29/01/2012

"Os povos não devem continuar pagando pela crise", clama o Fórum Social


No documento final do Fórum de Porto Alegre, os movimentos sociais de todo o mundo conclamaram "os povos a não continuar pagando pela crise".
O Fórum, o maior evento anticapitalista internacional, repudiou "as medidas de austeridade (...) apresentadas em pacotes econômicos que, na verdade, privatizam bens, reduzem salários e direitos, multiplicam o desemprego e exploram de maneira errônea os recursos naturais".
Os participantes do encontro, que se contrapõe ao Fórum Econômico Mundial que reúne governantes e empresários em Davos (Suíça), convocaram uma mobilização mundial para o mês de junho, por ocasião da conferência Rio+20 da ONU, para pressionar os governantes a se comprometerem com um real desenvolvimento sustentável do planeta.O 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, foi declarado dia de manifestações nas ruas de todo o mundo, antes da Rio+20, no Rio de Janeiro.
Os participantes também defenderam "um Estado livre das corporações e a serviço da população", no Fórum, onde ressurgiu com força o lema dos manifestantes do grupo 'Occupy Wall Street' do final do ano passado, no qual os cidadãos diziam às elites políticas e econômicas que não se sentiam representados por suas decisões: "Somos 99% e vocês, 1%".
'Indignados' da Espanha, representantes da Primavera Árabe e do movimento Occupy Wall Street, além de integrantes de grêmios estudantis do Chile estiveram presentes ao encontro de Porto Alegre.
Cerca de 40.000 pessoas participaram desta edição extraordinária do Fórum Social Mundial, convocada para definir a posição das organizações sociais na próxima conferência da ONU Rio+20, realizada para exigir o comprometimento dos líderes mundiais com uma nova "economia verde" e social.
O encontro também lançou as bases "da Cúpula dos Povos", a ser instalada em junho no Rio de Janeiro, voltada para pressionar por um compromisso real e efetivo dos governantes com a Rio+20. Os movimentos sociais criticaram duramente o conceito de "economia verde" que a conferência pretende lançar.
"Tentam impor a economia verde como solução para a crise ambiental e alimentar", mas "além de agravar o problema, resultará em mercantilização da vida", expressaram numa assembleia neste sábado.
As organizações sociais concordaram em elaborar uma declaração alternativa da Rio+20, para fazer valer suas posições, explicou à AFP Cândido Grzybowski, coordenador do Fórum.
A principal convidada foi a presidente Dilma Rousseff que, em discurso para 4.000 ativistas, denunciou na quinta-feira a dissonância entre a voz dos mercados e a das ruas, que parece aumentar cada vez mais nos países industrializados, pondo em risco não apenas as conquistas sociais, mas a própria democracia".
Por isso, a presidente conclamou a Rio+20 a lançar um modelo de economia que articule crescimento e geração de emprego, combatendo a pobreza e reduzindo as desigualdades, com o uso sustentável e a preservação dos recursos naturais".


Reportagem de Yana Marull
foto:afinsophia.wordpress.com

Brasileiros são os que mais usam emagrecedores na América Latina


Cerca de 43% dos brasileiros dizem estar um pouco acima do peso e 16% dizem estar acima do peso.


Os brasileiros são os latino-americanos que mais consomem remédios para perder peso, segundo levantamento da empresa especializada em pesquisa de consumo Nielsen Holding. O estudo, que analisou várias regiões além da América Latina, mostra que 12% dos brasileiros usam emagrecedores.
A média de consumo de emagrecedores na região é 8%. Na Venezuela e no Peru, apenas 4% recorrem a esse tipo de medicamento. Os brasileiros também são os mais insatisfeitos com a silhueta. Cerca de 43% dizem estar um pouco acima do peso e 16% dizem estar acima do peso. Apenas 30% se mostram satisfeitos com o peso atual. A insatisfação dos brasileiros está acima da média mundial. De acordo com o estudo, 53% das pessoas no mundo dizem estar um pouco acima do peso.
Os chilenos também se destacam como os que se consideram muito acima do peso, são 8%. Entre os brasileiros, 3% se enquadram nesse perfil.Os colombianos, por outro lado, são os mais contentes com a aparência – 44% consideram o seu peso satisfatório e 38% dizem estar um pouco acima do peso. A média de satisfação na América Latina é 37%.
O estudo mostra ainda que 50% dos brasileiros tentam atualmente perder peso de alguma forma. Desses, 76% apelam para a mudança na dieta e 64% dizem estar fazendo exercícios.Os mexicanos são os que mais buscam estar em forma – 60% tentam perder peso. Desses, 66% fazem exercícios físicos, os recordistas no quesito na região. Os que menos se exercitam são os peruanos – apenas 49%, entre os que buscam perder peso.
O estudo mostra também que 52% dos latino-americanos não entendem nada ou apenas parte das informações nutricionais contidas nas embalagens dos alimentos.Os latino-americanos (64%) são os que mais defendem a inclusão de informações calóricas nas embalagens, contra 53% dos europeus e apenas 28% dos africanos e árabes.A pesquisa da Nielsen Holding ouviu 25 mil pessoas, por meio da internet.

