29/07/2013

Presídio em MG exemplifica situação carcerária no país

O encontro de Elvis Presley e Lincoln se deu na cidade mineira de Araguari, com pouco mais de 100 mil habitantes. Os dois convivem, mais especificamente, no Presídio de Araguari, cuja lotação está em 217% — somando 220 presos nos pavilhões construídos para abrigar 101 homens. A superlotação é percebida logo que se adentra o local, com a profusão de toalhas puídas e coloridas penduradas para secar nas janelas e portas das celas e em varais improvisados, junto com camisas, casacos e pedaços de plástico, que fazem as “divisões de cômodos” no local.
Os dois pavilhões masculinos, com suas 16 celas, margeiam uma quadra poliesportiva sem cobertura, onde os presos jogam bola nos horários de banho de sol. Às 16h da última segunda-feira (22/7) os homens estavam recolhidos em suas celas, com o sol entrando irremediavelmente pelas portas e janelas do pavilhão do lado direito, tornando ainda mais abafado o ambiente dentro delas, quando os termômetros da cidade marcavam 29 graus.
As atividades nos pouco mais de 10 metros quadrados de cada cela variam. Em algumas os presos dormem, sob cobertores cinzentos e puídos, mesmo com o sol batendo diretamente em suas cabeças. Em outras, as agulhas de crochê trabalham incessantemente, nas mãos daqueles que optam por fazer artesanato para ter suas penas reduzidas — os tapetes de crochê estão presentes em praticamente todas as celas.
Além do artesanato, os presos de Araguari têm a opção de trabalhar na horta do presídio, operar na pequena fábrica de botinas ou estudar na escola da prisão, chamada Padre Eduardo Jordi. A escola tem, atualmente, 54 alunos. A fábrica de botas conta com apenas quatro homens, produzindo calçados que depois são vendidos pela empresa Xingu, que tem convênio com o presídio. A matemática é a mesma para os estudos e para o trabalho: três dias na atividade significam um dia a menos na prisão.
A contagem dos dias dentro das celas parece ser a atividade principal dos internos. A proximidade deles com seus processos e o léxico do Judiciário fica patente durante a visita do promotor de Justiça André Luis Alves de Melo que, cumprindo determinação do Conselho Nacional do Ministério Público, vai ao local uma vez por mês. Na vistoria, ele faz um relatório sobre o presídio e presta alguma assessoria jurídica aos internos — que já contam também com assessoria jurídica do próprio presídio. Na última segunda-feira, a revista eletrônica Consultor Jurídico acompanhou o trabalho.
De cela em cela, o promotor de execuções pergunta se os presos querem que ele providencie três documentos: Atestado de Pena, Certidão Criminal e Andamento Processual — que os presos costumam chamar de Xiscom, aliteração de Siscom, que é a abreviação de Sistema de Informática das Comarcas, de onde se retira o andamento processual. Além disso, Melo pergunta se os internos têm alguma reclamação quanto ao atendimento médico ou social do presídio.
Ao receber a papelada jurídica das mãos do promotor, os presos levantam discussões sobre seus processos, mostrando intimidade com os termos jurídicos. “Cheguei aqui por 157 e já posso ir para a condicional em um mês. Já posso apresentar carta para trabalho externo?”, questiona um presidiário, com os papeis em mãos. O promotor pega a papelada — passada pela grade — e explica que se o preso quiser se adiantar e apresentar uma carta poderá, sim, conseguir ser liberado mais rapidamente para o trabalho externo quando for para o semi-aberto.
O “157” ao qual o homem fez referência é o numero do artigo no Código Penal pelo qual foi condenado: “Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência”, mais conhecido como roubo.
Três crimes
Em todas as celas, entre os 220 presos, são praticamente três números que se repetem: 157, 155 e 33. Ou seja, além do roubo, os crimes que levam à superlotação do presídio são furto (artigo 155 do Código Penal) e tráfico de drogas (artigo 33 da Lei 11.343/2006, a Lei de Drogas).

