27/05/2017

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Dormir pouco deixa pessoas menos atraentes, indica pesquisa

Um experimento mostrou que a expressão do "sono da beleza" realmente faz sentido. Pessoas com menos horas de sono pareciam menos atraentes para estranhos, segundo um estudo publicado no Royal Society of Open Science.
Apenas duas noites mal dormidas já eram o suficiente para tornar a pessoa "significativamente mais feia", diz a pesquisa. Indivíduos com olhos inchados e olheiras de cansaço foram notados como menos saudáveis e, inclusive, menos socializáveis.

O experimento

Pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, convocaram 25 estudantes universitários, homens e mulheres, para o experimento do sono. Eles pediram que os voluntários tentassem dormir bem nas duas primeiras noites e, uma semana depois, que dormissem apenas quatro horas pelas duas noites seguintes. Os estudantes receberam um equipamento para medir seus movimentos noturnos para, assim, ter certeza de que eles estavam cumprindo as recomendações.
Após as noites mal e bem dormidas, foram tiradas fotos dos voluntários sem maquiagem. Em seguida, pediram a 122 estranhos - homens e mulheres que vivem em Estocolmo, capital da Suécia - para dar notas por atratividade, aparência de sonolência e de saúde e até confiabilidade. Depois ainda perguntaram: "O quanto você gostaria de socializar com esta pessoa da foto?".
Em geral, os estranhos conseguiram notar se a pessoa estava cansada e, nos casos em que parecia sonolenta, a nota de atratividade era menor. Os que avaliaram as fotos também se mostraram menos interessados em socializar com os estudantes cansados, que também foram percebidos como menos saudáveis.
Os autores do experimento dizem que isto faz sentido em termos evolutivos. "Um rosto com aparência pouco saudável, seja pela falta de sono ou por outro fator, pode ativar mecanismos de defesa em outros indivíduos que o corpo normalmente ativa para se evitar doenças".
Em outras palavras, as pessoas não querem passar tempo com aqueles que parecem doentes, enquanto que alguém que tem aparência enérgica e em forma vai despertar mais interesse.
"Não quero deixar as pessoas preocupadas e fazer com que elas percam noites de sono por causa desses resultados", comentou autora principal do experimento, Tina Sundelin, do departamento de Neurociência Clínica do instituto. "Muitas pessoas lidam bem se perdem algumas horas de sono algumas vezes".
O professor de psicologia evolutiva da Universidade de Liverpool (Reino Unido), Gayle Brewer, que não participou do estudo, concorda com os resultados.
"O julgamento da atratividade de alguém é algo inconsciente, mas todos nós fazemos isto, e somos capazes de notar sinais mínimos de se a pessoa parece cansada ou pouco saudável", afirma Brewer.
"Queremos que nossos parceiros sejam atraentes e enérgicos. Este estudo é um bom lembrete de como o sono é importante para nós", acrescenta.

Reportagem de Michelle Roberts
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/geral-39946633#orb-banner
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Contrabandistas de migrantes: caçados em pleno alto mar



