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01/02/2015
09/12/2015
O senador
Delcídio do Amaral cumpria uma jornada dupla quando era líder do governo. Em
público, presidia a poderosa Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e
negociava a aprovação das medidas de ajuste fiscal consideradas prioritárias
pela presidente Dilma. Nos bastidores, era peça-chave na estratégia destinada a
impedir que a Operação Lava Jato descobrisse a cadeia de comando do petrolão.
Longe dos holofotes, Delcídio atuava como bombeiro. Conversava com
empreiteiros, funcionários da Petrobras e políticos acusados de participar do
esquema de corrupção, anotava suas demandas e informações de bastidor e,
depois, relatava-as em detalhes a Dilma e a Lula. Sua missão era antever
dificuldades e propor soluções. Foi ele quem alertou a presidente de que a
Odebrecht tinha feito pagamento no exterior ao marqueteiro João Santana por
serviços prestados a campanhas presidenciais do PT. Foi ele quem falou para
Lula que petistas estrelados estavam reclamando de abandono e falta de
solidariedade. Aos dois chefes, Delcídio fazia o mesmo diagnóstico: "Enterramos
nossos cadáveres em cova rasa. É um erro. Precisamos enterrá-los com
dignidade".
Dignidade, no caso, significava ajudar companheiros e executivos
presos ou sob investigação com dinheiro, assistência jurídica e lobby a favor
deles nos tribunais superiores, para evitar que contassem às autoridades
segredos da engrenagem criminosa que desviou, segundo a Polícia Federal, quase
50 bilhões de reais da Petrobras. Delcídio repetiu essa cantilena de forma
exaustiva até ser preso e - como gosta de dizer - traído. Lula o chamou de
imbecil por ter sido gravado ao tentar comprar o silêncio de Nestor Cerveró, um
dos delatores do petrolão. O PT também o rifou em público. Com medo de expiar
seus pecados em cova rasa, o bombeiro, agora no papel de incendiário,
mostrou-se disposto a contar às autoridades tudo o que viu, ouviu e fez a mando
de Lula e Dilma durante treze anos de intimidade com o poder. Não era um blefe.
O acordo de delação premiada no qual Delcídio afirma que Lula e Dilma sabiam da
existência do esquema de corrupção e atuaram a fim de mantê-lo em funcionamento
foi homologado pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A colaboração, apelidada de "A delação", só foi formalizada porque o
senador resistiu a uma proposta generosa de "enterro com dignidade"
apresentada pelo petista Aloizio Mercadante.
Ex-chefe da Casa Civil do governo Dilma, atual titular da pasta
da Educação e um dos ministros mais próximos da presidente, Mercadante prometeu
dinheiro e ajuda para que Delcídio deixasse a prisão e escapasse do processo de
cassação de mandato no Senado. Em contrapartida, pede a Delcídio que não
"desestabilize tudo" com sua delação. O ministro não tratou
diretamente com o senador, que já estava sob a custódia da polícia, mas com um
assessor da estrita confiança de Delcídio, José Eduardo Marzagão. Os dois se
reuniram duas vezes no gabinete de Mercadante no ministério. As conversas foram
gravadas por Marzagão e entregues à Procuradoria-Geral da República por
Delcídio, que, em depoimento formal, disse que o ministro agira a mando de
Dilma. Com essa observação, acusou o ministro e a presidente de tentar comprar
o silêncio de uma testemunha, obstruindo o trabalho da Justiça. Era o acerto de
contas de Delcídio com os senhores que lhes viraram as costas. "Me senti
pressionado pelo governo", disse ele aos procuradores.
Nos diálogos,
aos quais VEJA teve acesso (ouça
abaixo), Mercadante oferece ajuda financeira à família de Delcídio
e promete usar a influência política do governo junto ao Senado e ao Supremo
Tribunal Federal para tentar evitar a cassação do senador e conseguir sua
libertação. Além de dizer a Marzagão que Delcídio deveria ficar
"calmo", deixar "baixar a poeira" e não fazer "nenhum
movimento precipitado", Mercadante prometeu procurar o presidente do
Senado, Renan Calheiros, para armar um plano de modo a fazer com que o Senado
voltasse atrás na decisão, tomada em plenário, ratificando a ordem de prisão
expedida pelo Supremo. "Por que é que não pede reconsideração ao Senado?
Pode?", questiona o ministro. "Acho que não", diz o assessor.
"Em política, tudo pode", ensina Mercadante.
Descrevendo seu plano, Mercadante deixa claro ao assessor que
vai tentar "construir com o Supremo uma saída" para Delcídio. Diz que
Ricardo Lewandowski, o presidente do STF, poderia libertar Delcídio por meio de
liminar, durante o recesso de fim de ano do Judiciário. "O presidente vai
ficar no exercício... Também precisa conversar com o Lewandowski. Eu posso
falar com ele pra ver se a gente encontra uma saída", oferece Mercadante.
Sem citar o nome, o ministro dá a entender que vai procurar outro ministro do
STF e que sua ideia é fazer com que o Senado procure Teori Zavascki para
pleitear a soltura do senador. "Talvez o Senado possa fazer uma moção, a
mesa do Senado, ao Teori, entendeu? Um pedido: olha, nós demos autorização
considerando o flagrante, considerando as condições etc, mas não há necessidade
pá, pá, pá - pá, pá, pá. E tentar construir com o Supremo uma saída", diz.