Na opinião de André Melo, alterações simples nas leis em questão poderiam diminuir o déficit de 146.547 vagas no sistema prisional brasileiro, construído para 302.422 pessoas, mas que abriga 448.969, segundo o Conselho Nacional do Ministério Público. Para o promotor, bastaria a criação das figuras jurídicas do furto privilegiado, roubo privilegiado e do tráfico privilegiado.
Com as mudanças que ele propõe, o furto de objetos de até um salário mínimo teria pena de seis meses a dois anos de prisão, com ação penal condicionada à representação da vítima. O roubo de objetos de até um salário mínimo, desde que o criminoso fosse réu primário, teria pena de dois a quatro anos, caso não haja lesões graves e uso de arma de fogo, podendo-se aplicar pena alternativa. O tráfico de drogas em pequenas quantidades, sem comprovado envolvimento em crime organizado e com criminoso réu primário em crime de tráfico de entorpecentes, teria pena de seis meses a dois anos de prisão.
Além dessas mudanças, o promotor propõe a criação da confissão premiada em juízo, com assistência de advogado, como causa de diminuição de pena, e o fim da obrigatoriedade da ação penal, princípio seguido no Brasil pelo qual o Ministério Público não pode optar por não denunciar um crime.
Com as mudanças, diz André Luís Melo, seria possível reduzir a quantidade de presos, pois seria possível a aplicação de penas alternativas, tornando a mudança mais efetiva que os mutirões carcerários, pois, em vez de tirar pessoas das cadeias, elas simplesmente não seriam presas. A ideia, afirma, é reduzir principalmente o número de presos provisórios. Os presos que ainda aguardam o trânsito em julgado de seus processos não são separados dos chamados presos definitivos em 79% dos presídios brasileiros.
O presídio de Araguari não é diferente. Elvis Presley, Lincoln, Cleuber, Aritana, Carlos Antonio, André Luiz, Ciro e os outros 113 presos no local são tanto provisórios quanto definitivos. A reclamação mais comumente ouvida na visita do promotor ao presídio é: “Doutor, estou aqui há meses, mas ainda não fui nem julgado, não sei quanto tempo vou ‘pegar’”. A inquietação quanto a isso é frequente: “Se me julgarem e disserem que eu precisarei ficar aqui por 10 anos, tudo bem, eu sei que estou devendo, mas estou há quatro meses preso sem saber o motivo”, reclama outro preso. Os processos dos presos de Araguari estão se atrasando principalmente porque a comarca está sem juiz fixo, funcionando em rodízio.
Perfil procurado
As prisões em Araguari são normalmente fruto de flagrantes policiais. Isso explica, em grande parte, a semelhança física dos presidiários. Ao contrário das toalhas e panos multicoloridos — apesar de desbotados —, os ocupantes das celas têm em sua enorme maioria a mesma cor: todos pardos.

Jovens, magros, de pele parda, cabelos castanhos, olhos castanhos, baixos ou de altura mediana, orelhas avantajadas e com poucos dentes na boca. São poucos os que se destacam da maioria dos retratos falados, seguindo uma lógica lombrosiana. As características não dão o perfil do “criminoso nato”, mas mostram quem é o cidadão que a Polícia para na rua como suspeito.
Um preso conta: “Os policiais estavam indo lá no meu trabalho todo dia, todo dia. Eu estava só trabalhando, sem fazer nada de errado. Mas eles iam lá todo dia. Até que um dia os caras do serviço ‘puxaram’ um carro. Eu nem estava envolvido, mas vim em cana junto”. Se ele estava envolvido ou não no furto do carro, é a Justiça quem terá de dizer. O que chama a atenção é seu relato sobre a insistência da Polícia em tentar encontrá-lo fazendo algo errado simplesmente, segundo ele, porque ele era ex-presidiário.
Um ex-presidiário voltar para as grades é comum. “Não tem virgem na zona”, diz o ditado popular. Em Araguari, quem está atrás das grades e janelas — cheias de panos, canecas de plástico e produtos de higiene postos para secar — não costuma ser réu primário. O presídio, assim como 78% das prisões de todo o país, não separa réus primários de reincidentes.
A separação, porém, é feita entre homens e mulheres. A ala feminina do presídio de Araguari fica em um pavilhão recém-construído pela comunidade, com doações de brita, cimento, mão de obra e caminhões emprestados. A construção foi feita pela comunidade e por presidiários.
Construído para abrigar 25 mulheres, o pavilhão tem, atualmente, 20 ocupantes. Isso explica em parte a diferença brutal do ambiente masculino e feminino no mesmo presídio. A poluição visual é muito menor onde as mulheres têm um espaço mais adequado para o convívio. As canecas de plástico, garrafas pet, materiais de higiene, toalhas e roupas não precisam ficar se amontoando nas janelas, portas ou em varais improvisados, pois há espaço para os itens dentro das celas. Além, é claro, de a organização da “casa” ser uma habilidade mais cultivada entre as mulheres.
Quem está na ala feminina, porém, não tem a opção de estudar para ter redução de pena. Apesar de estarem a 30 metros da escola, a lei não permite que mulheres e homens estudem juntos — “mesmo que insistam em dizer que o presídio serve para ressocializar”, ironiza o promotor André Melo. As mulheres também não puderam participar da festa junina organizada pelos alunos da escola do presídio na semana anterior à visita do promotor. As letras coloridas ainda pendiam na entrada do presídio, dando inveja a quem não pôde ir: “Arraiá prisioná”, em bom mineirês.

