feita com base na versão de uma dezena de fontes, incluindo embaixadores, diplomatas de diversos países e membros da OEA. As duas partes concordaram em criar um pequeno grupo de negociadores para agilizar as conversações: Estados Unidos, Brasil e Peru, de um lado, e Barbados, Guiana e Antígua e Barbuda, do lado caribenho. Antes de chegar a Cancún, eles se reuniram pelo menos quatro vezes. O México preferiu não participar diretamente dos encontros. A tensão com o Governo da Venezuela aumentou nos últimos meses. A crise se transformou também em um tema de política interna mexicana, já que o partido governante PRI, do chanceler Luis Videgaray, serve-se dela para atacar o principal candidato da oposição, Andrés Manuel López Obrador, que tem se mostrado brando em relação ao Governo venezuelano. Apesar de não participar, o México se manteve informado sobre o conteúdo desses encontros por meio de seu embaixador na OEA, Luis Alfonso de Alba, um diplomata com mais de 30 anos de experiência.
Até a madrugada de domingo passado, apenas algumas horas antes do início da reunião, as delegações trocaram telefonemas, mensagens e rascunhos de resolução sobre a condenação da Venezuela. O último texto tinha suprimido a menção à libertação dos presos políticos − e, quanto à Assembleia Constituinte, só pedia que se reconsiderasse sua realização. A poucas horas da abertura do encontro, o México obteve “fumaça branca”, como confirmou a vários representantes do G-14 o embaixador de Antígua: “Podem ficar tranquilos”. A diplomacia mexicana tinha conseguido aquilo que era impensável semanas antes: pelo menos 10 países apoiariam a condenação da Venezuela. As possibilidades de superar o mínimo de 23 votos necessários eram muito altas e o México já pensava em obter um resultado contundente, com o apoio de El Salvador.
Enquanto isso, a Venezuela também se mobilizava. Tinha enviado a Cancún uma delegação de quase 20 pessoas, a mais numerosa. Iniciou então sua investida contra a débil diplomacia caribenha, uma soma de ilhas endividadas e dependentes do petróleo bolivariano. A pressão foi total. Delcy Rodríguez, em sua última missão como chanceler, reuniu-se com todas as delegações e conseguiu um encontro plenário da Comunidade do Caribe, algo que não foi concedido ao México.
A fumaça branca foi escurecendo com o passar das horas. A estocada definitiva ocorreu durante a reunião de chanceleres. Depois de horas de discussão, El Salvador pediu um recesso na sessão. Os salvadorenhos alegaram que eles sim, mas outros países − São Vicente e Granadinas, Haiti e República Dominicana, entre outros − não tinham visto o novo texto. A sessão ficou interrompida por quase uma hora.
Na volta, só seis países caribenhos votaram a favor do texto. Outros seis se abstiveram, entre eles Antígua e Barbados, cujo embaixador tinha prometido apoio ao documento horas antes. República Dominicana e El Salvador, dois países que a Venezuela pôs no radar para uma possível mediação com a oposição, também se abstiveram.
A posição do país centro-americano irritou muito o México, segundo vários dos presentes. Os anfitriões se sentiram, de certa maneira, traídos por um país de sua órbita de influência. Alguns dias antes, os mexicanos tinham impulsionado em Miami uma reunião de cúpula entre os países centro-americanos e os Estados Unidos. O México acreditava que o gesto de promover aquele encontro seria recompensado.
Igualmente dolorosa, embora não tão surpreendente, foi a mudança de posição dos países do Caribe. A Venezuela usou sua artilharia diplomática para trazê-los para seu lado. O ás na manga do Governo bolivariano continua sendo o ouro negro. Não serviu para nada o trabalho das semanas anteriores. Nem o fato de o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Julio Borge, em uma recente viagem a Washington, ter tentado convencer alguns desses países caribenhos. “Para vocês não é interessante uma Venezuela que não seja próspera”, advertiu. Não adiantou. O Governo de Maduro nem precisou oferecer mais petróleo, bastou pressionar com a dívida para atrair os amedrontados. República Dominicana, Haiti, Granada e Antígua e Barbados somam mais de 2,1 bilhões de dólares (7 bilhões de reais) em dívidas com a Venezuela pelo fornecimento de petróleo. El Salvador deve mais de 900 milhões de dólares (3 bilhões de reais), segundo informação oficial. “Nunca vi um exemplo de cubanização tão profunda como esta na diplomacia de um país”, afirma um diplomata a par das negociações.
A impotência foi consumada pelos Estados Unidos. A ausência de última hora do secretário de Estado Rex Tillerson foi um balde de água fria. Sua participação, coincidem os diplomatas consultados, inclusive os críticos, poderia ter mudado o panorama. O Governo de Donald Trump decidiu enviar em seu lugar o subsecretário de Estado John Sullivan, confirmado no cargo no final de maio.
Um dos embaixadores consultados resume:
− Os EUA não fizeram seu trabalho. Não havia ninguém do outro lado. Pensar que você pode se somar a um esforço e não incorporar a cavalaria é absurdo.
As dúvidas sobre o interesse e a capacidade que o Governo Trump tem de olhar para a América Latina, além de Cuba ou das provocações dirigidas ao México, ficaram evidenciadas em Cancún. Seu esforço se concentrou em tentar levar adiante a criação de um grupo mediador, com a resolução já derrotada. Esse objetivo também não foi alcançado. Apesar disso, o vice-presidente Mike Pence disse na quinta-feira que os EUA estavam “francamente decepcionados pela falta de ação da OEA na crise da Venezuela”.
As declarações de Pence foram a nota final para a incapacidade, mais uma vez, de um organismo regional de chegar a um acordo ante uma realidade que, dia a dia, há anos, golpeia sem parar. Parece inacreditável, mas 90% do continente não pôde vencer 10% dele. O contínuo vaivém no recinto luxuoso da reunião de Cancún, um balneário do Caribe mexicano, contrastava com as imagens que chegavam das ruas da Venezuela, onde os protestos se aproximam dos 100 dias. Quase 80 pessoas já morreram. Um dia depois da última reviravolta da diplomacia para a Venezuela, um oficial venezuelano matou um manifestante com um tiro à queima-roupa. Era um jovem de 22 anos.
Reportagem de Javier Lafuente e Jacobo García
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/24/internacional/1498315118_075145.html
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24/06/2017