foto:hitmix.com.br

TJRR lança campanha para “ouvir” o cidadão

O Tribunal de Justiça de Roraima (TJRR) lançou esta semana uma campanha institucional para divulgar os serviços da Ouvidoria, mantida pela Corregedoria Geral de Justiça. O objetivo é incentivar o cidadão comum e os operadores do Direito a enviarem suas reclamações, sugestões e/ou críticas.
Neste fim da semana, servidores do TJRR distribuiram material nos setores que prestam atendimento ao público, incentivando a participação de todos no processo. Um vídeo também foi produzido para mostrar os passos a quem quiser expor sua opinião. Além disso, a campanha será divulgada no website e nas mídias sociais do TJRR, como twitter e facebook.
Mídias sociais – A Ouvidoria Geral disponibiliza urnas em todas as unidades jurisdicionais, juntamente com fichas de participação, documento por meio do qual a população deve se manifestar acerca dos serviços prestados pela justiça roraimense.
Outros canais de comunicação são o e-mail, que pode ser acessado pela internet, no portal www.tjrr.jus.br no link da Corregedoria, e o telefone 0800 280 9551, cuja ligação é gratuita.
Qualidade e agilidade – A Corregedoria Geral de Justiça tem como objetivo colaborar com as unidades jurisdicionais e administrativas do Poder Judiciário de Roraima, buscando manter a qualidade e a agilidade das atividades desempenhadas pela justiça. Para isso, a CGJ fiscaliza e corrige eventuais falhas, por intermédio de correições e acompanhamento permanente dos dados estatísticos.
Outro trabalho importante do órgão é manter o controle permanente das atividades desempenhadas pelos servidores do Poder Judiciário, inclusive, quando necessário, por meio de procedimentos disciplinares conduzidos pela Comissão Permanente de Sindicância e de Processo Administrativo Disciplinar, composta por servidores do quadro de provimento efetivo do Poder Judiciário.
Regimento de custas – A Corregedoria também acompanha as atividades desenvolvidas pelos Cartórios Extrajudiciais na Capital e no interior do Estado, além de fiscalizar a correta aplicação do Regimento de Custas, regulamentando matéria administrativa de sua competência, assim como os plantões dos Juízes e dos Cartórios de Registro Civil, visando sempre aperfeiçoar a atividade fim do Poder Judiciário de Roraima.

foto:roraimahoje.com.br

28/01/2012

EUA admitem que sabiam de roubo de bebês pela ditadura argentina


Manifestantes protestam com fotos de desaparecidos políticos durante a última ditadura argentina
O ex-secretário de Direitos Humanos do Departamento de Estado norte-americano entre 1981 e 1985, Elliot Abrams, admitiu nesta quinta-feira (26/01) que sabia que os militares argentinos tinham um plano para o roubo e apropriação ilegal de bebês nascidos em centros clandestinos de prisão durante a ditadura do país (1976-1983).
“Estávamos a par de que algumas crianças tinham sido roubadas quando os pais estavam presos ou mortos”, afirmou, em depoimento, feito por meio de vídeo-conferência entre juízes de um tribunal oral federal de Buenos Aires e o consulado argentino em Washington. “Sabíamos que não eram só uma ou duas crianças, mas que existia um padrão, um plano, porque havia muita gente que estava sendo assassinada ou presa”, complementou.
Calcula-se que 500 bebês tenham sido roubados e tido sua identidade ocultada durante a repressão argentina. Para encontrá-los, um grupo de mães de presos clandestinamente na época, por razões políticas, se juntaram em uma associação conhecida como “Avós da Praça de Maio”, para tentar encontrar seus netos desaparecidos. Segundo o norte-americano, as crianças foram entregues a “famílias leais” ao regime militar.
Abrams, que atuou no Departamento de Estado dos Eua durante o mandato do presidente republicano Ronald Regan (1980-1988), prestou depoimento como testemunha do julgamento, iniciado em fevereiro de 2001, pelo roubo e apropriação ilegal de 34 bebês, no qual estão sendo processados os ex-ditadores Jorge Rafael Videla e Reynaldo Bignone, atualmente condenados e presos por outros crimes cometidos na época.
O ex-funcionário norte-americano afirmou ainda que como a desaparição de bebês poderia gerar um “enorme conteúdo humanitário e político”, sugeriu ao ex-embaixador argentino em Washington no período, Lucio García del Solar, em 1982, que a Igreja “poderia ajudar” a mediar “este problema terrível”. “Enquanto os desaparecidos estavam mortos, estas crianças estavam vivas e isso era, por um lado, o mais grave do problema humanitário”, diz.
O relato da conversa, registrado em um memorando ao então secretario de Estado, George Schultz, é um dos 4677 despachos secretos sobre a repressão argentina abertos pelos EUA em agosto de 2002, e foi entregue às Avós da Praça de Maio no ano passado. Segundo Abrams, o então embaixador também se mostrou preocupado, afirmando que já tinha reportado o assunto às autoridades argentinas.
Apesar da existência de muitos governos militares na época, Abrams diz não lembrar de outro caso como o argentino, que implicou além do roubo e apropriação de bebês, em torturas, assassinatos e desaparições. “Foi o pior caso”, afirmou, sobre as violações aos Direitos Humanos cometidas na região.

foto:EFE

Nono dígito em celulares de SP será implementado em julho deste ano


A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) publicou nesta sexta-feira (27), no Diário Oficial da União, um aviso no qual comunica que o nono dígito nos telefones móveis da área de registro 11 (São Paulo) será implementado a partir de 29 de julho deste ano.
A medida tem como objetivo ampliar os recursos de numeração dessa área. O dígito 9 (nove) será acrescentado à esquerda dos atuais números da área 11, que compreende a capital e os municípios da região metropolitana de São Paulo, dentre outros. Com isso, os números passarão a ter o seguinte formato: 9xxxx-xxxx.
O nono dígito deverá ser acrescentado, no momento da discagem, por todos os usuários de telefone fixo e móvel que liguem para telefones móveis da área 11, independentemente do local de origem da chamada.
Após 29 de julho, as ligações marcadas com oito dígitos ainda serão completadas por um tempo determinado, para adaptação das redes e usuários. Segundo a Anatel, "gradualmente haverá interceptações e os usuários receberão mensagens com orientações sobre a nova forma de discagem". De acordo com a Anatel, os usuários terão um período de 90 dias  a partir de 29 de julho para se adaptarem aos nove dígitos nas ligações. Após esse período, as chamadas marcadas com oito dígitos não serão mais completadas.
Além das adequações técnicas por parte das prestadoras de serviço de telecomunicações, de acordo com a agência, "a medida demandará da sociedade a realização de eventuais ajustes em equipamentos e sistemas privados como, por exemplo, equipamentos de PABX e agendas de contatos".
Todas as regras sobre a inclusão do nono dígito e a lista dos municípios onde acontecerá a mudança estão no site da Anatel.
Decisão
A decisão de elevar os dígitos foi tomada durante reunião realizada em dezembro pelo Conselho Diretor da Anatel.

