02/11/2013

Cresce incidência do vírus HIV entre pessoas com mais de 50 anos, diz ONU

Mais de 10% dos soropositivos em países de média e baixa renda já viveram ao menos cinco décadas.


Mais de 10% das pessoas vivendo com Aids nos países de renda média ou baixa têm mais de 50 anos, segundo dados divulgados ontem (01/11) pelo Unaids (Programa das Nações Unidas para a Aids).
De acordo com o relatório, do total global de 35,3 milhões de pessoas infectadas com o HIV, aproximadamente 3,6 milhões têm mais de 50 anos, sendo que a maioria (2,9 milhões) vive em países com renda média ou baixa. Nessas nações, a porcentagem de adultos acometidos pelo vírus e que têm mais que 50 anos é maior que 10%. O documento também revela que em países com renda alta, quase um terço das vítimas de Aids tem mais de 50 anos.
“Pessoas com 50 anos ou mais frequentemente deixam de ser incluídas nos programas para HIV”, afirmou Michel Sidibé, diretor-executivo do Unaids. “Isso está custando vidas. É preciso dar muito mais atenção para as necessidades específicas desses indivíduos e integrar o tratamento para HIV com outros serviços de saúde aos quais os mais velhos possam já ter acesso”.
Entre as pessoas com mais de 50 anos, a cada ano ocorrem 100 mil novas infecções, revelou o diretor de Informação Estratégica e Avaliação do Unaids, Peter Ghys, ao comentar estes novos dados.
Segundo o novo relatório, o “envelhecimento” da epidemia de HIV é devido a três fatores principais: o sucesso do tratamento com antirretrovirais em prolongar a vida dos infectados com o vírus, a decrescente incidência do HIV em adultos jovens - invertendo o ônus da doença para idades mais avançadas - e o fato de pessoas com 50 anos ou mais estão se envolvendo mais em comportamentos de risco, como sexo sem proteção e uso de drogas injetáveis, o que aumenta a chance de infecção.
Ghys ressaltou a importância de adaptar-se a esta nova realidade e reconhecer que "os serviços sanitários não respondem de maneira apropriada às necessidades específicas das pessoas de 50 ou mais anos, e que isto resulta em perda de vidas". Destacou também que é necessário que se modifique o enfoque das campanhas de prevenção, que costumam estar dirigidas a outros grupos de idade, particularmente os jovens.
Na quarta-feira (30/10), o diretor-adjunto do Unaids e subsecretário-geral da ONU, Luiz Antonio Loures, estimou que a epidemia de Aids deve ter fim em 2030. Ele também prevê que até 2015 será possível eliminar globalmente a transmissão horizontal do vírus (ou seja, de mãe para filho). 