Verão, tempo bom e um Mediterrâneo tranquilo. Esse é o cenário ideal para as máfias que operam com dezenas de milhares de migrantes desesperados. Eles deixam tudo para trás – dinheiro, bens, o único par de sapatos – para poderem chegar às costas da União Europeia (UE). Os contrabandistas não apenas maltratam essas pessoas nas praias a oeste de Trípoli (Líbia), mas também semeiam o medo em alto mar, às vezes em águas internacionais. Depois recuperam as embarcações vazias, já resgatadas, para utilizá-las novamente – segundo um relatório de inteligência da UE ao qual o EL PAÍS teve acesso.
Sophia, a operação de 25 países do bloco contra os traficantes no Mediterrâneo, que terminará em julho, pegou em flagrante as máfias em plena operação no mar. A bordo de lanchas, os criminosos acompanham as embarcações apinhadas de homens, mulheres – às vezes com gravidez avançada – e crianças até o limite com as águas internacionais. Nesse momento, eles retiram os motores dos barcos e levam consigo “para reutilizá-los em futuras operações”, explica o documento. Ano passado, a organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) começou a perceber essas práticas. Até agora, no entanto, só havia sido divulgado que eram os próprios migrantes que se desfaziam do motor, jogando-o ao mar quando avistavam o pessoal de resgate, segundo relatos colhidos por testemunhas e ONGs.
Os contrabandistas encontraram uma maneira de aproveitar ao máximo o negócio das embarcações. “[As máfias] esperam, inclusive em águas internacionais, para recuperar os barcos que não tenham sido destruídos pelos militares após o resgate”, diz o relatório.
Em imagens aéreas feitas neste mês de maio, é possível ver claramente como balsas com aparência de barcos pesqueiros rebocam botes de borracha e madeira vazios de volta às costas entre Trípoli e Sabrata, na Líbia. Desse modo, as máfias os reutilizam nos contrabandos seguintes. É um movimento de ida e volta interminável. Só em Misrata há cerca de 10.000 subsaarianos, segundo relatou em janeiro o médico Tankred Stoebe, da MSF. E muitos terão como destino o litoral italiano. A operação Sophia conseguiu “neutralizar” – ou seja, queimar – 347 barcos no ano passado (281 de borracha, 61 de madeira e cinco de pesca) para que as máfias não voltassem a usá-los. Os militares, que monitoraram essas práticas utilizando 10 barcos e sete aviões, constatam que “não foi adotada nenhuma ação contra esses traficantes”. Segundo a missão militar, é “fundamental” destruir as balsas para desmantelar um negócio mafioso que arrecadou cerca de quatro bilhões de euros (14,4 bilhões de reais) somente em 2015, segundo a agência de controle de fronteiras exteriores da UE (Frontex). Mas a eliminação geralmente depende das autoridades, não das ONGs.
O fluxo migratório aumenta consideravelmente à medida que o tempo e as marés se tornam favoráveis à navegação. E a UE se preocupa com as “saídas simultâneas”. Essa avalanche, junto com o descontrole da Guarda Costeira da Líbia sobre a zona de Zuara (oeste do país), hoje nas mãos das milícias, dificulta cada vez mais a vigilância de uma das vias de entrada da Europa. As embarcações saem de vários pontos ao mesmo tempo, sob o comando dos contrabandistas (sobretudo de Sabrata, Zauiya e Zuara, na Líbia; Monastir, na Tunísia; e Annaba, na Argélia) com uma diferença de “poucos minutos”, detalha o relatório. E isso limita “seriamente” a capacidade de salvamento marítimo e de resgate por parte das ONGs na zona do Mediterrâneo Central, a mais mortífera há 11 anos, quando teve início a contagem do número de vítimas. Somete na manhã da última quarta-feira, houve 20 operações de resgate.
Desde 2015, 385.319 pessoas fizeram esse percurso provenientes da Líbia. (50.041 até agora em 2017), mais do que toda a população da cidade espanhola de Bilbao. Além disso, 12.064 pessoas, a maioria subsaarianas, morreram na tentativa desde 2014, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Morreram por afogamento – muitas delas não sabem nadar – ou por asfixia. Ou inclusive devido à violência das máfias. Após um resgate em 6 de maio passado, quando um barco de uma ONG chegou a Catânia (Sicília) com 141 pessoas e um cadáver a bordo, as autoridades locais certificaram que o homem havia morrido durante a travessia, mas não por desidratação nem por esgotamento, como é habitual. Segundo os companheiros, um dos contrabandistas, que estava em outra lancha, ordenou ao migrante que entregasse seu boné, que o protegia do Sol. O homem resistiu. O criminoso respondeu com um disparo mortal e obrigou os demais ocupantes a levarem o corpo num barco repleto de sarna e outras doenças.