O conselho chegou a avaliar a possibilidade de criar um novo código de área para São Paulo – além do 11 usado nas ligações interurbanas, o órgão estudou a implantação do DDD 10. Os conselheiros da Anatel, no entanto, acabaram decidindo pela adição de mais um dígito nos números de telefone.
2011 teve recorde em habilitações
A Anatel divulgou no dia 16 de janeiro que o Brasil fechou 2011 com um número recorde de habilitações de telefonia móvel, que inclui novos celulares e terminais 3G, segundo a agência. Foram 39,3 milhões de habilitações no ano passado, alta de 19,36% sobre os números de 2010. Ao todo, o país fechou 2011 com cerca de 242,2 milhões de celulares habilitados.

Em dezembro de 2011, foram mais de 6,1 milhões de habilitações (crescimento de 2,6% sobre novembro). De acordo com a Anatel, esse foi o mês com o maior número de habilitações na história, superando dezembro de 2010 (5,4 milhões), de 2007 (4,7 milhões) e de 2005 (4,4 milhões).
foto:mundodastribos.com

Em Davos, um Brasil na contramão


O Brasil firmou sua posição internacional: vai na contramão do mundo, como economia em crescimento, e já não tem tanta necessidade de vender seu modelo, disse o chanceler Antônio Patriota, ao explicar por que a presidente Dilma Rousseff rejeitou o convite para o Fórum Econômico Mundial.
Países vêm a Davos em busca de credibilidade, segundo o ministro. Pergunta: isso explica a presença do secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, e a ausência do ministro Guido Mantega? 'Eu estou aqui e a secretária Hilary Clinton não está', respondeu o ministro. A conta não bate: o governo americano foi representado por dois funcionários de alto escalão. Além de Geithner, veio o principal negociador comercial dos Estados Unidos, Ron Kirk, responsável por uma das funções desempenhadas no Brasil pelo Itamaraty.
A China, segunda maior economia do mundo, mandou, como de costume, um batalhão de funcionários, empresários e professores e diretores de várias universidades. Na maior parte, são fluentes em inglês, ao contrário de vários ministros brasileiros.
A Televisão Central da China reuniu num programa de debates o executivo principal da Nasdaq, Robert Greifield, o presidente da Universidade Yale, Richard Levin, o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, e o empresário John Zhao, diretor do fundo chinês de investimentos Hony Capital. O âncora do programa, Rui Chenggang, conduziu a discussão com leveza, muita competência em assuntos econômicos e um inglês de causar inveja aos melhores apresentadores americanos.
Outros países em busca de reconhecimento, como Cingapura, Indonésia, México e Japão, foram representados por chefes de governo, autoridades de alto escalão ou professores de universidades importantes e dirigentes de grandes instituições financeiras e de empresas donas de marcas líderes no mercado internacional. A presença de executivos japoneses, americanos, chineses, russos e de várias outras nacionalidades é comum nas centenas de painéis e mesas de debates em Davos.
A participação de europeus ocidentais - políticos, empresários, acadêmicos - é sempre muito grande, mas esses, pelo critério do governo brasileiro, vêm a Davos porque estão em crise e precisando de ajuda. Isso deve explicar o comparecimento da chanceler Angela Merkel, do primeiro-ministro David Cameron e dos ministros de Economia e Finanças Wolfgang Schäuble e François Baroin, por exemplo, além de uma porção de outros.
Do lado empresarial, o Brasil foi representado por um grupo pequeno e mais ou menos constante de executivos - minúsculo, para a sexta economia do mundo - e por dirigentes da Petrobrás, frequentadores veteranos de Davos, e de entidades estatais, como a Apex. Uma das poucas novidades foi a presença do Bradesco. O Itaú é representado há muitos anos, assim como a Embraer e algumas companhias com interesse no mercado global.
Apesar de tudo, o chanceler brasileiro tem tido uma agenda animada, com muitos encontros bilaterais e participação em alguns painéis - um deles na companhia do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon. A pauta bilateral incluiu, entre outros compromissos, conversas com Peña Nieto, candidato à Presidência do México, e com o secretário do Desenvolvimento do Reino Unido, Andrew Mitchel. Hoje, deve participar de um almoço organizado pela Apex, a agência governamental de promoção de exportações e de investimentos.

foto:guardian.co.uk

TJ-PE lança cartilhas para explicar processo de adoção

Esta notícia merece fazer parte da nossa coluna de Boas Idéias!