China mira países ricos e reduz investimentos no Brasil


O apetite da China por recursos naturais continua grande, mas as investidas do país no exterior já não se limitam à projetos ligados à extração e obtenção de matéria-prima que, num passado recente, chegaram a elevar o Brasil ao topo da lista dos países que mais receberam investimentos diretos dos chineses.
No que alguns economistas definem como uma "nova onda", os investimentos chineses no exterior estão mais diversificados, com maior participação de empresas privadas, revelando uma aposta em setores como imobiliário e de tecnologia e foco em países ricos.
Nesse cenário, os investimentos diretos chineses no Brasil, após atingirem seu ponto máximo em 2010, vem sofrendo queda desde então, segundo o levantamento China Global Investment Tracker, do centro de pesquisas Heritage Foundation, em Washington.
De acordo com o levantamento, que só leva em conta investimentos de mais de US$ 100 milhões e não inclui títulos públicos, em 2010 o Brasil foi o principal destino de investimentos diretos chineses, com US$ 13,7 bilhões.
Em 2011, o montante caiu para US$ 8,63 bilhões. No ano passado foram US$ 3,37 bilhões e neste ano, até agora, menos de US$ 1 bilhão.
"A concentração de investimentos no Brasil fez parte de um ciclo (?)", disse à BBC Brasil o economista Derek Scissors, especialista em China do American Enterprise Institute e um dos responsáveis pelo levantamento da Heritage Foundation.
Destinos
Scissors lembra que, em 2006, a China concentrava seus investimentos na Austrália. Dois anos depois, o foco era a África Subsaariana, destino substituído pelo Brasil a partir de 2010.
Nos últimos dois anos, observa Scissors, a China tem investido pesadamente nos EUA e no Canadá.
"É um movimento normal, é assim que a China costuma agir. Concentra investimentos em uma região e, passado algum tempo, parte para outra", afirma.
Segundo a Heritage, se somado o total acumulado desde 2005 o Brasil é o quarto principal destino de investimentos da China, com US$ 28,2 bilhões.
O ranking é liderado pela Austrália (US$ 58,2 bilhões), seguida por EUA (US$ 57,6 bilhões) e Canadá (US$ 37,6 bilhões).
Mudança
O economista Claudio Frischtak, consultor do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), observa que até 2010 os investimentos chineses no Brasil foram caracterizados pela concentração em matérias-primas, principalmente petróleo e gás.
Empresas chinesas investiram em projetos de produção agrícola, exploração de petróleo, construção de dutos, iniciativas com o objetivo de expandir e dinamizar o complexo exportador brasileiro.
"A grande mudança após 2010 é a tentativa das empresas chinesas, ainda em curso, de diversificação e basicamente de estabelecer uma plataforma de manufaturas no Brasil", disse à BBC Brasil Frischtak, que é coautor de um relatório do CEBC que analisa os investimentos chineses no Brasil entre 2007 e 2012.
"Mas minha percepção é de que já houve mais entusiasmo das empresas chinesas em relação ao Brasil", afirma.
Frischtak cita reclamações de empresas chinesas sobre problemas como a estrutura tributária complexa do Brasil, carga tributária pesada e restrições à entrada de mão de obra estrangeira.
"Hoje, do ponto de vista de atrair investimento chinês para o Brasil, a bola está muito mais com a gente do que com os chineses", diz Frischtak.
"Está muito mais no sentido de melhorar nosso ambiente de negócios, reduzir custos, melhorar nossa infraestrutura, fazer o país mais atraente como um todo", afirma, lembrando que os problemas também afetam os próprios investidores brasileiros.
Tendências
Segundo o analista Thilo Hanemann, especialista em China do Rhodium Group, a diversificação dos investimentos chineses e o crescente interesse nos EUA estão relacionados às mudanças em curso na economia do país asiático.
"Muitas empresas sofrem pressão para aumentar sua competitividade, melhorar sua tecnologia, expandir para mercados globais e diversificar seus negócios. Tudo isso levou ao atual interesse nas economias desenvolvidas", disse Hanemann à BBC Brasil.
"Apesar disso, ainda há um forte interesse em commodities. Petróleo, gás e agricultura vão continuar sendo parte importante dos investimentos chineses no exterior", observa.
Hanemann diz que as empresas chinesas estão investindo em recursos naturais também nos países desenvolvidos, principalmente EUA, Canadá e Austrália, onde encontram "acesso a esses recursos aliado a um ambiente político estável".
Outra tendência é o interesse no setor manufatureiro e de serviços e em setores que proporcionem segurança e possibilidade de lucros altos. Hanemann cita o crescente interesse dos chineses no setor imobiliário de cidades como Nova York.
"Vamos registrar um novo recorde de investimentos diretos chineses nos EUA neste ano. Até o momento, estamos em US$ 12 bilhões. E é uma tendência que deve continuar, está apenas começando", afirma Hanemann.
Para Scissors, porém, a concentração nos EUA deve durar pouco, assim como os ciclos anteriores. Ele aposta na Europa como próximo destaque nos investimentos chineses. E não descarta um retorno com força ao Brasil, no futuro.
"Não acho que vamos ver um aumento de investimentos chineses no Brasil em 2014 ou 2015. Mas o ciclo vai continuar", diz.
"Acredito que antes do fim da década pode haver um novo salto nos investimentos chineses no Brasil."



