28/09/2013

"Brasília não escuta a gente", diz chefe do povo Kuikuro


Encontrei Afukaká Kuikuro, grande chefe do povo Kuikuru, do Alto Xingu, em Paris. Afukaká havia sido convidado por seu amigo, o espetacular fotografo Sebastião Salgado, para participar da abertura de sua exposição, Genesis, na capital francesa, onde reside. Salgado me disse que tinha se hospedado na casa de Afukaká no Xingu, com Lélia, sua espoa, e sido muito bem tratado. Estava, agora, retribuindo a gentileza. Afukaká veio com o antropólogo Carlos Fausto, que trabalham ha anos juntos, e fez a aproximação com o fotografo.
Na Maison Européene de la Photographie, no bairro do Marais, umas das fotos que mais chamava a atenção era uma grande ampliação de Afukaka. Em meio a tantas imagens incríveis de diversas partes do mundo, ali dava pra ver o líder xinguano em seus dois trajes de gala: o que porta na aldeia, na imagem, e o que porta em Paris. O chefe parecia orgulhoso em posar. Como um diplomata, era atencioso, sorria, mesmo sem entender o que diziam, por vezes, com ajuda da tradução de Fausto, e sempre muito simpático. Fausto abre sua exposição individual de fotografias sobre os Kuikuru no dia 2 de outubro, no mesmo local. A exposição se chama, em tradução: "Nus e vestidos a caráter ".
Afukaka é altamente politizado como são os grandes lideres xinguanos. E a viagem para a França também serviu para buscar atenção para o desafio que os povos indígenas estão passando no Brasil. Especialmente o ataque massivo em curso no Congresso Nacional contra os direitos indígenas. Um dos mais tradicionais lideres do Alto Xingu, Afukaka é ao mesmo tempo um sofisticado estrategistas das possibilidades de modernização das relações com o mundo exterior. Mandou seu neto estudar fora, fez alianças com a organização Vídeo nas Aldeias para treinar cineastas, articulou relações importantes com o arqueólogo Michael Heckenberger e para desenvolver um trabalho científico sobre a história do seu povo– e publicaram juntos artigos na prestigiosa revista Science.
Na aldeia não há álcool, as tradições são mantidas com muita força, a língua é uma das mais faladas em todo o Parque do Xingu, e o cacique discute, na comunidade, os problemas de quem vai tentar a vida na cidade, uma das grandes preocupações hoje dos xinguanos.
Com a ajuda de Fausto, recolhi o depoimento abaixo do líder. Ele falou um pouco em kuikuro, uma língua da família karib, e também no português de contato no qual ele se expressa. "Não é que eu estou aqui fora criticando o governo do Brasil. Eu estou é contando o problema dos índios. Brasília não escuta a gente."
A relação dos kuikuru com a terra, segundo Fausto, é bastante diferente. "Eles tem um ciclo agrícola de curto, médio e longo prazo, com uma utilização sustentável da terra. É muito sofisticado e projeta uma paisagem cultural de longuíssimo prazo para gerações futuras"
O cacique também passou um recado para os ruralistas, que acham que a terra nunca irá gastar: "Quando eu vejo soja, eu não entendo. Aquilo me preocupa muito. Eles tiram a mata, plantam soja, jogam veneno, tiram a soja. Daí tiram, jogam veneno. Todo ano jogam veneno, todo ano tiram, jogam veneno. Como é que vai fazer no futuro? Branco chega lá e fala: 'isso é meu, é minha terra'. E depois trata a terra assim?"
"Brasília não escuta a gente", por Afukaká Kuikuro*
Nos plantamos a nossa própria comida. Não abandonamos aquilo que a gente planta pra comer. A gente continua fazendo o nosso beiju, o nosso sal e comendo o nosso peixe. Por isso, a gente se preocupa muito com as cabeceiras dos rios da nossa terra, como o rio Buriti. Os brancos já fecharam o rio Kuluene com barragem. Eles quererem fechar outros rios nossos para produzir energia.
No rio Kuluene a água já mudou muito. Não só por causa da barragem, mas pelos venenos que os fazendeiros jogam na lavoura de soja. Os peixes estão morrendo. Isso nos deixa muito preocupados.
Cada família que tem casa tem também suas roças. Todos nos plantamos para nos alimentar. Plantamos muita mandioca. Um tipo de mandioca que só serve para fazer mingau, algumas outras variedades para fazer beiju. Muita mandioca diferente. Tem outra que a gente chama de mandioca de verdade, depois a mandioca da traíra, a mandioca do pacuzinho. A gente tem 45 nomes de mandioca. São 45 diferentes, ainda não tem estudo sobre a variedade delas. Tem também tem milho, que só é plantado em terra preta.
Nossos avós sempre usaram a terra preta para plantar o milho. A plantação de abóbora, batata, milho tem que ser em terra preta, que é onde foi aldeia no passado. A terra é melhor. Tem quatro tipos de milho diferente que nos plantamos, e eles só crescem na terra preta. A gente planta também banana. Temos três variedades de batata diferente, a batata vermelha, a clara e a verde.