O Tribunal de Justiça de Pernambuco lançou na última quinta-feira (26/1) a última cartilha da triologia sobre adoção no país, elaborada pela Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja). A primeira cartilha, lançada em 2010, foi distribuída em hospitais e maternidades, destinando-se ao público leigo com explicações gerais sobre adoção. Em 2011, um segundo lançamento teve como foco os estudantes da rede pública de ensino, mencionando ainda os direitos do menor e sua família. Já o livreto atual está voltado para profissionais da área, como advogados, promotores e juízes, abordando as questões principais sobre adoção por estrangeiros.
De acordo com a secretária-executiva da Ceja, Ana Paulo Melo, a ideia dos livretos e de "Procedimentos para Adoção Internacional" é difundir o processo de adoção, desmistificando os trâmites e ampliando o entendimento tanto do público quanto dos juízes das Varas da Infância e Juventude. O projeto também está voltado para servidores que atuam nas secretarias da infância e juventude e a orientação visa ajudar na desburocratização de procedimentos pontuais, nas varas ou instituições relacionadas, que tornam a adoção mais demorada.
"A cartilha ajuda muito, pois a falta de conhecimento ainda é a maior dificuldade. As pessoas tendem a acreditar que a adoção é um procedimento muito complicado, quando não é", explica à ConJur o especialista em Direito de Família, Daniel Bijos Faidiga, do escritório Salusse Marangoni Advogados. De acordo com ele, a nova Lei de Adoção, sancionada em 2009, ajudou a padronizar a adoção no país, simplificando seu procedimento. "O processo em si não é o problema, mas sua implementação e as dificuldades práticas, como o perfil das crianças disponíveis para adoção diante do perfil que os pais interessados desejam."
De acordo com o Cadastro Nacional de Adoção, lançado pelo Conselho Nacional de Justiça em abril de 2008, existem atualmente no Brasil 27.298 pessoas dispostas a adotar e 4.985 crianças e adolescentes disponíveis para adoção. Apesar da diferença, mesmo assim, a demora na adoção persiste e as crianças passam mais tempo do que a lei determinas em abrigos. "Essa diferença de números está mais relacionada à seleção dos pais sobre o tipo de crianças que eles querem adotar. A maioria quer adotar menina, até seis meses, branca, loira e olhos azuis. No entanto, esse não é perfil da maioria que está disponível para adoção", destaca Faidiga.
Enquanto os interessados nacionais em adoção definem um perfil pouco próximo da realidade do banco de dados, os estrangeiros interessados em adotar, em geral, são menos exigentes. "Para a adoção por estrangeiro a dificuldade aumenta por conta do período de convivência e da existência de mais uma legislação a se seguir. Além da norma brasileira, o estrangeiro deve estar habilitado e seguir a lei do seu país", explica o advogado.
Faidiga destaca ainda que o período de convivência, na prática, não se resume aos 30 dias, mínimo determinado pelo Estatuto da Criança e Adolescente. "O período anterior à convivência também exige que os pais venham ambos ao país e gastem tempo aqui em alguns procedimentos burocráticos." Apesar dessas exigências, o advogado afirma que, em relação à legislação estrangeira, a norma brasileira que trata da adoção é mais favorável do que a existente em alguns países.
"Na Europa, as leis são menos burocráticas, mas a brasileira é ainda mais favorável ao interesse da criança ou adolescente. Já na legislação americana, a devolução pelos pais é mais simples, por exemplo. No Brasil é mais difícil devolver o adotado, pois existem várias questões que devem ser consideradas e, depois, os pais enfrentarão mais restrições se quiserem adotar novamente."
Abandono e negligência
Entre as novas regras da Lei de Adoção está a determinação que as crianças não devem ficar mais do que dois anos nos abrigos de proteção, exceto se houver uma recomendação da Justiça expressa. A lei prevê ainda uma preparação dos futuros pais e o acompanhamento familiar após o acolhimento da criança ou adolescente. As regras apontam os caminhos que os interessados precisam seguir para adoção sem cometer crime, conforme o Código Penal. 

A cartilha do TJ-PE explica que, até mesmo para bebês abandonados, existe a necessidade de sentença que decreta a perda do poder familiar para que o menor possa ser colocado para adoção. O promotor de Justiça deve ingressar com a ação e os pais ainda têm o direito de se defender de denúncias como maus-tratos, negligência nos cuidados com os filhos e atos praticados contra moral. O texto destaca que a perda do poder familiar não pode levar em consideração qualquer fato e o Estado tem obrigação de dar apoio à família porque a prioridade é que a criança fique com sua família.
Quando a criança menor de 3 anos for deixada pela mãe com parentes, esses familiares devem regularizar a posse do menor por meio de processo de guarda ou tutela. A adoção será autorizada depois que comprovado que foram criados laços afetivos entre a criança e os parentes, além de se verificar que há ausência de má-fé na posse do menor. Mas, segundo especialistas, a adoção sempre passará pelas varas da infância e juventude, responsáveis pelos pedidos feitos por pessoas interessadas. 

Reportagem de Líliam Raña
foto:supercriativobyglau.blogspot.com

"Os juízes do trabalho são contra qualquer terceirização"

Bom dia!
Novidades no Ética para Paz.
Todo final de semana irei publicar entrevistas e artigos sobre assutos polêmicos e de grande interesse social. Inauguro este espaço leitura com uma entrevista com o presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) Renato Henry Sant’Anna feita por Marília Scriboni (foto abaixo) para o site Consultor Jurídico (Conjur). 
Boa leitura!