Corte europeia julga se gays têm direito a formar família

A Corte Europeia de Direitos Humanos pode anunciar na próxima semana se constituir família é um direito fundamental. O tribunal deve decidir se impedir que duas pessoas do mesmo sexo se casem ou constituam união estável viola a Convenção Europeia de Direitos Humanos. A decisão final da corte vai ser anunciada na quinta-feira (7/11).
Os juízes europeus vão analisar legislação da Grécia que entrou em vigor em novembro de 2008. A nova lei criou uma alternativa ao casamento, as chamadas uniões civis. De acordo com a norma, união civil, assim como o casamento, só pode ser constituída por um homem e uma mulher. Ou seja, na Grécia, os homossexuais não podem nem casar e nem viver em união estável. O relacionamento gay não tem amparo legal.
Alguns meses depois de a lei entrar em vigor, um grupo de seis homossexuais bateu às portas da corte europeia com a reclamação. O grupo argumentou que a legislação grega não permite que eles questionem a nova norma nos tribunais nacionais e, por isso, só lhes restou apelar ao tribunal europeu. Em setembro do ano passado, uma das câmaras da corte decidiu que, diante da importância do assunto, a reclamação deveria ser julgada diretamente pela câmara principal de julgamentos, que é quem dá a última palavra no tribunal.
O Conselho da Europa não tem uma posição definida sobre o direito de pessoas do mesmo sexo se casarem. A Corte Europeia já julgou que a Convenção Europeia de Direitos Humanos não obriga os países a garantir o casamento para homossexuais. Fica a cargo de cada Estado regulamentar o assunto. Dessa vez, no entanto, a discussão deve ser mais abrangente, já que a lei grega impede os gays de formar união civil também.
Embora a maioria dos países europeus ainda restrinja o casamento aos heterossexuais, aos poucos, o direito vem sendo estendido aos gays. Em Portugal, o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi liberado em 2010. Em julho deste ano, foi aprovada lei na Inglaterra que autoriza homossexuais a se casar. A Escócia também promete para este ano apresentar ao Parlamento escocês proposta para liberar que gays se casem. Na França, o casamento gay passou a valer em maio.

Reportagem de Aline Pinheiro

01/11/2013

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Governo quer promover acesso de jovens negros à Justiça

O governo federal editou na última terça-feira (29/10) seu protocolo de acesso à Justiça para a juventude negra em situação de violência. O objetivo do documento é juntar esforços das instituições para elaboração de políticas públicas e medidas administrativas que visem assegurar o enfrentamento ao racismo e a promoção de igualdade racial. A medida deve ser efetivada nos campos da Segurança Pública, do acesso à Justiça e da melhoria dos serviços prestados pelo Judiciário.
Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Nacional de Juventude, vinculada à Presidência da República, dados do Datasus mostram que 74,6 % dos jovens mortos em 2010 eram negros, moravam na periferia e eram jovens com baixa escolaridade. Durante a assinatura do documento, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que a iniciativa deve gerar uma rede de atenção que pode mudar essa realidade. “A ideia é que esses orgãos articulem políticas e envolvam atividades integradas para enfrentar concretamente essa questão”, explicou Cardozo.
Para viabilizar o trabalho, os participantes devem indicar o representante de suas unidades para atuarem juntos no Grupo de Trabalho. No protocolo já foram distribuídas as tarefas referentes a cada instituição. Por exemplo: o Ministério da Justiça será responsável por qualificar os policiais para não discriminar jovens negros. A pasta também deverá acompanhar a implementação das matrizes curriculares delineadas para profissionais de segurança pública. Já o CNJ deverá promover seminários de sensibilização para fomentar a cultura da não discriminação no sistema de Justiça.
Além do Ministério da Justiça, do CNJ e das secretarias de Reforma do Judiciário e da Juventude, assinam o documento a Secretaria Nacional de Segurança Pública, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), o Conselho Nacional de Defensores Públicos Gerais (Condege) e Conselho Federal da OAB.
Clique aqui para ler o protocolo.