Mais sírios

A imensa maioria dos que se aventuram a pagar as máfias para alcançar a UE partindo da Líbia é nigeriana. O número de cidadãos de Bangladesh, no entanto, aumentou de forma exponencial: passou de apenas quatro nos primeiros meses de 2016 para 5.812 no mesmo período de 2017. Também há pessoas de Gâmbia, Costa do Marfim, Senegal, Guiné... As autoridades de controle de fronteiras advertem sobre um “incremento” do número de sírios que se lançam ao Mediterrâneo saindo da Líbia, pois a rota dos Bálcãs está oficialmente fechada há um ano. De acordo com a operação militar, os sírios utilizam barcos de madeira porque “acreditam que são mais seguros”, embora as ONGs afirmem que são muito mais instáveis. Levam mais pessoas confinadas – inclusive no interior, onde se asfixiam com a fumaça do motor – e não se adaptam tão facilmente às ondas. De qualquer forma, é cada vez mais complicado encontrar contrabandistas que os transportem nesse tipo de embarcação. “Normalmente, [os sírios] já viviam e trabalhavam na Líbia durante vários anos antes da partida, embora muitos tenham relatado que haviam chegado pouco tempo antes, com passaporte falso, ao aeroporto de Trípoli provenientes da Síria, Turquia ou Líbano via Cartum (Sudão)”, indica o documento. Ano passado, 9.381 pessoas que chegaram à Itália disseram ter saído do Sudão rumo à Líbia para se dirigirem depois à UE, segundo a OIM.

Reportagem de Belén Domínguez Cebrián
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/05/26/internacional/1495787926_879241.html
foto:http://averdade.org.br/2015/09/a-migracao-e-a-crise-humanitaria-na-europa/