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Maior participação feminina traria R$ 382 bilhões à economia brasileira até 2025, diz OIT

O Brasil pode expandir sua economia em até R$ 382 bilhões ao longo de oito anos se aumentar a inserção das mulheres no mercado de trabalho em um quarto até 2025, estima a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Diminuir em 25% a desigualdade de gênero no mercado de trabalho até 2025 é um compromisso dos países-membros do G20, do qual o país faz parte. Segundo a OIT, isso traria um incremento acumulado de 3,3% ao Produto Interno Bruto brasileiro ao longo do período.
As estimativas apontam que se a participação feminina crescesse 5,5 pontos percentuais, o mercado de trabalho brasileiro ganharia uma mão de obra de 5,1 milhões de mulheres.
Os dados foram divulgados junto ao relatório global sobre a participação feminina no mercado de trabalho, publicado nesta quarta-feira.
A inserção das mulheres na economia levaria ao aumento no poder de consumo de bens e serviços das famílias, bem como ao aumento de recolhimentos de tributos sobre renda. A OIT estima que a injeção de capital resultante da inserção feminina na economia possa acrescentar R$ 131 bilhões em receita tributária à União brasileira ao longo dos oito anos em questão.
Em entrevista à BBC Brasil, a técnica da OIT em princípios e direitos fundamentais do trabalho,Thaís Dumêt Faria, afirmou que o estudo atesta que é possível gerar riqueza por meio de inclusão social. "Um país consegue se desenvolver numa situação de igualdade e justiça social e ganha também em relação a produtividade e PIB", afirmou.
Faria diz que é possível incluir as mulheres no mercado de trabalho por meio de iniciativas públicas e privadas. "É importante focar na escolaridade, porque sabemos que muitas meninas abandonam a escola por questão de gravidez ou problemas familiares. Isso ainda é uma realidade. É importante também ter projetos, como fóruns de empresas. São iniciativas empresariais que buscam fazer um diagnóstico no seu quadro de funcionários e identificar onde estão as maiores disparidades."

