07/06/2012

Jovens de sucesso tendem a transformar questões morais em questões financeiras


Há alguns anos, bancos de investimento e firmas de consultoria decidiram que era melhor contratar um jovem muito inteligente de 22 anos do que um profissional moderadamente inteligente de 40 anos que queria chegar em casa cedo para ver a família.

Para atrair esses jovens gênios, as firmas estabeleceram programas de treinamento que ofereciam ótimos salários, habilidades práticas e experiências de vida interessantes para universitários recém-formados. Os melhores estudantes das universidades de elite hoje estão cobertos de oportunidades como essas. Antes da crise financeira, quase metade dos recém-formados de algumas faculdades foi trabalhar em bancos, consultorias, fundos hedge e outras instituições do gênero.

Mas, hoje, os estudantes estão vendo esses programas com mais ceticismo. Este ano, Rob Reich, professor de ciência política de Stanford (não o ex-secretário do trabalho, o outro), teve uma terrível discussão on-line sobre o motivo pelo qual muitos estudantes de elite vão para as finanças e a consultoria e se isso é bom.

Muitos graduados recentes de Stanford defenderam ardentemente o caminho das finanças. Um novo banqueiro de investimentos escreveu que está aprendendo como funcionam os mercados de petróleo bruto, o que significa que agora ele sabe sobre a relação do Irã com a Rússia, a dinâmica cultural da Nigéria e muitas outras coisas.
Um estudante de pós-graduação argumentou que essas firmas do setor privado fazem mais para aliviar a pobreza do que as organizações não governamentais. Veja como o investimento global reduziu a pobreza na China.

Um estudante argumentou que essas firmas servem como grandes sinalizadores. Uma organização altruísta não governamental tem mais chance de contratar você se você passou um tempo no Goldman Sachs. Você terá mais chances de acabar com a fome no futuro porque aprendeu a ser um analista hoje.

Outros estudantes argumentaram que a enxurrada de talento nas finanças e na consultoria é um desperdício gigantesco. Estudantes demais entram no processo de seleção nas finanças por inércia, porque parece tão confortável quanto se inscrever no vestibular. Há um certo prestígio automático nisso. É competitivo, então deve ser bom.

Esses críticos lamentam a perda de cérebros para as finanças e a consultoria. As pessoas mais inteligentes deveriam estar lutando contra a pobreza, acabando com doenças e servindo os outros, e não a si mesmas.

A discussão dos estudantes foi inteligente, civilizada e esclarecedora. Mas fiquei surpreso com as crenças subentendidas. Muitos desses estudantes parecem ter uma visão limitada de suas opções. Existem os bancos de investimento que são grosseiros, mas têm dinheiro. Existe o mundo sem fins lucrativos que é pobre, porém nobre. E existe o mundo das startups de tecnologia, que oferece dinheiro e status simultaneamente, de forma mágica. Mas havia pouco interesse por ou conhecimento sobre o ministério, o serviço militar, o mundo acadêmico, o serviço público ou zilhões de outros setores.

Além disso, poucos estudantes mostraram algum interesse em trabalhar para uma companhia que de fato cria produtos. Às vezes parece que os bons alunos de faculdades de Estados democratas vão para o capitalismo de serviços (em consultoria e finanças) enquanto os bons alunos de Estados republicanos vão para o capitalismo de produção (Procter & Gamble, John Deere, AutoZone).
A discussão também reforçou a ideia que eu tinha em muitos outros contextos: de que uma comunidade de serviços se tornou um remendo para a moralidade. 

Muitas pessoas hoje não receberam instrução para falar sobre o que é a virtude, no que consiste o caráter e onde está a excelência, então elas falam simplesmente sobre serviço comunitário, imaginando que se você está fazendo o tipo de trabalho celebrado por Bono, então você deve ser uma boa pessoa.
Vamos colocar de forma diferente. Muitas pessoas hoje acham mais fácil usar o vocabulário do empreendedorismo, quer seja nos negócios ou em empreendimentos sociais.

Esse é um vocabulário utilitário. Como eu posso servir ao maior número de pessoas? Como posso aplicar meus talentos de forma mais produtiva para ajudar a resolver os problemas do mundo? É uma questão de alocar recursos.As pessoas não se saem tão bem ao usar o vocabulário de avaliação moral, que diz menos respeito a que tipo de carreira você escolhe do que ao tipo de pessoa que você é. Em qualquer campo que você entre, encontrará ganância, frustração e fracasso.

Você pode ver sua vida desafiada pela depressão, alcoolismo, infidelidade, sua própria estupidez e indulgência. Então como você deve estruturar sua alma para se preparar para isso? Simplesmente trabalhar na Anistia Internacional em vez de na McKinsey não vai necessariamente ajudá-lo nesses testes essenciais de caráter. Além disso, como você atinge a excelência? Em torno de qual propósito final sua vida deve girar? Você é capaz de um auto-sacrifício heróico ou a vida é simplesmente uma série de desafios conquistados? Essas, também, não são questões analíticas sobre o que fazer. Elas exigem distinções literárias e avaliações morais.

Quando eu li o tópico de discussão de Stanford, vi jovens com profundos anseios morais. Mas eles tendem a transformar as questões morais em questões sobre como alocar recursos; questões sobre como ser em questões sobre o que fazer. Não tem nenhum valor o fato de você devotar sua vida ao serviço comunitário e ser um completo idiota. Você pode passar sua vida em Wall Street e ser um herói. Compreender a diferença entre o heroísmo e a idiotice exige menos planilhas de Excel, mais Dostoiévski e o Livro de Jó.


Reportagem de David Brooks  para o jornal The New York Time
Fonte:http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2012/05/28/jovens-de-sucesso-tendem-a-transformar-questoes-morais-em-questoes-financeiras.htm
Foto:apologeticanojapao.wordpress.com
Tradutor: Eloise De Vylder 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pela visita e pelo comentário!