Reportagem de Livia Scocuglia

Brasil 'perde R$ 7 bi' com gravidez de adolescentes, diz relatório da ONU


Um relatório da ONU afirma que o Brasil deixa de acrescentar US$ 3,5 bilhões (mais de R$ 7 bilhões) à sua riqueza nacional por ano devido à gravidez de milhares de adolescentes.
O documento "O Estado da População Mundial 2013", do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), divulgado na última quarta-feira, analisa a situação de jovens que dão à luz.
A cada ano, 7,3 milhões de meninas com menos de 18 anos têm filhos em países em desenvolvimento. Destas, 2 milhões têm menos de 14 anos. O texto enfatiza os problemas que isso causa na vida das jovens, com consequências na sua saúde, educação e direitos humanos.
"Em geral, a sociedade culpa as meninas por engravidarem", diz o diretor-executivo da UNFPA, Babatunde Osotimehin. "A realidade é que a gravidez adolescente costuma ser não o resultado de uma escolha deliberada, mas sem a ausência de escolhas, bem como circunstâncias que estão fora do controle da menina. É consequência de pouco ou nenhum acesso a escola, emprego, informação e saúde."
O relatório também fala que as economias nacionais sofrem com as consequências da gravidez considerada precoce.
Riquezas não geradas
Citando um estudo feito em 2011 para o Banco Mundial pelos pesquisadores Jad Chaaban e Wendy Cunningham, o UNFPA tenta estimar quanta riqueza países como Quênia, Índia e Brasil deixam de acrescentar às suas economias, dado que as meninas que ficaram grávidas poderiam estar trabalhando e gerando renda.
"O Brasil teria maior produtividade - de mais de US$ 3,5 bilhões - caso meninas adolescentes retardassem sua gravidez até os 20 e poucos anos", diz o documento.
No caso da Índia, esse "ganho" seria de até US$ 7,7 bilhões. No Quênia, a receita "não gerada" é equivalente a todos os ganhos da indústria da construção civil. E, em Uganda, equivale a um terço do PIB do país.
O relatório também afirma que muitas meninas ficam grávidas quando estão no ensino secundário, e acabam abandonando a escola. Isso faz com que o investimento feito pelos países na sua educação primária acabe sendo desperdiçado, já que elas não dão sequência aos seus estudos.
O estudo do Banco Mundial ressalta que, além dos custos econômicos, há também problemas sociais: filhos de mães precoces costumam ter desempenho escolar mais baixo.
O relatório faz ainda algumas considerações sobre os programas de natalidade do Brasil.
"O Brasil é um dos países que avançou para aumentar o acesso a meninas grávidas a tratamentos pré-natal, natal e pós-natal", diz o UNFPA, citando o Instituto de Perinatologia da Bahia (Iperba) como um "centro de referência para gravidez de alto risco na Bahia".
O Iperba tem tratamento especializado para mães adolescentes, que representam 23% do total de suas pacientes.



Mercosul terá grupo permanente contra espionagem


No contexto do surgimento de diversas denúncias acerca de ações de espionagem por parte dos Estados Unidos, os chanceleres do Mercosul (Mercado Comum do Sul) se comprometeram, na última quarta-feira (30/10), a formalizar a criação de uma instância permanente no bloco para abordar questões relacionadas à segurança informática e de telecomunicações.

Em reunião realizada na capital da Venezuela, país que preside o bloco até o final deste ano, ministros das Relações Exteriores sul-americanos expressaram, em comunicado conjunto, que o mecanismo será formado para “contrarrestar ações que vulneram a soberania” dos países da região.
“Condenamos novamente o sistema de espionagem global desenvolvido pelo governo dos Estados Unidos, que implicou na espionagem a presidentes, como Dilma Rousseff do Brasil, mas também a empresas de todos os nossos países”, disse à imprensa após o término do encontro o chanceler venezuelano, Elías Jaua.

Também participaram da reunião na Casa Amarela – sede da chancelaria da Venezuela - os ministros das Relações Exteriores de Argentina, Héctor Timerman, Brasil, Luiz Alberto Figueiredo, e Uruguai, Luis Almagro. Além deles, David Choquehuanca, chanceler da Bolívia, que pretende entrar em breve no Mercosul, e o embaixador do Equador na Venezuela, Leonardo Arízaga, também estavam presentes.

Diante da necessidade de estabelecer medidas para garantir a proteção das comunicações contra a vigilância massiva e a espionagem a seus governos, os chanceleres ratificaram o conteúdo da declaração da primeira Reunião do Grupo de Trabalho de Autoridades e Especialistas em Segurança Informática e das Telecomunicações do Mercosul, realizada em setembro, também em Caracas.
O texto prevê o estabelecimento de procedimentos de cooperação entre os países membros para a defesa dos sistemas de informação, com o fim de “evitar que corporações transnacionais ou qualquer outro ente alheio ao bloco possa fazer uso de dados sem autorização de seus proprietários”.
Volta do Paraguai
O ministro paraguaio das Relações Exteriores, Eladio Loizaga, não compareceu à reunião, a de maior nível ministerial sediada na Venezuela desde que o país assumiu a presidência rotativa do bloco, em julho. Segundo o chanceler venezuelano, Loizaga realizou contato telefônico com os participantes da reunião em Caracas e se desculpou por não poder estar presente.