Reportagem de Marcos Vasconcellos

Pesquisa revela panorama da advocacia popular no Brasil

O Instituto Pro Bono divulgou, neste mês, o Mapa Territorial, Temático e Instrumental da Assessoria Jurídica e Advocacia Popular no Brasil, elaborado pela Terra de Direitos e a Dignitatis Assessoria Técnica Popular. A pesquisa revela o quadro da assessoria jurídica e advocacia popular em diferentes contextos sociais e eixos de atuação no Brasil.
A pesquisa destaca 96 organizações distribuídas por 117 pontos de atuação, sobretudo nas capitais dos estados. De acordo com o levantamento, a região Norte possui 20 entidades espalhadas com 38 pontos de atuação na defesa dos direitos, mediando conflitos entre os movimentos sociais e as instituições do poder público.
A maior concentração de entidades relacionadas que trabalham na luta pela defesa dos direitos está nas regiões metropolitanas e nas capitais do país. Em contrapartida, os escritórios localizados no interior estão principalmente nas regiões Norte. O mapa revela que o Pará é estado brasileiro com o maior índice de conflitos fundiários.
Dados da Comissão Pastoral da Terra, publicados no Relatório de Conflitos no Campo, mostram que houve registro de 89 conflitos por terra no estado em 2012, despontando como o mais violento da região Norte e o 4º estado com o maior número de conflitos do Brasil.
Além disso, a pesquisa revela outras áreas de atuação das entidades. Foram identificados 13 temas de direitos humanos usualmente defendidos pelas organizações pesquisadas. De acordo com Antonio Escrivão Filho, co-coordenador da pesquisa pela Terra de Direitos, “um dado interessante foi a revelação de que há variações na distribuição e presença de temas, na medida das diferentes regiões do país. Nesse sentido, destacaram-se, por exemplo, a elevada incidência do tema 'LGBTT' no Nordeste, ao passo em que a temática de 'Criança e Adolescente' se concentrou na região Sudeste”, avalia.
O levantamento também buscou verificar quais as ferramentas e estratégias presentes no cotidiano de atuação das entidades, confirmando a análise que aponta para uma utilização combinada de instrumentais políticos e jurídicos na solução de demandas referentes à violação ou efetivação dos direitos humanos no país.
A pesquisa foi feita em parceria com o Observatório da Justiça Brasileira (OJB) do Centro de Estudos Sociais da América latina (CES/AL), e teve apoio da Fundação Ford e Secretaria da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça.
Clique aqui para ver a pesquisa.

28/07/2013

Imagem do dia

Macarrão se consolida como “prato salvação” da economia italiana

Com crise econômica no país, aumento das exportações da massa, de 27% no início de 2013, foi um alento.




Um dos pratos típicos da Itália, o macarrão vem se consolidando como uma das salvações da economia do país. Só no início de 2013, o volume de exportação de “pasta” cresceu 27%. O dado faz parte de um estudo recentemente divulgado pela Coldiretti (confederação nacional dos empreendedores agrícolas), com base nos dados do Istat (Instituto Nacional de Estatística, em português), e que aborda os setores resistentes à crise financeira.
O volume médio é um recorde histórico. Nunca no exterior se consumiu tanto a invenção chinesa que foi aperfeiçoada, consagrada e hoje é produzida em maior parte pelos italianos. Por ano, eles fabricam 2,9 milhões de toneladas de pasta, a maior produção mundial. Os crescimentos em exportações mais expressivos foram verificados este ano em Índia (86%), Estados Unidos (61%) e Canadá (47%). No caso específico do penne e do espaguete, as maiores compras foram registrados por África (140%) e Rússia (127%).

Para o responsável pelo setor econômico da Coldiretti, Lorenza Bazzana, o aumento das vendas do macarrão italiano para o exterior se deve a um conjunto de fatores que forma um “trend positivo” para o setor. “É um prato saboroso e de bom valor nutricional, levando-se em consideração o custo [...] Com a globalização, os mercados se abriram e esse é um tipo de alimentação que agrada a todo o mundo. Além disso, a dieta mediterrânea vem sendo vista com particular interesse depois que a ONU (Organização das Nações Unidas) anunciou sua inscrição na lista de Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade”, diz.
A Europa, apesar de não ter registrado os maiores crescimentos percentuais, é consumidora de dois terços da pasta exportada pela Itália. No continente, o aumento médio foi de 16%. Destaque para Alemanha, com alta de 22%. Até mesmo países que enfrentam seriamente a crise registraram incremento no consumo do macarrão. Caso da Grécia, onde a variação positiva, de acordo com a Coldiretti, foi de 21%.
Brasil
Embora a confederação não tenha dados específicos sobre as exportações para o Brasil, Bazzana é enfático ao dizer que o país é um dos grandes consumidores do produto italiano e que, em conjunto, toda a América Latina registrou um aumento de 78% nas compras do macarrão produzido na Itália no início deste ano.
Segundo dados da Barilla, uma das maiores fabricantes italianas de pasta e que também possui sede no Brasil, o crescimento nas importações brasileiras foi de 23% até junho, em comparação com o mesmo período de 2012. 