Os laços da grande família jurídica do Brasil voltam à tona com a Lava Jato



Uma pendenga entre o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes está na mesa da presidenta da Corte, Carmen Lúcia. No último dia 8, Janot entrou com um pedido para que Mendes seja impedido de julgar o caso no STF envolvendo o empresário Eike Batista no âmbito da Lava Jato. O procurador enxergou motivo para afastamento no caso do habeas corpus concedido por Gilmar para libertar o bilionário já que a mulher do juiz, Guiomar Mendes, trabalha no escritório que defende o empresário suspeito de pagar propina ao ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral.
Nesta quinta, Mendes apresentou sua defesa a Carmen Lúcia, devolvendo artilharia a seu ‘acusador’. “A ação do Dr. Janot é um tiro que sai pela culatra. Animado em atacar, não olhou para a própria retaguarda”, escreveu. O ministro se referia ao fato de a filha de Janot advogar para a empreiteira OAS, uma das protagonistas da Lava Jato, comandada no STF pelo pai. “Se o argumento do crédito fosse levado à última instância, talvez a atuação do procurador-geral da República pudesse ser desafiada, visto que sua filha pode ser credora por honorários advocatícios de pessoas jurídicas envolvidas na Lava Jato”, escreveu Mendes.
Se os laços familiares dos dois magistrados parecem comprometê-los, talvez todo o sistema jurídico nacional teria de ser visto com lupa. Na verdade, todas as famílias de juristas brasileiros se parecem e, por vezes, se entrelaçam. Mas cada uma delas enfrenta uma suspeita diferente de conflito de interesse. Neste novelo jurídico, sobra até para os procuradores de Curitiba. Os irmãos Diogo e Rodrigo Castor de Mattos também atuam em lados opostos da Lava Jato. O primeiro está sob o comando de Deltan Dallagnol, enquanto o segundo se juntou à defesa do marqueteiro João Santana. O Ministério Público Federal em Curitiba diz que o irmão procurador não atua nos casos de Santana e que, além do mais, o escritório do irmão advogado começou a atuar no caso após o fechamento do acordo de delação do marqueteiro.
Os juristas brasileiros parecem de fato tomar cuidado com seus laços de sangue — recentemente o ministro Luiz Fux ficou de fora da disputa entre Sport e Flamengo pelo título do Campeonato Brasileiro de 1987, porque seu filho é advogado do rubro-negro carioca —, mas as precauções não são o bastante para afastar as suspeitas de quem enxerga promiscuidade entre juízes e defensores, ainda mais quando as relações se repetem com tanta frequência.
No STF, sete dos 11 ministros têm parentes como donos, administradores ou funcionários de grandes escritórios de advocacia, aponta levantamento do site Poder360. Um oitavo, novamente o ministro Fux, tinha uma filha advogada que trabalhava em grande escritório até o ano passado, quando ela deixou o posto para virar desembargadora no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro — sob questionamento formal de que não tinha qualificações para tanto e suspeitas de influência de seu pai na nomeação. Assim, esse tipo de suspeita está disseminada por praticamente todos os níveis do Judiciário nacional.
O cientista político Frederico de Almeida, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz que essa dinâmica tende a se repetir em todos os países, porque as faculdades de elite, que formam os maiores juristas, ajudam a criar e até reforçam redes que já existem em nível familiar. Mas esse fenômeno é mais intenso no Brasil. "No caso brasileiro, o mais peculiar talvez seja que, por sermos um país muito desigual, com uma elite muito restrita e que se reproduz há muito tempo e com pouca abertura para novos membros, essas redes sejam mais intensas e fechadas aqui, ainda mais nos níveis superiores", diz Almeida.
Em sua tese de doutorado, intitulada A nobreza togada, Almeida levantou registros que essa prática se repete desde os tempos de monarquia no Brasil, pela simples leitura das biografias dos magistrados. O currículo do ministro do STF Francisco de Paula Ferreira de Resende (1832-1893), por exemplo, destaca, com orgulho, o destino de seus rebentos na mesma seara. “Dois de seus filhos alcançaram altos cargos na administração e magistratura do Brasil: Francisco Barbosa de Resende, advogado e presidente do Conselho Nacional do Trabalho, e Flamínio Barbosa de Resende, desembargador do Tribunal de Apelação do Distrito Federal”.
Nada mais natural em uma área na qual as relações contam pontos no currículo. No século passado, valia também enaltecer a ‘network’ com referências às amizades de longa data, como no caso do ministro do STF João Martins de Carvalho Mourão (1872-1951): "Foi redator, com Edmundo Lins (mais tarde presidente do Supremo Tribunal Federal), Afonso de Carvalho (desembargador aposentado do Tribunal de Apelação de São Paulo, do qual foi presidente), Rodrigo Brêtas (peregrina inteligência, prematuramente falecido), Teodoro Machado (depois conceituado advogado nos auditórios do Distrito Federal) e Francisco Brant (depois diretor da Faculdade de Direito de Belo Horizonte), da Folha Acadêmica, jornal literário que fez na época da faculdade”.
Fabiano Engelmann, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diz que o parentesco sempre foi um fator facilitador. “A ocupação de um cargo de assessor de desembargador, geralmente de algum parente, sempre foi uma espécie de antessala para muitos oriundos de famílias jurídicas que, posteriormente, seriam aprovados em concursos para a magistratura”, diz ele. “Quando não há possibilidade legal do nepotismo diretamente, ele ocorre de forma cruzada. Ou seja, um integrante da Justiça federal contrata o parente de um colega da Justiça estadual, e assim sucessivamente", diz. Engelmann lembra que há dezenas de outras formas em que as relações de parentesco atuam no meio judicial, como na ascensão mais rápida nas carreiras públicas de membros que são de 'famílias jurídicas'. “Obtém, assim, mais facilidade para ocupar cargos de direção ou ser convocados para funções mais prestigiadas em tribunais superiores”, completa.
Se as relações servem como referência e endosso — o que, é preciso ponderar, ocorre em quase todas as profissões —, como assegurar que os laços entre acusadores, defensores e juízes não interfiram em seus trabalhos? O problema pode ser atacado por pelo menos dois lados, dizem os especialistas. Já existem regras que impedem um mesmo escritório de advocacia de assessorar duas partes de um mesmo conflito.
Nos Estados Unidos, contudo, a rigidez das bancas jurídicas é bem maior do que no Brasil. Os norte-americanos criaram mecanismos internos de confidencialidade e de responsabilização civil para evitar suspeitas. A ideia é permitir que dentro de um grande escritório — composto às vezes por 300 advogados — os juristas possam trabalhar em casos sem que um de seus colegas, parente de um juiz ou procurador, por exemplo, sirva de motivo de questionamento para um processo em que nem sequer atua, como tem ocorrido no Brasil.
Outro caminho é aumentar a fiscalização. “O problema principal parece ser a inexistência de órgãos de controle efetivos, como existem para o Executivo”, diz Fabiano Engelmann. Segundo ele, tanto o Conselho Nacional de Justiça (CNJ)quanto o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), além das corregedorias dos tribunais estaduais, têm uma atuação muito tímida. “Seja por não disporem de recursos suficientes de investigação, seja por arbitrarem punições muito brandas. Parecem órgãos meramente formais, hoje capturados pelo corporativismo dessas instituições e suas associações.”
Para Engelmann, há carência também de transparência sobre os casos investigados e as punições impostas. Faltam, enfim, dados organizados e aprofundados que possam ser acessados pelo cidadão brasileiro. “Isso tudo pode contribuir para atenuar a ação do tráfico de influências familial e garantir a independência do Judiciário”, sugere. Sem isso, o orgulho do pai juiz que vê sua filha virar desembargadora ou sócia de um grande escritório de advocacia pode acabar corroído por suspeitas de que, ainda que não tenha ocorrido conflito de interesse, eles dificilmente conseguirão se defender.
Reportagem de Rodolfo Borges
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/05/15/politica/1494855502_654494.html
foto:http://www.amodireito.com.br/2016/10/credibilidade-apenas-29-da-populacao.html