Para a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), 2011 foi o ano em que os juízes trabalhistas cruzaram os braços e suspenderam, ao lado dos juízes federais, as intimações e citações. O resultado, além do dia não trabalhado, foi nulo. As reivindicações — reajuste de vencimentos e melhorias na estrutura de trabalho e de segurança, dentro outras — não foram atendidas. Mas, como assegura Renato Henry Sant’Anna, presidente da entidade, a Anamatra não desistiu dessa briga.
Em entrevista à Consultor Jurídico, o juiz trabalhista de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, diz que defender uma remuneração digna para os juízes é defender sua independência. "A Anamatra se preocupa bastante com a questão salarial, que simplesmente ficou sem solução”. Segundo ele, houve uma perda de 25% do poder de compra dos rendimentos da magistratura trabalhista.
“Não estamos nem conseguindo manter o nosso padrão salarial. Uma das prerrogativas da magistratura é a irredutibilidade de vencimentos. Ninguém está na magistratura para ficar rico, mas o juiz precisa ter tranquilidade para exercer a sua função O que os juízes querem é o que todo trabalhador tem: uma política remuneratória previsível”, declarou.
Se a campanha salarial é uma preocupação para a magistatura, o mesmo não acontece com a suposta crise em torno dos poderes do Conselho Nacional de Justiça. Para o presidente da Anamatra, essa é uma não crise. Mesmo que o Supremo Tribunal Federal decida que o CNJ tem competência subsidiária à das corregedorias, isso não vai alterar o seu papel em matéria disciplinar, já que ele continuará com poderes para continuar cobrando ação dos tribunais. "São raros os casos disciplianres da Justiça do Trabalho que chegam ao CNJ, por isso não estamos preocupados com essa questão", diz Sant'Anna. 
Muito mais preocupante, para ele, é a terceirização, uma tendência que avança em todos os setores da economia e que, para ele, não passa de um subterfúgio para o empregador contornar encargos trabalhistas e que conduz inevitavelmente à precarização das relações de emprego. E não existe uma terceirização aceitável: "Existe. Aquela que não termina batendo à porta da Justiça do Trabalho", responde.  
Renato Henry Sant'Anna nasceu em 15 de março de 1966 em Campinas (SP). É bacharel em Direito pela PUC-SP. É mestre em Direito pela Universidade de Illinois (EUA) e tem especialização em Direito do Trabalho pela USP. Ingressou na magistratura do Trabalho em 1994. É professor de Direito e Processo do Trabalho na Unip. Foi eleito presidente da Anamatra, para um mandato de dois anos, no ano passado.
O presidente da Anamatra, acompanhado dos desembargadores trabalhistas Ana Paula Pellegrina Lockmann e Francisco Giordani, ambos do TRT-15, concedeu aos jornalistas Marília Scriboni, Lilian Matsuura e Márcio Chaer a entrevista que se segue: 
Leia abaixo a íntegra da entrevista:
ConJur – Quais são as principais preocupações do juiz trabalhista hoje? 
Renato Sant'Anna - O juiz do trabalho continua focado na defesa do Direito do Trabalho e da Justiça do Trabalho, que são peculiares. A primeira atuação é na defesa deles. Já a pauta da Anamatra é, prioritariamente, corporativa: defesa das prerrogativas dos juízes. São as prerrogativas que nos permitem exercer com independência a magistratura. E que nos levam a defender uma remuneração digna e nossos direitos, digamos assim, financeiros. Estamos nessa batalha há muitos anos. A Anamatra tem, ao lado das outras associações de juízes, batalhado mais especificamente por uma política remuneratória que reconheça o que a Constituição nos garante de recomposição de valor. Precisamos de um mecanismo que remunere o juiz pela permanência dele por mais tempo na magistratura.

ConJur – Como o senhor vê essa guerra entre os tribunais e o CNJ? 
Renato Sant'Anna – Para os juízes do trabalho, esse é um não assunto. Nós jamais fomos contra o CNJ. Muito pelo contrário: apoiamos sua criação. Entendemos que ele tem uma atuação basicamente positiva: cria critérios de transparência, de controles, de fixação de números — coisas que o Judiciário não tinha. O que acontece hoje é que criou-se um debate como se existisse um grupo favorável ao CNJ forte e um grupo que quer acabar com ele. Esse é um não debate para o juiz do Trabalho porque nós semore tivemos uma Corregedoria-Geral em Brasília. Ou seja, não é novidade para o juiz trabalhista ter uma Corregedoria-Geral no controle, fixada em Brasília. Parece que a atuação disciplinar do CNJ é até uma atividade secundária.

ConJur – Neste momento, qual é o principal papel exercido pelo CNJ? 
Renato Sant'Anna – Para o juiz do Trabalho, o principal papel é organizar o Judiciário. É aí que ele dá retorno para a sociedade, não na parte disciplinar. Claro que a parte disciplinar precisa acontecer, a gente precisa ter algum tipo de controle sobre as corregedorias, seja concorrente, seja subsidiáriao. Todo órgão precisa ter algum tipo de controle, isso é da natureza da administração pública. Mas o que nós pensamos é que para o juiz do trabalho nunca preocupou essa atividade disciplinar do Conselho Nacional de Justiça. Temos informações, até extra-oficiais do CNJ, de que as reclamações e as denúncias envolvendo juízes do Trabalho são absolutamente residuais dentro da corregedoria.

ConJur – Mas a Anamatra também reclama contra o CNJ no Supremo.  
Renato Sant'Anna – Não nos preocupa a atividade disciplinar do CNJ, desde que ela seja feita seguindo as regras legais. A Anamatra patrocina duas ações no Supremo em relação ao CNJ. Uma delas é o Mandado de Segurança que pede a suspensão de uma investigação que a Corregedoria faz sobre todos os juízes, sobre todos os cônjuges e sobre todos os dependentes dos juízes. Nós entendemos que é uma investigação ilegal porque implicou quebra de sigilo fiscal e bancário dos juízes. O Supremo, em liminar, reconheceu que nós estamos certos.