E a previsão da Coldiretti é de que o crescimento continue até o final deste ano. “Existem alguns pontos que merecem ser analisados com maior atenção em relação aos produtos alimentares. Mas penso que há ainda muito espaço para crescimento porque esta é uma cozinha saudável do ponto de vista de ingrediente e tipologia”, afirma Bazzana, que acrescenta ainda que o aumento nas vendas para o exterior é sustentável, por ser registrado não só pelas grandes fábricas italianas, mas também por pequenas empresas.
Consumo interno e produção
Ainda segundo a Coldiretti, mesmo com o crescimento recorde das exportações, os italianos se mantêm como os maiores consumidores de pasta no mundo. O prato está presente diariamente na mesa de 10 milhões de habitantes do país. Só no ano passado, eles foram responsáveis pelo consumo de 1,5 milhão de toneladas. O volume representa um faturamento de 2,8 milhões de euros. A média de consumo é de 28 kg/ano por pessoa.
O segundo lugar no consumo mundial do prato, a Venezuela, aparece bem atrás, com 12,7 kg/ano por pessoa; seguido da Tunísia, com 11,7 kg/ano por pessoa; Suíça, com 10,1 kg/ano e Estados Unidos, com 9 kg/ano per capita.
Uma outra pesquisa feita pela confederação mostra ainda que 56% dos italianos dizem ser importante consumir apenas marcas italianas de macarrão. A Itália é ainda líder na produção mundial de macarrão, com média de 2,9 milhões de toneladas ao ano. Em seguida ficam Estados Unidos (com 1,2 milhão de toneladas), Brasil (com cerca de 1 milhão de toneladas) e Rússia (545 mil de toneladas).