Justiça de SP vai definir quais usuários serão internados pela prefeitura


A Justiça de São Paulo será quem vai decidir, após uma avaliação clínica, quais usuários de drogas serão internados pela administração João Doria (PSDB-SP). As informações são do jornal Folha de S.Paulo, e a decisão vem dois dias após pedido da administração municipal.
Funcionará da seguinte forma: durante 30 dias, agentes de saúde da cidade de São Paulo e guardas civis metropolitanos abordarão usuários de crack na região da Cracolândia e nas imediações para avaliar o estado dessas pessoas. Caso seja decidido que é necessária a internação compulsória, será feito um pedido à Justiça, que analisará caso a caso.
O pedido da prefeitura foi feito em uma ação movida pelo Ministério Público de São Paulo em 2012 para impor limites à ação da Polícia Militar na abordagem de usuários de drogas.
Já há uma cautelar nessa ação impedindo ações policiais que causem situação vexatória, degradante ou desrespeitosa contra usuários de drogas. Também proíbe os agentes de segurança de impedir pessoas nessa condição de permanecer em ruas ou de obrigá-los a ir para outros lugares, exceto em caso de flagrante delito.
Segundo a Prefeitura de SP, a internação compulsória é necessária porque os usuários de drogas não têm mais controle sobre seus atos e precisam de auxílio. Cita ainda como justificativa que as péssimas condições sanitárias da área afetam a coletividade e os próprios dependentes químicos.
“Esse estado de coisas está a deteriorar o ambiente social”, diz a prefeitura, complementando que “era como se a cidade de São Paulo condenasse seus habitantes a morte certa”. Outro fator mencionado é a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) na área.
Os membros do PCC, disse a prefeitura, estariam cooptando usuários de drogas na área. Segundo a administração municipal, a presença do grupo criminoso impede “qualquer aproximação assistencial”. “Se antes a venda de drogas possuía um ponto fixo, agora as 'bocas de fumo' encontram-se flutuantes”, detalha.
Críticas à ideia
A Defensoria Pública de São Paulo e o MP-SP se manifestaram contra o pedido da prefeitura paulistana. Para os defensores públicos, o pedido é extremamente vago, amplo e perigoso, pois daria carta branca para eleger quem são as pessoas nesse estado, sem que houvesse qualquer possibilidade de defesa a elas.

