29/07/2014

Com dinheiro, mas sem formação, esportes olímpicos têm mais desafios que futebol no Brasil

Com mais investimentos, mas persistentes problemas na formação de novos atletas e na gestão das federações, o esporte olímpico brasileiro enfrenta desafios ainda maiores do que os do futebol nacional.
Na esteira da derrota humilhante para a Alemanha nas semifinais da Copa do Mundo, ganhou força o debate sobre reformas no processo de formação dos atletas do futebol. Mas essa é uma discussão conhecida em outras modalidades esportivas no país.
Um ano e meio antes da Olimpíada do Rio-2016, especialistas e profissionais ouvidos pela BBC Brasil dizem que, apesar do aumento do investimento financeiro e da melhoria de infraestrutura, os problemas persistem.
"Estamos olhando para o exemplo da Alemanha no futebol, mas há também países como o Irã, que não tem tradição nenhuma no vôlei e agora está entre os dez melhores do mundo", disse à BBC Brasil Marco Antonio Bortoleto, professor e pesquisador de Educação Física da Unicamp.
"A questão é que outros países investem muito nas categorias de base e a consequência são resultados mais eficientes no esporte de alto rendimento. O que acontece no Brasil agora é que o investimento é muito grande, só que todo verticalizado nas equipes de ponta. Não é falta de dinheiro. É falta de organização, de profissionalização da gestão do esporte brasileiro."
Procurado pela BBC Brasil, o Ministério do Esporte não respondeu a perguntas sobre como lida com as questões levantadas pelos especialistas ouvidos na reportagem.

Penúria dos pequenos

Apesar das diferenças e especificidades de cada esporte, as queixas têm alguns pontos em comum. Uma delas é a falta de mecanismos para fortalecer clubes poliesportivos menores - o que dificulta a formação dos atletas e contribui para um "monopólio de grandes clubes", que concentram mais investimento.
"Temos cerca de seis a oito clubes poliesportivos tradicionais. Quando, em um país do tamanho do Brasil, eu consigo sintetizar em menos de dez nomes o que é a estrutura do esporte olímpico, isso significa que temos muitos problemas", diz Katia Rubio, pesquisadora da USP e especialista no esporte olímpico brasileiro.
"Os clubes de modalidades esportivas são empresas que abrem e fecham todos os anos, deixando de contribuir para a evolução da modalidade e fazendo com que o atleta seja um nômade, o que também traz consequências pessoais ruins."
Profissionais de modalidades como judô e ginástica artística apontam como problema o "sequestro" de atletas consagrados em clubes menores pelos grandes clubes.
"Eles pegam os atletas de outros Estados e levam para seus clubes. Então não conseguimos formar bases em Estados fora desse eixo", disse à BBC Brasil Expedito Falcão, técnico da judoca piauiense Sarah Menezes, medalha de ouro em Londres 2012.
"Depois que Sarah se tornou campeã olímpica, nossa intenção é que ela deixe um legado para o Piauí. Hoje está sendo construído em Teresina um centro de lutas que será um dos melhores da região. Mas só conseguimos isso porque Sarah é campeã e o estado tem uma referência esportiva", afirma.
Para Marcos Goto, técnico do ginasta Arthur Zanetti, também medalhista de ouro em Londres, os clubes de pequeno porte ficam "a ver navios" pela falta de uma normativa que inclua, no contrato com os atletas, uma compensação ao seu clube de origem pelo investimento em sua formação.
"Se o atleta ficou dez anos no clube, quem o contrata tem que pagar por isso também. Quando o atleta tem oportunidade de ganhar um pouco mais, naturalmente vai. Mas se o seu clube original é um formador de atletas desde a base até o alto nível, ele precisa ter condição de formar outros. Quem consegue (os recursos da) lei de incentivo e os investimentos do governo são os grandes clubes", disse Goto à BBC Brasil.
Ele admite que aumentou, nos últimos anos, o investimento na infraestrutura dos clubes menores de ginástica. Os recursos chegam do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), do Ministério de Esporte e das prefeituras das cidades que são pólos de treinamento, como São Caetano do Sul, onde treina Zanetti.
No entanto, ele diz que o trabalho feito até agora ainda não é suficiente para garantir a renovação das equipes para os próximos ciclos olímpicos.
"As mudanças são pequenas, mas estão acontecendo. Você já tem muitas entidades trabalhando com ginástica hoje no Brasil, mas não tem muitos clubes trabalhando com alto nível. A nossa safra para 2020 e 2024 vai ser fraca, não temos muitos atletas", afirma.