Reportagem de Patrícia Araújo

Talidomida continua a causar defeitos físicos em bebês no Brasil


Um estudo ao qual a BBC teve acesso exclusivo mostra que o uso da talidomida continua a causar defeitos físicos em bebês nascidos no Brasil.
A polêmica droga é distribuída na rede pública para tratar pessoas com hanseníase - doença antigamente chamada de lepra, causada pelo bacilo de Hansen, o Mycobacterium leprae, que ataca nervos periféricos e a pele.
Mas algumas mulheres, por desconhecerem seus riscos, têm tomado o medicamento no Brasil durante a gestação.
A talidomida foi introduzida, no final dos anos 1950, como um sedativo. A droga era dada às mulheres grávidas para combater os sintomas do enjoo matinal.
Mas o uso durante a gestação restringiu o crescimento dos membros dos bebês, que nasceram com má formação nas pernas e braços.
Em torno de 10 mil bebês nasceram com defeitos físicos em todo o mundo até que a droga fosse tirada de circulação em 1962.
Na maioria dos países, os bebês vítimas da talidomida se tornaram adultos, hoje com cerca de 50 anos de idade, e não houveram mais novos casos registrados.
Mas no Brasil a droga foi reintroduzida em 1965 como tratamento das lesões da pele, uma das complicações da hanseníase.
Os casos de hanseníase no Brasil são mais recorrentes do que em qualquer outra parte do mundo, exceto a Índia. Mais de 30 mil casos são diagnosticados todos os anos - com milhões de pílulas de talidomida sendo distribuídas para tratar a doença.
Mas pesquisadores dizem que atualmente existem cem casos de crianças com defeitos físicos exatamente como os causados pela talidomida nos anos 1950.
"Uma tragédia está ocorrendo no Brasil... Esta é uma síndrome completamente evitável", afirma Lavinia Schuler-Faccini, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Mas as pessoas a favor do uso da talidomida para tratamento da hanseníase dizem que a droga é vital para estas pessoas. Eles acreditam que os benefícios ultrapassam os riscos.
A professora Lavinia Schuler-Faccini e outros pesquisadores da UFRGS investigaram os registros de nascimento de 17,5 milhões de bebês entre 2005 e 2010.
"Nós investigamos todos os defeitos de membros que tinham características parecidas com os causados pela talidomida", afirma Schuler-Faccini.
"Nós comparamos a distribuição das pílulas de talidomida com o número de defeitos de membros, o que tinha uma correlação direta".
"Quanto maior o número de pílulas em cada Estado, maior o número de defeitos nos membros (dos bebês)", explica a pesquisadora.
No mesmo período de 2005-2010, cerca de 5,8 milhões de pílulas de talidomida foram distribuídas em todo o Brasil.
"Nós tivemos cerca de cem casos nestes seis anos similares ao da síndrome da talidomida", explica Fernanda Vianna, outra pesquisadora da UFRGS participante do estudo.
Para a pesquisadora, falta de educação para a saúde e o hábito generalizado de dividir medicamentos com outras pessoas contribuiem para o problema.
Isto é o que parece ter acontecido com Alan, criança que vive numa pequena cidade de uma área central do Brasil.
Tamanho é o tabu em torno de sua deficiência, que sua família pediu para não ser identificada.
Ele nasceu em 2005, sem braços e pernas. Suas mãos começam logo abaixo dos ombros, e os pés são ligados diretamente às coxas.
O menino sorri muito e parece adorar jogar no computador com seus irmãos.
Alan rola o próprio corpo para se movimentar pela casa e, quando precisa ir mais longe, é colocado numa cadeira de rodas.
Ele é bem cuidado pela família, e tem aulas individuais na escola, mas precisa viajar duas horas de ônibus a cada semana para a sua sessão de fisioterapia.
Sua mãe Gilvane tomou talidomida por acidente. O remédio foi prescrito a seu marido para tratar de uma hanseníase, mas as pílulas foram guardadas junto com outras.
"Eu tomei as pílulas quando eu estava passando mal, então fui até a caixa de remédios e tomei. Eu já havia tomado remédios como paracetamol, para fazer com que eu me sentisse melhor, sem saber que eu estava grávida".
"O pai dele disse que o médico não o alertou de que mulheres não poderiam tomar o remédio. Ele disse que não falaram nada sobre isso a ele".
Regulamentação
No Brasil, há uma regulamentação bastante restrita para o uso da talidomida. Ela pode ser prescrita apenas para mulheres que estiverem utilizando duas formas de contraceptivo e concordarem em fazer testes regulares de gravidez.
Existem alertas bem claros nas embalagens do remédio, como uma imagem de um bebê nascido com deficiências.
Mas a hanseníase é uma doença das populações mais pobres, em áreas em que o cuidado com a saúde é ruim e a educação é inadequada.
Defensores
Muitos pessoas no Brasil acreditam que o medicamento deve continuar a ser utilzado.
"Atualmente, existe um mito sobre a talidomida", afirma Mariana Jankunas, coordenadora de produção da Funed (Fundação Ezequiel Dias), instituição governamental que mantém uma fábrica de medicamentos genéricos.
"Eu acho que com informação e publicidade sobre os benefícios que a talidomida traz aos pacientes este mito pode ser vencido, porque os benefícios ultrapassam os riscos", defende Jankunas.
"Essa é a melhor droga", afirma Francisco Reis, da clínica de hanseníase do hospital Curupaiti, perto do Rio de Janeiro.
Quando confrontado sobre o fato de que muitas pessoas ficariam chocadas com seu comentário, ele responde: "você tem os fantasmas da talidomida dos anos 1950, mas você deveria se esquecer desses fantasmas".
Ele apresenta uma de suas pacientes, Tainah, que mostra como a medicação reduziu as lesões da hanseníase nos seus braços.
"Eu sei que eu preciso desse remédio", diz a garota.
Ela disse que entende que se não tomar pílulas contra a gravidez, ela poderia engravidar e dar à luz a uma criança com defeito físico.
Causas
O Brasil é um país de enorme desigualdade social, onde cerca de 20% da população está abaixo da linha da pobreza - de acordo com a ONU, pessoas que vivem com menos de 1 US$ por dia.
Moradias super habitadas, e falta de programas de saúde pública são comuns em áreas rurais e favelas urbanas - locais onde o índice de hanseníase é alto.
Onde a hanseníase é mais comum, a talidomida continuará a ser prescrita e o risco de bebês nascerem com defeitos físicos continuará.
Artur Custodio, do Morhan (Movimento de Reintegração das Pessoas Atigindas pela Hanseníase), reconhece que a talidomida é perigosa, mas afirma que carros causam mais acidentes com vítimas que se tornam deficientes físicos no Brasil do que o medicamento.
"Nós não falamos sobre banir o uso de carros, nos dizemos que deveríamos ensinar as pessoas a dirigir com responsabilidade", afirma.
"É a mesma coisa para a talidomida".



Gasto com a Copa também gera reclamações entre cientistas

O primeiro laboratório nacional com tecnologia mais moderna do mundo assustou pelo valor, mas vai custar menos que um estádio. Para chefe da SBPC, Helena Nader (foto abaixo), é a ciência a chave para o desenvolvimento do Brasil.