A volta do país ao bloco, após suspensão justificada pelo impeachment do ex-presidente Fernando Lugo em menos de 36 horas em junho de 2012, é defendida por todos os países membros. “Todos ratificamos a vontade de que o Paraguai exerça ativamente sua participação como membro que é deste organismo”, disse Jaua. No último mês, ao receber em Brasília o novo chefe de Estado paraguaio, Horacio Cartes, Dilma disse ser de grande interesse o regresso do país ao Mercosul.

Apesar do fim da suspensão após a eleição presidencial de abril, o país ainda não formalizou sua reincorporação e não tem comparecido a reuniões. Um dos principais fatores de resistência de voltar ao bloco foi a incorporação da Venezuela, durante a suspensão, sem a aprovação de seu parlamento. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que não foi convidado para a posse de Cartes, disse em julho que colocaria a presidência rotativa de Caracas a serviço da reincorporação do Paraguai.
No ato de encerramento da reunião desta quarta, Maduro disse que “mais cedo que tarde” o país voltaria ao bloco, que definiu como “sua casa natural”. O presidente venezuelano também lembrou da recente visita de seu chanceler a Assunção, afirmando que, por conversa telefônica, convidou Cartes para uma visita à Venezuela.  “Espero que ele venha em breve”, expressou, elogiando a nomeação de Enrique Jara como novo embaixador paraguaio em Caracas, no início desta semana.
Trocas comerciais
Outro dos temas centrais de discussão, segundo Jaua, foi a aproximação do bloco comercial a alianças conformadas por países do Caribe e da América Central, como a Petrocaribe, Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América) e Caricom (Comunidade do Caribe), com vistas a avançar na construção de uma zona econômica complementar regional para a “consolidação da união latino-americana e caribenha”.
De acordo com um dos comunicados finais da reunião, este instrumento teria como intuito a “dinamização das relações econômicas, potenciando a troca comercial” para gerar um “novo impulso ao desenvolvimento da complementaridade, em função das fortalezas de cada país, que permita superar as assimetrias existentes no interior da região”.
Os chanceleres também decidiram convocar uma reunião especial no dia 15 de novembro para consolidar a proposta do bloco à União Europeia em relação a um acordo comercial. Segundo comunicado conjunto, durante o encontro se ressaltou que o interesse do Mercosul é chegar a um acordo “que reconheça as diferenças de desenvolvimento entre ambos os blocos”.
Apesar de hipotéticas divergências existente entre membros mais protecionistas e os de economia menos diversificadas do bloco acerca de um acordo de livre comércio, o comunicado garante que o Mercosul “terá uma posição única entre seus países”. Em declarações à imprensa na última semana, o governante uruguaio José “Pepe” Mujica qualificou o acordo como “iminente” e afirmou que os países do bloco concordaram em que a proposta seja apresentada à UE pela secretaria do Paraguai.


Reportagem de Luciana Taddeo

Milhares de pessoas saem às ruas em Moçambique contra violência crescente no país

Embates entre o Exército e opositores e onda de raptos geram temor de guerra civil na população.