Esporte x Educação

Ao contrário do futebol, cuja popularidade no país garante um fluxo de novos atletas para as equipes, as modalidades mais dependentes da estrutura de clubes criticam o que dizem ser um esvaziamento do esporte escolar.
"Não temos uma cultura de esporte na escola e nem universitário. Temos um grande celeiro de atletas, mas todos formados em clubes. Em outros países, a escola é um diferencial. É da quantidade que se tira a qualidade", disse Rosicleia Campos, ex-judoca e atual técnica da seleção brasileira de judô feminino, à BBC Brasil.
"O judô está conseguindo fazer a formação de base, mas de uma forma meio torta. Os projetos sociais são o nosso celeiro, muito mais do que as escolas ou universidades."
Contar com os projetos sociais para a identificação de novos talentos do esporte é comum, mas depender deles pode ser perigoso para um projeto de longo prazo, segundo Marco Antonio Bortoleto. "Estamos delegando o futuro do nosso esporte - a educação esportiva - a um conjunto de ONGs. E uma ONG pode desaparecer a qualquer momento, quando uma empresa não quer mais apoiar. Isso é o que mais acontece no Brasil."
Segundo dados do Ministério do Esporte, parcerias com o Ministério da Educação tem garantido o espaço do esporte no currículo de escolas brasileiras. O programa Atleta na Escola, que começou em 2013, capacita professores e monitores de quase 45 mil escolas privadas e públicas do país a selecionar estudantes em modalidades como atletismo, judô e vôlei para a etapa nacional dos Jogos Escolares da Juventude, organizada pelo COB.
Os Jogos, financiados com recursos da lei Agnelo Piva, são a única contribuição direta do COB ao esporte escolar no país e revelaram recentemente talentos como Sarah Menezes e Mayra Aguiar, judoca também medalhista em Londres 2012.
Apesar de ser obrigado a destinar 10% dos recursos que recebe da Loteria Nacional ao esporte escolar e outros 5% ao esporte universitário, a principal atribuição do Comitê Olímpico Brasileiro é lidar com o esporte de alto rendimento. No entanto, de acordo com o diretor do COB, Marcus Vinícius Freire, o órgão está "tentando colaborar" com o desenvolvimento do esporte escolar.
"O mundo inteiro tem problemas na base e cada um tem a sua receita. Eu visitei as escolas de Cuba, as peneiras de atletas da China e fui conhecer o modelo universitário dos Estados Unidos. Estamos estudando todos eles, mas esse papel é do governo, do estado, do município", disse Freire à BBC Brasil.
"Fazemos a identificação dos talentos pelos Jogos Escolares, mas entendemos que as etapas de confirmação e de desenvolvimento do talento são um papel das federações. Quando recebemos o direito de receber a Olimpíada, assumimos também um pouco essa parte. Estamos desenvolvendo um plano."
Para o técnico de atletismo Aristides Junqueira, que treina o saltador Mauro Vinícius da Silva, o investimento nas competições escolares não rende o esperado, se o acesso de crianças e jovens à educação física escolar estiver sob ameaça.
"Temos no Brasil um paradoxo: a Caixa e o Ministério do Esporte estão investindo no trabalho de formação em alguns clubes e cidades, mas, na mesma proporção, o Ministério da Educação está acabando com a educação física na escola", disse à BBC Brasil.
"O número de aulas está diminuindo e agora elas podem ser até teóricas. Secretarias estaduais de Esporte ajudam atletas com bolsas, mas secretarias de Educação acabam com incentivos para que o professor treine o atleta nas escolas. O COB organiza os campeonatos juvenis e escolares, mas o número de estudantes que as escolas inscrevem tem caído."
Um debate semelhante acontece na Grã-Bretanha, onde uma das promessas do governo para o legado da Olimpíada de Londres 2012 foi fomentar o esporte de base no país 
Grã-Bretanha
O governo britânico divulgou o segundo relatório anual de ações destinadas a manter o legado esportivo dos Jogos de 2012 aos esportes de base. Conheça algumas delas:
  • No início de 2013, todas escolas primárias públicas receberam o repasse de 150 milhões de libras (R$ 567 milhões). Em novembro, um financiamento extra foi anunciado, elevando o total de aportes para 450 milhões de libras. As escolas devem prestar contas de seus gastos aos pais dos alunos.
  • Um fundo de 18 milhões de libras foi repassado a 601 escolas primárias do país para melhorar suas instalações esportivas. Muitas delas têm pouca área externa e deverão equipar espaços de atividade física internos.
  • Um novo programa está treinando 120 professores de educação física para trabalharem como especialistas em suas regiões. Outros 120 serão treinados em 2015.
  • O Sport England, órgão ligado ao Ministério de Cultura, Mídia e Esporte investiu 91 milhões de libras (R$ 344 milhões) na reforma de 1.600 clubes esportivos locais. Mais 20 milhões de libras para o projeto foram anunciados em março.

Reportagem de Camilla Costa com colaboração de Fernanda Nidecker, da BBC Brasil em Londres
fonte:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/07/140724_esporte_olimpico_cc.shtml
foto:http://www.mundodastribos.com/comite-olimpico-contrata-profissionais-para-2016.html

A América Latina terá seu próprio programa de intercâmbio de estudantes

Desde os anos 90, os países ibero-americanos se esforçam para ampliar o acesso de classes menos favorecidas à universidade. Agora o objetivo do grupo é conseguir mais qualidade, passando pelo intercâmbio de conhecimento através da mobilidade de estudantes, professores e pesquisadores. Por isso, no mês de dezembro, os chefes de Estado da região acertaram dar forma ao seu plano de intercâmbio. A nova diretora da Secretaria Geral Ibero-Americana (Segib)Rebeca Grynspan, fez o anúncio durante o III Encontro Internacional de Reitores da Universia, a maior rede de universidades de fala hispânica e portuguesa.
A intenção é que 200.000 ibero-americanos tenham uma experiência educativa internacional até 2020. Serão contemplados, para 2015 e 2016, inicialmente 25.000 estudantes, que serão os pioneiros do programa, ainda sem nome. "Para escolher o nome, talvez devêssemos abrir um concurso", brincou Grynspan.
Em épocas anteriores, já se falou de uma iniciativa desse tipo, mas não com a intenção política de agora. A referência continua sendo o programa Erasmus da Europa, que surgiu em 1987 para promover a construção europeia com centenas de estudantes, já passaram mais de três milhões de pessoas e que é considerado hoje o motor cultural do continente.
Em um primeiro momento, a ideia é conceder bolsas de 3.000 a 4.000 euros (9.000 a 12.000 reais) para estadias de até seis meses. Nos cursos que incluam estágios obrigatórios, serão incluídas as mesmas exigências. E o objetivo, a longo prazo, é estabelecer relações com o Erasmus europeu.
Em 2012, havia na América Latina 20 milhões de universitários, e a intenção é que esse número seja duplicado em 2025, se o programa conseguir todos os meios que necessita para ser financiado. Gryspan assegura que não quer centralizar todas as ajudas, mas conseguir apoio de instituições privadas. Ainda não existe um orçamento total definido, mas calcula-se que um montante de 270 milhões de reais tenha ainda que ser levantado junto ao setor privado, com empresas como Telefônica e Slim e o banco Santander – que, durante a cúpula de Guadalajara em 2010 (leia a respeito, em espanhol), se comprometeu a realizar um programa de mobilidade para 15.000 estudantes e 3.000 professores da América Ibérica durante quatro anos.
O Erasmus ibero-americano não seria possível sem o crescimento econômico latino-americano nos últimos anos. Atualmente, dois de cada três universitários pertencem à primeira geração familiar que tem acesso ao estudo de nível superior. "A América Latina é uma região que se vê com otimismo, onde, quase sem exceção, os países engordaram seus recursos orçamentários. Vários já tem gastos altos e outros são considerados emergentes. No G20, podemos citar o Brasil, o México e a Argentina".
O novo programa é o primeiro projeto global da Segib, mas já existem iniciativas individuais de grande porte. Na ponta dessas iniciativas está o Brasil, com o ambicioso programa Ciência sem fronteiras, que oferece em quatro anos 101.000 bolsas divididas entre três órgãos: 40.000 através do Ministério da Educação, 35.000 do Ciência e 26.000 de financiamento privado. Os destinatários são estudantes de graduação para passar alguns meses; doutorandos para realizar a tese em três anos; doutores para estadias de até dois anos ou tecnólogos para três meses. Em sentido inverso, jovens talentos e professores visitantes de outros países do mundo podem ficar alguns meses no Brasil após serem feitos acordos bilaterais.