A Defensoria argumenta que a Lei Antimanicomial (Lei Federal 10.216/2001) limita a internação compulsória quando outras tentativas de tratamento forem insuficientes. Diz ainda que essa medida deve ser excepcional, com laudo médico prévio, e que o pedido afronta as leis federais Lei 8.080/90 e Lei 11.343/06.
A primeira, que rege os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), determina a preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral. Já a segunda, que é a Lei de Drogas, garante o respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, especialmente à sua autonomia e liberdade, com respeito aos usuários e dependentes de drogas.
Já o MP-SP afirmou que a prefeitura descumpriu um pacto firmado desde o início deste ano. Entre as medidas que foram descumpridas está a de que não haveria uma grande operação policial na região. “A partir da operação policial, as informações que tivemos, para nossa surpresa, é de que a Guarda Civil, uma guarda sob comando da prefeitura, tomou conta do território, mas não para acalmar a situação ou acomodação daquela região para o atendimento da saúde e assistencial”, disse o promotor Eduardo Ferreira Valério.
Segundo Valério, a operação tinha que ser paulatina, discreta, quase invisível, de forma que os agentes pudessem abordar as pessoas com uma estratégia de singularidade, atendendo caso a caso. "A tônica do projeto é de que ele seria capitaneado pela saúde e pela assistência social e que a atuação da polícia seria secundária de, na retaguarda, garantir o trabalho das equipes de assistência social e de saúde", afirmou Valério.
“Infelizmente a Guarda Civil entrou, após a operação policial, de maneira dura, repressiva, revistando bolsas, pessoas e moradores, impedindo a livre circulação e expulsando usuários”, complementou.
Para o presidente do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, Darci Frigo, a operação policial na cracolândia foi “uma intervenção policial violenta, desproporcional e desnecessária". Segundo ele, o ato foi feito "sem nenhum planejamento com as equipes de assistência social e saúde que poderiam garantir que as pessoas em situação de drogas e a população em situação de rua tivessem garantias mínimas de seus direitos preservados".
Barracos no chão
A cracolândia foi palco de confronto no último domingo (21/5) com a entrada dos policiais na região, que alegaram a necessidade de prender traficantes. Depois das prisões, os agentes derrubaram barracos dos moradores de rua que lá estavam e os retiraram da área para que fosse feita a limpeza.

Também foi demolida parte de um prédio sem a confirmação de que pessoas ainda estariam no imóvel. Três ficaram feridos. Toda essa ação foi feita sob bombas de gás partindo da polícia e pedras sendo atiradas pelos moradores da cracolândia.
Decisão proferida nesta quarta-feira (24/5) pela 3ª Vara da Fazenda Pública determina que nenhuma remoção na área da cracolândia aconteça sem que seja feito prévio cadastramento das pessoas para atendimento de saúde e habitação, além de permitir que elas retirem pertences e animais de estimação dos imóveis.
Os membros do CNDH pediram a suspensão de “todo e qualquer ato de remoção compulsória de pessoas e bens, bem como o bloqueio e demolição de edificações na região da Luz”. 

fonte:http://www.conjur.com.br/2017-mai-26/prefeitura-sp-internar-usuarios-crack-compulsoriamente
foto:https://pt.slideshare.net/seminario4cederj/crack-saia-fora-dessa

26/05/2017

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Surfistas criam lixeira flutuante para coletar plástico e lixo dos oceanos

