09/04/2012

Igrejas espanholas sofrem surto de roubos; mais de 4.500 obras de arte continuam desaparecidas

Infelizmente aqui no Brasil também não é fato incomum de acontecer.




No mosteiro de San Pedro de Cardeña (Burgos), foto acima, vivem isolados 18 monges cistercienses, dedicados a orar, meditar e fazer chocolate. A tranquilidade da abadia foi alterada na madrugada de 14 de fevereiro. Três romenos invadiram o lugar para roubar parte da coleção Escolar-Puente, na qual havia moedas de ouro e prata de origem românica, candelabros e uma cruz processional. Quatro dias depois, a Guarda Civil recuperou um terço dos objetos.
Na Espanha, os furtos de patrimônio cultural, especialmente em igrejas, crescem: no ano passado ocorreram 50 roubos em templos, quase um por semana, segundo a Guarda Civil. Desde 2005, foram recuperados 19 mil objetos artísticos em geral, entretanto, ainda falta resgatar 4.500 peças. Entre elas está uma escultura de Salzillo do século 18; um tapete de tapeçaria de lã do século 17 e uma imagem de Santa Bárbara do século 13. O paradeiro do Códice Calixtino, roubado no verão passado, continua sendo um mistério.
Depois do susto, os monges de San Pedro de Cardeña aumentaram as medidas de segurança. "Colocamos alarmes e sensores que detectam o movimento na capela e em outras dependências", explica Roberto de la Iglesia, superior do mosteiro. Entretanto, esses dispositivos de segurança são escassos em muitos lugares que possuem objetos de alto valor artístico e monetário. Fica fácil para os ladrões. Basta jogar uma pedra para quebrar os vitrais e entrar nos prédios. Em outras ocasiões, basta um alicate.
Arrebentam o cadeado e saem com esculturas de madeira, cálices ou livros de missa. O roubo de San Pedro de Cardeña se soma a outros furtos sofridos pelo patrimônio de Leão e Castela, como o recente espólio do mosaico romano de Baños de Valdearados (Burgos) ou o desaparecimento de peças da jazida de Cluna Sulpicia, também em Burgos.
Leão e Castela é a comunidade mais castigada, seguida da Galícia, que implantou o projeto Iglesia Segura. Uma iniciativa que ainda está em processo e na qual colabora o pároco Félix Villares, que conhece bem o problema. Vilares celebra a missa em duas paróquias que foram assaltadas em várias ocasiões: San Martín de Belesar e Distriz, em Lugo.
Outro caso famoso é o da capela dos Remédios, na paróquia de Martin de Codesio em Vilalba (Lugo), um lugar que atrai muitos devotos e que os ladrões conhecem bem. As medidas de segurança se limitam ao senso comum, "como não contar para desconhecidos sobre os bens das igrejas ou controlar quantas chaves da igreja são dadas aos vizinhos", explica o pároco.
Outra medida recomendável consiste em elaborar inventários. "Eles existem desde o século 17, mas evidentemente devem ser atualizados com novas fichas de novos objetos". O exemplo da Galícia pode ser copiado para outros lugares da Espanha, onde a Unidade Central Operativa (UCO) da Guarda Civil se coordena com a Unidade Orgânica do Poder Judicial.
Em 2007, aumentou o número de roubos de bens culturais fabricados com metais como ferro e bronze e o de objetos litúrgicos e ourivesaria religiosa de ouro e prata. Na ermida de San Marti de Castellard em Quart (Girona), um ladrão roubou um sino de 100 quilos do século 18. Dias antes, o mesmo indivíduo entrou para levar o cordão de uma pia de batismo. O roubo aconteceu em março de 2010 e em pouco tempo ele foi descoberto com todo o material. Na semana passada, detiveram em Vigo dois homens que roubavam joias numa igreja, enquanto fingiam que rezavam. Eles planejaram o roubo no oratório das Irmãs dos Anciãos Desamparados da paróquia de Alcabre, em Vigo. O ladrão Raúl P. S. foi detido enquanto tentava vender uma estátua de São Judas num bar.
Este é o principal problema que os policiais enfrentam. Quando um objeto é roubado, os ladrões tratam de vendê-lo no mercado negro. As melhores obras de arte costumam ser transportadas para países estrangeiros onde há mais tradição de compra e venda de antiguidades. Isso complica a localização das peças. Agora há um novo circuito: a internet se transformou num terreno fácil para apresentar os objetos. "Só no eBay pode-se obter mais de 11 mil antiguidades", afirma um agente da seção de Patrimônio Histórico da Guarda Civil.
O roubo de patrimônio tem poucas consequências penais e poucas vezes os detidos vão para a prisão. É bem diferente quando o furto é um atentado grave contra a propriedade patrimonial. Um dos últimos casos foi o roubo de 67 documentos históricos de bibliotecas diferentes de toda a Espanha. Z.V., húngaro, de 47 anos, foi detido num hotel de Pamplona em 2009. Tinha em seu poder mapas de um Atlas de Ptolomeu e documentos do Arquivo Real de Navarra e da biblioteca pública de Soria. O último caso foi o do mosteiro de San Pedro de Carcedo. Os três integrantes do bando foram para a cadeia.

Reportagem de Almudena López para o jornal espanhol El País
Tradutor: Eloise De Vylder

foto:kalipedia.com

Um comentário:

  1. Olá Tânia!
    É uma lástima que existam pessoas para comprar essas obras roubadas.
    Tenha uma linda semana!
    Abraços.

    “Para o legítimo sonhador não há sonho frustrado, mas sim sonho em curso” (Jefhcardoso)

    Convido para que leia e comente “REALIDADES SUBVERTIDAS” no http://jefhcardoso.blogspot.com/

    ResponderExcluir

Obrigada pela visita e pelo comentário!