Reunidos em Recife até a última sexta-feira, pesquisadores brasileiros discutiramm como fazer a ciência avançar no País, no 63º encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC. Helena Nader, bióloga, cientista há mais de 30 anos e presidente da instituição desde 2011, não quer tirar recursos dos esportes – só quer que a ciência seja tratada da mesma forma.
Em entrevista por telefone, Nader disse que educação básica no Brasil é "muito ruim", mas que, na universidade, o País forma pesquisadores competitivos, que quase nunca retornam depois de uma temporada de estudos no exterior.
DW Brasil: Qual a maior preocupação da sociedade científica no Brasil de hoje?
Helena Nader: É a legislação vigente hoje para a ciência. Nós estamos sob a égide de uma lei que não é voltada para a ciência: é uma lei geral, voltada para compras no sistema público. Para se comprar qualquer equipamento, ou reagentes, é necessário fazer pregão, diversas licitações... E às vezes é preciso comprar um equipamento para uma determinada pesquisa. São legislações que estão travando e burocratizando toda a ciência brasileira. É o maior entrave na vida do pesquisador.

Nós temos problemas no sistema de importação – as importações acabam levando meses, em alguns casos até um ano. Eu até comento que acho que é fantástico o que o Brasil já conseguiu fazer na ciência apesar de todo o esforço para o País não andar para frente (risos).
Na opinião da senhora, o Brasil tem condições de formar bons pesquisadores?
Para formação o Brasil está muito bem. Tanto que a grande maioria dos nossos estudantes que vão para fora do País – seja durante a graduação, na pós ou no doutorado –, é convidada a permanecer. Isso acontece, provavelmente, por causa do funil da seleção para se entrar na universidade brasileira.

Apesar da expansão da universidade pública no Brasil e do financiamento para estudo em universidades privadas, o número de brasileiros que chega às universidades é pequeno. A gente tem uma forte seleção e aqueles que entram são altamente competitivos.
A ciência no Brasil também está sendo feita em institutos de pesquisa ligados a diversos ministérios, como no Inmetro. O que nós não temos estruturado ainda como uma norma no País é a investigação no setor produtivo, nas empresas. Claro que existem exceções, como a Petrobras, que desenvolveu toda a tecnologia de exploração do Pré-Sal, a Embraer, que investe em doutores e pós doutores para fabricar aviões reconhecidos no mundo. Mas ainda não existe uma cultura de se fazer pesquisa na indústria. Mas está acontecendo uma tentativa de se reverter esse quadro.
Isso explica a pouca inovação no Brasil?
A inovação não é feita na universidade. A universidade é parceira, mas quem faz a inovação é o setor produtivo. Esse quadro está começando a mudar, mas leva tempo. A Alemanha mesmo tem uma grande história para a produção que o País tem nessa área de inovação.

As universidades no Brasil também são recentes, a institucionalização da carreira do professor é recente, aconteceu nos últimos 60 anos. E os financiamentos mais constantes começaram a acontecer nos últimos 15 anos. A ciência brasileira, há 30 anos, era muito periférica.
Agora precisamos do envolvimento do empresariado brasileiro com a produção da tecnologia e inovação. Mas isso vai levar tempo. Inovação leva pelo menos, dependendo da área, de 5 a 10 anos.
As universidades brasileiras são competitivas em relação às demais?
Não. Ainda estamos aquém do que o Brasil precisa. Precisamos de muito mais investimento. Nos últimos 10 anos, o Brasil começou a fazer o que na Europa e nos Estados Unidos já é uma tradição: laboratórios nacionais ou interPaíses. Ou seja, em vez de se ter um equipamento de grande porte localizado para um grupo, esse equipamento fica disponível nos chamados laboratórios nacionais.

O primeiro grande exemplo que deu certo no Brasil foi o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). Ao redor dele cresceram outros laboratórios nacionais, como o de Nanotecnologia, o de Bionergia... Estamos discutindo a construção de outros, não se pode concentrar tudo em uma região. Pensamos que o desenvolvimento tem que atingir a inclusão social, então ele precisa acontecer em todas as regiões do País.
Esses laboratórios nacionais podem levar o Brasil a um novo patamar?
Sem dúvida, assim como o Brasil pautou a agricultura tropical – e eu digo isso com muita felicidade, que nós somos os melhores. Ninguém acreditava que o solo do cerrado servisse para plantação de soja. Mas com pesquisa e tecnologia provou-se o contrário. Hoje o País produz soja com alta produtividade.