A enorme quantidade de resíduos plásticos espalhados pelos oceanos inspirou uma dupla de surfistas australianos a criar uma lixeira flutuante.
Apelidado de "Seabin", o invento, que pode sugar pedaços de plástico de diferentes tamanhos e até pequenas quantidades de combustível, tem uma bolsa de tela removível, que pode ser limpa quando está cheia.
Segundo seus criadores, a lixeira flutuante funciona com um mecanismo alimentado por energia solar.
A ideia é utilizá-la em portos e embarcadouros, onde o vento e as correntes aumentam o acúmulo de resíduos.
O projeto deverá ser comercializado neste ano.

fonte:http://www.bbc.com/portuguese/geral-40039382

Tratamento obrigatório para viciados em crack é ação 'ridícula', diz neurocientista americano

Internar usuários de drogas à força, como a gestão João Doria (PSDB) solicitou à Justiça, é uma ação "ridícula" que não resolverá o problema da cracolândia em São Paulo, avalia o neurocientista Carl Hart, professor titular da Universidade de Columbia, em Nova York (EUA).
Para Hart, que estuda drogas há mais de 20 anos, é preciso descobrir quem de fato é viciado entre frequentadores desses espaços e, depois, desenvolver tratamentos individuais para os dependentes químicos.
"Embora usem crack, muitas pessoas não são viciadas e têm outros problemas: psiquiátricos, relacionados à pobreza. Precisamos descobrir exatamente o problema de cada pessoa, e isso demandaria grande comprometimento e mais inteligência na abordagem", afirmou Hart à BBC Brasil.
Procurada pela reportagem, a Prefeitura de São Paulo não comentou as considerações do professor.
As pesquisas de Hart, autor de Um Preço Muito Alto - A Jornada de Um Neurocientista Que Desafia Nossa Visão Sobre Drogas (editora Zahar), inspiraram programas como o Braços Abertos, programa da gestão Fernando Haddad (PT) extinto pelo governo Doria.
No programa anticrack da gestão petista, dependentes químicos ganhavam moradia em hotéis da cracolândia e R$ 15 por dia se trabalhassem em atividades como varrição e jardinagem.
No último domingo, uma grande operação policial dispersou à força dependentes químicos que se reuniam na cracolândia, fechou comércios e hotéis usados no Braços Abertos. Na terça, três pessoas se feriram durante a demolição de uma pensão pela prefeitura.
A gestão Doria também pediu à Justiça autorização para realizar internações compulsórias de dependentes de crack, desde que o usuário passe por análise médica e psicológica. Hoje, esse tipo de encaminhamento cabe à Justiça. A prefeitura solicitou ainda autorização para retirar dependentes da cracolândia e enviá-los para avaliação médica contra sua vontade, o que seria uma "última alternativa" para casos graves.
"Minha primeira impressão é que o novo prefeito está colocando a politica à frente das pessoas. Se o objetivo é ajudar outras pessoas da sociedade, é preciso descobrir um modo de incluí-las nessa sociedade", disse Hart.