Reportagem de Elisa Silió
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/28/sociedad/1406560670_559942.html
foto:http://educacioncomparada03.wordpress.com/

28/07/2014

Imagem do dia



Podemos viver juntos: o conflito entre israelenses e palestinos não é político, mas humano

Artigo de Daniel Barenboim, pianista e maestro de orquestra sinfônica.



Escrevo estas linhas na qualidade de Mensageiro da Paz das Nações Unidas e sem esquecer, em momento algum, que possuo dois passaportes: um israelense e um palestino . Escrevo estas linhas com o coração entristecido, porque vi os acontecimentos das últimas semanas em Gaza confirmarem algo de que sempre estive convencido: que não é possível pôr fim ao conflito palestino-israelense mediante uma solução militar. Este não é um conflito político, mas sim um conflito humano entre dois povos, cada um profundamente convencido, com firmeza aparentemente irreconciliável, de que tem o direito de possuir o mesmo pedaço de terra, e o outro povo não.
O fato de este aspecto ter sido sempre negligenciado é a razão pela qual todas as negociações, todas as tentativas já realizadas em busca de um acordo que ponha fim ao conflito fracassaram. Em vez de reconhecer que essa é a verdadeira natureza do confronto e tentar encontrar o remédio correspondente, todas as partes quiseram encontrar soluções rápidas e simples. Infelizmente, como acontece em todas as questões importantes, não existem atalhos que nos permitam resolver este problema me maneira instantânea. Os atalhos só têm alguma serventia quando conhecemos o terreno que estamos atravessando, e, neste caso, não há ninguém que o conheça, porque a essência fundamental do conflito continua sendo matéria desconhecida e inexplorada.
Sinto uma compreensão imensa quando penso no medo que aflige meus compatriotas israelenses: o ruído constante dos foguetes lançados contra eles, o temor de saber que você mesmo ou alguém que você conhece pode se machucar. Mas também tenho profunda compaixão pela situação angustiante dos meus compatriotas palestinos em Gaza, que vivem imersos no terror e têm de chorar diariamente por todas essas vítimas e sofrer essa desolação. Depois de tantas décadas de destruição e morte em ambos os lados, o conflito alcançou um grau de espanto e desespero que era impossível imaginar. Por isso atrevo-me a sugerir que talvez seja o momento de buscar uma solução verdadeira e genuína para o problema. O cessar-fogo é indispensável, sem sombra de dúvida, mas não é suficiente. A única forma de acabar com essa tragédia, a única maneira de evitar mais mortes e mais horror é aproveitar precisamente que estamos em uma situação de desespero para obrigar todas as partes a se sentarem e conversar. Não faz sentido que Israel se recuse a negociar com o Hamas ou que se recuse a reconhecer o Governo de unidade; não, Israel deve escutar os palestinos que estão dispostos a falar a uma só voz.
A primeira resolução a alcançar seria um acordo conjunto pelo qual se reconheça o fato de que não existe uma solução militar. Só então poderemos começar a discutir formas de garantir tanto a justiça que há tanto tempo, e com razão, exigem os palestinos, como a segurança que, também com razão, exige Israel. Os palestinos sentimos a necessidade de obter, finalmente, uma solução legítima. Nossa aspiração fundamental é que nos tratem com justiça e nos reconheçam os direitos que se reconhecem a qualquer povo da Terra: autonomia, autodeterminação, liberdade e tudo o que isso implica. Os israelenses precisamos que aceitem que temos o direito de viver no mesmo pedaço de chão que os palestinos. Como dividir esse território é algo que só se poderá falar quando as duas partes reconhecerem e entenderem que podemos viver juntos, lado a lado, mas, acima de tudo, sem dar-nos as costas.
Essa reconciliação tão necessária deve ser baseada em um sentimento mútuo de empatia, ou, se preferirem, de compaixão. A compaixão, em minha opinião, não é meramente um sentimento que surge da capacidade psicológica de entender as necessidades de uma pessoa, mas também uma obrigação moral. Tentar compreender os problemas do outro é a única coisa que nos permitirá dar o passo necessário à aproximação. Como dizia Schopenhauer, “não há nada que nos leve de volta tão rápido à senda da justiça como a imagem mental das dificuldades, da aflição e dos lamentos do perdedor”. Neste conflito, somos todos perdedores. Só seremos capazes de superar esta triste situação se, de uma vez por todas, começarmos a aceitar o sofrimento e os direitos da outra parte. Quando estivermos conscientes desses direitos, poderemos tentar construir um futuro juntos.

fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/24/opinion/1406197588_709219.html
foto:http://www.brasilescola.com/historiag/primeira-guerra-Arabe-israelense-1948-1949.htm

“Embora tenhamos leis demais, um Código de Processo do Trabalho seria bem vindo”