A menção ao STF foi ligeira mas estratégica. Naquela altura, a prioridade da
família de Delcídio era libertá-lo antes do Natal. Havia, entretanto, a
suspeita de que Teori negaria, como de fato ocorreu, o pedido de habeas-corpus.
A oferta de Mercadante remediaria o problema.
Sobre a possibilidade de uma delação de Delcídio, Mercadante
diz: "Eu acho que ele devia esperar, não fazer nenhum movimento
precipitado, deixar baixar a poeira, ele vai sair, a confusão é muito
grande". A primeira conversa entre Mercadante e o assessor de Delcídio
ocorreu no dia 1º de dezembro, uma semana após a prisão do ex-líder do governo.
A segunda deu-se no dia 9 de dezembro, um dia após a família de Delcídio
decidir contratar o escritório do advogado Antonio Augusto Figueiredo Basto, um
dos principais especialistas em delação premiada no país. No primeiro encontro
com assessor, Mercadante se mostra cauteloso. Diz que Delcídio é
"fundamental para o governo", fala em lealdade, promete ajuda e deixa
entender que fala em nome da presidente Dilma: "Eu sou um cara leal. A
Dilma sabe que, se não tiver uma pessoa para descer aquela rampa, eu vou com
ela até o final".
Fica claro que Mercadante está preocupado em acalmar a mulher e
as filhas de Delcídio, as principais incentivadoras de um acordo de delação.
Diz ao assessor do senador: "Eu tô te chamando aqui para dizer o seguinte:
eu serei solidário ao Delcídio. Eu gosto do Delcídio, eu acho ele um cara muito
competente, muito habilidoso, foi fundamental para o governo (...) Eu vi o que
estão fazendo com as filhas dele. Uma canalhice monumental. Imagino o desespero
dele. Então você veja o que ele precisa que eu posso ajudar". O ministro
aconselha o assessor a dizer para Delcídio seguir em silêncio para "não
ser um agente que desestabilize tudo". Chega a fazer uma ameaça velada,
caso o petista revele os podres do governo: "Vai sobrar uma
responsabilidade pra ele monumental, entendeu?".
No segundo encontro, ainda sob o impacto da notícia da
contratação do especialista em delações, Mercadante é mais explícito. Revela
seu plano no Judiciário, reclama que, por causa dos rumores de acordo com a
Lava Jato, nem Renan Calheiros, investigado no STF, nem o governo poderão se
mexer para salvar Delcídio. Chega a pedir ao petista para que abafe o assunto
delação. Diz Mercadante: "Como é que o Renan vai se mexer... Eu sei que
ele tá acuado porque o outro vai... Entendeu? Como é que o governo se mexe,
porque parece que tem alguma coisa que ele (Delcídio) sabe do rabo de alguém.
Então, eu acho que tem que tirar isso (delação) da pauta nesse momento".
O assessor de Delcídio relata as dificuldades financeiras do
senador, afirma que a família está planejando vender imóveis e se desfazer de
bens para custear o processo. Mercadante se dispõe a viajar para Mato Grosso do
Sul para dar assistência à família: "Isso aí também a gente pode ver no
que é que a gente pode ajudar, na coisa de advogado, essa coisa. Não sei. Pô,
Marzagão, você tem que dizer no que é que eu posso ajudar. Eu só tô aqui pra
ajudar. Veja o que que eu posso ajudar". O ministro explica que, se a
mulher de Delcídio aceitasse conversar, ele organizaria uma visita, como
ministro da Educação, em alguma universidade do Estado para ocultar o real
objetivo da viagem.
Marzagão trabalha com o senador há treze anos. Nos 87 dias em
que o petista ficou preso, Marzagão só não fez companhia a ele uma única vez,
quando foi ao casamento da filha em Fortaleza. Era Marzagão quem levava e
trazia informações, providenciava alimentação e livros, ouvia histórias e
compartilhava de desabafos e crises de choro. Antes de procurar o assessor,
Mercadante tentou contato com a esposa do senador. O ministro foi repelido com
contundência. Maika, a esposa de Delcídio, não escondia a raiva pelo fato de o
marido ter se prestado, segundo ela, a fazer serviços sujos para Lula e Dilma,
como a tentativa de comprar testemunhas do petrolão, motivo que o levou à
prisão. Além disso, Maika sabia que o ministro sempre fora um desafeto de
Delcídio no partido. Os dois, senador e ministro, nunca foram amigos, nem
mantinham relações amistosas. Por isso, Maika viu a tentativa de aproximação de
Mercadante com estranhamento.
Ao ser chamado para uma conversa com um desafeto de Delcídio,
Marzagão resolveu gravar tudo, como medida de precaução. Temia ser alvo de uma
armadilha tramada pelo governo a fim de desmoralizar o senador, que, como
antecipara VEJA, ameaçava contar seus segredos às autoridades. O senador e seu
assessor também sabiam como o Ministério Público valorizava gravações com
tentativas de obstruir a Justiça. Afinal, uma gravação e uma proposta de
auxílio financeiro levaram Delcídio à cadeia, acusado de tentar sabotar o
trabalho da Justiça. Como Mercadante, Delcídio também queria calar uma
testemunha.
Reportagem de Robson Boni e Daniel Pereira
fonte:http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/exclusivo-governo-tentou-comprar-o-silencio-de-delcidio-do-amaral
foto:http://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/governo-federal-tentou-comprar-silencio-de-delcidio-amaral-diz-revista-61100/

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