Milhares de pessoas participaram ontem (31/10) de uma manifestação pacífica em Maputo, capital de Moçambique, contra a onda de raptos e a instabilidade política e militar que o país vive, acusando o governo de estar “mudo” e a polícia, de ser “corrupta”. Os moçambicanos temem um retorno à guerra civil de 16 anos, que terminou em 1992. Foi a maior manifestação não-governamental da história da capital.
A “Marcha Pela Paz e Contra os Raptos” foi organizada pela Liga dos Direitos Humanos, em conjunto com outros órgãos da sociedade civil e institutos religiosos, como uma reação à onda de sequestros e ao clima de hostilidade entre o Exército e a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), partido político de oposição. A atividade econômica em Maputo foi parcialmente paralisada hoje, indicando a solidariedade de muitas empresas à causa.
Onda de raptos
No último sábado (26), um menino de 13 anos foi assassinado na cidade de Beira, apesar de o caso só ter sido noticiado na terça (29) pelo jornal local O País. Abdul Rashid havia sido sequestrado na outra semana, quando regressava da escola, e foi morto depois que a família contou à polícia o local combinado para a entrega do resgate, fixado em um milhão de meticais (cerca de 73 mil reais). A mãe de Rashid acusou a polícia de ser conivente com os sequestradores.
Raptos são comuns em Moçambique, mas os casos vêm aumentando nos últimos tempos, provocando medo e revolta na população, que acusa o governo de ser ineficiente nas negociações com sequestradores. Só na última semana, pelo menos cinco sequestros foram registrados em Maputo, segundo o jornal português Público. O escritor Mia Couto se pronunciou sobre os ocorridos, denunciando “força sem rosto e sem nome” que provoca “um sentimento de desproteção e desamparo” na população. Ele mesmo chegou a receber ameaças. 
A princípio, os alvos desses raptos eram homens de negócios, mas agora pessoas de classe média e estudantes também se tornaram vítimas. Na segunda-feira, seis pessoas foram condenadas a 16 anos de prisão por envolvimento em sequestros, incluindo um ex-guarda presidencial, Arsenio Chitsotso. Segundo a BBC, ele fazia parte do grupo de elite da polícia que protege o presidente Armando Guebuza. Outros dois policiais também foram presos. O governo afirma que a participação da polícia nos casos é “lastimável”.
Exército x Renamo
A tensão política e militar cresceu em Moçambique nos últimos meses desde que o governo passou a acusar a Renamo, segundo maior partido do país, de ser “uma ameaça à segurança nacional”, por supostos ataques realizados contra civis, postos policiais e militares e tráfego nas estradas. O maior temor da população é um retorno à guerra civil com duração de 16 anos entre a Renamo e a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), partido de situação desde a independência moçambicana, em 1975.
O Exército recentemente tomou duas bases militares que estavam sob controle da Renamo. O primeiro ataque do governo aconteceu no dia 21 de outubro, quando foi recuperada uma base na região de Satungira, onde residia o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama. Um deputado do partido teria morrido em decorrência de ferimentos sofridos na ocupação. O porta-voz Fernando Mazanga disse àReuters que Dhlakama “está sendo caçado com armas. A intenção é matá-lo”. Entretanto, Mazanga afirmou que ele está vivo em local seguro.
No dia 29, o Exército tomou posse do quartel-general da Renamo na vila de Marínguè, província de Sofala, após troca de tiros com homens armados do partido opositor. Segundo as FADM (Forças Armadas e de Defesa), seis militares foram feridos.
Mais tarde, no mesmo dia, uma emboscada supostamente preparada pela Renamo a uma viatura civil carregando cerca de 20 passageiros deixou um morto e mais de dez pessoas desaparecidas. A caminhonete fazia o percurso entre as cidades de Iapala e Nampula e teria sido atacada por quatro homens armados que dispararam contra ela.
Já na quarta-feira de manhã, um comboio de 20 carros que ia de Nampula a Maputo protegido por escola militar também foi atacado, em suposta nova ofensiva da Renamo, deixando vários feridos. Entre eles, um pastor brasileiro da Igreja Mundial do Reino de Deus. Ele foi atingido na bacia, mas já passa bem. A Embaixada do Brasil em Moçambique recomenda que os brasileiros evitem trafegar por estradas da Província de Sofala até que a situação na região melhore.
“Guerra não declarada”
Em entrevista ao Público, o acadêmico moçambicano Lourenço de Rosário, que tentou mediar durante meses o diálogo entre a Renamo e a Frelimo, afirmou que “Moçambique vive uma situação de guerra não declarada”. Ele disse também que a situação atual do país o “preocupa bastante”. Segundo ele, é preciso criar condições para Afonso Dhlakama reaparecer e dar continuidade ao diálogo.
O presidente Armando Guebuza, por sua vez, nega categoricamente que haja ameaça de guerra em Moçambique. “Eu não acho, e é um ‘não’ forte, que vamos voltar para a guerra”, afirmou, apesar da instabilidade, a pior no país desde o fim da guerra civil. Ele assegurou que a região permanece um local seguro para investidores. “Há muitas pessoas que continuam investindo hoje com essa situação”, concluiu.