Aos 42 anos, o juiz do Trabalho e professor baiano, Rodolfo Mário Veiga Pamplona Filho (foto acima), tornou-se, em abril deste ano, o mais jovem membro a presidir a Academia Brasileira de Direito do Trabalho. Em entrevista à revista Consultor Jurídico, destaca que o Brasil tem leis demais, mas um Código de Processo do Trabalho seria muito bem vindo, para garantir maior segurança, uniformização e celeridade. Ele assegura que a academia está disposta a elaborar um anteprojeto, se os legisladores brasileiros entenderem, que há uma necessidade de termos um CPT.
Defensor de uma ampliação efetiva da competência da Justiça do Trabalho, Rodolfo Pamplona discorda do entendimento que limita a alçada da Justiça trabalhista apenas à relação de emprego.“Precisamos realmente trazer para a Justiça do Trabalho todas as modalidades de trabalho e atividade humana, inclusive estatutários e prestadores de serviço autônomo. Tudo que trate direta ou indiretamente do suor do trabalho humano”, pontua.
O professor Rodolfo Pamplona advoga, ainda, que as matérias criminais, que envolvam relações de trabalho, sejam de competência da Justiça trabalhista. “Não vejo nenhum problema do ponto de vista teórico. Não somente os crimes contra a organização do trabalho, mas outros tipos penais que tocam a atividade nas relações jurídicas de direito material e processual trabalhista”, frisa.
No seu entendimento, o grande desafio do Direito do Trabalho é “é garantir direitos sem vender a alma”. Nesta perspectiva, entende que a Consolidação das Leis do Trabalho precisa ser, no mínimo, repensada, para dignificar o empregado e preservar a atividade econômica. Para ele, a legislação deve ser mudada para que os sindicatos sejam plurais, agregando mais de uma categoria. “Por que não podemos juntar, por exemplo, professores, petroleiros, motoristas de ônibus, seguranças e policiais civis, em um único sindicato?”, questiona.
Ainda na conversa com à ConJur, Rodolfo Pamplona afirma que o Tribunal Superior do Trabalho não deve flexibilizar a jurisprudência e permitir a terceirização da atividade-fim. Ele salienta que a terceirização, ainda, tem sido um dos maiores mecanismos de precarização das relações de trabalho.
Rodolfo Pamplona é magistrado desde os 23 anos. Leciona na Universidade Federal da Bahia, e, em 1999, passou a ser membro da Academia Brasileira de Direito do Trabalho. Doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, divide seu tempo, ainda, com a poesia, a música e aulas de boxes.
Leia a entrevista:
ConJur – Qual o maior desafio do senhor à frente da Academia Brasileira de Direito do Trabalho?
Rodolfo Pamplona –A academia é uma instituição tradicional e cada gestão de diretoria atuou de forma que se pode compreender como marcos de fases distintas. Assim, houve uma fase de profissionalização, outra de expansão; outra de internacionalização; e assim por diante. A palavra que define a minha gestão é diversidade. A ideia é que a academia participe de tudo que disser respeito ao Direito do Trabalho, no Brasil e no mundo. Nesta linha, queremos participar das discussões sobre os novos estudos trabalhistas nos meios acadêmicos, mas também no debate no Congresso Nacional ou nas audiências públicas no Supremo Tribunal Federal, para levarmos contribuições efetivas que aperfeiçoem o Direito do Trabalho brasileiro.

ConJur – Como a academia pode contribuir para melhorar as relações de trabalho?
Rodolfo Pamplona – A academia é composta formalmente por 100 juristas brasileiros. Hoje, temos potencialmente noventa e nove, por conta da peculiaridade de que, por deliberação da assembleia, a cadeira nº 1 ficou/está bloqueada definitivamente, em memória de Arnaldo Süssekind, seu único ocupante. Então, são noventa e nove cabeças pensando o Direito do Trabalho, com visões críticas e reflexivas. A ideia de termos operadores do Direito de diversas áreas (magistrados de todos os graus, ministros, advogados, membros do Ministério Púbico, professores etc), refletindo sobre as leis trabalhistas, permite compreender os problemas do dia a dia e propor soluções efetivas. O Direito do Trabalho não pode ser somente ensinado nas salas de aulas, ele precisa ser vívido. Em aspectos práticos, a academia pode contribuir, propondo projetos de lei e debates, na construção da doutrina sobre temas trabalhistas e influenciando positivamente na jurisprudência. Há muito a ser feito. 

ConJur – A Consolidação das Leis do Trabalho precisa de uma reforma?
Rodolfo Pamplona – A CLT é um diploma de 1943, feita em um momento histórico de ditadura e que refletia a sociedade da época. A CLT precisa ser, no mínimo, repensada, sem se falar necessariamente de flexibilização, mas, sim, de fortalecimento do Direito do Trabalho. O momento não é apenas de atualização do Direito do Trabalho, mas, talvez, da sua própria recriação. Nós precisamos repensar a relação de trabalho para garantirmos a dignidade do trabalhador e preservar a atividade econômica. O Direito do Trabalho tem de ser interpretado sempre com base na Constituição e em todas as teorias dos direitos fundamentais e humanos. O grande desafio do Direito do Trabalho é garantir direitos sem vender a alma, é preservar a atividade sem perder a dignidade.

ConJur – Precisamos de um Código de Processo do Trabalho?
Rodolfo Pamplona – Se você me pergunta se é imprescindível, eu respondo: Não, não é imprescindível, se todos nós pudéssemos interpretar a legislação processual de forma iluminada pela Constituição, garantindo os direitos fundamentais das partes. Todavia, o fato de termos uma legislação tão antiga faz com que cada juiz interprete de acordo com a sua compreensão do processo. Embora tenhamos muitas leis, um CPT seria muito bem vindo, se for para garantir maior segurança, uniformização e celeridade. Todavia, é preciso que ele seja feito atendendo aos efetivos reclames de todos os envolvidos em sua aplicação, e não sendo mais uma lei para tumultuar o sistema. Se o legislador brasileiro quiser um anteprojeto de Código de Processo do Trabalho, a academia apresenta na hora.

ConJur – A competência da Justiça do Trabalho precisa ser ampliada?
Rodolfo Pamplona – Conseguimos isto no papel na chamada "Reforma do Judiciário". Só que, na aplicação, as interpretações têm sido restritivas. Se, no seu espírito, a Emenda Constitucional 45 quis ampliar para todas as formas de trabalho humano, o STJ tem limitado a competência à relação de emprego, no que tem sido seguido, lamentavelmente, pelos tribunais trabalhistas, mesmo diante de todo o esforço empreendido por órgãos representativos dos operadores do Direito do Trabalho, como a Anamatra [Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho], Abrat [Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas] e ANPT [Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho]. Precisamos ampliar efetivamente, não somente na teoria mas, sim, na prática.

ConJur – Isto desafogaria a Justiça comum?
Rodolfo Pamplona – Seria um excelente mecanismo, porque a Justiça comum é de competência residual. Ou seja, tudo que não está na Constituição como de competência de um dos ramos especializados da Justiça, passa a ser da Justiça comum. Precisamos realmente trazer para a Justiça do Trabalho todas as modalidades de trabalho e atividade humana, inclusive estatutários e prestadores de serviço autônomo. Tudo que trate direta ou indiretamente do suor do trabalho humano, ficando a Justiça comum com as demais matérias, o que auxiliará em uma melhor divisão de trabalho.

ConJur – As matérias criminais que envolvam relações de trabalho devem ser também de competência da Justiça?
Rodolfo Pamplona – Não vejo nenhum problema do ponto de vista teórico. Não somente os crimes contra a organização do trabalho, mas outros tipos penais que tocam a atividade nas relações jurídicas de direito material e processual trabalhista. Por exemplo: o combate ao trabalho escravo, às discussões sobre as assinaturas de carteiras fraudulentas e, também, da própria atividade jurisdicional trabalhista. Por que não trazer a apuração do falso testemunho e da falsa perícia para a Justiça do Trabalho? Quanto mais abrangente for a sua atuação, maior será o seu respeito e efetividade.