Isso foi a ciência: houve um investimento na Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], nas universidades e escolas de agronomia. Nós queremos agora agregar valor aos produtos brasileiros. No caso da soja, por exemplo, ainda exportamos apenas os grãos. Mas temos uma agricultura que permitiu mudar o padrão de alimentação do povo brasileiro, que hoje tem uma mesa muito mais farta. Na década de 60 o leite tinha que ser importado!
Houve uma mudança via ciência, e o Brasil está reconhecendo isso. Mas precisamos melhorar. A educação pública básica ainda está muito ruim e o País reconhece isso. Mas o Estado brasileiro incorporou que é fundamental ter a ciência como aliada para dar um salto econômico.
A senhora apoia a participação do Brasil em grandes projetos internacionais milionários, como o Observatório Europeu do Sul (ESO, na sigla em inglês), uma organização de pesquisa em astronomia que poderia custar até 255 milhões de euros em dez anos ao País?
Não acho uma contradição que o Brasil queira fazer parte. A aprovação depende do Congresso Nacional. É um grande investimento. É muito mais que o gasto no LNLS que ainda está sendo construído. Mas acho que o Brasil tem que entrar. Tudo o que fará o País avançar na ciência, obviamente, vai receber o apoio da SBPC.

Mesmo que o País tenha ainda tanto o que fazer, por exemplo, na educação básica?
Eu sei. Mas isso não quer dizer que o Brasil agora só tenha que investir em educação básica. Porque isso seria cometer erros do passado. Demoramos muito para atingir o padrão que temos hoje. Eu não posso só investir em um ponto e esquecer o resto. O que falta no Brasil é a iniciativa privada acreditar que precisa investir em ciência. Também faltam doações, o que é muito comum na Europa e nos Estados Unidos.

A gente lutou muito para os recursos do Pré-Sal fossem investidos em educação. Nós defendemos que os royalties devem ser investidos da seguinte maneira: 70% para ensino básico, 20% para o superior e 10% para ciência e tecnologia. Ainda não desistimos.
De onde poderiam vir os recursos para o ESO?
O País tem recursos. Um País que decidiu que vai ser sede da Copa do Mundo e que constrói tantos estádios... Alguns gastos são mais elevados que a construção da linha de luz síncrotron, que será a mais moderna do mundo. Para atender às especificidades internacionais, o projeto do LNLS está orçado em 650 milhões de reais. Ou seja, menos que um estádio de futebol.

Eu não quero tirar dos esportes, acho que o esporte é importante, ele constrói cidadania. Mas eu quero ser tratada igual, só isso. A presidente Dilma tem feito um discurso que mostra que ela está acreditando em ciência.
A senhora está falando do Ciência sem Fronteira? Como a senhora mesmo disse, muitos estudantes vão para o exterior e não voltam. Vai chegar o momento em que o Brasil vai brigar para recrutar todos esses cientistas de volta?
Eu acho que o programa Ciência sem Fronteira vai dar um grande impacto no País. Eu espero estar viva e com a cabeça boa para, daqui a dez anos, poder falar sobre esse impacto. Falei para a presidente: "A senhora foi muito criticada porque o programa aconteceu muito rápido. Mas se a senhora tivesse tentado montar o programa perfeito nunca teria começado. A senhora fez o que devia, montou e agora está trocando pneu com o carro andando."

Agora, eu adoraria que o Brasil se preocupasse em recrutar os cientistas brasileiros espalhados pelo mundo. Mas ainda vai levar um tempo. Eu seria leviana se dissesse que isso já está para acontecer. Nós temos que melhorar muito. Se a legislação não mudar, se não resolvermos os problemas para importar e a infraestrutura, e se não tivermos os laboratórios nacionais, o indivíduo que está hoje produzindo na Europa e nos Estados Unidos não vai querer voltar.
É um processo. Se tivermos um projeto de Estado, e não de governo, a gente poderá mostrar um novo panorama, com uma legislação pró-ciência. Podemos oferecer o sol que brilha o ano todo, a ausência de terremotos, um País que recebe todos de braços abertos e convidar todos para vir fazer ciência aqui.

Educação é prioridade para 80% dos jovens brasileiros, diz estudo

Um terço da juventude dos países ibero-americanos questiona o funcionamento básico das escolas. Jovens brasileiros são os mais críticos e também os mais liberais em relação a temas controversos, apontam pesquisas.




