Nos Estados Unidos, muitas pessoas ainda acham que empregados
domésticos são algo pertencente a uma era distante, uma época menos
igualitária e democrática do que a nossa, como a Grã-Bretanha da série
sobre a aristocracia inglesa Downton Abbey. Mas à medida que
entramos em uma segunda “Era Dourada”, o relógio parece estar voltando
atrás, e os super-ricos estão cada vez mais dependendo de criados para
cuidar de sua alimentação e das roupas, e também para se sentirem
confortáveis. A “recuperação” econômica quase não produz empregos
suficientes, mas o setor dos empregados domésticos certamente está
crescendo.
As agências estão sendo inundadas por pedidos de mordomos,
cozinheiros, motoristas e outros empregados. De que serve um jato
particular sem um atendente de bordo? De que serve um iate sem um
massagista? De acordo com Claudia Khan, fundadora de uma agência de
recrutamento de empregados, em Los Angeles, os ricos estão requisitando
“serviços do tipo de Downton Abbey” para igualar o que veem na TV. Ela
observa que uma governanta trabalhando para um bilionário pode ganhar
US$ 60 mil por ano (o salário médio no setor é de menos de US$ 20 mil),
mas uma “empregada exclusiva para uma senhora” pode receber US$ 75 mil
dólares. Mordomos em período integral podem conseguir US$ 70 mil por
ano, e alguns que viajam com a família em iates e jatos particulares
chegam a ganhar até US$ 200 mil por ano.
Vincent Minuto, que atende clientes ricos nos Hamptons [balneário de
luxo no estado de Nova York], recomenda uma governanta para cada área de
280 metros quadrados. Se você tem uma propriedade como a do magnata
David Siegel, você vai precisar de pelo menos 16 empregados para sua
casa de cerca de 4.700 metros quadrados em Windermere, na Flórida.
Em Nova York, interessados no serviço doméstico podem estudar os
fundamentos da culinária e dos serviços de lavanderia em um curso
ministrado pelo ex-mordomo da multimilionária Brooke Astor, que planeja
“revolucionar” o negócio dos mordomos ao fazer os alunos compreenderem
por que uma pessoa especializada em lavagem a seco possivelmente não
pode passar roupas adequadamente. Do outro lado do Atlântico, o número
de empregados domésticos também está chegando às alturas. Um estudo
recente realizado pela Wetherell, agência do setor imobiliário para
megarricos, revelou que há mais criados trabalhando na área chique de
Mayfair, em Londres, do que havia 200 anos atrás. Entre os 4,5 mil
moradores que possuem casa na região, 90% têm criados, enquanto o
percentual de moradores de apartamentos é de 80%.Por todo o Reino
Unido, a demanda por mordomos dobrou entre 2010 e 2012.
Estigma
A classe dos criados cresceu nas últimas décadas por várias razões. Para
a classe média, o arranjo do pós-guerra em que o marido trabalhava e a
mulher ficava em casa aspirando pó e fazendo outros serviços era o
padrão, mesmo não sendo um esquema especialmente agradável (como Betty
Friedan descreveu memoravelmente em A Mística Feminina). Isso
indicava um distanciamento em relação a épocas anteriores, quando mesmo
residências de classe média baixa costumavam ter empregados. Na
prática, a tecnologia e melhores perspectivas de emprego para os
potenciais trabalhadores domésticos fizeram com que as esposas e mães se
tornassem empregadas não pagas, responsáveis por todas as tarefas
domésticas.
Mas à medida que mais mulheres começaram a trabalhar fora, e as
jornadas dos trabalhadores, em especial nos Estados Unidos, ficaram mais
longas, as casas mergulharam no caos. Afinal, as camas não são feitas
num passe de mágica. O serviço doméstico tinha de ser feito, e mesmo
quando os homens se lançavam a ele, a verdade é que tanto marido como
esposa estavam normalmente trabalhando demais e por muito tempo para
poder fazer adequadamente as tarefas domésticas. Apesar de um leve
estigma nos Estados Unidos ligado à contratação de criados no
pós-guerra, diaristas de meio período e babás se tornaram para muita
gente o único meio de restabelecer a sanidade.