ConJur – Que tratamento deve ser dado às vítimas de trabalho escravo?
Rodolfo Pamplona – Note que o trabalho deve ser transdisciplinar. Não basta atuar somente com a libertação ou pagamento das verbas trabalhistas. É preciso ir a fundo na questão, ressocializando este indivíduo. A primeira pessoa que se submete ao trabalho escravo é o próprio trabalhador, pois não vê outra perspectiva. Devemos dar condições de trabalho para essas pessoas, pois, muitas vezes, elas vendem a sua dignidade para sobreviver...

ConJur – O Brasil é o quarto país do mundo em número de acidentes fatais no trabalho. Como o senhor avalia esse dado?
Rodolfo Pamplona – Vergonhosamente, pois sabemos que, infelizmente, a situação é ainda pior, dado o fenômeno da subnotificação. A maior parte dos acidentes de trabalho pode ser evitada com condições mais dignas e profissionalização das relações. É claro que isto gera aumento de custo, mas podemos compensar reduzindo a carga tributária. É uma vergonha que a folha de pagamento seja fator gerador de imposto. O sistema trabalhista brasileiro precisa ser repensado, pois é caro para contratar e manter, mas é barato para despedir... Se o indivíduo não pagar, despede da mesma forma. O ideal é que seja o inverso: o patrão deve pensar duas vezes antes de despedir o funcionário, pois o emprego é fonte de subsistência e de dignidade.

ConJur – O senhor tem dito que o Direito do Trabalho brasileiro é esquisito. Por quê?
Rodolfo Pamplona – No sistema trabalhista atual, o empregador pode despedir o funcionário somente por não ter simpatia. Ele demite mesmo se não pagar o FGTS, o aviso prévio, por exemplo. Enquanto não é discutido judicialmente, prevalece a palavra do empregador. Está errado. Para combater esta prática, nós deveríamos pensar em instituir, por exemplo, no sistema brasileiro, no chamado salário de tramitação.

ConJur – O que é isto?
Rodolfo Pamplona – Se o funcionário não concorda com os motivos da despedida, ele deve levar para a Justiça. Enquanto não houver uma decisão pelo menos na primeira instância, o empregador continua a pagar o salário. Isto diminuirá a protelação do processo, porque o ônus do tempo não ficará apenas com o autor, mas, também, com o réu. O empregador vai querer celeridade na sentença para saber se pode ou não demitir o empregado.

ConJur – As leis trabalhistas impedem que o Brasil tenha uma economia mais competitiva?
Rodolfo Pamplona – Este é um discurso muito comum na seara empresarial. Não concordo com esta afirmação, principalmente porque ele é repetido como um dogma. Em realidade, o que há é uma meia verdade, pois a carga tributária gera muito mais ônus do que os direitos trabalhistasstricto sensu. Assim sendo, primeiro, diminua-se a carga tributária, para, somente depois, pensarmos em discussão ou modificação de regras protetivas do trabalhador.

ConJur – O trabalhador não filiado deveria ser obrigado a contribuir com o sindicato?
Rodolfo Pamplona – Não. Isto, para mim, é uma das violências simbólicas do sindicalismo brasileiro. O problema é que o sistema atual estimula a não filiação, porque não precisamos contribuir com o sindicato para receber os bônus. Nós temos que estimular a sindicalização. O sindicato é o legítimo representante dos direitos do trabalhador. No Brasil, ainda, estamos acostumados a receber tudo do Estado, o que não estimula o verdadeiro sindicalismo.

ConJur – O senhor é favorável a um sindicato plural?
Rodolfo Pamplona – Sim. Os sindicatos não podem ficar atrelados a um único modelo. Por que não podemos juntar, por exemplo, professores, petroleiros, motoristas de ônibus, seguranças e policiais civis, em um único sindicato? Ele será poderosíssimo, com potencial para obter um resultado melhor no campo de negociação. Mas, hoje, a legislação proíbe, porque estamos amarrados à ideia de categoria. Precisamos de um sistema que não obrigue o individuo a se filiar, mas que o estimule. Atualmente, quem são os verdadeiros sindicatos no Brasil? As centrais sindicais. Temos sindicatos que atuam, mas se afinam politicamente com as diretrizes, por exemplo, da CUT ou de outros centrais sindicais. A pluralidade é como o pluripartidarismo. Há partidos forte e outros fracos, mas isto não impede que surjam novos partidos. Com os sindicatos acontecerá o mesmo, no sistema de pluralidade.

ConJur – A legislação deve mudar para garantir as conquistas do sindicato apenas aos filiados?
Rodolfo Pamplona – Sim, deve ser mudada. Hoje, o sistema garante a uniformidade. Mas o sistema deve ser repensado e mudado como um todo, não com medidas pontuais, pois isto acabará descompensando a paridade de forças.

ConJur – Até que ponto a Justiça do Trabalho pode interferir na gestão de uma empresa?
Rodolfo Pamplona – Totalmente. A Justiça do Trabalho deve respeitar a autonomia empresarial, mas toda vez que houver situação comprovada de restrição ou violação aos direitos fundamentais trabalhistas, isto não pode ficar imPune. É claro que não podemos fechar os olhos para a importância da empresa para atividade econômica, mas isto também tem limites.

ConJur – O TST deveria flexibilizar a jurisprudência e permitir a terceirização da atividade-fim?
Rodolfo Pamplona – Acho que não. Hoje, o TST tem uma diretriz teórica de admitir “a terceirização como um mal necessário”. Nessa linha, o preço a ser pago pela terceirização é a responsabilidade subsidiária. A questão está no Supremo Tribunal Federal, que pode abrir a porteira ou não para a terceirização, em todo e qualquer tipo de atividade. A diretriz do TST hoje é, para mim, ainda a mais razoável, na consolidação de todos os interesses envolvidos na matéria.

ConJur – O senhor concorda que os órgãos públicos devem ser responsabilizados pelos direitos dos trabalhadores terceirizados das empresas que eles contratam?
Rodolfo Pamplona – Sim. Isto partindo-se, obviamente, do pressuposto, que a terceirização é um "mal" admitido socialmente. A terceirização tem que se dar de forma responsável. Ainda hoje, tem sido a terceirização um dos maiores mecanismos de precarização das relações de trabalho. Não se estranha, por isto, que a maioria dos acidentes de trabalho ocorre em situações de terceirização.

ConJur – Como resolvemos esta questão da precarização da terceirização?
Rodolfo Pamplona – Esta não é uma pergunta fácil de responder. A fiscalização tanto dos tomadores da mão de obra quanto do Estado, por meio dos auditores fiscais do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho, é o caminho inicial para resolvermos esta questão. Prevenção se faz com fiscalização e conscientização.

