Há alguns
anos, bancos de investimento e firmas de consultoria decidiram que era melhor
contratar um jovem muito inteligente de 22 anos do que um profissional
moderadamente inteligente de 40 anos que queria chegar em casa cedo para ver a
família.
Para atrair
esses jovens gênios, as firmas estabeleceram programas de treinamento que
ofereciam ótimos salários, habilidades práticas e experiências de vida
interessantes para universitários recém-formados. Os melhores estudantes das
universidades de elite hoje estão cobertos de oportunidades como essas. Antes
da crise financeira, quase metade dos recém-formados de algumas faculdades foi
trabalhar em bancos, consultorias, fundos hedge e outras instituições do
gênero.
Mas, hoje, os
estudantes estão vendo esses programas com mais ceticismo. Este ano, Rob Reich,
professor de ciência política de Stanford (não o ex-secretário do trabalho, o
outro), teve uma terrível discussão on-line sobre o motivo pelo qual muitos
estudantes de elite vão para as finanças e a consultoria e se isso é bom.
Muitos
graduados recentes de Stanford defenderam ardentemente o caminho das finanças.
Um novo banqueiro de investimentos escreveu que está aprendendo como funcionam
os mercados de petróleo bruto, o que significa que agora ele sabe sobre a
relação do Irã com a Rússia, a dinâmica cultural da Nigéria e muitas outras
coisas.
Um estudante
de pós-graduação argumentou que essas firmas do setor privado fazem mais para
aliviar a pobreza do que as organizações não governamentais. Veja como o investimento
global reduziu a pobreza na China.
Um estudante
argumentou que essas firmas servem como grandes sinalizadores. Uma organização
altruísta não governamental tem mais chance de contratar você se você passou um
tempo no Goldman Sachs. Você terá mais chances de acabar com a fome no futuro
porque aprendeu a ser um analista hoje.
Outros
estudantes argumentaram que a enxurrada de talento nas finanças e na
consultoria é um desperdício gigantesco. Estudantes demais entram no processo
de seleção nas finanças por inércia, porque parece tão confortável quanto se
inscrever no vestibular. Há um certo prestígio automático nisso. É competitivo,
então deve ser bom.
Esses
críticos lamentam a perda de cérebros para as finanças e a consultoria. As
pessoas mais inteligentes deveriam estar lutando contra a pobreza, acabando com
doenças e servindo os outros, e não a si mesmas.
A discussão
dos estudantes foi inteligente, civilizada e esclarecedora. Mas fiquei surpreso
com as crenças subentendidas. Muitos desses estudantes parecem ter uma visão
limitada de suas opções. Existem os bancos de investimento que são grosseiros,
mas têm dinheiro. Existe o mundo sem fins lucrativos que é pobre, porém nobre.
E existe o mundo das startups de tecnologia, que oferece dinheiro e status simultaneamente,
de forma mágica. Mas havia pouco interesse por ou conhecimento sobre o
ministério, o serviço militar, o mundo acadêmico, o serviço público ou zilhões
de outros setores.
Além disso,
poucos estudantes mostraram algum interesse em trabalhar para uma companhia que
de fato cria produtos. Às vezes parece que os bons alunos de faculdades de
Estados democratas vão para o capitalismo de serviços (em consultoria e
finanças) enquanto os bons alunos de Estados republicanos vão para o
capitalismo de produção (Procter & Gamble, John Deere, AutoZone).
A discussão
também reforçou a ideia que eu tinha em muitos outros contextos: de que uma
comunidade de serviços se tornou um remendo para a moralidade.
Muitas pessoas
hoje não receberam instrução para falar sobre o que é a virtude, no que
consiste o caráter e onde está a excelência, então elas falam simplesmente
sobre serviço comunitário, imaginando que se você está fazendo o tipo de
trabalho celebrado por Bono, então você deve ser uma boa pessoa.
Vamos colocar
de forma diferente. Muitas pessoas hoje acham mais fácil usar o vocabulário do
empreendedorismo, quer seja nos negócios ou em empreendimentos sociais.
Esse é
um vocabulário utilitário. Como eu posso servir ao maior número de pessoas?
Como posso aplicar meus talentos de forma mais produtiva para ajudar a resolver
os problemas do mundo? É uma questão de alocar recursos.As pessoas
não se saem tão bem ao usar o vocabulário de avaliação moral, que diz menos
respeito a que tipo de carreira você escolhe do que ao tipo de pessoa que você
é. Em qualquer campo que você entre, encontrará ganância, frustração e
fracasso.
Você pode ver sua vida desafiada pela depressão, alcoolismo,
infidelidade, sua própria estupidez e indulgência. Então como você deve
estruturar sua alma para se preparar para isso? Simplesmente trabalhar na
Anistia Internacional em vez de na McKinsey não vai necessariamente ajudá-lo
nesses testes essenciais de caráter. Além disso,
como você atinge a excelência? Em torno de qual propósito final sua vida deve
girar? Você é capaz de um auto-sacrifício heróico ou a vida é simplesmente uma
série de desafios conquistados? Essas, também, não são questões analíticas
sobre o que fazer. Elas exigem distinções literárias e avaliações morais.
Quando eu li
o tópico de discussão de Stanford, vi jovens com profundos anseios morais. Mas
eles tendem a transformar as questões morais em questões sobre como alocar
recursos; questões sobre como ser em questões sobre o que fazer. Não tem nenhum
valor o fato de você devotar sua vida ao serviço comunitário e ser um completo
idiota. Você pode passar sua vida em Wall Street e ser um herói. Compreender a
diferença entre o heroísmo e a idiotice exige menos planilhas de Excel, mais
Dostoiévski e o Livro de Jó.
Reportagem de David Brooks para o jornal The New York Time
Fonte:http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2012/05/28/jovens-de-sucesso-tendem-a-transformar-questoes-morais-em-questoes-financeiras.htm
Foto: apologeticanojapao.wordpress.com
Tradutor: Eloise De Vylder

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