A juventude ibero-americana de hoje é, em termos gerais, otimista sobre seu futuro, valoriza a educação, mas confia pouco nas instituições. Já o jovem brasileiro coloca a qualidade da educação como prioridade, é mais aberto quando o assunto é controverso e confia mais nas instituições que os outros jovens ibero-americanos.
Os dados foram apresentados em pesquisas divulgadas nesta semana. Uma delas foi feita pela Organização Ibero-Americana de Juventude (OIJ), que ouviu mais de 20 mil jovens. O objetivo do estudo, intitulado "O Futuro já Chegou", é ampliar o conhecimento sobre os jovens através das opiniões das mais de 150 milhões de pessoas de entre 15 e 29 anos que vivem em mais de 20 países ibero-americanos, o que representa 26% da população total.
Para Luis Alberto Moreno, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento – instituição que também participou da pesquisa –, investir na juventude é escutá-la e decifrar suas mensagens. 
“Estamos diante de uma juventude que não se conforma, que pede melhores oportunidades, melhor qualidade de educação, de saúde, de instituições e oportunidades de emprego e de empreendimento”, afirmou Moreno durante o lançamento da pesquisa. Para ele, os recentes protestos que tomaram as ruas do país com grande participação de jovens revelam que os jovens reconhece a importância da sua participação para a construção do futuro.
Outro aspecto apontado pela pesquisa é a presença da violência na vida do jovem. Segundo os dados, os brasileiros são os que mais reconheceram esse problema no seu ambiente. Apesar disso, o jovem brasileiro se mostrou mais aberto em relação a questões mais controversas, como aborto, legalização da maconha e a acolhida de imigrantes. Segundo o estudo da OIJ, cerca de 40% dos jovens brasileiros têm uma visão oposta à dos pais em relação a esses temas. 
Educação melhor
Cerca de 80% dos jovens brasileiros consideram a educação uma prioridade, resultado 4,75 pontos superior ao registrado entre os mais velhos, segundo pesquisa da Secretaria de Assuntos Estratégicos da presidência da República divulgada também nesta semana. O estudo ouviu mais de 11 mil jovens antes da eclosão dos protestos que ocuparam as ruas de várias cidades do país.

Em relação aos jovens de outros países ibero-americanos, o brasileiro respondeu de forma mais negativa que todas as outras regiões. Cerca de 40% deles, por exemplo, disseram que o ambiente escolar é violento. Ao mesmo tempo, pouco menos de 10% afirmaram que o ambiente escolar é exigente academicamente.
Para o secretário-geral da OIJ, Alejo Ramírez, a educação é uma demanda clara da juventude. “O melhoramento dos processos educativos, tanto no ensino médio quanto na universidade, é uma demanda clara e precisa dos jovens ibero-americanos”, disse Ramírez à Deutsche Welle Brasil. “Eles sabem que a educação é o único jeito de garantir algum sucesso na vida profissional”.
Essa também é a visão de Bruno Vanhoni, assessor internacional da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ) da Presidência da República. Ele disse à DW Brasil que o modelo do ensino médio brasileiro é pouco atraente para os jovens. “É um debate que vem se arrastando há alguns anos e tem ganhado força”, disse, ao se referir às propostas de reformulação do currículo e das metodologias adotadas hoje no ensino médio.
Apesar das críticas ao sistema educacional, a universidade aparece na pesquisa da OIJ como a instituição mais confiável na opinião dos jovens. “É um espaço de aspirações porque nem todos vão chegar à universidade, mas se eles estão falando que a instituição com a melhor imagem é a universidade, então há uma vinculação entre a educação e o futuro dos jovens”, explicou Ramírez.
Expectativas
Com a pesquisa da OIJ, foi possível estabelecer um índice de expectativas, que funciona como uma espécie de ranking que mede o grau de perspectiva positiva ou negativa dos jovens de cada país a respeito dos próximos cinco anos. O índice – baseado em variáveis subjetivas – serve para complementar dados objetivos, como o PIB (Produto Interno Bruto), para fornecer mais subsídios na construção de políticas públicas para a juventude.

Para construir o índice, os jovens atribuíram uma nota de 1 a 10 para itens como corrupção, emprego estável, desigualdade, etc. Segundo o estudo a OIJ, os jovens de Equador, Costa Rica e Nicarágua são os mais otimistas. Brasil, Guatemala e Portugal têm a visão mais negativa sobre o futuro. 
Apesar das respostas negativas sobre o futuro, o jovem brasileiro é mais engajado, segundo a pesquisa. “O brasileiro tem um perspectiva não necessariamente otimista sobre o futuro, mas tem melhor vinculação com as instituições que outros jovens da América Latina e esses são pontos [que podem servir] para aprofundar a análise da situação dos jovens brasileiros”, aponta Ramírez.
O índice de confiança que o jovem brasileiro tem em relação às instituições – incluindo os meios de comunicação, a justiça e a polícia – é maior do que a média ibero-americana, mas ainda é um índice baixo (entre 20% e 30%), na visão de Bruno Vanhoni. “Essas reivindicações apontam para reconhecimento do papel das instituições, eles e estão cobrando dessas instituições que elas cumpram seu papel.”