Enquanto a emigração para destinos
tradicionais tem decaído nos últimos anos, o fluxo de brasileiros para países
com políticas de atração para mão de obra aumenta.
No dia 26 de outubro do ano passado, logo após a reeleição da
presidente Dilma Rousseff, o agente de migração Renato Feldmann colocou no
Facebook um artigo com informações sobre como emigrar para o Canadá. Até a
meia-noite do mesmo dia, a postagem já tinha mais de 5 000 compartilhamentos.
Em março deste ano, um texto a respeito da vida em Quebec, também no Canadá,
viralizou na internet: a procura foi tão grande na rede que derrubou o servidor
do escritório da província canadense em São Paulo. Esses são casos que ilustram
o aumento no interesse de brasileiros em deixar o país. Os dados mais recentes
revelam que estamos diversificando nossos destinos. Ao mesmo tempo, sugerem um
perfil menos "aventureiro" daqueles que deixam o país.
Em
perspectiva, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE), que reúne as nações mais desenvolvidas do planeta, as estatísticas
mostram que o fluxo de brasileiros - legais - para o exterior diminuiu 28% de
2010 a 2013 (veja a tabela abaixo).
Essa queda está relacionada à crise econômica mundial de 2008, que devastou a
economia de nações que recebiam muitos brasileiros e afetou principalmente os
trabalhadores pouco qualificados. "Como sempre, são os postos de trabalho
dos imigrantes os primeiros a serem suprimidos", avalia Duval Fernandes,
professor da PUC de Minas. Não à toa, 65% dos imigrantes que entraram no Brasil
no final dos anos 2000 eram brasileiros que decidiram retornar. Três em cada
quatro deles tinham até o ensino médio completo.
Desde
2010, houve uma redução drástica do total de brasileiros que migram para
destinos históricos. Na Espanha, queda de 41% de 2010 a 2013, segundo a OCDE.
"A Espanha foi o segundo país no mundo ocidental que mais recebeu
imigrantes na década passada. Com a crise econômica, os fluxos foram reduzidos
e começou a haver um saldo negativo", afirma Leonardo Cavalcanti, do
Observatório das Migrações Internacionais. Em países como Portugal, Itália e
Japão, os fluxos anuais de brasileiros caíram sensivelmente no mesmo período.
Enquanto
esses locais ofereciam menos oportunidades, países com políticas de atração
migratória se tornaram mais interessantes. Mas os governos não escolhem
imigrantes a esmo: lançam listas buscando profissionais qualificados em áreas
específicas. É o caso do paulistano Rafael Isabella. Aos 32 anos, o analista de
negócios de Tecnologia da Informação decidiu viver em Sydney, na Austrália, com
a mulher. Enfrentou os oito meses do processo de imigração e recebeu a
aprovação há um mês. "O que mais me motiva a sair é a situação atual do
país. Temos uma cultura que permite que muita coisa errada aconteça",
justifica. Empresas especializadas na migração para a Austrália, como a Bravo
Migration e a Smart Vistos, têm crescido mais de 30% em média ao ano. O perfil
dos clientes é de profissionais com experiência em suas áreas, entre 28 e 39
anos.
O caso
da Austrália é emblemático: a migração qualificada brasileira no país mais que
dobrou desde 2010. Segundo dados do governo australiano enviados ao site de
VEJA, dos 884 vistos de residência emitidos em 2010, 506 (57,2%) eram para
profissionais qualificados. Em 2014, foram 1 520 vistos de residência, dentre
os quais 1 077 (70,8%) qualificados. Um aumento de 112% no período. Já o número
de brasileiros residentes cresceu 33,2% de 2010 a 2014, de 16 550 para 22 050,
segundo estimativas do governo.
No
Canadá - onde não há separação nos dados por qualificação -, o fluxo de
brasileiros atingiu um pico histórico em 2010 e seguiu uma forte redução no ano
seguinte. Para autoridades, o recorde está associado a novas regras para
acelerar o processo de entrada. Com isso, pedidos de anos anteriores que
estavam travados podem ter sido contabilizados. De 2011 a 2013, já sob regras
mais ágeis, o número de vistos de residência concedidos por ano a brasileiros
cresceu 13,5% - último dado disponível. Essa tendência pôde ser sentida no
escritório da província do Quebec em São Paulo, onde o número de palestras
sobre migração e também a procura por informações dobraram desde o segundo
semestre do ano passado. Outro destaque é o fluxo e a quantidade de brasileiros
na Alemanha, que cresceram mais de 25% de 2010 a 2012.
Países
como esses oferecerem qualidade de vida e oportunidade aos emigrantes. Figuram
no topo do ranking do IDH e precisam de mão de obra qualificada para substituir
suas populações envelhecidas e com baixa natalidade. De 2000 a 2010, o número
de brasileiros com alta qualificação pelo mundo cresceu 105%, enquanto a
população geral de expatriados subiu 85%. Não há registros mais recentes sobre
os qualificados, mas o fluxo de brasileiros em direção a países atrativos que
buscam essa mão de obra se manteve desde 2010. "Se no passado a
predominância era daquele imigrante que ia em busca de um sonho de riqueza
fácil, hoje podemos ver uma maior participação do imigrante qualificado",
explica Fernandes.
Um
exemplo é a pesquisa da consultoria Hays com 7 000 executivos brasileiros que
mostrou que 71% deles estavam dispostos a sair do país em 2014. No ano
anterior, eram 62,5%. "Temos visto um aumento considerável de pessoas
buscando o Canadá, Austrália, França, Alemanha e países asiáticos",
destaca Luis Fernando Martins, diretor nacional da Hays.
Nos
Estados Unidos, a emissão de vistos de imigração para brasileiros cresceu
apenas 1,5% de 2010 a 2014. Tem chamado a atenção, no entanto, o aumento da
procura do desconhecido visto Eb5. Ele permite obter a cidadania através de
investimento de 500 000 dólares em projetos chancelados pelo governo. São
poucos os pedidos brasileiros, mas com tendência de alta: 47 em 2014, quase o
total dos três anos anteriores somados, 48. Desde as eleições, a procura para
empresas especializadas explodiu. No caso do escitório Piquet Law and Firm,
triplicou desde novembro. "Os últimos seis meses têm sido uma 'corrida do
ouro'. É um pouco assustador", diz Alexandre Piquet. Preocupada com o
futuro dos filhos, professora Katia Franhani decidiu se mudar para os EUA por
essa modalidade. "A gota d'água foi quando meu filho mais velho perguntou
quando ele poderia andar sozinho na rua", conta Katia, que vive em Winter
Garden.
Reportagem de Luciano Padua
fonte:http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/a-nova-rota-dos-brasileiros-no-exterior
foto:http://shallwe.com.br/saiba-quais-sao-os-documentos-necessarios-para-embarque-internacional/#.VSPNWDTF-NE

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