Mais do que números

Para ela, "não é só uma questão numérica, (mas sim) de inclusão realmente na sua forma integral. É possível que haja 50% de homens e 50% de mulheres em uma empresa, mas que as mulheres ocupem cargos menores, sem acesso aos cargos de direção. Isso não é uma situação de igualdade", exemplifica.
O documento da OIT avaliou que apenas 56% das mulheres em idade economicamente ativa estão empregadas no Brasil. Em contraste, por exemplo, 78,2% dos homens estão trabalhando. No resto do mundo a participação feminina é de 49,4% e a masculina de 79,1%. A diferença entre gêneros em pontos percentuais arredondados é menor no Brasil (22) do que no mundo (26).
Para conseguir o incremento de renda, Faria e a OIT recomendam adotar políticas que garantam maior segurança social e acesso à educação para mulheres e seus dependentes. "Elas não têm nenhum tipo de proteção social. Se adoecem, elas não têm nenhum benefício, porque não contribuem, então - como são chefes de família - a família inteira fica desamparada e você acaba fortalecendo um ciclo de pobreza".
"São exatamente essas mulheres que deveriam estar inseridas no mercado de trabalho formal, com todas as garantias trabalhistas: em caso doença, de acidente, de morte. Enfim, elas têm os filhos para cuidar, se considerarmos que 41,5% delas são chefes de família", conclui.
No Brasil, o grupo de mulheres que enfrenta maior vulnerabilidade é o das trabalhadoras domésticas. "Temos dados de 2014 que mostram que 92% dos trabalhadores domésticos são mulheres, dessas 60% são negras e 41,5% são chefes de família e 40% são diaristas, ou seja, o nível de informalidade dessas mulheres dos grupos mais pobres é muito maior".
"Existe um recorte racial muito grande, que reforça a pobreza de um grupo social", prossegue ela, explicando que, nesse ciclo de pobreza, filhos de trabalhadores em situação precária precisam trabalhar para ajudar no sustento da família e, sem estudo, veem-se sem opções de ascensão social.

Ponto positivo em meio ao desemprego

Na região das Américas o estudo afirma que, entre 1997 e 2017, a inclusão se deu pelo viés do desemprego. Não foram gerados muitos novos empregos para mulheres - elas simplesmente foram menos demitidas do que os homens. Especialmente na última década, 2007-2017, as taxas de desemprego masculino subiram mais rapidamente do que o feminino, afirma a OIT.
A escassez de trabalho, que no Brasil se reflete em um índice de desemprego de quase 14%, é preocupação mundial. "Sublinhando a discrepância de gênero, há uma tendência negativa de taxa de participação para ambos homens e mulheres. Entre 1997 e 2017 a taxa de emprego de ambos os sexos caiu em aproximadamente 3 pontos percentuais", lê-se no relatório.
Mas apesar de haver menos empregos, a diferença entre homens e mulheres diminuiu proporcionalmente nas últimas década. A tendência para 2018-2021 nas Américas, entretanto, é de estagnação na melhora de igualdade e um recuo no número total de trabalhadores empregados.
Dados do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, divulgados nesta quarta corroboram a análise da OIT. O desemprego masculino cresceu "de 44% para 50% no período de 2012 a 2017, refletindo não só uma contração da ocupação entre os homens (-0,9%), mas também uma expansão de 3,7% da ocupação feminina".
"No Brasil a participação feminina é um pouco maior que a média geral. A diferença entre homens e mulheres brasileiros é menor que a média global. Então, isso é um ponto que podemos considerar positivo, no sentido de aumento de inserção da mulher no mercado de trabalho, mas a gente não está aqui analisando a qualidade desse trabalho", diz Faria.
"Isso também é importante: estamos analisando aqui somente a taxa de ocupação no mercado de trabalho, sem necessariamente avaliar as diferenças salariais ou a qualidade desse trabalho. Para a OIT é fundamental que todo trabalho seja considerado decente".

Compromisso

Em 2014, líderes do G20 - grupo das 20 maiores economias do mundo que inclui o Brasil - se comprometeram com a meta "25 em 25", que significa reduzir em 25% a diferença de gênero até 2025.
Se atingida, ela gerará a inclusão de 189 milhões de mulheres no mercado de trabalho mundial, 5,1 milhões dessas posições somente no Brasil. A projeção espera que a maioria dos empregos (162 milhões) sejam gerados em países emergentes, devido ao tamanho de seus mercados e potencial de avanço feminino, mas o cenário de incerteza econômica ameaça essa meta, acredita Faria.
"Quase um terço das mulheres e homens trabalhando em países emergentes e em desenvolvimento não ganham suficientemente para tirar suas famílias da pobreza", constata o documento da OIT.

Reportagem de Marina Wentzel
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40281756#orb-banner
foto:https://www.jpfgv.com.br/single-post/2016/11/06/Empoderamento-Feminino-no-Mercado-de-Trabalho