ConJur – A ministra Eliana Calmon diz que não houve quebra de sigilo bancário. Inclusive, o relatório do COAF que foi enviado ao Supremo não traz dados pessoai. 
Renato Sant'Anna – Não tive acesso às informações que a ministra prestou no Mandado de Segurança, mas me parece que a investigação começou com o envio ao COAF dos CPFs de todos os juízes. É óbvio: se você fornece o CPF e o relatório é feito, é quebrado o sigilo fiscal dos juízes. Essa é a nossa impressão. Se a ministra disse que não teve acesso a dados fiscais e bancários, eu não sei que investigação é essa que ela está fazendo. É o Supremo que vai dizer se essa investigação foi feita de acordo com as regras ou não. O que me chama a atenção é que a ministra se confessa apadrinhada política de Antônio Carlos Magalhães. Parece-me que a forma de atuação na investigação é muito semelhante porque o senador também fazia dossiês e divulgava dados parciais à imprensa. Uma investigação mal feita nos preocupa, porque depois ela é derrubada na Justiça e não gera resultado.

ConJur – Antigamente, receber salário atrasado era um ônus do caloteiro, de quem atrasou o pagamento. Neste momento, no entanto, as pessoas que estão recebendo salários atrasados é que estão sendo criminalizadas. Como explicar esse fenômeno? Por que faz tanto sucesso essa briga? 
Renato Sant'Anna – A questão dos atrasados que os juízes estão recebendo gera uma curiosidade porque acaba sendo um valor substancial, em função do atraso. São valores devidos entre 1994 e 1997 e a dívida cresce em função da demora no pagamento. Os juízes do trabalho recebem esses valores em quatro parcelas anuais, com os valores incluídos no orçamento da União, com parecer favorável da AGU, reconhecendo a legitimidade do pagamento.

ConJur – Tem-se ideia de valores? 
Renato Sant'Anna – Isso varia de juiz para juiz. Depende do tempo de serviço que a pessoa tinha à época. A própria ministra Eliana Calmon recebeu esse valor, cerca de R$ 400 mil. Ela recebeu de uma vez só. São valores que, mais ou menos, rondam por aí, entre R$ 400 mil e R$ 500 mil.

ConJur – O senhor diria que esse barulho enorme foi turbinado por questões pessoais, por divisões entre alas do Judiciário? 
Renato Sant'Anna – Eu volto a insistir: não existe ala do bem e ala do mal nesse aspecto. Pelo contrário: quem está adorando essa briga são os poucos maus juízes, os desonestos. Eles estão sendo encobertos por uma suposta discussão do juiz ser a favor da transparência ou não, mas o meu salário está publicado no edital de cada concurso para juiz. O juiz não tem auxílio moradia, nem auxílio paletó. Nosso pagamento é absolutamente transparente.

ConJur – O auxílio moradia que se paga é residual? 
Renato Sant'Anna – A discussão é um pouco técnica. Antes de 1994, os deputados ganhavam esse auxílio moradia, que eles diziam que era uma parcela indenizatória, sobre a qual eles pagavam, inclusive, imposto de renda. O que os juízes disseram? Na época havia paridade. “Se a gente tem que ganhar igual a um deputado, essa parcela que é paga a eles também tem que ser paga aos juízes”. Aquilo era uma forma indireta de se pagar salário. Hoje a gente tem um sistema de subsídio, em parcela única que, em princípio, não permite esse pagamento, embora os deputados tenham, ainda, algum tipo de auxílio moradia.

ConJur – E qual é a outra ação da Anamatra no Supremo? 
Renato Sant'Anna – É uma Ação Declaratória de Inconstitucionalidade, que  complementa o Mandado de Segurança. Ela questiona um artigo do regimento do CNJ que embasaria o poder que a ministra corregedora tem de requisitar informações e dados sigilosos. Para que o Mandado de Segurança tenha lógica, a gente precisa questionar o artigo do regimento que embasa as condutas que consideramos indevidas. Ou seja, o assunto é o mesmo.

ConJur – A Anamatra tem alguma relação com a ação da AMB que questiona os poderes do CNJ? 
Renato Sant'Anna – Aquela ação é só da AMB. Isso não nos preocupa e nunca nos preocupou. Ainda que o Supremo diga que a concorrência é subsidiária, o mundo não vai acabar no dia seguinte. O CNJ vai continuar podendo atuar quando a corregedoria se demonstrar inerte. Ele tem a possibilidade de atuar em qualquer momento que achar necessário. As associações lidam com o CNJ de uma forma muito tranquila. Quando o CNJ avança o sinal, nós vamos ao Supremo e questionamos, dentro das regras do jogo. Existe também o abuso ao contrário: o excesso de rigor. Ovice-presidenteda da Anamatra [Paulo Luiz Schimdt] é ex-conselheiro do CNJ.

ConJur – Como deve ser feita a investigação? Ela deveria começar com uma denúncia contra o juiz? 
Renato Sant'Anna – Qualquer estudante de primeiro ano que estudar Direito Penal sabe que todo procedimento criminal tem de ter uma causa. O próprio STJ acabou de anular uma investigação criminal, a operação Castelo de Areia, porque ela surgiu de uma denúncia anônima. Então, o STJ, do qual a ministra Eliana Calmon faz parte, acabou de anular toda uma investigação porque ela não teve uma causa legítima. O que nos parece é que as investigações têm que ser feitas com base em indícios. Por exemplo, o juiz apresenta sinais exteriores de riqueza. A Corregedoria recebe uma denúncia dizendo que o juiz fulano de tal anda com um carro assim, ele tem uma casa não sei aonde, ele vive cheio de dinheiro, etc? Vamos ver o que está acontecendo. Outro aspecto importante: quem é o maior parceiro da corregedoria e do CNJ que deve denunciar e mostrar? O advogado. Em cada processo, geralmente tem duas partes pelo menos. Um advogado fiscaliza a atuação do outro e a atuação do juiz. Havendo alguma coisa errada, esse advogado tem que levar a situação para análise. Os dados estão sendo divulgados de uma maneira generalizada.