ConJur – A terceirização enfraquece os sindicatos?
Rodolfo Pamplona – Sem dúvida, por conta deste modelo vigente. Neste sistema atual, o terceirizado não se enquadra na mesma categoria dos empregados da empresa. O TST determinou que sejam estendidos aos terceirizados os mesmos direitos dos trabalhadores permanentes. Isto modificou, na prática, pela via jurisprudencial, o sistema de enquadramento sindical no Brasil, o que não deixa de ser um inovação bastante interessante para preservar a dignidade dos envolvidos em tal relação.

ConJur – Nos últimos meses, assistimos a trabalhadores insatisfeitos com a postura de seus sindicatos e, por consequência, surgiram dissidências sindicais. Como a Justiça do Trabalho deve atuar nestes casos?
Rodolfo Pamplona – A greve, para o falecido professor baiano Washington Luiz da Trindade, é o legitimo direito de prejudicar. Ela atrapalha, no mínimo, a atividade econômica, mas precisamos saber que a greve é uma reinvindicação pelos direitos fundamentais. Portanto, a Justiça do Trabalho deve atuar sempre para estimular a negociação, evitando que haja prejuízo abusivo. Se houver dissidências, o grupo que se achar mais representativo deve ajuizar ação contra o outro. A Justiça do Trabalho, então, decide quem representará a categoria, uma vez que o sistema vigente só se permite um sindicato.

ConJur – Alguns trabalhadores reclamam que a Justiça do Trabalho fere o direito de greve quando determina que 70% dos empregados retornem as suas atividades. O senhor concorda?
Rodolfo Pamplona – A Justiça do Trabalho deve ter muito cuidado quando estabelece percentuais para a continuidade ou não de determinando movimento. Se for uma greve de uma atividade que não é essencial, a Justiça não deve se meter. Mas, quando se tratar de uma atividade essencial tem que ponderar o prejuízo à coletividade. 

ConJur – O senhor é a favor de cotas para negros no setor privado?
Rodolfo Pamplona – Não tenho o menor problema com isso. Talvez, mais do que cotas, a ideia é que haja ações afirmativas. Cota gera situações muito inflexíveis. Não é razoável pensar que na Bahia, onde temos uma população eminentemente negra, haja alguma grande empresa somente com empregados brancos. Alguma coisa evidentemente está fora do razoável. Agora, isto é não desarrazoado se ocorrer no Rio Grande do Sul ou no Paraná. Partindo da noção de resgate histórico, as ações afirmativas relacionadas a uma proporcionalidade da população talvez seja uma proposta mais interessante. Ideologicamente, como disse, não tenho qualquer restrição com cotas para qualquer grupo minoritário. A cota racial especificamente no campo da iniciativa privada, porém, talvez não seja a melhor solução, justamente por conta da pluralidade da colonização brasileira. Particularmente, penso como Jorge Amado, que acreditava que a melhor forma de combater o racismo é a total miscigenação. Enquanto isto não acontece, as ações afirmativas podem ser um bom caminho. 

ConJur – A Justiça do Trabalho tende a decidir mais favorável ao empregado?
Rodolfo Pamplona – Isto é um mito. O Direito trabalhista é favorável ao empregado. Mas a Justiça deve decidir com base nas provas produzidas ou de quem tem o ônus de produzi-la, seja empregado ou empregador. É claro, que o sistema trabalhista é tão complicado que, por vezes, acaba gerando uma quantidade enorme de demandas. E, nesta Babel da legislação, comumente verifica-se algum descumprimento, que faz com que, percentualmente, os empregadores sejam sucumbentes em muitas causas.

ConJur – E por que ainda se descumpre tanto as leis trabalhistas no Brasil?
Rodolfo Pamplona – Com o pé sempre na realidade, acredito piamente que o descumprimento da lei trabalhista ocorre por dois pontos fundamentais: desconhecimento sistematizado e, principalmente, diminuição de gastos. Note-se que há toda uma proteção formal da relação de emprego, mas, na prática, a primeira regra que se descumpre em uma empresa é a lei trabalhista. O empregador nem ousa agir errado com o fornecedor, pois sabe que isto inviabilizaria imediatamente sua atividade econômica. A legislação do Trabalho é desobedecida, porque, na maior parte das vezes, o empregado só vai para a Justiça quando perde o emprego. Fala-se, com frequência, que a Justiça do Trabalho virou a Justiça dos desempregados, pois o indivíduo só se socorre dela quando não tem mais condições de manter o emprego. Esta mentalidade precisa mudar...

ConJur – Militares devem ter direito a fazer greve?
Rodolfo Pamplona – Este é um tema muito polêmico. A própria Organização Internacional do Trabalho faz uma ressalva sobre o direito dos militares, com possibilidade de proibição, justamente por ser uma entidade que atua para a manutenção da ordem. Na maior parte dos países, a greve dos militares é proibida. No sistema brasileiro, os policiais militares também são proibidos de fazer greve. Dadas as regras de hierarquia militar, isto não é algo, por si só, demeritório. A questão, porém, é muito mais profunda, pois o que deveria ser pensado é a desmilitarização da Polícia. Na há qualquer problema em unificá-la, fazendo a distinção apenas no âmbito interno para a atuação ostensiva ou de investigação. Sou a favor de uma unificação da Polícia.

ConJur – O STF acerta ao vedar o direito de greve da Polícia Civil?
Rodolfo Pamplona – Entendo que não. O Supremo Tribunal Federal, ao tratar da mesma forma a Polícia Civil e a Militar, não observou a diretriz da Organização Internacional do Trabalho, podendo o Brasil estar sujeito a uma representação daquele organismo internacional.

ConJur – Há uma resistência da Justiça do Trabalho em aplicar aarbitragem?
Rodolfo Pamplona – Sim. O TST tem sido absolutamente refratário à arbitragem na área individual. Embora seja uma forma alternativa de solução de conflitos, que merece respeito, temos visto que a arbitragem tem sido realmente usada, muitas vezes, para fraudar direitos trabalhistas. Por isso, perde a credibilidade. Não vejo, porém, nenhum problema em aplicá-la para altos empregados, com poder de barganha, resolvendo seus conflitos por tal via alternativa, na área individual. Na área coletiva, não há nenhuma resistência, ao contrário, há, inclusive, previsão constitucional, mas, na prática, não tem sido utilizada como se esperava.

