Para agradar eleitores e lobistas vale tudo. Mas será que vale mesmo? Com certeza não, por isso mais uma vez insisto na necessidade de capacitação específica para todos os candidatos, assim pelo menos não teriam a desculpa de desconhecimento ou "equívocos", a não ser que estes sejam intencionais.
O Judiciário tem feito o papel de vilão ao declarar inconstitucionais as leis
feitas pelo Legislativo, muitas vezes, com base no clamor popular. Em 2011,
3.268 projetos de lei foram apresentados na Câmara dos Deputados, o que
significa 5,5 projetos para cada um dos parlamentares ativos (81 senadores e 513
deputados). A casa aprovou, no mesmo ano, 337 projetos de lei que classificou
como aptos para serem somados aos códigos vigentes no país.
Pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara, que tem a
função de analisar a constitucionalidade dos projetos de lei, passaram 376
dessas propostas. Todas aprovadas. A comissão tem seguido o caminho apontado por
aqueles que dependem de votos (e apresentam 3.268 projetos em um ano), aprovando
100% do que chega para sua análise.
Das 1.174 ações questionando a constitucionalidade de leis que foram
analisadas pelo Supremo Tribunal Federal, de 1988 a janeiro de 2012 (cerca de 50
por ano), 83% foram consideradas inconstitucionais. Se somadas àquelas que não
foram conhecidas pela corte (não chegaram a ser analisadas), o total de leis
questionadas no STF passa para 4.665. A maior parte vem da esfera estadual, o
que pode ser comprovado pela origem de tais ações: 23,9% das ADIs são oriundas
de governadores estaduais. Isso, porém, não torna menor o problema das leis
criadas no Congresso.
O processo legislativo movido pela pressão popular, segundo o ministro
Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal, faz com que
projetos de lei desrespeitem claramente a Constituição por serem focados apenas
no aspecto político em vez de técnico. A CCJ, por exemplo, que deveria ser um
filtro de análise dos projetos sob o ângulo constitucional, relega a parte
técnica. Para saber o que é levado em conta no momento da análise, brinca Marco
Aurélio, “só colocando os deputados e senadores em um divã”.
Muitos políticos, afirma o ministro, apostam na morosidade da Justiça para
analisar a inconstitucionalidade das leis para se beneficiarem no contexto
político em que a lei é aprovada. “Depois, quando o projeto chega ao STF e é
declarado inconstitucional, acabam colocando panos quentes, para não haver uma
conseqüência social mais drástica, [contra aquele que criou a lei
inconstitucional]”. Ele diz que, para não beneficiar quem aposta na morosidade
da Justiça, é contrário a modular decisões do STF, declarando sempre que uma lei
inconstitucional é inconstitucional desde a sua criação.
O papel de algoz, complementa o ministro, é o preço módico a ser pago para
viver na Democracia. “Para nós, o que tem valor maior não é conveniência
política, mas a Constituição Federal, da qual somos guardiões.”
A diferença de entendimentos entre Judiciário e Legislativo, porém, não se dá
somente pelo fator político que movimenta as decisões de parlamentares, diz
Flávio Dino, que tem vivência nas duas esferas. Deputado
federal, de 2007 a 2011, e juiz convocado do Tribunal Regional Federal da 1ª
Região, em 2004 e 2005, Dino diz que há uma zona cinzenta “em que tudo é
razoável”, ou seja, são possíveis diferentes interpretações sobre a
constitucionalidade da mesma lei.
Segundo ele, figura nos tribunais um “ativismo judicial” que pode ser
responsabilizado pelas divergências entre as duas esferas. “Crescentemente, o
STF e os juízes vêm exercendo papel mais ativo na interpretação da lei. Ampliam
intervenção do Judiciário em temas políticos econômicos e sociais, fazendo com
que muitas questões sejam interpretadas de modo diferente”, diz o
ex-deputado.
Para exemplificar seu ponto de vista, Dino usa a questão da pesquisa com
células-tronco embrionárias. “O Congresso discutiu durante anos a questão, mas
muitos ministros do Supremo, por motivos até religiosos, consideraram que isso
seria inconstitucional”, diz o advogado. Segundo ele, a zona de transição entre
constitucionalidade clara e inconstitucionalidade clara serve como campo para o
jogo de aprovações e negações entre Congresso e Supremo.
Reportagem de Marcos Vasconcellos
fonte:http://www.conjur.com.br/2012-abr-07/camara-deputados-aprova-leis-analisar-constitucionalidade
foto:cartilhapacienterenal.cursoseconcursosnosite...

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