ConJur – Estariam os fiscais da lei se omitindo? O CNJ está suprindo um espaço que o Ministério Público esvaziou? 
Renato Sant'Anna – O Ministério Público tem também o seu próprio conselho, o Conselho Nacional do Ministério Público. Por natureza, o Ministério Público não atrai tanta atenção para esses assuntos internos. Todos os problemas que o Judiciário vive, os defeitos e as qualidades, também vão ser encontradas no Ministério Público. Mas, quando se fala em Judiciário, pensa-se em juiz.

ConJur – Por que ninguém reclama do Conselho Nacional do Ministério Público? 
Renato Sant'Anna – Porque o Ministério Público suscita menos interesse da sociedade. O juiz também carrega o peso de decidir. Quando você decide, geralmente desagrada a uma das partes, quando não as duas. Um pouco desse ressentimento acaba surgindo e respingando na figura do juiz. Já o Ministério Público tem o papel de levar ao Poder Judiciário o problema.

ConJur – Se a repercussão dessa discussão é motivada por descontentamento, o volume estratosférico de processos na Justiça não demonstraria o contrário? 
Renato Sant'Anna – O cidadão procura a Justiça porque confia nela e porque não tem outra opção. E, no Estado Democrático de Direito, não há outra opção. As pessoas só vão dar valor ao Poder Judiciário na hora em que precisam dele. Quem está aí patrocinando ou se divertindo com essa campanha contra o Judiciário, um dia vai precisar dele. E se encontrar um Poder Judiciário fragilizado, vai ter uma decisão de pior qualidade, com menos independência. Quando a gente defende as prerrogativas do magistrado, pode parecer apenas uma defesa de interesse próprio. Se o trabalhador não tiver como recorrer à Justiça do Trabalho, quem vai resolver o problema dele?

ConJur – Quais são as prerrogativas da magistratura que não estão sendo respeitadas? 
Renato Sant'Anna – Acho que a principal prerrogativa do juiz é a independência. Independência não é só a pessoa ter tranquilidade para decidir como quiser, mas vai além disso. A Constituição colocou três garantias fundamentais para o juiz: a inamovibilidade, a vitaliciedade e a irredutibilidade de vencimentos. Nesse sentido, é preocupante a atual situação da magistratura. Desde 2006, nossos vencimentos perderam um quarto do poder de compra Alguns vão dizer: “Ah, mas o salário é alto em relação ao salário mínimo!”. Nós não queremos ser comparados ao salário mínimo, mas sim ao profissional que tenha a formação que tem um juiz, que tenha o nível de dificuldade que o juiz teve para chegar naquela posição por meio de concursos, por exemplo. Temos que comparar com o quê? Com um diretor jurídico, com um advogado razoavelmente bem sucedido... A retirada do nosso poder de compra é uma ofensa à nossa independência e à nossa prerrogativa.

ConJur – A Justiça do Trabalho carrega o estigma de defender o trabalhador, certo? 
Renato Sant'Anna – É interessante ainda notar que essa é a grande acusação que se faz à Justiça do Trabalho. É o que se ouve. Nós rechaçamos essa acusação. Mas, não deixa de ser interessante que, em um país de tanta desigualdade, o juiz seja acusado de defender o mais pobre. Normalmente o que acontece e o que está no imaginário é que é o rico quem se dá sempre bem. Então, não deixa de ser um orgulho para a Justiça do Trabalho carregar um pouquinho disso.

ConJur – A ministra Rosa Maria Weber acaba de chegar ao Supremo. Qual o impacto dessa chegada? 
Renato Sant'Anna – A indicação da ministra Rosa foi muito feliz porque o Supremo Tribunal Federal tem uma carga considerável de processos envolvendo o Direito do Trabalho. Cerca de um quarto das ações têm discussões desse tipo. Ou seja, não é verdade que o Supremo não se debruça sobre causas trabalhistas. Debruça, sim, e ainda que assim não fosse, a experiência da ministra Rosa é uma experiência de sensibilidade social.

ConJur – Neste ano começa a valer a Certidão Negativa de Débitos Trabalhistas. Hoje, um dos grandes problemas da Justiça do Trabalho é a execução. O senhor acha que isso vai resolver e dar agilidade e que as empresas vão começar a pagar os débitos trabalhistas por conta disso? 
Renato Sant'Anna – Isso a gente só vai saber com os números. A ideia é excelente. O anteprojeto da Certidão Negativa de Débitos Trabalhistas saiu de dentro da Anamatra, em 2002. Na época, o diretor legislativo era o juiz Luciano Athayde Chaves, que depois veio a ser presidente da Anamatra. Acho que vai ajudar porque todo empecilho que você cria com um mau pagador provoca um efeito na adimplência. Gostaria de frisar, em relação à execução, que esse é um dos grandes problemas da Justiça do Trabalho. Os juízes do trabalho estão atacando o problema de todas as formas possíveis. No entanto, muitas vezes não depende do juiz. Na falta de dinheiro, não dá para o juiz tirar do bolso e pagar a execução. Se o executado não tem como pagar, o processo não anda.

ConJur – Em alguns casos, não há mesmo como resolver, não é? 
Renato Sant'Anna – Precisamos criar mecanismos que impeçam chegar ao ponto de a empresa sumir e deixar alguém com a conta pendurada. Nesse sentido, a terceirização nos preocupa. Nós somos contra a terceirização porque ela é contra princípios de Direito do Trabalho, que é baseado na formação do vínculo entre trabalhador e empregador. A terceirização desvirtua essa situação. Muito da inadimplência na Justiça do Trabalho se deve à terceirização mal feita. Até órgãos públicos terceirizam, por conta do sistema de licitação, que privilegia o preço mais baixo. Não tem milagre: o preço mais baixo vai ter que gerar cortes de custo.