ConJur – O senhor já escreveu que o Ministério Público do Trabalho deve combater o desemprego. De que maneira?
Rodolfo Pamplona – O Ministério Público do Trabalho tem uma missão muito nobre. Ele pode atuar, em várias frentes, para preservar o emprego de qualidade e lutar pela sua efetivação. Deve atuar, apenas a título exemplificativo, em ações civis públicas, para influenciar, inclusive, em políticas públicas, exigir realização de concursos públicos, denunciar as terceirizações ilícitas, entre outras possibilidades.

ConJur – O conceito de assédio moral ainda precisa ser assentado?
Rodolfo Pamplona – O assédio moral é um problema antigo com nome novo. É um problema terrível, pois viola a dignidade do trabalhador. Há cerca de 10 anos, ninguém falava na prática judiciária, mas sempre ocorreu nas relações jurídicas de direito material trabalhista. A tomada de consciência pelos cidadãos e operadores do Direito fez com que, hoje, nas pautas da Justiça do Trabalho, haja, todo dia, sempre uma discussão sobre sua ocorrência. É um mal que se disseminou, tanto na ocorrência, quanto na denúncia. O problema é que, ainda, não há uma delimitação consensual unívoca, virando uma grande “panaceia” para diversos males trabalhistas. É preciso sim, delimitar e assentar o seu conceito para evitar as distorções e vulgarização, bem como realizar um combate mais efetivo.


Reportagem de Rodrigo Daniel Silva
fonte:http://www.conjur.com.br/2014-jul-27/entrevista-rodolfo-pamplona-presidente-academia-direito-trabalho
foto:http://www.bahianoticias.com.br/justica/agenda-juridica/240-rodolfo-pamplona-e-eleito-novo-presidente-da-academia-brasileira-de-direito-do-trabalho.html

Gasto para disputa a presidente é 382% maior que custo de 94


O jornal O Estado de S. Paulo informou ontem que os 11 candidatos que concorrem á Presidência da República registraram no início de julho o limite de despesas de R$ 916 milhões para as campanhas deste ano. O número representa um aumento de 382% em relação à disputa de 1994, a primeira na qual empresas puderam financiar as campanhas, quando os oito postulantes ao Palácio do Planalto gastaram R$ 190 milhões em valores atuais.
Segundo o Estado, entre 1994 e 2010, o custo das eleições presidenciais cresceu 85%, de R$ 190 milhões para R$ 352 milhões. Se comparado com a eleição de 1989, quando as doações de pessoas jurídicas eram proibidas por lei e 17 dos 22 candidatos registraram gastos de R$ 74 milhões em valores de hoje, o teto estipulado pelos partidos em 2014 representa um aumento de 1.138%.
Ainda de acordo com o jornal, no mesmo período, o eleitorado brasileiro dobrou dos 70 milhões em 1989 para 142 milhões aptos a votar no dia 5 de outubro. Em 25 anos de eleições diretas para presidente, apenas a campanha de 1998,na qual Fernando Henrique liderou com folga a corrida pela reeleição, teve um valor abaixo da disputa anterior - R$ 138 milhões.
O Estado de S. Paulo mostra ainda que, segundo o TSE, em todas as eleições presidenciais o candidato que declarou mais gastos terminou eleito. Cientistas políticos ouvidos pelo jornal constataram que o Brasil tem um dos sistemas eleitorais mais caros do planeta. Nas eleições de 2010, o custo per capita do voto no Brasil chegou a US$ 10,93, incluindo as campanhas para cargos legislativos e governos estaduais. O valor é bem maior do que na França, onde o custo é de US$ 0,45; Reino Unido, US$ 0,77; Alemanha, US$ 2,21; e México, US$ 3,42. Nos Estados Unidos, a relação é de US$ 19,89.
O professor de ciência política do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro, Geraldo Tadeu Monteiro, explica ao jornal que o alto custo das campanhas está diretamente ligado à disponibilidade de dinheiro oferecido por empresas interessadas em negócios com os futuros governantes. "As empresas fazem uma disputa para se posicionar. Tanto que os grandes doadores colaboram com todas as campanhas. Não existe critério programático ou ideológico", afirmou. 
Já o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Marcus Vinicius Furtado Coêlho, diz que a saída é a proibição das doações de pessoas jurídicas. "O problema está no modelo de financiamento. É preciso que haja o barateamento das campanhas, de forma que elas sejam calcadas em propostas e ideias. É preciso que o sistema se torne mais barato e que as campanhas sejam coletivas, e não individualizadas como temos hoje", disse.
No último dia 12, o JB mostrou que as empreiteiras doaram mais de R$ 370 milhões a partidos nos últimos quatro anos. Vale destacar que, mesmo em anos em que não há eleições, as empreiteiras fazem doações para ter bons negócios.
A quantia exata foi de R$ 374.310.055,32. A empreiteira que doou mais foi a Andrade Gutierrez, com R$ 120.198.000,00. Em seguida, veio a Queiroz Galvão, com R$ 110.075.000,00. Em terceiro lugar, apareceu a Camargo Corrêa, com R$ 59.140.000,00. A OAS ficou em quarto, com R$ 50.222.000,00, perto da Odebrecht, que repassou R$ 48.142.000,00. A Cowan liberou R$ 2.175.055,32, enquanto a Delta fez a menor doação, de R$ 1.800.000,00.
O valor total é maior, inclusive, do que o PIB de 2013 de 129 países, entre eles Nova Zelândia, Iraque, Hungria, Marrocos, Eslováquia, Equador, Croácia, Bulgária, Uruguai, Costa Rica, Eslovênia, Paraguai. 
Os críticos às doações de empresas aos partidos argumentam que o dinheiro repassado sempre retorna à companhia, que encara aquilo como um investimento, e não uma doação. De acordo com estudo realizado pelo Instituto Kellogg, da Universidade do Texas, para cada R$ 1,00 doado a campanhas eleitorais, as empresas recebem R$ 8,50 de volta em contratos com o Estado.

fonte:http://www.jb.com.br/pais/noticias/2014/07/27/gasto-para-disputa-a-presidente-e-382-maior-que-custo-de-94/
foto:http://blogdosaposentados.com.br/pt-psdb-e-psb-estimam-gastar-r-500-milhoes-na-campanha-eleitoral/