O mais recente aumento na procura por trabalhadores domésticos está
relacionado com a desigualdade. Em lugares como o Oriente Médio, bem
como em Hong Kong, Cingapura, Malásia e Taiwan, sempre foi comum
importar trabalhadores domésticos de países mais pobres. Mas essa
tendência está se espalhando. No Reino Unido, não se trata mais de
Jeeves [mordomo personagem da literatura inglesa] fazendo o chá, mas de
Vlad, da Romênia. Nos Estados Unidos, quase metade dos empregados e
governantas não nasceram no país, e os latino-americanos dominam. (Um
grande bloco dos ricos apoia alegremente a imigração em massa de mão de
obra barata, para que esses trabalhadores possam continuar a ser mal
pagos.)
Abuso
O trabalho no serviço doméstico sempre é uma forma difícil de emprego,
exposta a abusos. Historicamente, criados não podiam recorrer à lei para
sua proteção até a imposição no Reino Unido do Master and Servant Act
(Lei dos Patrões e Criados), de 1823, que influenciou a legislação de
outros países. Era favorável aos patrões, mas era melhor que nada, e
incluía cláusulas para coisas como refeições, roupas e abrigo. Nos
Estados Unidos, o New Deal excluiu empregados domésticos das proteções
trabalhistas, como é bem conhecido, e esses serviços ainda continuam
sendo um segmento amplamente sem regulamentação.
Empregados domésticos imigrantes estão especialmente propensos a
abusos porque estão isolados e com frequência desconhecem seus direitos
legais. Trabalhadores sem documentação adequada no país estão à mercê
dos empregadores, e alguns casos recentes, como a descoberta de que um
homem de Seattle mantinha uma empregada Filipina virtualmente como
escrava, mostram como as condições podem ser horríveis. Em 2008, mais de
um quarto de todas as empregadas e governantas nos Estados Unidos não
tinham documentos para trabalhar no país.
Não deveria haver nenhum estigma ligado ao serviço. Trabalho é
trabalho, e ser um chofer ou uma governanta é um meio perfeitamente
digno de ganhar a vida. Não há nenhuma razão pela qual essa forma de
emprego deva ser sempre insegura e mal paga. Nos Estados Unidos,
empregados domésticos vêm obtendo avanços na batalha para serem tratados
como os demais trabalhadores. No ano passado, a Califórnia e o Havaí
seguiram Nova York e se tornaram, respectivamente, o segundo e o
terceiro Estados do país a aprovar uma legislação sobre empregados
domésticos, que abrange cozinheiros, garçons, mordomos e algumas babás.
Massachusetts pode em breve se tornar o quarto. Mas ainda há um longo
caminho pela frente.
Nos tempos antigos, as pessoas costumavam preferir o trabalho
doméstico a serviços perigosos ou sujos nas fábricas. Aqueles empregos
industriais só se tornaram mais atraentes quando os trabalhadores se
organizaram e conquistaram direitos e proteções.
Além de garantirem pagamento por horas extras, períodos de descanso,
licença médica e outros direitos básicos, a expansão da rede de seguro
social e uma reforma razoável da imigração avançariam bastante no
caminho para melhorar as vidas dos empregados domésticos. Eles estão
cada vez mais se tornando uma espinha dorsal da economia, e já deviam
estar sendo tratados dessa maneira.
Reportagem de Lynn Stuart Parramore, no Alternet
Tradução de Maria Teresa de Souza
fonte:http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/eua-os-super-ricos-exigem-nova-classe-de-criados/
foto:http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/11/crise-impulsiona-cerco-para-taxar-super-ricos.html

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