Quando acaba a plantação da mandioca, que é assim: plantou, arrancou, plantou, arrancou; aí a terra fica fraca. Como a terra está fraca, a gente planta para os nossos netos. Plantamos a semente do pequi. Os avós deixam pros netos, pro futuro.
Para plantar o pequi, primeiro a gente faz um desenho de um jacaré na terra, e dentro dele a gente planta varias sementes de pequi. Aí o pequi cresce bem. Quando sai a muda, a gente tira a muda do jacaré e vai plantar na roça. Esse pequi, ele tem muitas variedades. Variedades que não existem fora do Parque do Xingu. Uma delas é um pequi que não tem espinho. É muito bom, a gente gosta muito. Só tem no parque. Mas agora a Embrapa quer patentear. Mas isso é produto nosso, do nosso manejo, dos índios da região. A gente gosta muito de comer pequi. Tem pequi que a gente usa para fazer óleo, e a castanha também usamos para comer.
Na roça velha, quando fica capoeira, tem muito remédio. É muito importante para nós também. Quando a roça acaba, ali fica com muito remédio, muita planta, cipó, que a gente usa como remédio. Os mestres do remédio, que a gente chama Embuta Oto, usam toda essa área que era floresta e virou capoeira, para pegar remédio.
Então quando a gente derruba uma mata a gente faz comida. Depois, a gente planta pequi, vai ter um pequizal pros netos. Quando a gente não planta pequi, essa área vira remédio, fica uma mata de remédio. Se não for mata de remédio, daí cresce o sapé, que a gente usa para fazer o teto da casa. Depois de mais um tempo, ali virou floresta de novo. Essa área que foi roça volta a ser floresta. Na floresta que não foi cortada ainda tem muita coisa importante para nós, principalmente a copaíba. E também material para construção de casa.
Mas quando eu vejo soja, eu não entendo. Aquilo me preocupa muito. Eles tiram, jogam veneno. Tiram, jogam veneno. Todo ano, jogam veneno, tiram. Como é que vai fazer? Branco chega lá e fala "isso é meu, minha terra", e trata assim a terra.
Eles dizem que eles compram a terra, e eles tem papel pra mostrar. E ninguém pode mais ir lá dentro. Com a gente não é assim. A gente pode ir pra mata dos outros, a gente pode ir pra roça. A gente respeita, mas se precisar de alguma coisa, pode ir la buscar. Mas na terra dos brancos não. Se a gente precisar ir em outra aldeia, Kamaiura, Yawalapiti, se a gente for lá pescar, caçar algum bicho, não é errado. Mas pra vocês, eu não posso fazer. No Xingu, nos podemos andar por tudo ali.
Bacia do Xingu, está toda cheia de fazendeiro. Agora tá apertado, tem fazenda por todos os lados. Muitas aldeias ficaram de fora quando fizeram o Parque do Xingu, nossos lugares sagrados, além de aldeias dos Kapalalo. Ainda estamos recuperando. Mas a política do governo não deixa mais recuperar nossa terra. Querem mudar a lei, estão enfraquecendo Funai. Não estamos conseguindo recuperar nenhum lugar sagrado. Isso é uma preocupação muito grande minha. Antes era tudo mato. Hoje é tudo fazenda.
Tem jovem que está indo para a cidade estudar. Eu mandei meu neto estudar. Como eu não falo bem português, não sei escrever nem ler, é importante ele saber, para voltar pra aldeia e trabalhar para o povo, para ensinar mais os jovens. Esse é o meu pensamento. Para lutar, para defender a terra. A minha boca chega lá em Brasília e o ministro não escuta. No papel vale mais. Eu pensava isso quando mandei meu neto estudar. Ele  vai aprender inglês, depois vai fazer faculdade, e vai voltar para a aldeia para defender o povo, para lutar.
Brasília não escuta a gente. Quando a gente vai pra Brasília, ninguém escuta a gente. A gente tem que sair pra outro país, como aqui onde a gente está, na França, pra ouvirem a gente. Porque o governo não quer ouvir a gente. E a Funai está ficando cada vez mais fraca. Brasília não acredita mais na gente, não confia na gente, no que a gente diz.
Antigamente, vocês tinham esses chefes também, os políticos. Mas agora são os fazendeiros que estão virando deputado e senadores. Eles estão lá, todos junto. Por isso que estão fazendo essa política só para eles.
Essa é a nossa luta. Para o nosso neto, nosso filho, para segurar a cultura, a nossa tradição. Eu não quero perder a nossa tradição, que tem lá no Xingu. Nunca esqueci as palavras de Orlando Villas-Bôas. Ele falou para mim: “Olha, Afukaká, quando você ficar grande, você vai ser chefe, tem que lutar pelos Kuikuro, e por qualquer aldeia que tenha aqui. Vocês tem que se unir.” Agora vai ter a mobilização em Brasília, e a gente está todo mundo junto. Está tendo reunião lá no Xingu, muita liderança está indo para Brasília. Vamos lá lutar pelos nossos direitos.
Não é que eu estou aqui fora criticando o governo do Brasil. Eu estou é contando o problema dos índios.
*Afukaká é cacique da aldeia Ipatse, do povo Kuikuro, no Alto Xingu, Parque Indígena do Xingu.

Reportagem de Felipe Milanez 

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