Comportamento racional

Professor de Psicologia e Psiquiatria, Hart questiona a visão de que as drogas tenham alto poder viciante e sejam a causa de diferentes mazelas sociais. Ele diz reconhece que há quem abuse delas e sofra efeitos graves no cotidiano, mas diz que concluir que as substâncias sejam o problema - e declarar "guerra" a elas - é um erro.
Criado em um bairro pobre de Miami e traficante de maconha na adolescência, Hart diz que começou a estudar neurociência porque queria ajudar a resolver o problema do vício em drogas. Ele afirma que acreditava na visão predominante nos EUA na segunda metade dos anos 1980, que explicava o crime e a pobreza em certas regiões pela disseminação do crack.
Um primeiro passo em suas pesquisas foi a descoberta, segundo ele, de que drogas como crack não são tão viciantes como se pensa. "Não há droga que vicie em uma dose. Dados mostram claramente que 80%, 90% das pessoas que usam drogas não possuem um 'problema com drogas", afirmou Hart em conferência em 2014.
O pesquisador costuma citar o tabaco como a droga mais viciante (33% dos fumantes, ou um em cada três, ficará dependente, diz), seguida por heroína (25%), cocaína e crack (15% a 20%), álcool (15%) e maconha (10%).
"Eu mesmo achava que o problema eram as drogas, mas não é. Há pessoas em São Paulo que têm dinheiro e bens, usam drogas e estão bem. Mas elas tem oportunidades, empregos, todas as coisas. Muitas das pessoas na cracolândia tiveram educação precária, não têm emprego, vem de famílias excluídas da sociedade. Há todos esses problemas sociais, mas é fácil para um político dizer 'vamos livrar a comunidade dessa droga' e não lidar com os problemas dessas pessoas pobres", disse à BBC.
Para estudar o comportamento dos dependentes, ele publicou anúncio em revista à procura de viciados nas ruas de Nova York. Oferecia US$ 950 para que fumassem crack produzido a partir de cocaína de padrão farmacêutico, desde que permanecessem vivendo em um hospital por três semanas durante o experimento.
No começo de cada dia, uma enfermeira colocava uma dose de crack em um cachimbo e oferecia ao usuário - vendado, o dependente não tinha como saber o tamanho da dose. Depois, cada participante recebia novas ofertas para fumar aquela mesma dose, mas também poderiam optar por uma recompensa, que às vezes eram US$ 5 ou um vale-compra do mesmo valor.
Quando a primeira dose era alta, os dependentes normalmente optavam por uma nova dose. Mas, se a primeira havia sido reduzida, era mais provável que abrissem mão da segunda rodada.
O neurocientista chegou aos mesmos resultados ao repetir o experimento com usuários de metanfetamina. E quando elevava a recompensa alternativa para US$ 20, todos os viciados, de crack e metanfetamina, optavam pelo dinheiro, mesmo sabendo que levariam semanas para embolsar os valores.
Para Hart, isso mostrou que dependentes químicos são capazes de tomar decisões racionais, desmontando a "caricatura" do viciado que não consegue resistir a uma dose.
Daí a ênfase do pesquisador na investigação das causas do vício de cada pessoa antes da "difusão de mitos sobre as explicações" e da "intervenção com soluções prontas". Se alguém está abusando do álcool ou do crack para lidar com algum trauma ou ansiedade, o tratamento efetivo, afirma, deveria se focar no transtorno psicológico.

Empatia e compaixão

Hart afirma que, embora "não fosse perfeito", o programa Braços Abertos era "um passo na direção certa" porque demonstrava, diz ele, "compaixão" com os dependentes.
"Certamente isso não é o que o atual prefeito está fazendo ao chamar a polícia e limpar a área. Isso mostra às pessoas que ele não tem compaixão e que está fazendo politica com pessoas", disse o professor, que vê o Brasil hoje na mesma situação dos EUA nos anos 1980 em relação ao crack, pelo foco que vê como excessivo na repressão.
Ele cita os programas para dependentes de heroína na Suíça, onde o governo fornece duas doses diárias aos inscritos e uma renda básica aos cidadãos, como exemplo de política de drogas de sucesso e "não moralista".
"Claro que a Suíça é uma sociedade homogênea (social e economicamente), praticamente toda branca. É mais fácil para essas pessoas ver esses usuários de drogas como irmãos e irmãs. O Brasil é como os EUA, muito diverso racialmente. Pessoas em lugares como a cracolândia são basicamente afro-brasileiras, negras. As pessoas em sua sociedade não as veem como irmãs, como na Suíça", avalia Hart, que foi o primeiro neurocientista negro a se tornar professor titular em Columbia.
A empatia, diz Hart, é um recurso fundamental para enfrentar a questão da dependência. "Se não lidarmos com essa questão, não resolveremos esse problema. Se isso não é tratado de forma clara, estamos apenas fingindo tratar do problema."

Reportagem de Thiago Guimarães
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40039961#orb-banner
foto:https://pt.slideshare.net/profmarildapb/crack-7376528