ConJur – O senhor acha que pode prevalecer o entendimento de que pode-se terceirizar a atividade meio, e não a atividade fim? 
Renato Sant'Anna – Existe essa discussão dentro do Congresso, por meio de um projeto de lei que vai, digamos assim, regulamentar a terceirização. A Anamatra tem comparecido às audiências públicas e nós fomos contra. Nós vemos como a terceirização funciona. Quando ela dá problema, bate à nossa porta. A Anamatra é contra qualquer terceirização.

ConJur – O senhor falou em terceirização mal feita. Existe terceirização bem feita? 
Renato Sant'Anna – Para o juiz do trabalho, a terceirização bem feita é a terceirização que não bate à porta dele.

ConJur – A terceirização é uma tendência mundial... 
Renato Sant'Anna – Sim, e outras coisas existem no mundo inteiro que não são boas. Mal comparando, o crime também existe e não é por isso que não vamos lutar contra a existência do crime.

ConJur – Como a penhora online deve ser usada? Muitos advogados reclamam de abusos. 
Renato Sant'Anna – Os abusos têm de ser combatidos no processo, embora não nos pareça que existam tantos abusos assim. A penhora sempre é um ato de força, seja de dinheiro, seja do carro ou do computador. A penhora online alcança, agora, pessoas que não eram alcançadas pelas penhoras normais. E isso gera um tipo de descontentamento. Antes, se você queria fazer uma penhora, o oficial de Justiça ia ao banco. Agora, isso é feito eletronicamente, o que é mais efetivo.

ConJur – Qual o índice de execução frustrada? 
Renato Sant'Anna – De cada dez, só três recebem. É um índice considerável, mas existe um percentual que não tem solução. No Brasil não há prisão por dívida, então não há o que fazer. Uma grande parcela é devida à terceirização.

ConJur – Temos visto que a terceirização é forte no Ministério da Justiça e na Polícia Federal. Quem é que arbitra a terceirização no serviço público? 
Renato Sant'Anna – O terceirizado é um empregado privado. Hoje, o Supremo discute qual é a responsabilidade do contratante estatal quando ele terceiriza. De acordo com a Justiça do Trabalho, alguém tem que pagar a conta se o negócio der errado. Prevalece no Supremo uma visão mais fazendária, no sentido de que o Estado não vai pagar a conta, porque ele licitou e fez a parte dele. Essa é uma distorção do Direito do Trabalho, porque o empregado trabalha na empresa, ele não quer saber se está trabalhando para dez empresas. Além disso, qual o sindicato dele? Não dá para saber qual é atividade da empresa empregadora. Dentre os terceirizados, o número de acidentes do trabalho, por exemplo, é maior.

ConJur – Por que isso acontece? 
Renato Sant'Anna – É claro que há uma precarização da condição dele. Esse dado é científico: há mais acidente de trabalho por terceirizado. Para a empresa terceirizada ganhar dinheiro, tem que sair da onde? Diminuição do custo do empregado. Às vezes, ele nem sabe lidar com os equipamentos.

ConJur - Mesmo assim o número de sindicatos aumenta muito no país e essa discussão acaba indo parar na Justiça do Trabalho de novo. 
Renato Sant'Anna – É da natureza do sindicato haver disputa de representação. Encaramos isso com naturalidade.

ConJur – O número de ações repetitivas na Justiça do Trabalho é grande? 
Renato Sant'Anna – A Justiça do Trabalho tem uma peculiaridade. Primeiro: não temos tantas ações repetitivas. Cada caso é um caso. Segundo: nunca, em uma ação trabalhista, o empregado pede apenas uma coisa. São sempre umas dez. Então, naquele monte de papel, tem dez coisas ali sendo pedidas. Todas as ações cumulam pedidos e cada um deles precisa ser analisado. A Justiça Comum e a Justiça Federal  têm um percentual razoável de pedidos únicos.

ConJur – Um exemplo é o cálculo de horas extras no teletrabalho? 
Renato Sant'Anna – O teletrabalho já vinha originando ações na Justiça. Com a lei, vai suscitar o tema e fazer surgir mais. Não faz diferença se ele está na casa dele, caso esteja trabalhando. Isso vai ser analisado caso a caso.

ConJur – Pra comprovar, tem que analisar caso a caso. 
Renato Sant'Anna – Essa questão da ação repetitiva é um problema. Em um primeiro momento, elas até podem ser iguais. Mas não há dois casos iguais na vida.

ConJur – Depois que o STJ decidiu, como questionar uma súmula? 
Renato Sant'Anna – Essa discussão vai ser eterna. O precedente às vezes não é exatamente igual ao caso. Assim também é a questão da súmula. Precisamos de mais leis ou mais súmulas? Dos dois. Como é que depois eu vou mudar a súmula, depois que ela virar súmula? É preciso um mecanismo para mudar isso. Ninguém pensa em sistemas que valorizem mais as decisões de primeiro grau. Talvez a grande solução seja essa. Por que todo mundo tem que ficar recorrendo?

ConJur – Aumentar o número de juízes ajudaria? 
Renato Sant'Anna – A Justiça do Trabalho tem crescido e precisa crescer. Ela não depende só de demanda. Tem de estar acessível também. Muitas vezes, no interior da Amazonas, falam: “Ah, mas lá só tem 300 processos por ano”. Mas precisa ter uma vara, porque se não tiver Justiça do Trabalho, vai valer a lei do mais forte. A simples presença dela com acessibilidade do trabalhador inibe o empregador de abusar do empregado. Isso impede que aquele conflito, às vezes, vire um processo criminal, porque se a pessoa faz e não recebe, ela vai cobrar.

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