17/11/2011

Crise causa hemorragia na cultura da Espanha


A hemorragia é constante e aparentemente incontível. O paciente - as infraestruturas culturais espanholas - perde sangue. Muito. Não passa um dia em que não cancelem um festival de cinema ou de teatro, em que um encontro anual que dinamizava esta ou aquela cidade de médio porte se veja obrigado a tornar-se bienal, ou em que um ex-grande centro anuncie a paralisação temporária de suas atividades para ingressar em um estado de hibernação programática, com a esperança de que o inverno da crise dê lugar à primavera do contentamento de uma vez por todas.
Além dos empresários culturais privados que atiram a toalha, tantos cortes se devem obviamente aos exangues cofres públicos, sobretudo os das comunidades autônomas. Quanto às infraestruturas que dependem do Ministério da Cultura, esperam-se novos cortes depois das eleições, quando voltarem a reduzir os orçamentos. Os últimos afetaram a todos que vão desde o sofrido pelo ICAA (11,7%) ao do Museu do Prado (7,7%).
No plano regional, a Comunidade Valenciana tornou-se nos últimos meses um paradigma da situação. Na sexta-feira foi anunciado que o MTV Winter, encontro valenciano com o rock internacional, não voltará a acontecer no faraônico ambiente da Cidade das Artes e das Ciências, símbolo dos anos de vacas gordas. E, mais importante, tampouco receberá o milhão de euros que chegava anualmente, há quatro anos, da Generalitat. E chove no molhado. A mais famosa vítima dos cortes na cidade é até agora a Mostra de Valência, festival de cinema com três décadas de história. A prefeitura, governada por Rita Barberá (PP), economizará 1,7 milhão de euros. E também os 600 mil que dava ao festival de teatro alternativo València Escena Oberta (VEO), que em 2012 teria alcançado sua décima edição.
Como via intermediária ao desaparecimento, começa a se impor o modelo adotado pelo Festival Ponto de Vista de Pamplona, dedicado há oito anos, e com um orçamento de 300 mil euros, a rastrear documentários internacionais. Em vista dos cortes do governo de Navarra, mudou para um encontro bienal. Também o fez o festival "Actual de Logroño": o tradicional primeiro encontro musical do ano continuará sendo o certame mais precoce, mas a cada dois janeiros. Outro ciclo excelente em perigo é o Mar de Músicas em Cartagena (Murcia). Deixou de receber dinheiro da comunidade, que contribuía com 150 mil euros. E sua próxima edição em julho, dedicada aos países nórdicos, reduzirá a programação de três para uma semana. A Junta da Andaluzia (PSOE), por sua vez, retirou na sexta-feira sua subvenção ao Festival de Málaga de Cinema e o de Cinema Europeu de Sevilha.
Os trabalhadores da cultura reagem com lógica resignação diante de notícias como a de que o Auditório de Murcia não programará mais ópera ou, sem sair da comunidade, que o festival de dança contemporânea Mudanzas será encerrado. Ninguém esquece que diante do drama de 5 milhões de desempregados uma exposição de arte conceitual não pode ser nem remotamente uma prioridade.
Daí que a despedida da galerista Soledad Lorenzo, na última quinta-feira, na Real Fábrica de Tapetes de Madri, tenha servido, além de homenagem à que se retira, como lacrimoso intercâmbio de desgraças, assim como de reconhecimento coletivo de que o grêmio continua pagando ("quem sabe por quanto tempo?", ouvia-se, seguido de um encolhimento de ombros) pelos erros de um passado cheio de caprichos e extravagâncias. Uma década de florescimento de infraestruturas culturais fora de escala.
Muitos desses centros, filhos de uma expansão econômica em que a arte contemporânea parecia subitamente um artigo de primeira necessidade, hoje declinam com programação escassa, como belos continentes com o conteúdo que são capazes de prover seus gestores com 50 ou 60% de orçamento a menos que há quatro anos. Exemplos? O Centro Galego de Arte Contemporânea, o MEIAC na Extremadura, o Centro Andaluz de Arte Contemporânea, a Laboral de Gijón ou o Musac. O centro leonês defendeu com sua silhueta colorida aquela tendência e, apesar de manter uma programação interessante, perdeu muita frequência expositiva, em parte pelo constante desinteresse político.
Em vista disso, muitas vozes do setor se levantam para exigir que na Espanha seja criado um registro centralizado, como na França, para controlar a natureza e conveniência de cada museu, para que duas cidades não coincidam ao programar na mesma semana um festival de performances.
José Guirao, ex-diretor do Museu Rainha Sofia e responsável pela Casa Encendida, dependente da obra social da Caja Madrid, considera, entretanto, que os responsáveis por esses museus estão dando um exemplo de "gestão madura da crise". "Mantêm a qualidade das propostas, embora sejam menos, e continuam cuidando de aspectos academicamente interessantes como o catálogo da exposição." A diretora geral de Belas Artes, Ángeles Albert, reconhecia esta semana no Museu de Artes Decorativas que "continuarão os ajustes". E que as chaves passam por ampliar o tempo de exposição das mostras e por aumentar as coproduções.
O governo entrante terá, além disso, uma questão pendente, a tão desejada lei do mecenato, que poderia contribuir para animar os investidores privados a aliviar essa situação. O Prado, por exemplo, já costuma se beneficiar de dinheiro de fundações como a do BBVA. "É evidente que é preciso caminhar para um modelo de financiamento público-privado", opinava esta semana Milagros del Corral, que abandonou em maio de 2010 seu cargo de diretora da Biblioteca Nacional devido aos cortes em uma instituição que hoje celebra seu tricentenário com um orçamento (1,165 milhão de euros) cuja aplicação sua atual diretora, Glòria Pérez-Salmerón, definiu como "imaginativa". E sim, talvez seja essa, a imaginação que esconde o próprio fato artístico, a única contribuição de valor na qual se pode confiar nesta Espanha do ano 3 pós-colapso financeiro.

Reportagem de Ángeles García e Iker Seisdedos para o jornal espanhol El País
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2011/11/12/crise-causa-hemorragia-na-cultura.jhtm
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
foto:pt.wikipedia.org

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