Com 'tarifa zero', Brasil quer anular Aliança do Pacífico

O Brasil chegará para a Cúpula do Mercosul, que se inicia nesta segunda-feira, em Caracas, com a proposta de antecipar a aplicação da tarifa zero no comércio com países do Pacífico sul-americano.
Segundo a proposta brasileira, as alíquotas comerciais nas transações entre Mercosul e Colômbia, Chile e Peru, seriam reduzidas já no fim deste ano. Pela ideia original, o acordo entraria em vigor só em 2019. Somente o México, o quarto membro da Aliança do Pacífico, ficaria de fora por enquanto.
O objetivo da medida, além de ampliar a liberalização comercial na América do Sul, é dar resposta política ao "marketing" da Aliança do Pacífico, que vai na linha de que uma suposta "ideologização" do Mercosul acaba prejudicando o desempenho do bloco em termos de comércio regional.
Apesar de negar oficialmente que a Aliança, integrada por países próximos a Washington, rivalize com o Mercosul, internamente o Itamaraty se incomoda com o peso propagandístico que o bloco têm dado a sua integração, ainda incipiente, como modelo sem viés político.
"Com a tarifa zero, o Brasil reafirma seu protagonismo e mostra que o que norteia sua ações é a integração na prática, mais do que a suposta dicotomia ideologica entre bolivarianos que se aproximam do Mercosul e os liberais da Aliança do Pacífico", afirmou à BBC Brasil o economista Pedro Silva Barros, titular da missão em Caracas do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).
Além de uma nova "ofensiva comercial" do Brasil, a medida também busca completar a instalação de uma área de livre comércio e de integração que cubra toda a América do Sul.
Na avaliação do economista Darc Costa, presidente da Federação de Câmaras de Comércio e Indústria da América do Sul, a "tarifa zero" implementa um mecanismo de protecionismo regional, porque cria um mercado diferenciado para os produtos da zona em relação, por exemplo, aos produtos chineses.
"Incrementará o comércio na região", afirmou o economista.

Mudança de perfil

Nos últimos anos o comércio do Brasil com a Colômbia aumentou 300%, com o Peru, 389%, e com o Chile, 200%, de acordo com dados oficiais. Esses números pesaram na hora de convencer o governo brasileiro a apostar na antecipação da liberalização total com os vizinhos.
Na prática, as tarifas do Brasil com os países da Aliança já se aproximam de zero. Agora, Brasília quer mudar o volume e o perfil do mercado, enfocando em produtos manufaturados e não apenas commodities.
O problema que pode surgir com a mudança tarifária será a competição com os Tratados de Livre Comércio (TLC) bilaterais - principalmente tratados dos países do Pacífico com os EUA.
As regras dos TLCs tendem a imprimir certa vantagem comercial em relação às normativas regionais. Para o Peru, por exemplo, há mais vantagens na relação comercial com os EUA.
A solução parcial para o problema, de acordo com Costa, são as "vantagens comparativas" oferecidas pela integração regional.
Como exemplo, ele cita a distância dos países da Aliança com os do Mercosul, que é menor, o que implica menos tempo e recursos para o transporte dos produtos; e os aspectos culturais, que podem exercer influência no momento da escolha do mercado provedor.
Já a resistência à antecipação do acordo pode surgir entre os membros da Aliança do Pacífico, que começam a se ressentir do impacto em suas economias dos TLCs com os EUA. A recente crise agrária na Colômbia levou o setor empresarial que era favorável à liberalização comercial a adotar posturas protecionistas.
O professor Carlos Eduardo Carvalho, da PUC-SP, vê na nova iniciativa brasileira uma tentativa de recuperar a posição "autoatribuída", a seu ver, de líder da América do Sul. "É uma forma de o Brasil se inserir de forma ativa nessa 'área do Pacífico' que se formou em nossas costas", afirmou.

Moratória argentina

Outro tema que deve ser tratado na cúpula é a crise argentina. Na próxima quarta-feira vence o prazo de carência para que a Argentina pague os juros da dívida acordada com fundos credores do calote histórico de 2001 (os chamados fundos "abutres").
Se for declarada a moratória, cenário mais provável, além do embargo de bens, a Argentina terá o acesso a fontes de financiamento internacional limitado. A presidente Cristina Kirchner deverá expor aos colegas do Mercosul a situação econômica do país em busca de apoio.
Mas não há nada, na prática, que os países do bloco possam fazer. O impacto na segunda principal economia do Mercosul preocupa empresários e investidores do bloco.
"Haverá impacto, mas estimamos que seja menor do que a crise que enfrentamos em 2001", afirmou à BBC Brasil um negociador do bloco.
Do lado venezuelano, o presidente Nicolás Maduro respira com certo alívio. A reunião havia sido adiada devido à crise política que se arrastava desde meados de fevereiro, com manifestações violentas nas ruas contra seu governo.
Esvaziados os protestos, Maduro deverá apresentar aos presidentes uma proposta que busca aproximar os blocos da Alba-TCP, Petrocaribe e Caricom com o Mercosul.
A entrada da Venezuela no bloco é vista como uma janela dos sul-americanos para o mercado caribenho. Como mais recente membro do bloco, Maduro também deverá enviar uma mensagem para tranquilizar os empresários locais, preocupados com o peso da China - convertido no principal credor do país caribenho - no comércio venezuelano.
A reunião desta terça-feira também marcará o retorno do Paraguai ao bloco, suspenso desde a deposição de Fernando Lugo em 2012.
Não há avanços nas negociações do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. De acordo com negociadores da região, o impasse está no campo europeu, que ainda não conseguiu unificar uma proposta.

Palestina

A ofensiva militar de Israel contra a população palestina na Faixa de Gaza é outro tema que deverá ser abordado pelos presidentes. O bloco deve apresentar uma moção de repúdio à operação militar que já deixou mais de mil mortos.
Apesar de crítico, o tom do documento não deve contemplar a exigência dos movimentos sociais da região de boicote econômico a Israel e suspensão do acordo comercial entre o Mercosul e Tel Aviv.
Nesta segunda-feira, o encontro começa com a reunião dos chanceleres do bloco. Na terça-feira participam do encontro a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, da Argentina, Cristina Kirchner, do Paraguai, Horacio Cartes, do Uruguai, José Mujica, e da Venezuela, Nicolás Maduro.
O presidente Evo Morales, da Bolívia - país em processo de incorporação como membro pleno do pleno - também deve assistir à reunião. A Argentina assumirá a presidência do bloco.

Reportagem de Claudia Jardim
fonte:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/07/140728_cupula_mercosul_cj_lab.shtml
foto:http://www.relinter.rs.gov.br/conteudo/871/?Na_C%C3%BApula_do_Mercosul%2C_presidenta_Dilma_Rousseff_reafirma_compromisso_do_bloco_com_a_democracia